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3 UMA VISÃO SOBRE A INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

3.3 Compreendendo a deficiência visual

3.4.2 A aprendizagem da Pessoa com Deficiência Visual

Silva (2009) declara que o desenvolvimento e a aprendizagem são resultados de uma interação em que intervêm os sentidos, o sistema motor, os sentimentos que envolvem o aluno com deficiência visual, as pessoas e os objetos ao seu redor. Não existe desenvolvimento sem aprendizagem nem aprendizagem sem desenvolvimento.

Mas, para que o desenvolvimento e aprendizagem sejam possibilitados às pessoas com deficiência visual, é importante e necessário que elas sejam estimuladas desde a mais tenra idade. Diante disso, alguns pontos da aprendizagem precisam ser considerados:

 Recepção e interpretação da informação (aprendizagem sensorial);

 Aprendizagem de esquemas motores;

 Aprendizagem por meio da imitação; e

 Autoavaliação e controle das próprias ações e seus resultados. (COBO, RODRÍGUEZ, BUENO, 2003, p. 130).

Como estamos comentando sobre aprendizagem e desenvolvimento, iremos apresentar, de forma breve, alguns desses elementos, como aprendizagem

sensorial, aprendizagem de esquemas motores e aprendizagem por meio da imitação.

a) Recepção e interpretação da Informação (aprendizagem sensorial)

A informação que nos chega por meio dos sentidos é interpretada, codificada, armazenada e irá se constituir em modelos e esquemas cognitivos que se ajustam ao meio para futura utilização.

É por meio dos sentidos que se desenvolvem determinadas habilidades, como a de Discriminação, que diz respeito à capacidade de notar as diferenças e semelhanças entre objetos ou materiais; e a de Reconhecimento, que se refere à capacidade de dar nomes a um objeto ou um determinado material. Eles permitem, então, que a criança desenvolva percepções como ver, ouvir, sentir o gosto de algo entre outras.

Quando a criança consegue compreender e dar significado a essas informações provenientes dos sentidos, ela percebe a informação e a utiliza. Esse processo perceptivo é ativo “[...] chegando-se à seleção perceptiva quando a informação que se recebe se enquadra com o previamente conhecido, de forma que atinge um nível diferente de compreensão” (COBO, RODRÍGUEZ, BUENO, 2003, p. 131).

Em relação à criança com deficiência visual, ela apresenta alterações em um dos canais sensoriais importantes de recepção de informação: a visão. Por isso, é necessário conhecer como essa informação é recebida, codificada, armazenada para proporcionar aprendizagem por meio de diferentes sentidos, ou, no caso, por outros sentidos.

b) Aprendizagem Visual

No caso das crianças com deficiência visual, mais especificamente da que apresenta Baixa Visão ou Visão Subnormal, a visão residual precisa ser estimulada de forma que utilize o seu potencial visual. Já a criança cega precisa ser estimulada a “ver” por meio dos demais sentidos (SILVA, 2009).

Essa situação possibilita maior independência e desenvolvimento da criança com deficiência visual, já que terá acesso às informações provenientes da visão, utilizando outros caminhos e estratégias.

c) Aprendizagem Auditiva

Existe, no imaginário de muitos, a ideia de que as pessoas com deficiência visual teriam uma capacidade auditiva maior do que os videntes, fato que não é verídico.

Devido à própria natureza do sentido auditivo e o quantitativo de estímulos auditivos provenientes do meio, o ser humano tem, por natureza, pouco controle sobre as sensações auditivas, por isso deve haver um “[...] processo de aprendizagem para exercitar o controle adequado dos diferentes estímulos auditivos, processo denominado de percepção seletiva” (COBO, RODRÍGUEZ, BUENO, 2003, p. 132).

Silva (2009) destaca que, através da audição, as pessoas com deficiência visual desenvolvem uma percepção seletiva dos ruídos, sons em seu redor em seu processo de aprendizagem. Contudo, uma estimulação excessiva pode causar ecolalia e, consequentemente, uma inibição do uso auditivo como canal de aprendizagem.

Diante disso, os pais e professores devem estar atentos às sequências de desenvolvimento auditivo da criança com deficiência visual, à relação entre linguagem e desenvolvimento auditivo, ao uso do ouvido como meio primário de aprendizagem, ao desenvolvimento das habilidades para escutar, à relação do desenvolvimento auditivo e à linguagem como instrumento para o pensamento.

O processo de aquisição de nova aprendizagem, por meio da audição, é de grande importância para as crianças com deficiência visual e passa por diferentes níveis.

No primeiro nível, ocorre a percepção dos sons que são procedentes do meio ambiente, através do qual se dá o processo de atenção e consciência dos sons. Durante os primeiros meses, com uma apropriada e contínua estimulação, a criança com deficiência visual irá aprender a usar o contato auditivo. Depois de algum tempo, ela pode mostrar consciência dos sons que percebe e prestar atenção a

determinados sons específicos, chegando ao segundo nível de desenvolvimento: percepção e respostas a sons concretos.

Esse segundo nível de desenvolvimento não ocorre antes dos 4 ou 5 meses de idade e pode se manifestar de diversas formas: a criança sorri, gira a cabeça, escuta intencionalmente e em silêncio, tentando imitar e vocalizar os sons. Ocorre ainda a manipulação de objetos para identificar o som que produzem.

No terceiro nível de desenvolvimento denominado diferenciação, ocorre a discriminação de sons familiares, vozes e tons. É o momento em que o bebê se move em relação aos sons produzidos na casa para tentar encontrá-los.

No quarto nível, ocorre o reconhecimento dos sons relacionados às palavras específicas e conectados à linguagem. De acordo com Silva (2009, p. 128) “[...], já no quinto nível, há o reconhecimento de vozes e a compreensão de palavras e direções. Dá-se a construção da própria linguagem, a escuta seletiva”.

Assim, por meio da aprendizagem auditiva, a criança com deficiência visual desenvolve determinadas ações que possibilitam a sua interação com o ambiente em que se encontra inserida.

d) Aprendizagem Tátil-cinestésica

A sensação tátil-cinestésica é o primeiro contato que a criança tem com o mundo ao seu redor, já que são tocadas, abraçadas, acariciadas pelos adultos, e respondem por meio de movimentos, choros e outros esquemas. Tudo isso envolve o sistema motor.

No desenvolvimento tátil-cinestésico, existem níveis de desenvolvimento, o primeiro diz respeito às habilidades cognitivas de conhecimento e atenção que são utilizadas. Através delas as crianças conseguem diferenciar as qualidades dos objetos.

A criança com deficiência visual aprende, por meio da experiência, a receber informações sobre o objeto e a tomar consciência da sua capacidade de alterar e adaptar os objetos por meio da manipulação.

Um segundo nível de desenvolvimento tátil-cinestésico baseia-se no conhecimento das estruturas e formas básicas dos objetos. Nesse nível, a criança com deficiência visual adquire conhecimentos dos objetos referentes às formas, texturas, peso, temperatura, tamanho, consistência entre outros aspectos.

Cobo, Rodriguez e Bueno (2003, p. 135), afirmam que “[...] à medida que a criança aprende a discriminar os objetos, é necessário ir introduzindo a linguagem que ensine o reconhecimento dos objetos específicos pelo nome”.

Quando a criança reconhece os objetos comuns e as atividades habituais do dia-a-dia pelo nome, ela já está próxima do terceiro nível de desenvolvimento tátil- cinestésico: relação das partes com o todo.

Para estimular a aprendizagem tátil-cinestésica, os referidos autores sugerem as seguintes atividades às crianças:

 utilizar objetos em três dimensões, preferencialmente de montar de desmontar, objetos de encaixe e objetos familiares, como, por exemplo: panelas e tampas, chave e fechadura;

 agrupar objetos de acordo com a textura;

 usar as mãos para explorar os objetos;

 reconhecer e discriminar diferentes objetos; e

 representar os objetos de duas dimensões de forma gráfica (op. cit., 2003).

Na quarta fase do desenvolvimento tátil-cinestésico, existe a representação de objetos de duas dimensões de forma gráfica, no intuito de

selecionar esquemas baseados em estruturas simples, tais como formas geométricas que podem ser tocadas e representadas em diferentes dimensões, permite à criança obter gradualmente sucessivas impressões táteis. À medida que seus dedos e músculos se movem, seguindo diferentes modelos, pode aprender a associar o objeto real e o que está apresentado. (COBO, RODRÍGUEZ, BUENO, 2003, p. 137).

Nessa etapa, é interessante que a criança realize representações gráficas, por meio de diferentes instrumentos, como um transferidor, uma punção34 num pedaço de papel de alumínio.

Esse processo conduz ao outro nível de aprendizagem tátil, que é a capacidade de discriminação e reconhecimento de símbolos. A criança com

34

Punção: é um dos instrumentos utilizados pelo cego para escrever o Braille. Para mais detalhes ver o item sobre adaptações pedagógicas para os alunos com deficiência visual (ver página 122).

deficiência visual não só deve reconhecer os símbolos, mas também interpretá-los em diversas situações, como, por exemplo, durante a leitura e escrita Braille.

É importante que essa aprendizagem tátil-cinestésica seja bem estimulada, propicie às crianças com deficiência visual (e por que não, também às crianças videntes) a possibilidade de explorar, escutar, cheirar, tocar os objetos ao seu redor, de forma que, para aquelas crianças, essa vivência lhes possibilite o aprendizado e o acesso ao conhecimento e às informações do meio ambiente em que se encontram.

e) Sentidos olfativos e gustativos e aprendizagem

Segundo Silva (2009), esses sentidos nos alertam para possíveis perigos e nos ajudam na orientação espacial como também estão relacionados às aprendizagens cognitivo-perceptivas.

Quando o uso desses sentidos na aprendizagem acontece de forma gradual, à medida que são fornecidas as possibilidades de captar as informações por meio desses sentidos, mais completa será a aprendizagem da criança com deficiência visual ou de qualquer outra criança.

Por meio do olfato, a criança identifica substâncias químicas, odores naturais, artificiais, reconhece flores, plantas, cheiros de alimentos entre outros, como também possibilita a observação olfativa do meio ambiente. Já o paladar possibilita a identificação da combinação de sabores básicos percebidos pelo homem, tais como amargo, doce, azedo e salgado.

Cobo, Rodriguéz e Bueno (2003) destacam que, devido à redução da entrada sensorial da criança com deficiência visual nessa aprendizagem dos sentidos olfativos e gustativos, é importante que se realize a estimulação sensorial que facilite interpretar a informação que recebe. Portanto, devemos insistir no uso de todos os sentidos na aprendizagem da criança com deficiência visual.

f) Aprendizagem de esquemas motores

O movimento permite ao corpo relacionar-se com o espaço, com as pessoas e com os objetos, além de facilitar a integração sensório-motora essencial para o

desenvolvimento perceptivo. Através do movimento, a criança com deficiência visual passa a ter consciência do mundo em que está inserida.

Silva (2009, p. 133) destaca que “[...] esse tipo de aprendizagem requer o desenvolvimento de atividades que explorem o ambiente, o corpo, os objetos”.

É importante essa aprendizagem para o aluno com deficiência visual, pois é também através do corpo, do tato, que ele adquire informações sobre si e sobre o meio, vivencia experiências e, assim, desenvolve-se.

g) Aprendizagem por meio da imitação

Para a criança com deficiência visual, a mediação de outras pessoas é imprescindível, pois, biologicamente, a cegueira restringe e inibe ações voluntárias, que são aprendidas por vias visuais como, por exemplo, apontar o dedo.

O aprendizado por meio de imitação pode também ocorrer através do tato, o que requer tempo, repetição, um longo período de contato com os objetos e ações e um alto nível de desenvolvimento perceptivo cognitivo para interpretar e realizar as ações antes. Isso para que possam ser suficientemente bem percebidas para que se consiga imitar exatamente igual.

Outro aspecto da aprendizagem por meio da imitação diz respeito às expressões faciais e aos movimentos do corpo, que também são aprendidos pelas crianças. Nesse sentido, as crianças com deficiência visual deverão ser ensinadas no tocante às expressões faciais, aos movimentos do corpo e ao uso das mãos para se comunicar e às habilidades em movimentos corporais.

Essas são algumas informações pertinentes sobre a pessoa com deficiência visual que, ao chegar às fases da adolescência e da vida adulta, poderá já ter desenvolvido esses aspectos.

Como o aluno com deficiência visual que frequenta o IFRN-ZN é um adolescente, iremos nos deter em alguns elementos pertinentes ao desenvolvimento dessa fase.

3.4.3. Elementos pertinentes ao desenvolvimento e a aprendizagem do