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Capítulo II – A obra de Luísa Ducla Soares

2. Uma obra multifacetada

2.6. A arte da escrita

Nesta vasta obra destinada à infância, assistimos a uma pluralidade temática e estilísti- ca própria da escrita contemporânea. Para além da escolha das personagens e das suas carac-

terísticas, como já referimos em análise anterior, é de salientar o gozo que Luísa Ducla Soa- res sente em animá-las, dando-lhe vida e profundidade, sejam elas figuras humanas ou ani- mais. O livro Gente Gira (2002), cujo título nos dá, desde logo, uma ideia do universo con- vocado, é uma recolha de vários contos que ilustram personagens humorísticas e, nos quais, a autora de Se os Bichos se Vestissem como Gente (2004) associa ao lúdico o nonsense. Aparecem, assim, “A Menina Verde”, “O Homem das Barbas” e, ainda, “O Senhor Pouca Sorte”. Segundo Glória Bastos, “esta dimensão fantasiosa articula-se de forma humorística com a realidade, permitindo um olhar crítico sobre o real, reflectindo e revelando aspectos da natu- reza humana de um ponto de vista diferente” como é o caso em “O Rapaz Magro e a Rapari- ga Gorda”, também de Luísa Ducla Soares (Bastos, 1999, 127).

Do mesmo ponto de vista, José António Gomes considera que obras contemporâneas reflectem o particular gosto de numerosos escritores pelo nonsense que, por sua vez, caracteri- za obras da nossa produção literária recente, como os saborosos Poemas da Mentira e da Ver- dade (1983) e A Gata Tareca e outros Poemas Levados da Breca (1990). Nessas obras, Luísa Ducla Soares envereda também, segundo aquele autor, “pelos caminhos do nonsense e de um humor corrosivo. Não se limita, contudo, a percorrer essa via, já que utilizando quase sempre esquemas estróficos, métricos e rítmicos tradicionais, nos permite ler, noutros momentos, uma lírica simples e sensível, que evidencia um olhar crítico sobre a lógica do mundo adulto” (Gomes, 1997, 62).

A propósito das chamadas “figuras e invenções extraordinárias”, Hillman (1995, cit. Bastos, 1999, 125) revela-nos que os objectos antropomorfizados, os poderes especiais que inesperadamente se recebem, os mundos em miniatura que ganham vida, os sonhos que se tornam realidade, entre outros aspectos que advêm do mundo fantástico, são transportados para narrativas que, polvilhando experiências do real com o brilho da fantasia, agradam ao imaginário infantil. As histórias para crianças podem ser ilustradas por personagens fabulo- sas, “situadas para além do que é usualmente aceite como real e normal” (Hume, 1984, cit. Bastos, 1999, 124), desde que se mantenham a lógica e a forte consistência interna. A este propósito, Hillman refere que “os elementos extraordinários devem estar integrados na his- tória de forma coerente; a lógica e a consistência desempenham um papel fundamental na fantasia, no sentido de ajudar o leitor a cruzar a porta que lhe dá acesso ao mundo secundá- rio […]. Só desta forma a fantasia poderá constituir um importante motor para libertar a imaginação, sugerindo alternativas e encorajando o pensamento divergente” (Hillman, 1995, cit. Bastos, 1999, 126).

Em todos os seus textos, independentemente das personagens ou mesmo dos valores que neles aparecem, Luísa Ducla Soares tem sempre o cuidado de usar uma escrita literaria- mente rica, na qual se observa a expressividade e a pertinência de figuras retóricas, nomea- damente por metáforas, hipérboles e gradações, que caracterizam o seu discurso. Como fora

já referido anteriormente, outro traço não menos relevante, prende-se com o jogo das sono- ridades nos nomes escolhidos para as personagens que actuam nas histórias de Luísa Ducla Soares. Vejamos, a título de exemplo, A Festa de Anos (2004), onde, de forma humorística, a autora chama a avestruz “Catrapuz”, a gatita “Tita”, o cão “Sultão”, a foca “Pinoca”, ou ainda o rapaz “Tomás”, promovendo a rima.

As palavras de Sara Reis da Silva constituem uma leitura pertinente da obra de Luísa Ducla Soares, ao sublinharem o poder da autora de, junto dos mais novos, “contribuir para o fomento da competência lecto-literária, designadamente da capacidade de inferir informa- ção não explícita, bem como para a promoção do gosto estético e do prazer de uma leitura autónoma, proporcionada por essa espécie de viagem encantatória que a aliança feliz entre as palavras e as ilustrações oferece” (Silva, 2006, 138). Na verdade, esta escritora revela um par- ticular gosto em brincar com as palavras. Sustenta: “diz-me a experiência que os mais peque- nos se podem também encantar com elas e, a partir daí, ganhar amor à língua e à literatura. Aposto nisso” (Soares, s. d.).

Fazendo uso das palavras de José António Gomes, na obra de Luísa Ducla Soares sobressai a “[…] irreverência inteligente a um culto da ironia, do paradoxo e do jogo verbal, que não dispensam a exploração criativa de ambiguidades e aspectos lúdicos da linguagem” (Gomes, 1997, 52).

No sentido de averiguar do estado de espírito de Luísa ducla Soares, aquando da pro- dução das suas histórias, a autora afirma que “geralmente quando escrev[e] para crianças até aos 6 anos, f[á]-[l]o como se estivesse e[la] própria a dirigir-[s]e às crianças. Imagin[a] brinca- deiras diversas que poderão acompanhar a leitura dos textos: entoações, repetições, jogos de expressão, técnicas gestuais, marionetes que são os próprios dedos com desenhos de caras”1 (Soares, s. d.).

Com base nas palavras da escritora em análise, digamos que, numa primeira instância, o autor de obras literárias para a infância procurará dirigir-se à criança, sendo ela o preferen- cial destinatário das suas histórias. No entanto, e porque a criança em idade pré-escolar ain- da não detém as competências fundamentais e requeridas ao processo de leitura, o papel do adulto mediador é decisivo. Em contexto de jardim-de-infância, é ao educador que cabe essa função de transformar o discurso escrito num discurso oral, de tal modo que a sua interpre- tação poderá distanciar-se da que, inicialmente, tinha sido pensada pelo próprio escritor, podendo ter impactos igualmente distintos aquando da recepção por parte da criança.

1Informações facultadas pela escritora depois de vários contactos estabelecidos, via correio electrónico, ao longo da realização do presente estudo.

Num dos objectivos, por nós inicialmente enunciados, através de uma atenção particu- lar sobre a obra de Luísa Ducla Soares, procurávamos compreender a relação estabelecida entre o autor e o leitor, neste caso o educador de infância, e simultaneamente o livro.

A esse mesmo propósito, Luísa Ducla Soares sublinha que, quando escreve para crian- ças, “s[abe] muito bem que raras serão as crianças que terão esta abordagem. Todas as outras terão mediadores para [ela] desconhecidos, geralmente familiares ou educadoras, todos dis- tintos na sua forma e até na capacidade de comunicação” (Ibidem). Afirma ainda que “há comunicadores fantásticos que dão novas vidas aos textos e descobrem neles potencialidades que nunca imagin[ou]. Há os que são tão básicos e desinteressantes que destroem todas as potencia- lidades de um livro e vacinam as crianças contra os livros” (Ibidem, sublinhado nosso). No entanto, mostra “pens[ar] muito mais na criança que no mediador, embora não deixe de imaginar o tratamento que o mediador dará ao texto. Interessa-[lhe] mais avaliar a capacidade de aceita- ção por parte da criança, em termos linguísticos, afectivos, de compreensão do tema, ade- quando-o à idade” (Ibidem).

Constituindo uma verdadeira arte de escrita, a obra de Luísa Ducla Soares está repleta de piscadelas de olho ao leitor que, não raras vezes, se vê envolvido na acção. Basta relembrar o conto O Doutor Lauro e o Dinossauro (1973), que subtilmente indiciado pelo próprio título, narra a história de um cientista que sonhava com dinossauros. “Assim, partindo dessa situa- ção inicial, o/a narrador/a parece aproveitar para contar um outro conto, inserindo uma micronarrativa, mas, desta vez, de índole histórica, visto que, após uma interpelação directa do narratário – «Será que vocês sabem o que é um dinossauro?» surge um relato evocativo dos primódios do nosso planeta” (Soares, 1973, cit. Silva, s. d.). Mas tal como acontece na obra referenciada, noutras ainda, Luísa Ducla Soares acaba com um convite ao leitor para continuar a história. Deixa assim transparecer a sua posição menos vulgar sobre o tipo de finais (felizes) possíveis, e que, muito comummente, finalizam com a frase “e foram felizes para sempre”. Parece que esta autora procura mostrar aos seus leitores que ser feliz para sempre parece, de todo, improvável.

Por outro lado, quanto mais pequenas são as crianças, mais difícil se torna escrever para elas. Por isso é necessário saber adaptar a linguagem à fase de evolução em que se encontra, sem por isso, insistir num vocabulário e num discurso que consideramos infantili- zados. A ausência de léxico novo, a utilização exagerada de diminutivos e a presença de ideias simplificadas resultam num texto pobre, redutor e limitado, porque a criança tem capacidade para aceder a informação mais elaborada e complexa. Mas nos textos de Luísa Ducla Soares, isso não se verifica porque são notórias a criatividade e originalidade da sua escrita, assim como a adequação ao destinatário preferencial.

A autora afirma que, quando escreve, “em geral não and[a] à escolha de palavras, elas surgem-me naturalmente como quando fal[a] com os [s]eus netos que têm, actualmente, 10,

7 e 3 anos. Se falar com um bebé de 1 ano falar[á], logicamente, de outra forma. Mas te[m] como princípio não infantilizar a linguagem” (Soares, s. d.). Refere utiliz[ar] um número de vocábulos restrito para a criança não ficar submersa em palavras desconhecidas não [s]e abs- ten[do] de lhes dar a conhecer algumas menos familiares; pois o crescimento implica a des- coberta do mundo e as palavras, e tudo o que elas encerram fazem parte desse exercício de descoberta” (Ibidem).

Posto isto, podemos considerar que a escrita de Luísa Ducla Soares se destaca pela irreverência e singularidade das suas histórias para crianças, e que “são, sem dúvida, bem condimentadas, feitas de ingredientes que, naturalmente, despertarão o apetite leitor dos mais novos” (Silva, 2004, s. p.).

CAPÍTULO III – REPRESENTAÇÕES SOBRE LITERATURA PARA A

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