2. SEGUNDA CARTOGRAFIA: Quem são e onde estão os parceiros
2.2. As práticas institucionais:
2.2.2. A APAE de Assis
A APAE, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, tem sua primeira entidade no Brasil, fundada no dia onze de dezembro de 1954, na cidade do Rio de Janeiro. Após oito anos é fundada a Federação Nacional das APAEs, que segundo seu Estatuto, se apresenta como “... uma sociedade civil, filantrópica, de caráter cultural, assistencial e educacional, com duração indeterminada congregando, como filiadas, as Federações das APAEs e outras instituições análogas, tendo sede e foro em Brasília. Distrito Federal” (Doc. 4: 001)∗, (FRANÇA & SALOTTI, 1994: 20).
Coerente ao discurso científico que visa educar, integrar e socializar o excepcional no sentido de ofertar a ele um espaço que lhe fosse apropriado, funda-se a APAE de Assis, em 18 de março de 1969, por iniciativa do Rotary Club desta mesma cidade.
Segundo França e Salotti (1994), “Para a criação da APAE, foi necessário todo um movimento que, contrariando a idéia de recluir ou esconder os excepcionais no núcleo familiar, afirmasse a importância ou o
∗Federação Nacional das APAEs. Estatuto da Federação Nacional das APAEs. Brasília,
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ganho individual do excepcional com uma educação especial.” (FRANÇA & SALOTTI, 1994: 47).
A instituição relata, a partir de nossas observações que oferece seus serviços a uma população que não se restringe a cidade de Assis, abrangendo também pequenas cidades vizinhas que não possuem instituições especializadas para o atendimento/tratamento e educação da deficiência mental. A maioria de seus alunos advém de famílias carentes, cujos pais trabalham em serviços braçais ou gerais, com um grau de escolaridade básico.
A APAE funciona na intersecção da instituição especial, com atendimentos clínicos de tratamento, prevenção e diagnóstico, assim como instituição escolar, ofertando àqueles sujeitos alijados do sistema regular de ensino, um espaço especializado de educação.
Porém, o processo de ensino/aprendizagem pelo qual o homem moderno se constrói e aprende a viver em comunidade é organizado nos planos discursivos da Medicina, da Psicologia e da Pedagogia, ou seja, nos conceitos de desenvolvimento, da cognição e do conceito de inteligência. Deste plano instituído de educação, o único lugar possível de humanização do deficiente são as especialidades.
Essa mitificação faz com que as pessoas desvalorizem a experimentação que acontece na relação do sujeito com o mundo e com o outro no espaço institucional, seja na APAE, como nas classes especiais do sistema de ensino, por vezes, aprisionando também a figura do educador neste lugar instituído que se tornou a sala de aula da Educação Especial.
A figura do educador como uma ponte, um facilitador entre o sujeito aprendiz e a cultura, como nos diz Hanna Arendt (1972), dá lugar ao educador que, no modo de operar do mundo contemporâneo, assume o lugar daquele que é o detentor de todo o conhecimento necessário para se viver em sociedade, detentor da cultura, cuja responsabilidade transmitir ao aluno este saber acumulado.
Dessa forma, cristalizam-se os papéis, o que estabelece um modo de relação em que um é o agente ativo: o educador; e o outro, um sujeito passivo: o educando. Observa-se essa cristalização de papéis nas chamadas classes de socialização (ou nas AVDs, atividades de vida diária), onde os alunos são avaliados de acordo com a capacidade que adquirem, com finalidade única e exclusiva de assumirem uma certa adaptação às regras de convívio; uma adaptação treinada e treinável, voltada à realização de sua higiene pessoal, e de tarefas como se vestirem e se alimentarem sem que necessitem da ajuda de outra pessoa.
Os professores e os especialistas parecem esquecer que a socialização pode ser e é muito mais que apenas isso e que ela somente acontece no encontro com o outro, no desafio que cada gesto realizado no mundo nos traz como sendo a conquista do espaço de existência humana.
Já nas classes de alfabetização, o real sentido de se ensinar uma pessoa a ler e a escrever faz com que a palavra oral e escrita seja deixada de lado na relação com o outro, negando-se os “rastros” de uma história que tem início antes mesmo de se entrar na escola. O gesto político é deixado de lado, bem como a escolha de um modo de expressão e
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inscrição no mundo, dando lugar a uma preocupação com o tratamento especial e com um modo de relação que busca apenas uma aproximação do modelo ideal de homem, da normalidade. A avaliação do desempenho dos alunos passa pelo crivo da fala e da escrita correta, da fala e da escrita normal e normatizante, da fala e da escrita homogeneizante dos corpos, que tem como objetivo a disciplinarização dos comportamentos desviantes.
É, portanto, através do modelo ideal de homem, construído pelos atributos modernos da produtividade e, alicerçado no tripé da eficiência, competência e inteligência, que todas as relações são moldadas, analisadas e avaliadas segundo os critérios de uma busca incessante do simulacro: o Homem da Modernidade.
Assim tem-se, de um lado, essa efígie de Homem e sua produtividade, eficiência, competência e inteligência, e de outro, o deficiente, o louco, o doente, o marginal e uma recusa de uma certa funcionalidade, racionalidade, ou utilidade, muitas vezes percebida como ociosidade exacerbada de um tempo passivo de contemplação do mundo, de um olhar parado em uma única flor amarela, em um espaço qualquer, na inutilidade de um gesto ou de um passeio sem fim. Tais questionamentos continuam fazendo ecos em nós, na subversão do pensamento naturalizado e já domesticado desde crianças, quando nos (re)apresentam o inusitado e o singelo.
Ora, se bem aceita-se a atribuição de animais racionais e livres de ser racionais, dever-se-ia assumir por completo o pensamento e, também por completo, aceitar-se a sua contaminação e transversalidade
por tudo e por todos. Assim, já não podemos mais aceitar a busca de um conceito de “Excepcionalidade” na definição daquilo que não é normal, ou na revelação de alguma manifestação de um “estado” imperfeito da natureza, ou ainda, naquilo que se vira e se opõe ao Homem.
Ao contrário, deve-se iniciar este trabalho a partir da (re)invenção da Psicologia em toda a sua amplitude prático/teórica, como também das diferenças em toda a sua significação, ou seja, na virtualidade do mundo e do homem em advir outro, sempre.