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1.4 O Mito do Congado e a devoção dos negros a Nossa Senhora do Rosário

1.4.1 A aparição da Senhora do Rosário aos negros

Para conhecer o mito que envolve a aparição da Senhora do Rosário aos negros será utilizada a narrativa de Sinval José da Costa, representante do Chico Rei pela Federação dos Congados de Minas Gerais53. Sinval conta que quando os negros chegavam nas senzalas, era hábito cantarem o Candombe, que consistia em um escravo cantar um ponto e um outro escravo responder. Um dia, o contramestre do Candombe saiu da fazenda para realizar suas tarefas, e ao voltar caminhando ao lado do mar, percebeu a água borbulhando e dela emergindo uma figura feminina. Ele percebeu nela a aparência de uma santa e então rezou, ela agradeceu e continuou no mesmo lugar.

Chegando na fazenda, o escravo contou o ocorrido e seu senhor foi conferir o fato relatado, pedindo padres e autoridades que o acompanhassem, tendo a intenção de fazê-la sair da água. Quando os presentes no local rezaram três Ave-Marias ela apareceu sobre as águas, porém, ninguém conseguia tirá-la de lá. Assim o contramestre e o mestre do Candombe pediram ao dono da fazenda que os levassem até ela e tiveram seu pedido atendido, porém o mestre encontrava-se adoecido e foi substituído pelo contramestre, a quem deu as instruções relatadas por Sinval:

Oh!, meu filho, você chega lá, primeiro você canta o tambor maior, o Santana; depois vocês esquenta o segundo tambor e por último canta no filhinho. Não canta para ela não! Experimenta cantar primeiro para o pessoal. Aí dança até suar! Ele fez, esquentou o primeiro tambor. Tirou o ponto, o outro respondeu. Aí ela agradeceu. Mas agradeceu num semblante diferente. Ela sorriu, quer dizer que ela achou engraçado a dança dos pretos. Agradeceu rindo! Aí eles criaram coragem! O tio mandou eles cantarem até suar! Foi sete pontos que eles cantaram. No fim do sétimo ponto ela andou, e eles cantando. Aí veio vindo, veio, até na boca do tambor grande, que tomou o nome de Sant’Ana.

[...] Depois que a cerimônia acabou Nossa Senhora estava era no meio dos negros! O senhor ficou revoltado com os negros por isso. Meteu o coro: - Vamos bater nesses negros!... Mas doía era na família deles. Batiam nas costas do negro, ardia nas costas do filho dele e da Sinhá!... Assim foram. [...] E aí retiraram a Nossa Senhora. Criaram

53 Centro das Tradições do Rosário no Estado Maior de Minas Gerais – CETRRO (Federação dos Congados de

Minas Gerais) trata-se de uma entidade cultural de caráter religioso existente desde a década de 1950 e é a único representante oficial nacional da Irmandade do Rosário e suas Guardas, Ternos, Bandas e Cortes. O representante de Chico Rei é parte de sua estrutura administrativa.

então uma festa de Nossa Senhora do Rosário, onde foi aparecendo outros ternos que foi sacramentado e abençoado pela Nossa Senhora. Daí veio Congo.54

Esta narrativa foi construída embasada em outras já assimiladas pelos negros, tendo nela a religiosidade católica representada pela figura de uma santa e pelo ato de oração do negro ao identificá-la. Também encontram-se elementos da vida cotidiana dos escravos, representados pelos cantos que eles realizavam na senzala e pelo castigo que sofreram devido à não aceitação dos brancos à reação da Senhora do Rosário diante dos sons dos escravos. A proteção da santa aos negros se reafirma com o fato de a punição recebida ser refletida na família dos brancos, mostrando o vínculo entre a santa e seus devotos. Pode-se também interpretar a aceitação da Senhora do Rosário às manifestações dos escravizados como autorização para a manutenção de seus costumes africanos e sua incorporação nas celebrações de devoção.

A narrativa pode ter a intenção de manter o grupo unido pela fé, fator existente nesta etapa de reconstrução da identidade, dando-lhes um lugar na religiosidade católica, porém pode-se também percebê-la como um convite aos negros a se afastarem de parte de seus ritos africanos e seguirem a religiosidade dos brancos. Qualquer que seja a interpretação, a narrativa tornou-se parte da memória coletiva do grupo e colabora com a existência da celebração até os dias atuais, quando os negros e seus descendentes praticam cantos e danças, característicos da cultura africana, nas festas de Nossa Senhora do Rosário, agradecendo-a pela proteção ao seu povo.

Como Pollak afirma que quando existem memórias antagonistas, uma delas acaba sobressaindo à(s) outra(s), pode-se perceber o catolicismo negro sobrepondo-se a outras formas de manifestação cultural de religiosidade africana, fator esse que foi necessário para a inserção do negro nos moldes da sociedade colonial brasileira. Observa-se que o catolicismo tradicional não foi apto para causar a adaptação dos escravizados à nova condição imposta, sendo necessária a construção de uma identidade na qual as culturas se fundissem e possibilitassem o sentimento de pertencimento desse grupo. Isso pode demonstrar a tensão existente entre as classes, identificada na narrativa através das punições sofridas pelos negros, punições essas ressignificada no relato oral do mito de origem da devoção através da apresentação de uma entidade da própria igreja católica, a Nossa Senhora do Rosário, redirecionando aos brancos o sofrimento ao qual os escravizados eram submetidos. Assim, observa-se que a memória da cultura africana não foi eliminada, mas silenciada em alguns de seus aspectos, tendo na

54 COSTA, Sinval José da. Origens e Identidades do Congado: A aparição de Nossa Senhora. In: Revista da

Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, MG. N. 24, p. 161, maio 2005. Disponível em: <http://www.folcloreminas.com.br/RevistasAntigasN24.pdf>. Acesso em: 28 nov. 2016.

adequação dos negros ao catolicismo, um recuo necessário para que estes se posicionassem como parte da estrutura social da América portuguesa.