9. Uma visão antropológica e filosófica da arte musical
9.4. A arte como possibilidade de encontro com a realidade
Ver a realidade ao redor como âmbito não é tarefa fácil. As realidades ou os acontecimentos vistos como âmbitos supõem um campo de interação e um olhar profundo. A arte tem esse poder interativo e poético, pois constantemente converte objetos e espaços em âmbitos. Ela sugere uma ressignificação para palavras, objetos, linhas, formas, cores, movimento, sons e silêncios. Através da arte, somos sensibilizados e treinados para perceber valores e assim atingir outros níveis de entendimento.
O desenvolvimento pessoal está ligado à nossa capacidade de estabelecer valores hierarquizados de acordo com os nossos próprios. Cada um estabelece uma escala de importância para os fatos e acontecimentos que vive e para os objetos e pessoas com que convive, dando primazia aos que lhe são mais caros. Um dos objetivos da educação é prover o
aluno de meios para distinguir as diversas realidades e, pelos vínculos estabelecidos, atribuir- lhes valores. Para Quintás, “a tarefa fundamental da formação humana consiste em suscitar o entusiasmo pelos valores”. (Quintás, 2004: 397) O ensino musical nas escolas deve buscar exatamente isso − mostrar outras realidades estéticas para que o aluno perceba, reconheça, distinga e sobretudo se entusiasme com os valores intrínsecos à obra de arte e à experiência artística. Esse entusiasmo não acontece se a aula de música não for um acontecimento, ou seja, se o aluno não tiver experiências valiosas, como esclarece Quintás (2004: 397):
“Ninguém pode se entusiasmar, por exemplo, com as Cantatas, de Bach, pela simples leitura de um estudo sobre elas. É preciso ouvi-las de forma criativa, fundar um âmbito de participação com elas e assumi-las como voz interior. Para isso, é preciso que alguém já experimentado nos sugira a existência desse valor, nos convide a buscá-lo e nos dê as chaves certas de interpretação.”
A atividade criativa acontece quando uma pessoa relaciona suas possibilidades com outras realidades e, a partir dessa relação, descobre novos recursos para melhor interagir com algo que valorize. O poder formativo da arte opera quando suscita o desejo de experiências pessoais e sensoriais valiosas, para que se analise e compreenda não só seu significado, mas sobretudo seu sentido.
Um poema, uma música ou uma escultura são frutos de um encontro, são realidades, vibrações de diversos elementos; não são criados apenas por se conhecerem as técnicas para se trabalhar com os materiais utilizados. A arte das palavras, por exemplo, pode ser sentida num poema, mas nem sempre numa matéria jornalística. O material é o mesmo − são palavras −, mas a poesia é arte por ser fonte de possibilidades, surpresas e interpretações. O poeta transforma realidades aparentemente insignificantes como pedra, casa ou mar em manifestações poéticas. Diferentemente do processo artesanal que se ocupa dos objetos materiais, o processo artístico criativo se ocupa dos âmbitos. A arte é o “encontro com a realidade que se quer expressar, o encontro com o poder expressivo de uma matéria”, e está sempre aberta a novos encontros. (Quintás, 2004: 70) Segundo Rubem Alves, “cada tela é um convite para que o espectador veja o mundo com os olhos do pintor. A arte busca comunhão”. (Alves, 2002: 41) A arte nos convida para uma experiência de dupla mão − quando atendemos a seu chamado e participamos de um encontro, ela nos pertence e nós lhe pertencemos.
O encontro com a arte transforma nossa percepção do mundo e pode ampliar o autoconhecimento. O prazer derivado do contato com a arte confirma seu valor artístico, mas
o verdadeiro prazer só sobrevém ao rompimento da barreira − requer esforço. A atividade artística exige trabalho e disciplina, mas o prazer não contabiliza esforços. “O prazer engravida. O sofrimento faz nascer”. (William Blake apud Alves, 2002: 158)
A música é uma linguagem poética que transfigura sons, ruídos e silêncios em âmbitos. Ela exige theoria, contemplação, abertura à realidade (Quintás, 1996: 10):
“Tudo o que foi dito acerca da importância da relação, do entrelaçamento de âmbitos de realidade ou encontro terá na música uma confirmação simples, vivaz, impressionante. Tudo na música é relação. (...) Dois sons tomados separadamente não têm valor estético. Dois sons relacionados formam um intervalo expressivo. Com isso começa a música. O mesmo acontece com o ritmo, que é formado de sons ordenados no tempo. A ordem, a inter-relação é a origem do edifício surpreendente da música. A sonata em fá menor,
Appassionata, de Beethoven inicia-se com três notas descendentes, do, lá, fá.
É uma relação, uma forma de estruturar os sons. Daí parte toda a estrutura dessa obra magnífica. Ao ouvir esse tema nuclear, já se está vibrando com a obra inteira. Na música, aprendemos a não nos determos nos valores imediatos, mas, sim, a transcendê-los em direção a tudo aquilo a que eles mesmos remetem. Aprende-se a arte de transcender, de dar ao olhar e à inteligência um longo alcance, amplitude e penetração: as três condições básicas de uma forma madura de ver e entender. Essa maneira fecunda de abrir-se à realidade circundante é confirmada e aperfeiçoada quando nos exercitamos em captar, simultaneamente, os sete níveis ou modos de realidade que oferece toda obra de arte autêntica: os materiais isolados, os materiais vinculados entre si, os materiais estruturados, os âmbitos de realidade que se expressam através dessa estrutura, o mundo peculiar que modela a obra, a emotividade que esta suscita, o meio vital para o qual foi destinada.”
A tarefa do educador é ensinar a olhar, a perceber a realidade além da aparência, a descobrir valores e sentidos. Os fracassos do ensino musical poderiam ser reduzidos se os próprios educadores tivessem mais intimidade com a linguagem musical ambital, se a vissem antes como âmbito do que como mero produto ou como objeto imutável. Apesar da boa intenção, exercendo sua função básica na transmissão de informações, deixam de lado o sentido que dá origem à humanização e ao discernimento.