2. Os sistemas de movimentação de materiais offshore
2.8. A arte de projetar e a visão tecnicista da literatura
As referências colocadas nos itens anteriores são basicamente de três abordagens distintas, salvo algumas exceções: (1) a de sistemas de movimentação de materiais fabris convencionais, (2) a de projeto de plataformas FPSO e (3) a de human factors. Ainda que a reflexão em todos os estágios do processo de concepção tenha grande influência sobre trabalho que será realizado no futuro (DANIELLOU, 2002), em nenhuma dessas abordagem nós vimos um ponto de vista que considerasse o trabalho em suas dimensões mais amplas – sociais, coletivas, sistêmica, entre outras.
A abordagem voltada para o projeto de sistemas de movimentação de materiais fabris oferece conceitos gerais e prescrições para projetos para diversos tipos de plantas e processos diferentes. Apesar de parte dos autores reconhecerem a importância da dimensão do trabalho para o projeto desses sistemas, essa dimensão não é amplamente abordada em nenhum momento em seus textos. Em geral, os textos
oferecem conceitos e prescrições genéricas, que podem se adequar a diversas situações, mas não se aprofundam na adequação ao uso para situações específicas.
A abordagem de projeto de plataformas FPSO é voltada para o arranjo da planta, quase sempre com uma visão direcionada para a produção e para a segurança das áreas de trabalho. A movimentação de materiais aparece em segundo plano nos textos. O trabalho de movimentação de materiais, portanto, está longe de aparecer como elemento de relevância para o projeto desses sistemas.
As abordagens de human factors, por sua vez, estiveram mais presentes no item 2.6. Esse fato, por si só, já evidencia uma limitação dos trabalhos estudados dentro dessa abordagem. Em geral, esses textos se ativeram a aspectos muito restritos da atividade de trabalho. Apesar das dimensões físicas e ambientais serem importantes, por si só elas não conseguem explicar o que é o trabalho de movimentação de materiais em plataformas FPSO e, portanto, têm relevância limitada na adequação do projeto ao uso. O projeto do trabalho envolve outras dimensões relevantes, que transcendem a relação do indivíduo com o posto de trabalho e essas dimensões dizem respeito ao intersujeito, ou seja, às dimensões sociais do trabalho dentro do contexto organizacional, que explicaremos à frente.
O distanciamento entre a operação e o projeto leva os projetistas, frequentemente, a minimizarem importância da variabilidade dos sistemas técnicos, a diversidade e a complexidade dos serviços a prestar, ou dar a impressão que essa variabilidade é totalmente previsível e, portanto, controlável. A análise do trabalho permitirá ‘corrigir’ essas representações redutoras do homem. (GUÉRIN et al., 2001:5)
Os trabalhadores não seguem cegamente as prescrições de projeto, visto que sempre surgirão situações em que haverá a necessidade de adaptar sua atividade para alcançar um resultado satisfatório (MONTMOLLIN, 2000). Essa diversidade de situações, segundo HOLLNAGEL (2010:55), é inerente á atividade humana e não só é inevitável, como também é necessária para que os sistemas sócio-técnicos funcionem bem. O autor explica que os seres humanos são extremamente aptos a acharem maneiras de contornar problemas no trabalho e esta capacidade é crucial tanto para a segurança, como para a produtividade.
DANIELLOU (2004:10), concorda com essa visão quando diz que “o trabalhador é ator de sua situação e se mobiliza para construir modos operatórios pertinentes”. Na visão do autor, os trabalhadores utilizam normas de interação diferentes das prescrições elaboradas pelos projetistas para construir esses modos operatórios nos coletivos a que pertencem e, por isso, é um ator da transformação das situações de trabalho, que intervém em processos de interação social.
Essas dimensões sociais e coletivas são ignoradas por grande parte dos autores trabalhados na literatura utilizada nessa dissertação. Ao oferecerem prescrições e conceitos, tratando esses elementos como se
fossem os únicos elementos relevantes para o trabalho efetivo realizado, esses autores subestimam a variabilidade dos sistemas técnicos, oferecendo soluções que ignoram o caráter contingente dos modos operatórios em um contexto social16. A consequência da visão tecnicista de projeto é a tentativa de produzir um consenso de forma determinística entre os participantes do projeto, em vez de procurar entender as diferentes lógicas que envolvem os projeto.
Essa visão de projeto fica clara em boa parte da literatura analisada. No caso da literatura que estuda os fluxos de materiais, por exemplo, a regra de ouro seria “reduzir as distâncias ao máximo” ou “a menor distância entre dois pontos é uma reta”. Tal regra evidenciada pela literatura é determinística e não analisa o contexto em que o projeto está inserido. No caso do projeto de FPSOs, a lógica de elaboração dos fluxos está condicionada à lógica da produção, ou seja, um processo de negociação entre as disciplinas. Outro exemplo interessante, já voltado para o projeto de plataformas FPSO, é a forma como a literatura encara o projeto do arranjo. Em geral, esse projeto é visto como partes a serem inseridas em pontos pré-determinados: casario na popa, flare na proa, e daí por diante. Não é realizada uma análise sobre o contexto em que a plataforma será inserida, o quanto o POB, a capacidade produtiva, a complexidade da planta, entre outros influenciam nesse projeto.
Em outras palavras, o projeto não é determinístico, mas sim um processo social que requer que os participantes negociem suas diferenças e construam significados na troca direta e preferencialmente na troca face a face (BUCCIARELLI, 1988: 159-160).
Esse problema fica ainda mais claro com a colocação de DE TERSSAC & MAGGI (2004:84), que pregam a substituição da visão normativa pela análise de práticas plurais. Segundo o autor, essa transformação possibilitará ver o trabalho como um domínio de significados múltiplos, resultando em formas de organizações singulares. A consequência dessa transformação da visão sobre o trabalho é exposta pelo autor:
“Ao mesmo tempo em que as realidades tornam-se mais variadas, os olhares sobre essas realidades mudam: nas análises sobre o trabalho, a diversidade das práticas e a necessidade de considerar as situações de uso que estão colocadas em primeiro plano; além disso, a noção de situação de trabalho é completada pela análise das trajetórias e biografias individuais ou coletivas. Enfim, a noção de trabalho é cada vez menos considerada como um dado, e cada vez mais como uma construção social, um produto da ação individual e coletiva.”
O exemplo dado por SENNETT (2009:92), que comenta sobre as tentativas de recuperar a forma como funcionavam as atividades da famosa oficina de Stradivari, ilustra a colocação desses autores:
“Faltam nessas análises uma reconstrução das oficinas do mestre – mais exatamente, é um elemento que se perdeu irrecuperavelmente. Trata-se da absorção no conhecimento tácito, não
16 Toda organização tem como principal característica a composição por sujeitos orientados para um objetivo coletivo. Isso significa que ao tratarmos das organizações e do trabalho que está sendo realizado ali, sempre estaremos lidando com um contexto social.
dito nem codificado em palavras, que ocorreu nesses locais e se transformou em hábito, através dos milhares de gestos cotidianos que acabam configurando uma prática.”
Na visão do autor, ainda que os analistas tenham os espaços físicos, os materiais utilizados, e alguns itens produzidos nessas oficinas, uma reconstrução dos modos operatórios nunca será possível, porque a dimensão do trabalho se perdeu para sempre. A dificuldade dos projetistas em conceber novas unidades voltadas para o uso é semelhante, visto que eles não tem acesso pleno ao trabalho efetivamente realizado.
Conceber um projeto sem entender o trabalho que será realizado é como tentar recuperar os modos operatórios da oficina de Stradivari. A diferença fundamental é que, no caso das plataformas offshore, as plataformas estão operando e, portanto, o acesso ao campo é possível, ainda que restrito.
A análise do trabalho tem justamente como virtude a proximidade com o trabalho real que permite entender e evidenciar o conhecimento tácito dos trabalhadores, que é fundamental para a execução do trabalho, mas que nem sempre chega aos projetistas. LIMA (2000) coloca que
“apenas o ponto de vista da atividade é capaz de estabelecer um compromisso satisfatório entre os objetivos de produção e as lógicas conflitantes de sua realização, inclusive (...) os aspectos formais e informais do trabalho, entre o trabalho prescrito e o trabalho real, entre a organização e a atividade viva.”
A variabilidade inerente aos sistemas técnicos cria também a necessidade de diálogo entre o projetista e a situação, que é explicada por SCHON (1983:78-79):
“[O projetista] trabalha em situações particulares, usa materiais particulares e emprega meios e linguagem peculiares. Tipicamente seu processo de fazer é complexo. Existem mais variáveis – tipos de transformações possíveis, normas e interrelações entre eles – do que podem ser representadas num modelo finito. Devido a essa complexidade, uma transformação que o projetista efetue em um projeto tende, feliz ou infelizmente, a produzir outras transformações além das que tinha intenção de produzir. Quando isto acontece, o projetista pode considerar as mudanças não intencionais que ele produziu nas situações para formar novas avaliações e entendimentos e fazer novas transformações (...). a situação responde às transformações realizadas pelo projetista e o projetista responde novamente à resposta da situação”.
Essa dimensão do diálogo do projetista com a situação é ignorada pelas abordagens tecnicistas, que veem o projeto como a inserção de pontos fixos pré-determinados, sem considerar as particularidades de cada situação e as transformações que o projeto sofre com mudanças sutis de contexto e das decisões tomadas durante a concepção.
A visão schoniana é corroborada por BUCCIARELLI (2003: 24), que trata esse diálogo com a situação como uma consequência da contingência e da incerteza que envolve a arte de projetar. Segundo esse autor, o projetista nunca conseguirá prever todas as situações possíveis:
“... todos os contextos de projeto terão incertezas (...). Independentemente do contexto, existem (e existirão) coisas relevantes que os engenheiros não sabem e ainda assim eles acreditam que a situação está sob controle. A ideia de que os engenheiros não sabem tudo sobre as coisas que
produzem pode ser captada pela lei de Murphy: se as coisas podem dar errado, darão errado.
Produtos, processos e sistemas falham.”
Os resultados imprevisíveis, são compensados através do exercício do trabalho. Só o trabalho, em todas as suas dimensões, é capaz de contornar a variabilidade dos sistemas técnicos. O entendimento do trabalho real, portanto, assume um papel ímpar do desenvolvimento dos sistemas técnicos. Sem a compreensão do trabalho os projetos ficam estagnados no uso de técnicas e modelagens simplistas, que nunca darão conta da complexidade desses sistemas.
Seguindo essa linha, DANIELLOU (2002:31) coloca que
“A variabilidade que existirá nas futuras instalações não pode ser prevista unicamente a partir de desenhos, ou especificações técnicas. É necessário procurar unidades de produção já existentes que apresentem características próximas as da futura unidade de produção, para nelas observar a variabilidade real e as estratégias empregadas para enfrentá-la. Trata-se do que os ergonomistas chamam de situações de referência.”
CONCEIÇÃO (2011), que realizou pesquisa relacionada ao projeto de unidades offshore, relata que há dificuldades de aplicação das recomendações propostas pela literatura aos projetos. Tal dificuldade se dá, na visão da autora, sobretudo pela tentativa de se estabelecer recomendações genéricas, que possam ser aplicadas em qualquer caso, ignorando situações específicas do trabalho realizado em cada situação. Para a produção de petróleo em ambiente offshore, repleta de peculiaridades, a aplicabilidade dessas soluções acabam sendo limitadas, de difícil adaptação e interpretação. A autora destacou ainda, que encontrou recomendações conflitantes e incompatíveis na literatura, gerando dificuldade na decisão sobre qual recomendação seguir.
Na visão de BÉGUIN (1997) a perspectiva tecnicista é contraproducente para a operação que será realizada futuramente nesses ambientes por ignorar o trabalho e, portanto, a complexidade que envolve o problema:
“(...) as transformações realizadas dentro dessa perspectiva de gestão, que não levará em conta a realidade concreta do ‘terreno’ é contrária a uma complexidade que não será atendida, e poderá se revelar penosa para as pessoas e, por fim, contraproducente.”
O uso de abordagens puramente tecnicistas, portanto, oferece prescrições simples e deterministas, ignorando a variabilidade e a complexidade dos sistemas técnicos, a singularidade dos projetos, a interação entre o projetista e a situação, entre as disciplinas de projeto e entre o projeto e o trabalho real. As abordagens puramente tecnicistas, em outras palavras, oferecem uma visão limitada sobre o que é o projeto e o que é a arte de projetar. A execução de projetos nesses moldes têm tantas chances de ser bem sucedida quanto as tentativas de reprodução da Oficina de Stradivari.