4 O PERCURSO METODOLÓGICO
4.4 A ANÁLISE DOS DADOS
A etapa de tratamento e análise de dados implica na interpretação e extração dos dados com significado relevante em relação a um problema de investigação. Esta é uma etapa que exige reflexão contínua, atenção, domínio de técnicas, para que se possa analisar de forma mais profunda os dados levantados, compreender os seus significados e torná-los úteis à pesquisa. É uma tarefa fundamental e pode ser comparada a um exercício de descascar cebolas, que vai se dando de forma concomitante com a etapa de coleta (GIBBS, 2009; CRESWELL, 2010). Zaccarelli e Godoy (2014) argumentam que pesquisadores que trabalham com dados oriundos de várias fontes enfrentam o desafio de trabalhar com rigor de forma a conseguir captar as complexidades do caso, especialmente em entrevistas nas quais os entrevistados contam histórias e trazem exemplos de seu dia a dia.
Estudos centrados nas narrativas sob várias perspectivas têm sido cada vez mais utilizados nas ciências sociais e em educação e produzido um relevante corpo de conhecimentos para a análise nesses ambientes e, a despeito das várias perspectivas, está associado a um caráter social explicativo (GALVÃO, 2005; ZACCARELLI; GODOY, 2014). Para Bruner (1991), é justamente por meio das narrativas que o indivíduo organiza a experiência humana e constrói e reconstrói o seu mundo e suas experiências.
Rodhes e Brown (2005) identificaram que, no âmbito da teoria organizacional, a narrativa tem sido utilizada para investigar cinco áreas de pesquisa: (1) sensemaking, (2) comunicação, (3) aprendizagem e mudança, (4) política e poder e (5) identidade e identificação. Especialmente no que diz respeito à utilização no tema aprendizagem, Rhodes e Brow (2005, p.16) afirmam que “as histórias são um meio de aprendizagem que as comunidades usam coletiva e contextualmente para mudar e melhorar a prática e fomentar o “aprender ao organizar”. As pesquisas realizadas por Zacarelli e Godoy (2013), Ipiranga e Aguiar (2014) e Pinto (2016) podem ser citadas como exemplos brasileiros de utilização da narrativa em estudos organizacionais.
Riessman (2008) argumenta que o termo narrativa é carregado de muitos significados e se sustenta em discursos e valores tomados como certos, que circulam em uma cultura particular e, por esse motivo, não falam por si só e, quando usadas para fins de pesquisa, exigem uma análise que pode ser realizada de várias maneiras, dependendo dos objetivos da pesquisa. Por sua vez, Gibbs (2009) argumenta que uma narrativa, embora individual, pode expressar experiências compartilhadas. Esta afirmativa vai ao encontro do que foi vivenciado nesta pesquisa, quando entrevistados relataram práticas de um grupo e por Zacarelli e Godoy (2013, p. 34), quando afirmam que “embora as estórias trazidas pelo exemplo examinado sejam individuais, expressaram experiências compartilhadas de aprendizagem”.
Ainda para Riessman (2008, p.10), embora esteja em todos os lugares, nem tudo é narrativa. Narrativas “revelam verdades sobre a experiência humana” e fazem o “momento viver além do momento” ao representarem histórias contadas pelos participantes de pesquisa, relatos do próprio pesquisador a partir dos dados construídos em entrevistas e observações e as narrativas que o leitor constrói após se engajar com as narrativas dos participantes e do pesquisador, podendo todas essas coexistirem, a partir de uma ordem de eventos em contextos específicos. A
análise narrativa refere-se a uma família de métodos para interpretar textos que têm em comum uma forma estratificada (RIESSMAN, 2008). Dessa forma, a autora propõe três tipos de análise de narrativas, considerando que não são excludentes, sendo possível a sobreposição e/ou a simultaneidade, sendo elas, a (1) análise temática, (2) análise estrutural e (3) a análise dialógica.
Na análise temática, o foco se concentra no conteúdo da narrativa e o que se busca no texto é o que é dito e experienciado pelo narrador. Assim, os relatos são preservados e tratados enquanto unidades e não divididos por categorias, sendo guiados pela teoria prévia e pelos novos insights que possam emergir dos dados, cabendo ao pesquisador interpretar o que é dito, assumindo significados. Na análise estrutural, o foco reside na estrutura da narrativa e na maneira como ela é contada, ou seja, no como o conteúdo é organizado pelo narrador. E por fim, na análise dialógica, o foco está no contexto, e o que se busca no texto é para quem é dito, com qual intenção, para que é dito (ZACARELLI; GODOY, 2014). Optou-se nessa pesquisa por analisar os dados construídos a partir da análise temática de narrativas, por ser um método de análise aplicado a diversas histórias que se desenvolvem em conversas mantidas em entrevistas individuais e coletivas e documentos escritos, buscando o conteúdo que uma narrativa comunica e os significados temáticos semelhantes entre elas. Ainda segundo Zacarelli e Godoy (2013, p.35), a “análise de narrativas constitui-se em um recurso metodológico importante quando se quer entender quaisquer tipos de organizações a partir das premissas do construcionismo social e da tradição interpretativa”.
Portanto, tendo como base as premissas de Riessman (2008) foram seguidos os seguintes passos:
1. Transcrição de todas as entrevistas;
2. Leitura de todas as transcrições de entrevistas, isolando e ordenando episódios em uma ordem cronológica;
3. Análise de cada entrevista a partir da estrutura temática inicialmente proposta, sendo elas: (1) gênese da sustentabilidade; (2) o(s) significado(s) de sustentabilidade; (3) geração e disseminação do conhecimento sobre sustentabilidade; e (4) práticas que favorecem o aprendizado da sustentabilidade;
4. Leitura, organização e análise de todos os documentos selecionados para análise e das narrativas que foram construídas a partir das observações realizadas, buscando identificar a estrutura temática formulada;
5. Construção da narrativa que apresenta os resultados com base na estrutura temática, considerando todos os dados descritos acima.
Na descrição dos resultados, as narrativas das entrevistas foram apresentadas a partir de trechos trazendo início, meio e fim ou, quando não foi possível, narrativas foram editadas buscando construir o enredo e, para isso, reticências foram usadas para sinalizar exclusões, mas preservando a estrutura temporal e o conteúdo. Além disso, as narrativas, que foram identificadas pelos respectivos códigos, foram intercaladas com interpretação da pesquisadora, a partir das formulações teóricas que guiaram o estudo. Já as narrativas de documentos utilizados foram apresentadas da forma como elas foram reproduzidas e, em situações de observação e/ou conversas, cujas gravações não foram feitas, as narrativas foram reconstruídas a partir das observações contidas no caderno de campo. Cabe ainda destacar que, considerando essas diferentes narrativas e com os temas comuns identificados, optou-se pela construção de uma narrativa híbrida (RIESSMAN, 2008) que reconstituísse como o aprendizado da sustentabilidade acontece no contexto das práticas de colheita florestal, tomando por base os diferentes depoimentos e dados das situações de observações e documentos analisados.
Feitas as considerações quanto ao percurso metodológico, apresenta-se na sequência a caracterização do estudo de caso e a análise e articulação dos temas ligados à aprendizagem no contexto da sustentabilidade. Cabe esclarecer que, a partir desse momento, para preservar as narrativas, incluindo a da pesquisadora, será utilizada a linguagem pessoal.