II. O POTENCIAL FITOGEOGRÁFICO PARA APICULTURA
2.2. A ATIVIDADE APÍCOLA COMO ALTERNATIVA PARA A
Diante da relevância da questão abordada é inquestionável o valor utilitário da biodiversidade, especialmente as formações florestais, face aos serviços ambientais proporcionados nas mais variadas escalas geográficas. Pela sua importância para humanidade, Wilson (1997) reforça que a diversidade biológica por ser um recurso global, precisa ser tratada com seriedade, para que possa ser registrada, usada e conservada.
As evidências apontam urgência na criação e implementação de estratégias que assegurem a conservação da biodiversidade, pois o aumento da população humana e o consumo desenfreado implicam numa série de impactos ambientais, gerados a partir da forte ação antrópica que altera ambientes naturais, como por exemplo, paisagens substituídas pelas lavouras, pastagens, hidrelétricas e cidades, com a finalidade de satisfazer as necessidades do homem. Porém, essa substituição, provoca perdas significativas para a biodiversidade, principalmente quando não prioriza estratégias de gestão e planejamento ambiental.
É inegável a necessidade de alternativas para amenizar os impactos provocados a fim de conservar os remanescentes que se constituem em importantes refúgios da biodiversidade. Por conseguinte, o potencial fitogeográfico, disponibilizado pela diversidade biológica, vem sendo usado para o desenvolvimento de atividades, ligadas ao extrativismo sustentável, que contribui para sua conservação. Dentre as atividades pode-se citar: coleta de frutos e amêndoas, como o exemplo da Castanha do Pará que tem grande aceitação no mercado internacional; resinas e óleos retirados das plantas, os quais servem de matéria prima para fabricação de medicamentos e cosméticos, dentre outras atividades que não deterioram e/ou agridem o ambiente, como a apicultura.
Pelo valor da biodiversidade no contexto contemporâneo, Silva (2011) reforça que a apropriação dos territórios detentores de biodiversidade vem sendo considerada uma estratégia de ordenamento territorial especialmente como fonte de poder visando controlar o acesso e uso dos territórios megadiversos, como o caso do Brasil que dispõe de incalculável potencial fitogeográfico.
A cobertura vegetal do Brasil é bastante diversificada, apresentando-se com características específicas em cada localidade, variando conforme as condições físicas do solo, clima, altitude e relevo (ALONSO, 1974). Ab’Saber (2003) complementa quando indaga que o território brasileiro comporta um mostruário bastante completo das principais paisagens e ecologias do mundo tropical, dispondo de grandes potencialidades paisagísticas regionais, representadas pelas formações vegetais, tais como: Floresta Amazônica, Complexo do Pantanal, Cerrado, Florestas Subtropical com ocorrência de Araucária, Campos, Mata Atlântica e Caatinga. Todavia, a vegetação original do país vem sendo sistematicamente substituída por diversas atividades. O processo de ocupação humana resultou em perdas substanciais para a biodiversidade, a exemplo a Mata Atlântica que ficou reduzida a 7%.
Essa vegetação, associada à extensão territorial e a variabilidade climática possibilita ao país um grande potencial apícola, com colheitas durante todo o ano, o que sem dúvidas diferencia-o dos outros países produtores que, normalmente, colhem mel uma única vez por ano (MARCHINI; SODRÉ; MORETI, 2004).
Embora parte significativa da vegetação original já tenha sido retirada, o Brasil ainda é detentor da maior extensão de florestas tropicais do mundo. As áreas de florestas nativas no país correspondiam a 65% do seu território, ou seja, 544 milhões de hectares e mais cinco milhões de hectares de florestas plantadas (BRASIL FLORESTAL, 2001 e FAO, 2000 apud FONTES, 2005).
O termo biodiversidade é considerado pelas literaturas como relativamente recente no panorama científico mundial, emergindo nas décadas de 1980 e 1990 (TAKACS, 1996 apud, SANTOS, MENEZES e NUNES, 2005), porém, diante da crise ambiental mundial, foi rapidamente absorvido, sobretudo nos fóruns internacionais, como na Rio-92. Em meados da década de 1980 o desmatamento da floresta amazônica emergiu o centro do debate ecológico mundial, levantando o próprio conceito de biodiversidade. (SANTOS, 2005).
Para Shiva (2005), a biodiversidade é entendida como a diversidade de formas de vida, ou seja, plantas, animais, microorganismos. No contexto histórico, a biodiversidade, no passado, era tida como base para a sobrevivência de comunidades pobres, porém, para a sociedade contemporânea, é considerada a base ecológica para a vida e, sobretudo, como o “capital natural” para dois terços da humanidade, que investe na biodiversidade como forma de produção para desenvolver as atividades agrícolas, pesqueiras, de saúde e produção de utensílios, no contexto mundial.
Contudo, a biodiversidade revelou-se, no século XXI, um banco de recursos genéticos, considerados como matéria-prima essencial para atender aos anseios dos grandes consórcios das indústrias de biotecnologia, principalmente a farmacêutica e de alimentos. Grandes empresas internacionais investem em pesquisas a partir das riquezas naturais com objetivo de descobrirem novos produtos, a partir de então obter benefícios monetários patenteando as descobertas.
Nesse contexto, Iltis (1997) reforça a importância de investimentos na conservação da biodiversidade, pois essa é considerada como fonte imensurável de materiais genéticos necessários para o melhoramento de espécies de plantas cultiváveis. No entanto, é necessário
realizar investimentos em pesquisas com objetivo de detectar novas espécies para serem utilizadas no melhoramento genético de espécies atualmente cultivadas. Exemplificando tal relevância, o autor, cita a descoberta de uma variedade de tomate selvagem em uma expedição científica realizada por ele e por outro pesquisador (Don Ugent) nos Andes peruano, onde essa descoberta rendeu dez anos mais tarde um ganho potencial de 8 milhões de dólares por ano a economia americana.
O investimento feito para a descoberta dessa nova variedade de tomate foi de apenas 42 dólares no total e 21 dólares na coleta das sementes em 1962. Contudo, o custo total da expedição na época foi de 21 mil dólares incluindo nessa pesquisa, além dessa espécie de tomate, mais de mil exemplares usados para outras atividades. Esse exemplo serve, para ilustrar a importância da biodiversidade para o ser humano, na descoberta de novas variedades de cultiváveis, refletindo também na economia. Dessa forma, é necessário que os trabalhos voltados para a proteção da biodiversidade sejam intensificados, e que os governantes mundiais realizem investimentos no planejamento e em pesquisas visando proteger a natureza, e descobrir novos produtos úteis ao homem (ILTIS, 1997).
Nas análises de Carvalho (2005), cerca de 70% da biodiversidade mundial concentra- se em apenas 12 países, os chamados países megadiversos, sobretudo, com exceção da Austrália, esses territórios estão concentrados nos países em desenvolvimento: México, Colômbia, Equador, Peru, Brasil, Congo, Madagáscar, Índia, Bangladesh, China e Indonésia.
Apesar da importância do potencial fitogeográfico concentrado nesses países, Dupas (2008) destaca que grande parte das florestas do planeta está sendo sistematicamente destruída, e consequentemente, a biodiversidade, com a eliminação de variedades genéticas que jamais foram catalogadas.
No Brasil, não é diferente, pois os recursos naturais existentes encontram-se ameaçados em virtude do processo de ocupação e exploração territorial sem planejamento, contribuindo para a perda da biodiversidade. Neste cenário, Carvalho (2005) acrescenta que são indiscutíveis as preocupações evidenciadas com a escassez de matérias-primas, principalmente, para atender a demanda da biotecnologia.
Os recursos naturais no Brasil vêm sendo dilapidados desde o período colonial de forma que a utilização de tais recursos sempre ocorreu de forma desigual. No cerne desta questão, está o uso dos recursos minerais; dos solos, levando ao seu esgotamento; e da
exploração dos recursos florestais (PORTO-GONÇALVES, 2006). Viadana (2007) acrescenta que os domínios paisagísticos do país estão sendo devastados pela incompreensão dos poderes responsáveis em criar mecanismos e permitir cada vez mais que as gerações presentes e futuras dos cientistas possam focar seus esforços em conhecimentos adequados, para que de fato possa contribuir para melhorar a qualidade de vida da população, contribuindo também para diminuir os impactos causados ao ambiente, onde a vida se desenvolve.
Um dos grandes desafios no século XXI para a proteção da biodiversidade é encontrar alternativas para minimizar os impactos causados pelo avanço do agronegócio, sobretudo em virtude da necessidade de novas áreas para a produção, não somente de alimentos, mas também para atender as necessidades de produção de biocombustível e celulose.
Desse modo, em virtude dos impactos causados aos ecossistemas, que resulta na perda da biodiversidade, há necessidade de proteger os recursos naturais considerados fonte de vida. Entretanto, nas análises de Figueiredo; Silva; Souza (2006) a proteção da diversidade biológica não é uma tarefa fácil, pois a crescente demanda por tais recursos envolvem tomadas de decisões difíceis, tendo em vista que de um lado tem-se a necessidade de proteger a biodiversidade e do outro a crescente demanda das sociedades humanas pelo uso dos recursos naturais.
Para a proteção da biodiversidade é de fundamental importância a utilização dos saberes e das formas de manejo pertencentes às populações locais. Nesse aspecto, as atividades produtivas contêm e combinam formas materiais e simbólicas com as quais os grupos humanos agem sobre determinado recorte territorial (CASTRO, 2000).
Nessa direção, Leff (2006) suscita a utilização dos princípios da agroecologia e da agrofloresta para o manejo integrado dos recursos naturais com propósito de fornecer subsídios para melhorar a produção, sobretudo, fundamentada na diversidade biológica da natureza e na riqueza cultural dos povos da América Latina e dos países em desenvolvimento. Assim, há diversas possibilidades de manejo dos recursos naturais extraídos, principalmente para o aproveitamento múltiplo dos territórios que possuem floresta tropical, através da utilização de práticas de manejo adequadas, comumente utilizadas pelas populações tradicionais, permitindo assim, a regeneração seletiva de seus recursos naturais e o cultivo de produtos diversificados.
No nordeste brasileiro, a atividade apícola pode ser considerada como alternativa para a conservação dos recursos naturais, especialmente a vegetação de Caatinga e Mata Atlântica, além de ser fonte alternativa de renda para os pequenos produtores local.
O espaço nordestino do país costuma ser definida como uma região de contrastes e problemas, onde o desenvolvimento econômico constitui, sem dúvidas, um dos grandes obstáculos da política de desenvolvimento regional no âmbito do governo federal. Como resultados das diversidades físicas e humanas encontradas nesta região, surgem paisagens regionais diversas com características próprias (SILVA, 1974), tais como: a Caatinga e a Mata Atlântica as quais, mesmo após o processo de desmatamento ainda tem potencial fitogeográfico que pode ser usado para atividades que contribuam para sua conservação ecológica.