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Não foi diferente com o artesanato de Morros da Mariana. Toda a sua pequena e informal produção passava pelas mãos desses atravessadores que comercializavam as rendas junto aos diversos outros artefatos em suas lojas, quase sempre sem a preocupação de expor os produtos de maneira que não ficassem em cima ou na frente uns dos outros mas, de forma que todos pudessem ser vistos.

1.4 A Associação de Rendeiras de Morros da Mariana

Na tentativa de valorizar o trabalho das artesãs e melhorar a comercialização das rendas, no início da década de 1990, a então primeira dama do Estado, Carlota Freitas, apreciadora das rendas de bilro e apoiadora do artesanato que já se desenvolvia em todos os governos estaduais, incentivou, a seu turno, a união das rendeiras, configurando-se numa associação para concentrar a produção em um só local e estimular as encomendas coletivas, beneficiando compradores e trabalhadores (LIMA;

FERREIRA, 2011, p. 27). Além disso, o governo do Estado providenciou uma sede para a recém-formada associação. O Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) prestou assessoria às rendeiras em relação aos trâmites burocráticos e realizou consultorias sobre associativismo para as artesãs (FORTI, 2010).

Em 1992, Maria do Socorro Reis Galeno, presidente e porta-voz da associação, recebeu um convite juntamente com as rendeiras Ceição, Norinda, Graça, Chiquinha e Mariana, para uma reunião com Jaqueline Melo, consultora de projetos sociais de grupos de artesanatos que dirigia o Programa Estadual de Artesanato na época. Nesta ocasião, foi informado às rendeiras que seria construída uma casa para elas, mas para que isto acontecesse era necessária

a criação de uma associação. Relembrando aquele momento, Jaqueline Melo diz que

“A renda dos Morros da Mariana sempre foi muito conhecida dentro do segmento artesanal do Piauí, mas não havia organização, não tinha um grupo formalizado. Fizemos um trabalho com a comunidade, trabalho de formiguinha mesmo, visitando casa a casa, conscientizando e fazendo essa mobilização. Foi aí a primeira semente plantada nesse projeto.

Depois foi criada a associação, que não foi fácil, pois as mulheres não queriam sair de suas casas pra vir trabalhar na sede. Logo depois da criação conseguimos um recurso a fundo perdido através do Banco Mundial e da Secretaria de Planejamento para construção da sede própria, então inauguramos a primeira sede das rendeiras, nos Morros da Mariana. Foi um processo longo de capacitação na questão do associativismo, gerenciamento, pra que elas tivessem preparo pra gerir seu próprio negocio. A associação é uma pequena empresa. Outras entidades apoiaram a associação: a ONG chamada CASA, coordenada por Silvia Sasaoka, SEBRAE e o próprio Governo do Estado” (RODRIGUES, 2009)11.

Em 15 de junho de 1993, a Associação das Rendeiras de Morros da Mariana foi fundada, começando a funcionar com 22 rendeiras, relembra a presidente da Associação. Foi um desafio para elas, já que estavam acostumadas a trabalhar sozinhas no aconchego de suas casas. Com o tempo, viram que suas dificuldades eram ainda maiores, pois a procura pelos produtos que criavam estava cada vez mais escassa. Não possuíam nenhum tipo de ajuda de custo de órgãos públicos ou privados, e assim a Associação quase fechou, ficando apenas com duas artesãs (VEIT, 2003).

Durante os oito primeiros anos, não havia clientes suficientes para justificar a produção. As rendeiras relataram durante as entrevistas, que não havia muitos interessados na compra do artefato na época, e as artesãs da Associação acabaram se dispersando, voltando à exclusiva atividade de donas de casa ou procurando outros empregos.

A criação da Associação das Rendeiras, também conhecida como Casa das Rendeiras (Figura 16), foi um passo importante para iniciar o processo de valorização e preservação do artesanato de renda de bilro em Morros da                                                                                                                

11 Disponível em <http://www.proparnaiba.com/emfoco/projeto-cultura-e-renda-preservacao-e-difusao-da-renda-de-bilro.html> Acesso em maio/2013

Mariana, porém era necessário muito mais. Para Borges (2011, p. 159), era preciso que houvesse um sistema para o artesanato, com fatores considerados indispensáveis, tais como:

- Boa distribuição e comercialização, que por sua vez está ligado às noções de certificação e comércio justo;

- Incentivos adequados por parte do governo e das instituições da sociedade civil;

- Boa promoção da produção artesanal, divulgação, marketing e chegada aos mercados em que seu valor será reconhecido.

Todos os elos da cadeia produtiva devem ser levados em conta, desde a matéria-prima até a produção, comércio e serviços realizados, além das qualidades técnicas e estéticas dos objetos gerados no encontro entre artesãos, designers e gestores, e da relação respeitosa entre eles (BORGES, 2011).

Figura 16: Parte externa e interna da primeira Casa das Rendeiras.

Fonte: Página da Associação no Orkut12.

Por meio dessas ações combinadas, parece possível construir um caminho para o artesanato brasileiro e, no caso das rendeiras de Morros da Mariana, mudanças efetivas para encontrar este caminho começaram a ser percebidas a partir do ano 2000, impulsionadas por projetos e ações lá                                                                                                                

12 Disponível em

<http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=11552389998858658079&aid=1270482809>

Acesso em out/2013.

desenvolvidos.

Com a publicação de um catálogo desenvolvido pelo Programa Sebrae de Artesanato, que chegou às mãos de técnicos do Museu do Objeto Brasileiro – A Casa, houve o interesse em conhecer de perto o que eram aquelas rendas.

Começava aí o processo de desenvolvimento da parceria entre o Museu, os designers, os colaboradores e a Associação, a partir da realização de projetos que buscavam “vitalizar” o artesanato de renda de bilro, com ações que vão desde a inserção do design no processo produtivo das rendeiras até a difusão e valorização desta arte popular.

Dentre os projetos elegemos para análise três deles, que entendemos de grande significância para que possamos discutir sobre projetos de inserção do design dentro de comunidades artesãs, suas ações e resultados para aquela comunidade.

Hoje, a Associação de Rendeiras congrega cerca de 120 rendeiras, que alcançaram melhorias das condições de trabalho, tais como uma nova sede (Figura 17) com mais espaço, maior conforto para a confecção das rendas durante os dias quentes do Nordeste, com um ambiente mais ventilado e possibilitador de organização na exposição dos produtos, havendo assim maior produtividade e ganho, sem perder, contudo, a tradição de seu saber.

Figura 17: Partes externa e interna da atual Casa das Rendeiras.

Fonte: foto da Autora (2013).

2 PROJETOS DE DESIGN EM MORROS DA MARIANA

Este capítulo traz uma análise de três projetos de inserção de design na Associação de Rendeiras de Morros da Mariana, desenvolvidos entre os anos de 2000 e 2010. Esta análise consiste em relatar e discutir as ações desenvolvidas durante os projetos, por meio da percepção da pesquisadora e principalmente das artesãs envolvidas, buscando assim demonstrar resultados efetivos com as trocas de conhecimento acontecidas nesse período.

2.1 Os Projetos

A partir de entrevista com a presidente da Associação das Rendeiras de Morros da Mariana, dados obtidos na mídia e em pesquisa bibliográfica, foi construída uma análise a respeito dos projetos envolvendo design e valorização cultural desenvolvidos na comunidade de rendeiras de Morros da Mariana. Esta análise é crucial para, na sequência, abordar as contribuições e os resultados significativos para a comunidade e a cultura local a partir das ações combinadas entre designers, gestores e artesãs. Os projetos serão aqui apresentados de forma cronológica para um melhor entendimento das contribuições ocorridas ao longo dos anos.

2.1.1 Projeto Moda e Artesanato

Em novembro de 1999, a pesquisadora Juliana Campos, contratada pelo Museu do Objeto Brasileiro – A Casa, reuniu as rendeiras e falou da possibilidade de desenvolverem um trabalho juntas, com a execução de um projeto que associava moda e artesanato. Neste trabalho as rendeiras seriam parceiras e não meras mãos-de-obra (VEIT, 2003). Socorro Reis, presidente da

Associação das Rendeiras, relembra esse primeiro encontro:

Logo no primeiro contato do museu conosco, foram trazidas linhas para que nós fizéssemos algumas amostras de renda, com cores diferentes, pois na época nós só trabalhávamos com o branco, não trabalhávamos com linha de cor. E assim começamos a trabalhar junto com eles. A pesquisadora levou as amostras pra São Paulo, dizendo que nós tínhamos aceitado participar, e o pessoal de São Paulo começou a falar com a gente, através de ligações telefônicas (CULTURA..., 2008).

A escolha da comunidade para desenvolver um projeto de reinserção do artesanato no mercado foi feita por meio de dados obtidos através do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que relatava o alto índice de pobreza no Norte e Nordeste do Brasil, especificamente nos estados do Pará e Piauí (PEROBA, 2008, p. 81). Com o auxílio de um catálogo montado pelo Sebrae/PI, no qual constavam os grupos de artesãos e os trabalhos realizados por eles, elegeu-se a Associação das Rendeiras de Morros da Mariana como grupo de trabalho. O intuito, segundo A Casa (2001), era promover essa comunidade pela divulgação e qualificação de seu artesanato para o mercado, tendo sempre em vista o respeito às formas tradicionais de produção.

O projeto foi denominado Moda e Artesanato, e desenvolvido junto à comunidade pelo designer de moda Walter Rodrigues que, por sugestão da coordenadora de projetos do museu, Silvia Sasaoka, foi convidado para esta missão de encontrar uma nova função e novo caráter para a renda de bilro (PEROBA, 2008, p. 82). Em maio de 2000, Walter viajou para a cidade de Ilha Grande juntamente com Suzana Avellar, curadora do projeto, e lá na comunidade de Morros da Mariana passaram uma semana com as rendeiras da Associação, realizando experimentos e estabelecendo um forma de trabalho (A CASA, 2001). Foi um processo que envolveu grandes desafios, como podemos entender pelos depoimentos da presidente da Associação:

O Walter Rodrigues veio pra cá, estudou o caso, viu como era que a gente ia fazer. Veio também uma curadora de moda... E a gente começou a trabalhar com eles. Como a gente ia trabalhar com eles, eu comecei a falar com as rendeiras, reunir,

contar a estória, quem topava, quem não topava... algumas ficaram com medo, mas eu disse: Não gente, a gente vai ter que enfrentar esse negócio! (CULTURA..., 2008)

A presidente da Associação de Rendeiras, Socorro Reis, também teve a missão de buscar entre as rendeiras associadas mão de obra que tivesse interesse de participar do que, na fala de uma das artesãs convidadas, Socorro Freitas, seria um grande desafio:

Eu aprendi a fazer renda, só renda de metro, e trabalhava em casa. Aí eu tive um convite, a Socorro foi na minha casa, me convidou, aí eu vim tomar essa experiência porque eu não tinha experiência de aplicação, de blusa. Aí a primeira coisa que a Socorro mandou eu fazer foi uma aplicação quatro pontas, e essa aplicação me complicou... eu ia pra casa, chegava lá parava e pensava: eu vou conseguir, eu não vou desistir! Eu passei três dias pra aprender essa aplicação. Mas eu consegui! Quando eu consegui a aplicação, que eu tirei da renda, aí eu mostrei e disse: agora eu posso me considerar uma rendeira, porque essa aplicação era a mais complicada.

(CULTURA..., 2008)

A aplicação “quatro pontas” (Figura 18), a que a rendeira Socorro Freitas se refere no depoimento acima, foi o desenho escolhido por Walter Rodrigues para desenvolverem as peças da futura coleção, uma renda tradicional, porém mais “trabalhosa” em seu feitio do que as rendas de metro, as quais a maioria das rendeiras da Associação era acostumada a fazer.

Figura 18: Aplicação “quatro pontas”

Fonte: Foto da autora (2012)

A curadora responsável pelo projeto, Suzana Avelar, explica que a presença do designer foi muito cuidadosa e delicada, cujo intuito não era a alteração dos desenhos das rendas, mas que as rendeiras trouxessem desenhos antigos que estavam guardados há muito tempo (PEROBA, 2008, p.

85). Assim, as técnicas tradicionais de fazer bilro foram mantidas, porém a função foi ampliada na forma da roupa e as rendeiras puderam ver novas possibilidades de criação para o produto artesanal que mais sabiam fazer.

Além de novas funções para a renda que era produzida e o retorno de desenhos antigos e já quase esquecidos, por meio do projeto, as rendeiras puderam trabalhar com novos tipos de fios e cores, já que tradicionalmente só trabalhavam com a linha de algodão e na cor branca. A respeito destas mudanças, as rendeiras Socorro Reis e Edinalva relatam:

Era só branco, era só pano de bandeja, e bico com linha de algodão, as rendas tradicionais ainda, né?! E agora, com a convivência, a gente conseguiu levar pra frente. A gente conseguiu trabalhar com cores, a gente faz com qualquer tipo de linha. Nós trabalhamos com linha de viscose, linha de seda, qualquer linha que vier a gente trabalha (CULTURA..., 2008).

 

Foi novidade quando a gente chegou a fazer as camisetas, foi uma novidade muito grande. Depois que a gente começou a trabalhar, depois do Walter Rodrigues, é que a gente fez todo tipo de cor. A gente também não trabalhava com linha grossa, e hoje em dia não, a gente trabalha com linha Camila, de todas as cores (CULTURA..., 2008).

 

  A linha mais grossa que a rendeira Edinalva cita, começou a ser utilizada quando, pensando nas peças que deveriam ser apresentadas na SPFW (2001), foi discutido com o designer sobre o tempo de feitio das rendas.

Seria muito demorado desenvolver essas peças em linha fina, e optou-se pela alteração para uma linha mais grossa, que viabilizava o trabalho a tempo, sem perder a qualidade esperada.

Sobre os testes com novos materiais têxteis para a confecção da renda, realizados na Associação, as rendeiras Socorro Freitas e Laura Souza comentam:

 

Participei também da renda que a Fernanda Lima (atriz) também desfilou, eu fiz um pedaço daquela renda do Walter.

Que a gente trabalhou com a linha que a gente até colocou o nome da linha ‘carraspanha’, que ela é extraída de pau, parece que é de uma árvore, que eu não sei, que foi o Walter que rendas13, apresentando outros tipos de composição de linhas para as artesãs, como linhas de viscose, de seda, de fibras naturais e de elastano. Porém também foi observado que estas intervenções foram vistas de maneira positiva pelas rendeiras, que puderam contribuir com essas experiências, propondo trabalhar com linhas utilizadas em outros trabalhos artesanais e já conhecidas por elas, como foi o caso da linha Camila e as outras espessuras disponíveis da linha Esterlina.

Outra mudança alcançada por meio desse encontro entre design e artesanato, foi a ampliação do desenho em reprografia, aumentando o tamanho das rendas e possibilitando a multiplicação dos desenhos introduzida por Walter Rodrigues (A CASA, 2001). Com o tradicional método de papelão perfurado, só era possível reproduzir, de maneira ágil, a renda do mesmo tamanho. Para aumentar ou diminuir os motivos da renda era necessário alguém que tivesse conhecimentos em geometria para o feito, o que acabava sendo um obstáculo para o trabalho das rendeiras.  Desta forma, o uso da máquina de xerox, disponível na cidade, passou a fazer parte do trabalho artesanal diário (PEROBA, 2008). Em relação a essa ampliação do desenho escolhido para a construção das peças, Socorro Reis relata:

                                                                                                               

13 A linha utilizada tradicionalmente para o feitio de rendas de bilro em Morros da Mariana é chamada de Esterlina número 20, da marca Ciclo. É uma linha bem fina, o que faz com que as rendas tenham seu feitio mais demorado, com aparência e toque mais delicados.

A gente não criou nenhum desenho novo com o Walter, porque não era pra tirar a característica. A gente tinha que ficar no tradicional. Então ele veio e disse: "Vamos ver o que a gente vai fazer… a gente vai criar uns vestidos pro desfile, mas com os mesmos desenhos que vocês já sabem fazer, nós só vamos ampliar". Umas aplicações que a gente fazia pequenininhas14, a gente mandou ampliar, para fazer com linha grossa (Rendeira Socorro Reis, 2012 – informação verbal)

Walter Rodrigues também criou uma nova técnica para construir as blusas, saias e vestidos, a montagem em módulos (Figura 19). As rendeiras produziam os módulos, que depois eram montados pelo designer de acordo com suas criações. Esses módulos são as chamadas aplicações, como cita Socorro Reis em seu relato sobre as peças construídas usando a técnica:

Nós fizemos algumas camisetas com a renda inteira, mas a maioria das peças feitas com o Walter foi com aplicação. Todo mundo aprendeu a fazer aplicação e nós fizemos várias. Das aplicações ele montou os vestidos. Foi muita aplicação.

Inclusive tem até o nome da aplicação: aplicação quatro pontas. Então com essa aplicação quatro pontas quase todos os modelos foram feitas com ela. E fizemos também o vestido que saiu no desfile que era todo de pedaços, ele tinha doze pedaços. Daí pra cá a gente começou a fazer isso. Aí eu também aprendi a fazer isso. Por que de pedaços? Porque de pedaço dá pra dividir pra 3, 4 ou 5 pessoas, cada uma faz um pedaço e depois a gente monta o vestido. O vestido é feito por etapas, para andar mais rápido porque senão demora muito.

Fica uma fazendo a saia, a outra a blusa, porque o serviço é muito demorado e se for uma pessoa só fazer o vestido, nossa, demora muito. Três meses, quatro meses, cinco meses… Essa técnica a gente aprendeu com o Walter e ajudou muito no nosso trabalho (Rendeira e presidente da Associação, Socorro Reis, 2012 – informação verbal).

A técnica de montagem por módulos, que a princípio era desenvolvida somente pelo designer, foi ensinada para as rendeiras posteriormente, em um dos diversos outros encontros de Walter Rodrigues com as artesãs. Hoje as rendeiras já montam qualquer tipo de peça que precisem desenvolver, construindo-as por aplicações, além de dividir o trabalho entre elas para agilizar                                                                                                                

14 Aplicação “quatro pontas”, já apresentada anteriormente. Pode-se perceber pela Figura 4 que o corpo do vestido é montado com a junção de várias aplicações do tipo “quatro pontas”.

o processo15.  Essas aplicações são unidas pelo mesmo tipo de linha utilizada para construí-las, tomando como base o modelo que se pretender alcançar, a modelagem da peça ou o próprio corpo a ser modelado.

Figura 19: Vestido com corpo montado por módulos de aplicação “quatro pontas”. Criação de Walter Rodrigues.

Fonte: Página do Museu A Casa16

Podemos dizer que, a partir desta técnica, as artesãs assimilaram o processo de construção de peças de roupa por partes (Figura 20), e passaram a desenvolver camisetas, blusas e saias divididas em “pedaços”17 que, como foi lido acima na fala de Socorro, podem ser divididos para várias pessoas, se                                                                                                                

15 Visto que a renda de bilro em Morros da Mariana tem grande valor cultural, mas também não deixa de ser um produto.

16 Disponível em:

http://www.acasa.org.br/reg_mv/OB-00129/3f87b2b34a4d5640dee734de7c994ef4

17 Uma camiseta, por exemplo, pode ser feita dividida em quatro partes, sendo duas da frente e duas das costas. São essas partes que a rendeira chama de “pedaços”.

houver necessidade de rapidez na entrega da encomenda, o que demonstra uma preocupação delas com a questão do tempo.

Figura 20: Parte ou pedaço equivalente a ¼ de uma blusa inteira, construída a partir de modelagem prévia feita em papel próprio para a base de feitio de renda de bilro.

Fonte: Página do Museu A Casa18

Socorro Reis também relatou durante a pesquisa que, com o processo de construção das camisetas em partes, outro ponto a ser pensado surgiu. As rendeiras precisavam elaborar maneiras de aprimorar o acabamento do que elas chamam de “emenda” das partes, para que esta junção ficasse imperceptível. Unidas no salão principal da Casa das Rendeiras, as artesãs criaram uma técnica com as “terminações” (Figura 21), como explica Socorro:

A terminação é pra gente juntar os quatro pedaços de uma blusa, por exemplo, sem ter uma emenda na junção. Porque se eu não souber fazer vai ficar uma emenda bem no meio e fica horrível. Vamos fazer o caracol19 e deixar esses bilros aqui (ela                                                                                                                

18 Disponível em:

http://www.acasa.org.br/reg_mv/OB-00129/3f87b2b34a4d5640dee734de7c994ef4

19 Caracol é um tipo de ponto utilizado na construção das rendas de bilro.

está apontando para linhas soltas). As primeiras que nós fizemos, nós não tínhamos essa ideia de deixar as linhas, aí ficava a emenda. Não tem que ficar emenda. Como é que nós vamos fazer? Nós, aqui mesmo na sala da associação, com muitas cabeças pensando, até que uma disse assim: "Vamos deixar as linhas, a gente enrola, bota pro lado e quando a gente for recomeçar, a gente só enrola os bilros, não quebra pra não ficar nenhum nó". Aí quando a gente termina uma parte da peça, a gente vira o papelão pro outro lado pra fazer a parte do verso, pra peça ficar inteira. Eu viro o papelão, vou fazer pelo

está apontando para linhas soltas). As primeiras que nós fizemos, nós não tínhamos essa ideia de deixar as linhas, aí ficava a emenda. Não tem que ficar emenda. Como é que nós vamos fazer? Nós, aqui mesmo na sala da associação, com muitas cabeças pensando, até que uma disse assim: "Vamos deixar as linhas, a gente enrola, bota pro lado e quando a gente for recomeçar, a gente só enrola os bilros, não quebra pra não ficar nenhum nó". Aí quando a gente termina uma parte da peça, a gente vira o papelão pro outro lado pra fazer a parte do verso, pra peça ficar inteira. Eu viro o papelão, vou fazer pelo

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