Ao longo do capítulo relacionamos o conceito espaço com diferentes termos e designações, tais como lugar, território e contexto. À medida que o discurso foi fluindo, também evidenciamos a relação entre espaço e educação, ao ponto de considerar o contexto como um palco educativo ao longo do teatro que é a vida. Para tal, recorremos ao movimento das Cidades Educadoras como exemplo evidente de como é possível olhar a sociedade como um todo educativo. Como a tríade deste trabalho de investigação só se completa com a perspetiva da ASC, é pertinente apresentar algumas linhas sobre a relação
entre espaço dos palcos educativos e ASC, tendo como pano de fundo tendo como pano de fundo o tal cenário formativo, atestado no exemplo do movimento das Cidades Educadoras.
A ASC, como prática social que beneficia das relações entre entidades e organizações – em que o todo é mais forte que a soma das partes –, tem como principal objetivo promover a participação popular nos mais diversos espaços da comunidade, permitindo o acesso a bens culturais e à produção desses mesmos bens culturais. O indivíduo transforma-se, através da participação ativa, em ator do seu próprio desenvolvimento. Deste modo, a ASC define-se como um modelo de intervenção comunitária que tem como objeto a comunidade, com a qual define estratégias de desenvolvimento que permitam criar condições para potenciar as singularidades identitárias e colmatar necessidades próprias.
É incontestável que as práticas de ASC podem e devem ser um dos panos de fundo presentes nas intervenções educativas concretizadas nos contextos sociais de uma comunidade.
Como defende Ventosa, um dos maiores estudiosos sobre a temática da ASC e defensor desta como metodologia de ação,
o espaço de intervenção na Animação Sociocultural constitui um dos seus principais fundamentos, até se converter numa das suas coordenadas básicas. Isto deve-se, não só à dimensão prática ou ativa da Animação enquanto Intervenção Socioeducativa, mas também à sua natureza de procedimentos e contextos, o que faz que não possa existir no vazio, mas aplicada em espaços concretos que além de a materializar, a determinam e configuram como tal. Por isso, podemos afirmar que uma das melhores maneiras de delimitar e sistematizar as diferentes modalidades de Animação Sociocultural é descrevendo os lugares onde esta se desenvolve (Ventosa, 2008b: 35).
Outro defensor das práticas de ASC, Ander-Egg (2006a), alerta para o campo de trabalho para os Animadores Socioculturais na concretização dos objetivos da cidade educadora, a saber:
- Fortalecer a vida citadina em convergência com uma democracia viva, não só da participação das pessoas, mas também através de capital social e humano (pessoas que se envolvem e sentam a cidade como sua);
- Contribuir para a renovação sociocultural e coesão social, através de ações educativas, culturais e sociais;
- Transformar a cidade num espaço de participação e convivência, dentro de contexto plural e intercultural que ajude a configurar uma cultura de bem-estar;
- Garantir o melhoramento da qualidade de vida através da criação de condições para o pleno desenvolvimento humano, de toda a pessoa e de todas as pessoas.
Enquadramento teórico – A geografia do que somos no universo que habitamos
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No quadro 6, podemos compreender a relação existente entre os princípios das Cidades Educadoras manifestados na Carta das Cidades Educadoras, datado de 2004 e as práticas de ASC.
Como poderemos perceber, as semelhanças são clarividentes, demonstrando que a ASC, não só do ponto de vista educativo, mas também cultural e social, é uma ótima metodologia para dinamizar as cidades como palcos educativos em constate relação e interdependência, unidos pelo comum objetivo de transformar habitantes em cidadãos ativos, participativos e agentes de mudança.
Quadro 5: Análise comparada dos princípios da ASC e das Cidades Educadoras
Cidades educadoras ASC
Compromisso com o investimento da qualidade de vida
Fator transformador do indivíduo e da sociedade.
Procura a melhoria da qualidade de vida Fomento da participação da cidadania desde uma
perpectiva crítica e corresponsável, fomentando o associativismo.
Gera processos participativos comunitários desde uma pedagogia não diretiva.
Fomenta a vida associativa como suporte da participação.
Compromisso com as práticas de cidadania democrática.
Fomento da educação para a diversidade, a compreensão, a cooperação e a paz.
Promove valores
Potenciação do diálogo e de projetos intergeracionais na cidade.
Intervêm sobre o tecido social de forma intergeracional.
Introdução de critérios socioeducativos na planificação urbana.
Promoção de politicas educativas municipais amplas.
Fomenta as capacidades de análise, organização e realização de ações transformadoras.
Procura identificar ou afirmar a identidade da cidade como ponto de partida para o intercâmbio com outras realidades e a criação de redes.
Elemento de ajuda à afirmação da identidade cultural.
Desenvolvimento das funções educativas de pessoas, serviços, e da própria cidade.
O assumir da infância e da adolescência como construtores ativos da cidade.
Parte do protagonismo das pessoas.
Fonte: adaptado de Caballo (2008)
Encarar a sociedade, nas suas relações internas e externas, como um todo educativo, bebendo da génese doutrinal da ASC, é possível educar cidadãos para a participação, autonomia e cooperação, para que os próprios sejam protagonistas dos processos de transformação social.
Isso implica, necessariamente, um esforço por parte das pessoas em participar na mudança. Sendo que deverá ser uma participação económica e politicamente desinteressada e, ao mesmo tempo, enriquecida cultural e socialmente. Contudo, essas intervenções educativas protagonizadas pelas pessoas não podem ser confundidas com movimentos sociais, mas dele devem beber algumas linhas orientadoras. Ander-Egg (2006a) realça algumas caraterísticas dos movimentos sociais, como sendo um modo de ação frequentemente não institucionalizado, em que as pessoas estão ligadas em torno de um problema concreto e se mobilizam para mudar a situação-problema. São ações à margem das organizações tradicionais, como os partidos políticos e os sindicatos, e fora dos canais políticos institucionalmente estabelecidos. Não podem ser catalogados nem dentro do público nem do privado (segundo certas classificações). Pertencem a uma terceira categoria, visto que não são públicos no sentido de pertencer à Administração Pública, mas tampouco são privados no sentido de que só se ocupam dos problemas e das necessidades individuais. As suas reivindicações mais profundas expressam a vontade de participação social e política a fim de assumir um protagonismo ativo na solução dos problemas como atores de mudança. Daí que a existência dos movimentos sociais são também uma forma de dinamização da sociedade civil. Muitos destes movimentos estão mais interessados pela qualidade de vida do que pelas reivindicações económicas. Uma cidade educadora, envolvida nas práticas de ASC, fomenta o diálogo e, detrimento da reivindicação. Isso implica o reconhecimento das instituições como entidades educadoras e responsáveis, também, pela mudança. Ou seja, implica nos processos de decisão todos os coletivos e grupos sociais e reconhece à própria comunidade, e a todos os que dela fazem parte (instituições, lugares públicos, grupos sociais) competência e aptidão para melhorar a qualidade de vida das pessoas, trabalhando com elas, a partir delas, para elas.
Com o contributo das práticas de ASC é possível identificar e definir os lugares educativos de que uma comunidade dispõe e criar oportunidades de articulação entre eles, de modo a circunscrever, trabalhar e alcançar objetivos comuns. Ao mesmo tempo, as metodologias utilizadas na ASC contribuem para o estabelecimento de redes locais, regionais, nacionais ou mesmo internacionais que promovam a relação do indivíduo com os diferentes contextos de formação e que o transforme em sujeito ativo e participativo na sua própria formação. Também as técnicas de ASC servem para criar formas de acompanhar e reforçar a criação desses espaços comunitários de educação, de forma a ir ao encontro das reais necessidades da comunidade. Existem, numa comunidade, do ponto de vista da educação, dois tipos de lugar: lugares educativos e lugares, sem pendor educativo, que se tornam lugares educadores. Assim, é essencial perceber as coordenadas da educação e quais as latitudes onde as podemos fixar.
Enquadramento teórico – A herança educativa na vertiginosa passagem do tempo
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“Entre a escola, o bairro, a habitação, o clube desportivo, a associação cultural e recreativa, o local de trabalho ou de lazer, há que estabelecer uma corrente de interação humana capaz de dar sentido ao quotidiano das pessoas e, assim, influenciar positivamente as suas trajetórias de vida” (Baptista, 2005: 73).