Parte I: Pressupostos Teóricos
2.3 O conjunto das atividades do sujeito determina o desenvolvimento da sua
2.3.1 A atividade como unidade explicativa do processo histórico de
Historicamente, a formação da consciência humana tem seus fundamentos no trabalho como atividade vital. É o trabalho que possibilita, ao homem, a superação da atividade imediata, que o caracterizou durante o processo de hominização: dada necessidade produzia determinados comportamentos, cujo objetivo direto era sempre o seu atendimento. Assim, a fome era motivo da consecução do alimento, diretamente extraído da natureza.
A complexificação das relações entre os primeiros homens foi mediada pela criação dos primeiros instrumentos de trabalho. O homem responde às suas necessidades pelo uso de elementos da natureza. A observação ativa permitiu que as propriedades dos elementos naturais ⎯ percebidas, primeiro, incidentalmente ― passassem a ser, intencionalmente, utilizadas para a produção de instrumentos facilitadores do trabalho.
Tal facilitação deu origem, num movimento contínuo e, cada vez mais complexo, à divisão técnica46 do trabalho: para conseguir alimento ⎯ ou o atendimento de quaisquer outras necessidades ⎯ cada pessoa torna-se responsável por determinada função: pela produção de instrumentos, pelo planejamento sobre o que fazer, pelas diferentes ações que podem compor uma atividade. A linguagem, em conjunção com essa atividade prática, torna- se cada vez mais necessária e assume, para o processo de complexificação da consciência humana, um papel fundamental, tendo em vista que permite a comunicação e, com ela, a troca de experiências e a sofisticação das formas de reflexo sobre a realidade, que passam a ser mediadas por signos verbais.
Com a divisão técnica do trabalho e a complexificação da atividade, surgem as ações: fazeres que não têm por objetivo imediato a satisfação direta de uma necessidade, mas a
46 Cabe ressaltar a diferença entre a divisão técnica do trabalho, em que cada sujeito atua de acordo com suas
possibilidades no interior da atividade, e a divisão social do trabalho que se refere ao lugar ocupado pelo sujeito na organização social.
conquista de finalidades que se subordinam a um motivo gerador, relacionado a ela. E essa é uma conquista fundamental para a sofisticação da atividade humana, ainda que, contraditoriamente, traga consigo a possibilidade de alienação: a não-coincidência entre motivos da atividade e objetivos das ações permite, por um lado, a percepção do objetivo da ação em sua relação com o motivo que impulsiona o sujeito a agir; por outro, cria condições para a alienação do trabalho humano, uma vez que torna possível a separação entre o trabalhador e o produto da atividade.
Desse modo, o homem tornou-se capaz de realizar tarefas, cujos resultados atendessem apenas mediatamente ao motivo que gerou a atividade. Pôde, portanto, afastar-se dele, realizando ações secundárias que, em conjunto, pudessem satifazê-lo. Um exemplo disso é a própria produção de instrumentos: o homem sente necessidade de alimentar-se. Mas, para tanto, em vez de dedicar-se a agarrar um animal e, logo, contentar-se, passa a produzir uma arma que facilite a caça. Ora, a produção da arma não tem por objetivo imediato a satisfação da fome. Relaciona-se com essa satisfação de maneira secundária. A sua produção possui um fim, que é criar um instrumento facilitador da caça. Esse fim se subordina a um motivo gerador, diretamente relacionado à necessidade de alimento.
Caçar é a atividade, cujo motivo, expresso psicologicamente, é a sobrevivência por meio do alimento. Mas, como atividade especificamente humana, é constituída por diferentes ações com objetivos/finalidades próprios que, em relação, concorrem para o sucesso do empreendimento ― sucesso esse dado pela satisfação da motivação que impele o homem a agir. A aparição das ações denota, desse modo, a complexificação do trabalho e do psiquismo humano, a capacidade de ideação e de subordinação de motivos.
É fundamental salientar, aqui, o movimento que acontece entre essa divisão do trabalho e a necessidade da linguagem. O enriquecimento das ações humanas ― que se complexificam em relação direta com a complexificação das relações entre as pessoas ―
possibilita e é possibilitado pela linguagem. Ela sofistica as relações humanas, possibilitando que as ações efetivem-se, tanto no plano material como no plano mental, tendo em vista que podem ser, por seu intermédio, representadas.
A linguagem permite as relações simbólicas, mediatas, mediadas. É ela quem porta os significados, socialmente constituídos, que tornam efetiva a comunicação. Assim, para ensinar o manejo e a produção dos instrumentos, ela é o meio privilegiado de representação da consciência humana. De acordo com Leontiev (1978b), a linguagem é a consciência prática. É através dela que se cristaliza, nos significados das palavras, a prática social.
Tendo em vista que as atividades são internalizadas pelos homens sob a forma de reflexos psíquicos, que conformam suas capacidades e funções psicológicas, a linguagem passa a ser utilizada como forma de expressão e como mediadora desse conjunto de reflexos, sob a forma de significados. Os reflexos psíquicos, no entanto, não são mera cópia do externo no interno; a consciência não é apenas formada pelo conhecimento da realidade; os significados não são formas prontas e acabadas de expressão das consciências, a serem meramente transpostos do exterior para o interior. A consciência humana está constituída, também, pelos sentidos pessoais. E isso significa que cada indivíduo, ao apropriar-se da linguagem, dos usos e costumes, o faz de forma única e irrepetível, pessoal e intransferível. A consciência é, portanto, o reflexo subjetivo dos objetos e relações sociais, que se constitui por intermédio da atividade prática e da linguagem ⎯ representantes do social. Porta, em si, tanto o conhecimento da realidade e a possibilidade de relacionar os reflexos sensoriais presentes na percepção humanizada do mundo, através do pensamento ⎯ o que representa seu aspecto cognitivo, formado pelas percepções, representações, ideações, generalizações próprias da inteligência humana ⎯, como, também, a forma pessoal de relacionar-se com tal realidade ⎯ que demanda o estabelecimento de motivos, conformadores da personalidade.
É a complexificação da atividade humana, representada pela divisão técnica do trabalho o que gera, na consciência, o pensamento. O pensar humano tem como fonte a percepção sensorial e configura-se através das relações estabelecidas entre os fenômenos, que passam a ser vistos para além do que demonstram os órgãos dos sentidos, para além do caráter fenomênico. Trata-se de uma função que vincula atividade prática externa e atividade teórica
interna. Assim, o trabalho apresenta ao homem, afora os objetos materiais produzidos,
também, a sua interação: o estabelecimento de relações entre os objetos e suas funções objetivas ⎯ os resultados que o seu uso promove. Com isso, ficam ultrapassados os limites colocados pelos reflexos sensoriais diretos. Na relação estabelecida entre os instrumentos de trabalho e a natureza, o homem torna-se capaz de perceber características específicas dos materiais com que toma contato e passa a ‘experimentá-los’, subordinando-os a uma atividade cognitiva consciente. Os resultados de tais experimentos são, então, generalizados e comunicados através da linguagem. A comunicação verbal forma, nesse processo, um sistema de conhecimentos, que se integram à consciência coletiva e, por intermédio da apropriação pelo sujeito, passam a constituir a base da consciência individual. A atividade gera, portanto, o conhecimento e a necessidade de conhecer: a atividade humaniza.
Historicamente, a fala visa, pois, tanto à comunicação quanto ao acompanhamento da atividade material. É interessante notar que essa fala vai sendo, progressivamente, internalizada, originando a capacidade de confrontação mental, de análise, que culmina no trabalho intelectual, no pensamento teórico, afastado, inclusive temporalmente, da atividade prática. Temos que a atividade prática origina a atividade cognitiva, ambas diferentes por seu caráter, mas aproximam-se, por compartilharem uma base comum, uma única estrutura. Além disso, é importante lembrar que as atividades externa e interna interatuam através de transições complexas: uma aporta à outra as suas especificidades, constituindo-se mutuamente.
As intrincadas relações entre cognição e emoção, na atividade, geram novos sistemas em seu interior: o movimento dos significados, apropriados na relação entre atividade e linguagem, gera, historicamente, como já apontamos anteriormente, os sentidos pessoais. De acordo com Leontiev,
Diferentemente dos significados, os sentidos pessoais, da mesma forma que a trama sensorial da consciência, não possuem uma existência ‘supraindividual’, ‘não psicológica’. Enquanto a sensorialidade externa vincula na consciência do sujeito os significados e a realidade do mundo objetivo, o sentido pessoal os vincula à realidade de sua própria vida nesse mundo, seus motivos. O sentido pessoal é o que cria a parcialidade da consciência humana.[...] dissemos que na consciência individual os significados se ‘psicologizam’, retornando à realidade do mundo que é dada sensorialmente ao homem. Outra circunstância ⎯ decisiva ⎯ que transforma os significados em uma categoria psicológica é que, ao funcionar no sistema da consciência individual, os significados não se realizam a si mesmos, mas o movimento do sentido pessoal encarnado neles, desse ser-para-si do sujeito concreto. (1978b, p. 120, grifos do autor, tradução nossa).
Em resumo, podemos afirmar que, no processo histórico de desenvolvimento da humanidade, a atividade prática sobre a natureza ⎯ o trabalho ⎯ consolida conhecimentos e envolvimento emocional do homem com o real, tornando-se a base do desenvolvimento das funções psíquicas superiores e da consciência do indivíduo, mediadas pela linguagem.
Cabe, porém, salientar que o desenvolvimento de cada homem não é a repetição do desenvolvimento histórico da humanidade. O indivíduo desenvolve-se, na ontogênese, sobre a base historicamente produzida por outros homens. Reproduz suas atividades e, nesse processo, realiza o movimento de “transbordamento do objetivo no subjetivo” (LEONTIEV, 1978b), que se caracteriza pela formação de imagens, representações e conceitos a respeito da realidade na consciência individual, pautados na apropriação-objetivação dos significados; além de motivos que se fundamentam na atribuição de sentidos a sua própria atividade e a si mesmo. É importante ressaltar que, de acordo com os postulados da Teoria da Atividade (LEONTIEV, 1978b), a consciência se forma através do movimento, dos vínculos que o sujeito estabelece entre os elementos presentes em sua atividade prática e teórica, que
resultam nas formações cognitivas e afetivas da consciência. A interiorização das relações estabelecidas, pelo sujeito, com objetos e pessoas consolida-se, pois, sob esse ponto de vista, como a formação do plano da consciência em cada indivíduo.
Como se sabe, se denomina interiorização à transição da qual resulta que processos externos por sua forma, com objetivos também externos, materiais, se transformem em processos que transcorrem no plano mental, no plano da consciência; por sua vez, são submetidos a uma transformação específica, ou seja, se generalizam, verbalizam, reduzem e o principal é que se tornam capazes de continuar um desenvolvimento que transcende as possibilidades da atividade exterior. (LEONTIEV, 1978b, p. 76, tradução nossa).
A atividade é a unidade explicativa do homem. É, portanto, a unidade básica da personalidade. Mediada pelas relações sociais e pela cultura, tem, nas condições objetivas, a fonte de seus motivos, procedimentos e meios. É por seu intermédio que as necessidades especificamente humanas são produzidas. Nesse sentido, cada indivíduo forma, em si ⎯ por sua atuação ⎯, pensamentos, conhecimentos, capacidades e, simultaneamente, necessidades, motivos, interesses. Unem-se, indissoluvelmente, na conformação do homem, cognição e afetividade, inteligência e personalidade.
Vimos que o trabalho, como atividade vital humana, permitiu o desenvolvimento histórico da humanidade e promoveu a conformação do psiquismo do homem como ser genérico. Podemos questionar: que características da atividade são específicas na ontogênese? Como a atividade, por sua estrutura e função, atua no desenvolvimento da personalidade humana?
Tendo compreendido a importância da atividade para o desenvolvimento histórico da humanidade, passemos, agora, a contemplar, mais especificamente, a forma pela qual ela se consolida como unidade da personalidade do indivíduo.