Nos casos onde uma ossada é encontrada, não sendo mais possível a identificação através das digitais é o especialista em ossos que irá identificar a vítima, assim como a causa morte. O tecido ósseo é capaz de fornecer muitas informações de como a vítima morreu e determinar se lesões presentes foram infligidas antes ou depois da morte da vítima. Mas, é importante destacar que todo o processo de identificação das ossadas é realizado de forma meticulosa e embasado nas técnicas antropológicas forenses (GALVÃO, 2015).
Um exemplo foi relatado pelo chefe do setor de Antropologia e Odontologia Forense do Instituto Técnico-científico da Polícia do Rio Grande do Norte, o odontólogo Fernando Marinho, que no ano de 2013 militares das forças armadas da Aeronáutica encontraram uma ossada num matagal localizada no Centro de Lançamento Barreira do Inferno. Depois da atuação da antropologia forense a vítima foi identificada como F. M da S., homem e que estava desaparecido há aproximadamente 2 anos. A polícia estava focada em localizar familiares, enquanto isso foi realizada uma reconstrução da face do morto, tomando como base parâmetros científicos com base nos detalhes anatômicos do crânio. Finalizada a reconstrução, a imagem foi apresentada à
irmã, que reconheceu o parente visualizando muitas semelhanças entre seu irmão e a imagem reconstruída (GALVÃO, 2015).
Esta técnica possui grande aplicação no processo de identificação e é usada por institutos de Medicina Legal de muitos países. Tem como objetivo desenvolver, com base nos pontos craniométricos, um rosto aproximado de quando a pessoa estava viva. Se a imagem apresentada for confirmada como do possível desaparecido, devem ser solicitadas fotos da vítima para que a identificação seja feita por sobreposição de imagens (GALVÃO, 2015).
Rocha (2014) também destaca a importância de se comparar os elementos colhidos com exames radiográficos ou imagens fotográficas, utilizando computadores para que se faça a sobreposição das imagens, com o objetivo de se encontrar aspectos similares entre os ossos e as imagens.
Mas, é importante ressaltar a não existência de um banco de dados contendo informações de pessoas que desapareceram durante os regimes autoritários no Brasil. Cabe destacar também que não existe na Polícia Civil, na Polícia Federal e nos Institutos Médicos Legais o devido suporte técnico necessário para o manejo de ossadas humanas. Além de uma visível deficiência visualizada na falta de treinamento adequado para a remoção de restos mortais, demonstrando a enorme carência de pessoal especializado (ROCHA, 2014).
Recebe merecido destaque os trabalhos realizados na apuração da responsabilidade civil estatal por omissão na identificação das ossadas encontradas em vala clandestina no cemitério de Perus. Ainda sob a luz da justiça, cabe ressaltar a importância deste trabalho, sobretudo, em respeito aos parentes de vários perseguidos, torturados e mortos políticos que sofreram tamanha barbárie no período ditatorial (ROCHA, 2014).
No tocante à vala clandestina de Perus, a pesquisa forense encontrou livros de registros que apontaram a existência de pelo menos seis corpos de militantes que foram mortos no período da ditadura e que fazem parte do grupo de mais de mil ossadas. No entanto, acredita-se que este número pode chegar a quinze (ROCHA, 2014).
Nos atestados de óbitos, os prisioneiros políticos eram identificados com a letra “T”. Esta letra identificava aquele cadáver como sendo de um Terrorista. Esta simbologia era tida como uma senha para que os funcionários do serviço médico legal ou funerário ocultassem o corpo. Com base nestes dados e em outras descobertas, a equipe argentina de antropologia forense identificou os corpos de Dênis Casemiro, assassinado em 1971, no Dops de São Paulo; Frederico Eduardo Mayr, sequestrado pela Operação Bandeirantes em 24 de fevereiro de 1972; e Flavio de Carvalho Molina, morto aos 24 anos no ano de 1971 no estado de São Paulo. Todas as outras ossadas continuaram a serem analisadas e as que enquadrarem nas características de militares mortos serão submetidas aos exames de DNA (ROCHA, 2014).
A perícia também demonstra resultados sobre o local provável de três presos políticos desaparecidos no Rio de Janeiro.
O caso Joel Vasconcelos Santos:
O caso de Joel Vasconcelos Santos foi concluído nesta segunda-feira (8/12) pela CNV. Militante do PC do B e integrante da União da Juventude Patriótica (UJP), ele desapareceu aos 21 anos, após ser preso no Morro do Borel, no Rio de Janeiro. Joel foi preso com Antônio Carlos de Oliveira e Silva em março de 1971 por policiais militares e do morro foram levados até um quartel da PM. Da PM, ambos foram levados para a Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio, onde foram presos e torturados pelo Doi-Codi, onde Joel foi barbaramente torturado, segundo relato de Silva (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
Pesquisas realizadas em fichas datiloscópicas em outros arquivos no Instituto Félix Pacheco e no IML, no Rio de Janeiro, com relação a pessoas sepultadas como indigentes, tornaram possível a realização de laudo pericial necropapiloscópico. Neste identificaram as digitais de Joel Vasconcelos Santos como sendo as digitais de uma pessoa do sexo masculino que foi trazido ao IML no dia 19 de março de 1971, sob o número de guia 206 da 4ª DP (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
O caso de Paulo Torres Gonçalves:
Paulo Torres Gonçalves desapareceu após sair de sua casa para ir ao colégio no dia 26 de março de 1969. Ele tinha 19 anos. Ao perceberem o desaparecimento de Paulo, seus pais foram à sua procura em delegacias, hospitais e ao Instituto Médico Legal (IML) do
Rio de Janeiro, sem obter informação alguma. Depois, a família obteve a informação que Paulo havia sido preso pelo DOPS do antigo Estado da Guanabara, de onde ele teria sido transferido para a Marinha (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
Após avaliar as fichas datiloscópicas assim como outros documentos, foi realizado o mesmo processo de identificação datiloscópica no caso supracitado. Com isso, foi possível a formulação do laudo de perícia necropapiloscópico, assinado pelo papiloscopista Reinaldo José de Oliveira Tavares, em 3 de dezembro de 2014, que identificou as digitais de Paulo como sendo as digitais de uma pessoa do sexo masculino que foi sepultado como indigente no cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador, em 16 de abril de 1969. As digitais bateram com o homem que foi levado ao IML com a guia de remoção número 62 da 17ª DP em 28 de março de 1969 (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
O caso Stuart Angel:
O núcleo pericial da Comissão Nacional da Verdade investiga o caso Stuart Angel desde outubro de 2013. Na ocasião, a CNV já detinha a informação apresentada no relatório parcial de pesquisa da CNV sobre o caso Stuart Angel, publicado em junho de 2014, que o militante, assassinado por agentes da Aeronáutica, sob tortura, em maio de 1971, aos 26 anos, havia sido enterrado na cabeceira da pista da Base Aérea de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, conforme depoimento do capitão reformado Álvaro Moreira à CNV (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
Foram realizadas comparações de fotos do rosto de Stuart com a foto do Crânio encontrado. Após os exames comparativos foi possível concluir que o crânio encontrado no canteiro de obras da Cetenco, no centro do Rio de Janeiro, apresentou grandes probabilidades científicas de ser do desaparecido Suart Angel (COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, 2014).
12 APLICAÇÃO DA ANTROPOLOGIA FORENSE NA