1 ELABORAÇÃO DE UMA PROBLEMÁTICA COMUM PARA A INTERPRETAÇÃO
2.1 A REDITIO COMPLETA IN SEIPSUM
2.1.1 A atitude introvertida
No significado metafísico da abstractio e da reditio completa in seipsum encontra-se um paralelo com o conceito psicológico de introversão. Esta é uma atitude psicodinâmica contraposta à extroversão, e quando é a atitude predominante do indivíduo caracteriza o tipo introvertido. A diferença entre a atitude introvertida e a extrovertida é a de que na primeira "a libido da pessoa tende a ser dirigida a partir dos objetos do mundo externo para dentro dela", e na segunda "a libido da pessoa tende a ser dirigida a partir de si para objetos do mundo
82 [La vuelta del sujeto cognoscente sobre sí mismo y la liberación de un universal de sus respectivos «sujetos» es un proceso uno e idéntico](RAHNER. Espíritu en el Mundo, p. 134).
83 "Com efeito, nas substâncias separadas [da matéria] estão as razões de todas as coisas naturais" (I q. 89 obj. 1).
84 Também para o neuropsicólogo soviético Luria a consciência se fundamenta na abstração: "Ao generalizar os objetos, a palavra converte-se em um instrumento de abstração e generalização, que é a operação mais importante da consciência. Precisamente por isso, ao designar com uma palavra este ou outro objeto, o incluímos em uma determinada categoria. Isto significa que a palavra não é somente um meio de substituição das coisas, é a célula do pensamento, precisamente porque a função mais importante do pensamento é a abstração e a generalização" (LURIA. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria, p. 37).
externo"85. O termo "libido", na psicologia analítica, é intercambiável com "energia psíquica", ou ainda, "interesse".
A introversão, tal como descrita por Jung, realiza esse distanciamento entre sujeito e objeto que Rahner atribui ao pensamento ou intelecto – a "faculdade do único e unitário conhecimento humano de distanciar de si o outro dado na sensibilidade, pondo-o assim em questão; de julgá-lo, de objetivá-lo e, por isso mesmo, de fazer do cognoscente pela primeira vez um sujeito (...), alguém que está conscientemente em si mesmo"86. A introversão, aproximando-se desta função do intelecto, expressa "uma relação negativa entre sujeito e objeto. O interesse não se dirige para o objeto, mas dele se retrai e vai para o sujeito. Quem possui uma atitude introvertida pensa, sente e age de modo a deixar transparecer claramente que o motivador é o sujeito, enquanto o objeto recebe valor apenas secundário"87.
A relação entre a introversão e a abstração também se encontra de maneira mais explícita na seguinte passagem: "O introvertido se comporta abstrativamente; está basicamente sempre preocupado em retirar a libido do objeto como a prevenir-se contra um superpoder do objeto"88. Se na sensibilidade a consciência entrega seu ser ao outro, a introversão retira esse ser do objeto, devolvendo-o ao sujeito, da mesma forma que faz o processo de abstração.
Da parte de Rahner não há, portanto, nenhuma ambiguidade quando ele mesmo usa os termos “introversão” e “extroversão” ao se referir a estes momentos constituintes do espírito humano: “Em todo voltar-se para si mesmo, em toda «introversão» se manifestará sempre que todo conhecimento humano só pode ser «introversão» em uma «extroversão» ou saída ao
mundo”89: “O conhecimento humano, o humano estar consigo, que tem lugar em um entrar em si mesmo, em uma «intro-versão», só é possível enquanto receptivo, ou seja, mediante
85 HOPCKE. Guia para a obra completa de C. G. Jung, p. 62.
86 [Llamamos «pensamiento» o intelecto a la facultad del único y unitario conocimiento humano de distanciar de sí a lo otro dado en la sensibilidad, poniéndolo así en cuestión; de juzgarlo, de objetivarlo y, por lo mismo, de hacer del cognoscente por vez primeira un sujeto (...), alguien que está conscientemente en sí mismo]
(RAHNER. Espíritu en el Mundo, p. 130). 87 JUNG. Tipos Psicológicos (OC 6), §864. 88 JUNG. Tipos Psicológicos (OC 6), §622.
89[En todo volverse hacia sí mismo, en toda «introversión» se manifestará siempre que todo conocimiento
humano sólo puede ser «introversión» en una «extraversión» o salida al mundo] (RAHNER. Oyente de la Palabra, p. 156).
uma «extro-versão», um sair para fora, a algo alheio ao cognoscente (...)”90. Rahner se refere, aqui, à inseparabilidade da abstractio e da conversio ad phantasma, e ao fato de que o retorno a si mesmo pela abstração depende da sensibilidade (o estar fora de si), a partir da qual se realiza a abstração.
O efeito do distanciamento do mundo operado pelo intelecto é o de colocar o objeto como algo a ser questionado e julgado. Na introversão segundo Jung, por sua vez, algo semelhante acontece. "(...) entre a percepção do objeto e o agir do introvertido se interpõe uma opinião subjetiva, impedindo que o agir assuma um caráter correspondente ao dado objetivo"91. A introversão permite um distanciamento através do qual o sujeito se torna livre para agir independentemente do modo de ser do objeto.
Uma consideração mais aprofundada, porém, mostra que na introversão não se trata de fortalecer o Eu consciente, mas sim a subjetividade humana enquanto tal. Ao desprender-se do objeto, o agir do introvertido passa a orientar-se por outros fatores. "Normalmente, a atitude introvertida se orienta pela estrutura psíquica, dada, em princípio, pela hereditariedade, que é uma grandeza inerente ao sujeito. Mas não se deve identificá-la simplesmente com o eu do sujeito, (...) é a estrutura psíquica do sujeito antes de qualquer desenvolvimento de um eu"92, ou seja, o inconsciente coletivo. É esta estrutura que permite entender, talvez, o significado da afirmação de que o retorno a si mesmo se dá através do conceito universal abstraído. Este último é um conteúdo "da parte do sujeito", sendo, portanto, proveniente da sua estrutura psíquica. “A realidade do predicado[quer dizer, do universal] é dada a priori, uma vez que sempre existiu na mente humana [na sua estrutura subjetiva]. Somente pela crítica subsequente é a abstração privada da qualidade do real [ao ser considerada como diferente do objeto sensível encontrado “realmente” no mundo]”93. Deve- se notar, a este respeito, que quanto mais o psiquismo se distancia do objeto, mais ativa as representações subjetivas do inconsciente.
Provavelmente, o mecanismo de tais fenômenos tem uma explicação energética. As relações normais com os objetos do mundo se fazem às expensas de uma certa quantidade de energia. Se essa relação com o objeto é interrompida há uma "retenção" de energia que forma, por seu lado, um substituto equivalente. (...) Este é
90[El conocimiento humano, el humano estar consigo, que tiene lugar en un entrar en sí mismo, en una «intro-
versión», sólo es posible en cuanto receptivo, o sea, mediante una «extra-versión», un salir hacia fuera, a algo ajeno al cognoscente (…)] (RAHNER. Oyente de la Palabra, p. 159].
91 JUNG. Tipos Psicológicos (OC 6), §691. 92 JUNG. Tipos psicológicos (OC 6), §695.
o motivo pelo qual o homem primitivo povoava os lugares desertos e solitários de "diabos" e outros fantasmas94.
Também é este o motivo pelo qual o místico volta seu olhar para o próprio interior. É preciso, mediante este procedimento, direcionar a atenção para os conteúdos que dependem de sua própria estrutura subjetiva, e no qual se encontram conhecimentos inatos, legados hereditariamente e prontos para serem desenvolvidos rumo a uma estruturação ainda mais próxima ao mistério – mistério da matéria e do espírito.