CAPÍTULO V- Angústia e desejo
4. A angústia e a divisão significante do sujeito
relação com o Outro, isto é, o ponto de onde surge a existência do significante, é aquele que não pode ser significado: ponto falta-de-significante.
A angústia deve ser situada em outro lugar que não na ameaça de castração. Ela, a angústia, nos introduz na função da falta.
Considerando que a constituição de qualquer lógica leva em conta a relação com a falta e que dentre os paradoxos da lógica encontramos: não faltar para com a falta, Lacan vale-se da lógica para abordar a possibilidade de um tipo irredutível de falta.
4. A angústia e a divisão significante do sujeito
Na angústia, o sujeito é implicado no mais íntimo de si mesmo. É do lado do real que temos que procurar aquilo que não engana, ou seja, do lado da angústia. No entanto, o real não esgota a idéia do que é visado pela angústia. O que a angústia visa no real, aquilo em relação ao qual ela se apresenta como sinal, Lacan mostra no quadro da divisão significante do sujeito238.
237 LACAN, Jacques (1962-1963). Op. Cit., p. 151. 238 Idem, p. 178.
No quadro, Lacan assinala o x de “um sujeito primitivo que vai em direção ao seu advento como sujeito, conforme a imagem de uma divisão do sujeito S em relação ao A do Outro, já que é por intermédio do Outro que o sujeito deve se realizar.”239
O S refere-se ao sujeito primitivo, sujeito indeterminado, sujeito no nível mítico, anterior a todo jogo da operação. Trata-se do sujeito do gozo. Não pode ser isolado como sujeito, a não ser miticamente.
O sujeito barrado é o que advém no final da operação, sujeito tal como implicado na fantasia, na qual ele é um dos dois termos que constituem o suporte do desejo. O a é irredutível, é um resto, é o que resiste a qualquer assimilação à função do significante, é por isso que se apresenta sempre como perdido, como o que se perde para a “significantização”. É justamente esse resto, esse dejeto, essa queda, que resiste à “significantização”, que se mostra constitutivo do sujeito desejante, “não mais o sujeito do gozo, porém o sujeito como aquele que está no caminho de sua busca, a qual não é a busca de seu gozo. Mas é ao querer fazer esse gozo entrar no lugar do Outro, como lugar do significante, que o sujeito se
precipita, antecipa-se como desejante [...] no sentido de que ele aborda, aquém de sua realização, a hiância do desejo no gozo. É aí que se situa a angústia.”240
Lacan dispõe nesse quadro241 três patamares que correspondem a três tempos dessa operação: o gozo, a angústia e o desejo. Dispõe a angústia na função mediana entre o gozo e o desejo.
Segundo Lacan “o gozo não conhece o Outro senão através desse resto, a.”242 O a só é constituído por intermédio do desejo do Outro. É aí que nos deparamos com a angústia, que se instaura além do vazio da castração. É por meio da angústia que se pode falar do objeto a, ou melhor, a angústia é sua única tradução subjetiva.
Na fórmula da fantasia, o a já tinha aparecido. O objeto a deve ser concebido como a causa do desejo; o objeto está atrás do desejo. O a situa-se antes que o sujeito, no lugar do Outro, capte-se na forma especular. É a esse exterior, lugar do objeto, anterior a qualquer interiorização, que pertence a idéia de causa.
Lacan faz referência a um espelho, não ao estádio do espelho, mas “o espelho como campo do Outro em que deve aparecer pela primeira vez, se não o a, pelo menos seu lugar
240 LACAN, Jacques (1962-1963). Op. Cit., p. 193. 241 Idem, p. 192.
– em suma, a mola radical que faz passar no nível da castração para a miragem do objeto do desejo.”243
De acordo com Lacan, “esse objeto a é a rocha de que fala Freud, a reserva derradeira e irredutível da libido, [...]”244
A questão fundamental que se apresenta é: quando a dialética sobre a angústia desloca-se para a questão do desejo? Para Lacan, o lugar central da função pura do desejo é o a. A introdução do objeto a é essencial na relação com o desejo.
De acordo com Lacan, “a relação do sujeito com o significante exige a estruturação do desejo na fantasia, e o funcionamento da fantasia implica uma síncope temporalmente definível na função do a, que, forçosamente, apaga-se e desaparece numa dada fase do funcionamento fantasístico. Essa afânise do a, o desaparecimento do objeto como aquilo que estrutura um certo nível da fantasia, é aquilo cujo reflexo temos na função da causa.”245
Lacan refere-se ao engajamento do homem falante na cadeia significante: “[...] o homem que fala, o sujeito, a partir do momento em que fala, já está implicado por essa fala em seu corpo.”246A natureza do conhecimento que já existe na fantasia é esse engajamento no corpo. Devido à esse engajamento na dialética significante, sempre há no corpo algo de separado, algo de inerte. É o a, esse resto, que é aquilo que sobrevive à provação da divisão do campo do Outro, pela presença do sujeito, ou seja, é aquilo que sobrevive à prova do encontro com o significante puro. Resto, cuja função é irredutível.
243LACAN, Jacques (1962-1963). Op. Cit., p. 251. 244 Idem, p. 121.
245 Idem, p. 240. 246 Idem, p. 241.
Segundo Lacan, “há no estágio oral, uma certa relação da demanda com o desejo velado da mãe. No estágio anal, há, para o desejo, a entrada em jogo da demanda da mãe. No estágio da castração fálica, há o menos falo, a entrada da negatividade quanto ao instrumento do desejo, no momento do surgimento do desejo sexual como tal no campo do Outro. Mas, nessas três etapas, o processo não se detém, uma vez que, em seu limite, devemos encontrar a estrutura do a como separado.”247
O desejo está ligado à função do corte e tem uma certa relação com a função do resto, que sustenta e move o desejo. O desejo é estruturado pela fantasia e pela vacilação do sujeito em sua relação com o objeto parcial. A falta é outra coisa. Lacan sustenta que a distância, ou seja, a não-coincidência dessa falta com a função do desejo em ato, é isso que cria a angústia, e a angústia é a única a almejar a verdade dessa falta. De acordo com Lacan, “[...] a relação do homem com essa função chamada desejo, só adquire toda a sua animação na medida em que é concebível o despedaçamento do próprio corpo, esse corte que é o lugar dos momentos de eleição de seu funcionamento.”248
O que está inscrito desde a origem, no que será a estruturação do desejo, é a separtição249 fundamental.