O conceito de poder no realismo político é um ponto central para toda análise dos fenômenos políticos internacionais, notadamente, a guerra e suas origens. Os realistas, de modo geral, buscam compreender os fatores materiais do poder de uma nação, bem como o poder imaterial, relacionado às ideias e instituições que ligam os indivíduos à política externa nacional.
Em outras palavras, o poder é tanto o somatório das capacidades materiais do Estado em termos políticos, econômicos e militares como também em termos intrínsecos, ou seja, essas capacidades comparadas ao potencial dos demais Estados com os quais disputa poder em um ambiente anárquico. O receio do competidor se tornar mais poderoso é um estímulo à busca por poder.
Para autores realistas como Kenneth Waltz (1979) o poder significa a capacidade dos Estados influenciarem o sistema mais do que são influenciados por ele. Trata- se, evidentemente, de uma visão estrutural do poder enquanto meio de sobrevivência. Para Morgenthau (1993) o poder sempre é relacional, isto é,
6 Capacidades no realismo político são explicadas por recursos transformados por tecnologia
como, por exemplo, o minério de ferro transformado em aço e depois em armamentos como navios de guerra ou tanques ou como reservas de urânio transformadas em energia atômica quando enriquecidas através de um processo tecnológico.
36 comparado à realidade dos demais Estados que sempre buscarão poder para manter, expandir ou demonstrar.
Para Aron (2002) a busca por poder tem origens na natureza humana na mesma chave de análise hobbesiana. A constatação das relações internacionais é verificada em uma luta contínua por poder originada em uma ideia, uma sensação de manter a segurança ou na busca pela glória. O problema, segundo Aron, é que “a maximização dos recursos não leva necessariamente à maximização da segurança” (ARON, 2002. p.128).
O poder, no seu sentido mais básico, implica a aptidão de um ator internacional para influenciar outro no sentido deste fazer, ou não fazer, algo desejado pelo primeiro. Waltz (1979) argumenta que o poder, na sua noção mais antiga, é explicado pela disposição de um agente que afeta os outros mais do que é afetado por eles. A ideia primordial para Waltz é que os Estados buscam obter capacidades, recursos transformados em poder aplicável. Essas capacidades são ordenadas em termos de “dimensão da população e território, disponibilidade de recursos, capacidade econômica, força militar, estabilidade e competência política” (WALTZ, 1979. p.131).
Em concepção similar dentro do espectro do realismo político argumenta Nicolas Spykman (1942. p.11).
Toda vida civilizada assenta, em última análise, no poder. O poder é a capacidade de condicionar o indivíduo ou a coletividade humana de uma forma desejada através da persuasão, compra, troca ou coerção.
A política internacional é, de fato, dominada pela busca por poder. Em todas as épocas históricas as coletividades entraram em conflitos mortíferos em razão do aumento ou preservação do poder. A capacidade de influenciar determinada estrutura de poder regional, por exemplo, ou influenciar outros Estados, é visto como exemplo clássico de poder. Contudo, os autores realistas apontam pequenas diferenças entre o conceito de poder e influência.
Robert Gilpin, outro expoente do realismo político, advoga que o poder abrange capacidades econômicas, tecnológicas e militares dos Estados, enquanto o prestígio e influência se relacionam às percepções de outros Estados face às
37 capacidades de um Estado e à sua aptidão e vontade de manifestar o seu poder (GILPIN, 1981).
Para Charles Kindleberger, seguindo a interpretação realista de Gilpin.
O prestígio é o respeito devido ao poder. A influência é a capacidade de afetar as decisões de outrem. A força é a utilização de meios físicos com o propósito de afetar essas decisões. A dominação é definida como a condição em que A afeta um número significativo das decisões de B sem que B afete as de A (KINDLEBERGER, 1970. p.56).
Do mesmo modo, Morgenthau considera útil fazer tais distinções analíticas sobre as características do poder. Morgenthau deixa claro que a política internacional, como toda política, é luta por poder. Os estadistas podem definir seus propósitos por meio de pensamentos religiosos, de segurança, prosperidade ou liberdade, mas tais objetivos são finalidades alcançadas por um meio, e esse meio é o poder. O poder para Morgenthau, em uma definição simples, “é o controle por parte de um indivíduo da mente e das ações de outro indivíduo” (MORGENTHAU, 1993. p.30). O poder deriva de uma relação psicológica da qual derivam três fontes: a expectativa de benefícios, o medo das desvantagens e o respeito ou amor aos indivíduos ou instituições (MORGENTHAU, 1993).
O poder se diferencia da influência, pois essa nem sempre é similar ao poder nas suas origens. Um secretário de um presidente pode ter influência sobre ele, mas não terá poder sobre ele. Da mesma forma, o poder se diferencia da força, pois o uso militar da força significa abdicar do uso do poder político. a ameaça do uso dessa força está dentro de um cálculo racional de poder, mas o uso em si pode significar o fim dessa racionalidade (MORGENTHAU, 1993).
Os autores realistas concordam que a análise do poder não pode ser feita fora de seu contexto de aplicação. Em outras palavras, depende da questão, do objeto ou propósito para o qual é utilizado. Morgenthau sustenta que o poder é relacional, pois sua análise na política internacional deve ser levada a cabo considerando uma comparação entre os fatores de poder de um Estado com atributos específicos comparados aos mesmos atributos de outro Estado em um contexto específico. A análise do poder é sempre dinâmica.
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Especificar e comparar atributos ou capacidades significa considerar o poder na sua dimensão estática e, mais importante do que isso, é o resultado de um processo interativo, seja este o de quem ganha às guerras ou o de quem ganha negociações relativas ao comércio mundial. A forma de mobilizar o poder para alcançar determinado objetivo constitui o âmago da estratégia, cuja essência é a organização das capacidades de forma a maximizar as possibilidades de sucesso. Esta é, pois, a dimensão dinâmica do poder (DOUGHERTY, 2003. p.95).
Em qualquer análise sobre as causas da guerra as definições acerca do poder são importantes. Portanto, qual seria a essência do poder nacional? A par de todos os elementos materiais de poder Morgenthau esclarece que é necessário verificar a conexão entre os indivíduos e sua nação. Quanto mais coesa internamente, mais poderosa será a nação.
Os símbolos nacionais, especialmente aqueles que fazem referência às forças armadas e as relações com outras nações são instrumentos dessa identificação do indivíduo com o poder nacional. A ética e normas morais da sociedade tendem a tornar essa identificação atrativa assegurando recompensas e ameaças de punições (MORGENTHAU, 1993. p.117).
A ligação entre os objetivos da nação em termos de poder e a identificação com sua população, ou seja, o grau de suporte que os indivíduos apoiam a política externa da nação coferirão um grau maior ou menor de nacionalismo à essa política externa. Essa identificação das massas com o rei, ditador ou presidente ajuda a definir a sensibilidade de um Estado em relação àquilo que é caro à sua segurança em termos de território e de ideias.
Em determinados contextos históricos onde essa identificação das massas com a política externa da nação é alta o nacionalismo emerge com facilidade e tende a manter com rigor os valores morais ou ideologias norteadores das ações de um determinado governo. Contudo, o realista verificará de que modo essa ideologia ou valores afetarão o poder nacional e o equilíbrio de poder regional na medida em que elevam as tensões e criam percepções de ameaças nas demais nações. De fato, o conceito de poder é amplamente debatido nas ciências sociais. No que tange aos objetivos desse estudo, o realismo político pretende estudar o conceito de poder na sua essência na natureza humana e nas unidades políticas. Pretende
39 também diferenciar o poder dentro de características específicas de um contexto histórico. Mas, no fim, a análise do poder nas relações internacionais tem características peculiares, pois trata-se de um ambiente anárquico que estimula sua busca, manutenção e expansão e como um equilíbrio de poder, ou tentativa de equilíbrio, é realizado.
Raymond Aron (2002. p. 99) apresenta uma conceituação da essência do poder nos indivíduos e nas unidades políticas7.
O poder de um indivíduo é a capacidade de fazer, mas antes de tudo, é a capacidade de influir sobre a conduta ou os sentimentos dos outros indivíduos. No campo das relações internacionais, poder é a capacidade que tem uma unidade política de impor sua vontade às demais. Em poucas palavras, o poder político não é um valor absoluto, mas uma relação entre os homens.
Nas relações internacionais é crucial compreender como as relações de poder entre os Estados estimulam uma espécie de ordem ou estabilidade na tentativa de manter um equilíbrio de poder regional ou global que dependerá, justamente, dessa luta por poder entre as nações porque não há normas ou regras internacionais que constranjam os Estados a adquirir mais poder e gerar ameaças em seu entorno. A condição anárquica da política internacional torna necessária a análise dessa luta por poder e das aspirações de um equilíbrio de poder.