4 Resultados e discussão
4.1 A atividade do trabalhador durante o levantamento de paredes
Na atividade do pedreiro durante o levantamento de paredes cada tijolo assentado corresponde a um ciclo de trabalho. Nas fases 1 e 2 do levantamento de paredes, cada ciclo de trabalho tem duração média de 24,6 segundos, perfazendo um total de 2,439 ciclos por minuto, com desvio padrão de 1,075 e coeficiente de variação de 0,044 (tabela 5). Nas fases 3 e 4 do levantamento de paredes constatou-se um tempo médio por ciclo de trabalho de 24,5 segundos, perfazendo um total de 2,448 ciclos por minuto, com desvio padrão de 0,905 e coeficiente de variação de 0,037(tabela 5).
Tabela 5 Tempo dos ciclos de trabalho por fases do levantamento de paredes
Fases Duração ciclos
(s)
Nº Ciclos/min Desvio padrão Coeficiente de
variação
1 e 2 24,6 s 2,439 1,075 0,044
3 e 4 24,5 s 2,448 0,905 0,037
A atividade do pedreiro durante o levantamento de paredes consiste em:
- O funcionário pega a massa do balde com a colher de pedreiro colocando-a sobre o tijolo anteriormente assentado, repetindo esta tarefa três vezes;
- retira o tijolo do chão com a mão não dominante;
- coloca o tijolo no local do assentamento, apoiando-o com as duas mãos; - bate por três vezes com a colher de pedreiro em cima do tijolo;
- retira o excesso de massa ao redor do tijolo assentado; - devolve o excesso de massa ao balde;
- confere visualmente o tijolo assentado; - verifica o prumo;
Para a realização da tarefa notou-se o desenvolvimento de uma vasta série de posicionamentos durante a atividade. Notou-se também que estas variavam conforme a zona de trabalho (altura da parede em levantamento). Nas zonas 1 e 3 os posicionamentos e posturas assumidas se assemelhavam, sendo que o mesmo acontecia nas zonas 2 e 4 do levantamento.
Nas zonas 1 e 3 o trabalhador encontra-se na grande parte do tempo ajoelhado, e desenvolve posicionamentos e posturas adaptadas a realidade vigente. Na tabela 6 apresenta a seqüência de ações técnicas do ciclo e situações ergonomicamente inadequadas que estas ações acabam desencadeando.
Tabela 6 Seqüência de ações técnicas no ciclo e situações ergonomicamente inadequadas nas zonas 1 e 3
Seqüência de passos do
trabalho Exigência Ergonômica Partes do Corpo
Pegar a massa Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo, ombro dominantes.
Flexão leve de tronco Coluna lombar Movimentos estáticos Postura em tripla flexão de
membros inferiores Semi-ajoelhado Músculos dos membros
inferiores
Rotação lateral de tronco Músculos do tronco e coluna
Pegar tijolo do chão Movimentos repetitivos Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes. Flexão de tronco com flexão de
membros inferiores. Coluna lombar Movimentos estáticos
Postura em tripla flexão de membros inferiores Rotação lateral de tronco Músculos do tronco e coluna Semi-ajoelhado Músculos dos membros
inferiores
Colocar o tijolo no local Movimentos repetitivos Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e dominantes. Movimentos estáticos Postura em tripla flexão de
membros inferiores Semi-ajoelhado Músculos dos membros
inferiores Bater em cima do tijolo Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo,
dominantes.
Movimentos estáticos
Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e ombro
dominante.
Postura em tripla flexão de membros inferiores Semi-ajoelhado Músculos dos membros
inferiores Bater na extremidade de tijolo Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo,
dominantes.
Movimentos estáticos
Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e ombro
dominante.
Postura em tripla flexão de membros inferiores. Semi-ajoelhado Músculos dos membros
inferiores
Retirar excessos de massa Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo, ombro dominantes.
Semi-ajoelhado Músculos dos membros inferiores
Movimentos estáticos Postura em tripla flexão de membros inferiores. Conferir visualmente Flexão de cervical Coluna cervical
Semi-ajoelhado Músculos dos membros inferiores
Movimentos estáticos Postura em tripla flexão de membros inferiores.
Verificou-se a presença de uma vasta quantidade de movimentos estáticos, extremamente relacionados a postura em tripla flexão de membros inferiores, movimentos repetitivos, associados principalmente as extremidades dos membros superiores, flexões de cervical inadequadas, flexões puras de tronco e flexões de tronco associadas a rotações laterais de tronco.
Nas zonas 2 e 4 o trabalhador encontra-se na grande maioria do tempo em pé e desenvolve posicionamentos e posturas adaptadas a esta realidade.
A tabela 7 apresenta a seqüência de ações técnicas do ciclo nas zonas 2 e 4 e situações ergonomicamente inadequadas que estas ações acabam desencadeando.
Tabela 7 Seqüência de ações técnicas no ciclo e situações ergonomicamente inadequadas nas zonas 2 e 4
Seqüência de passos do
trabalho Exigência Ergonômica Partes do Corpo
Pegar a massa Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo, ombro dominantes.
Acentuada flexão de tronco com extensão de membros inferiores.
Coluna lombar Parado em pé Músculos dos membros
inferiores e eretores da coluna Pegar tijolo do chão Movimentos repetitivos Mão punho, cotovelo e ombro
não dominantes. Acentuada flexão de tronco
com extensão de membros inferiores.
Coluna lombar
Parado em pé Músculos dos membros inferiores e eretores da coluna Colocar o tijolo no local Movimentos repetitivos
Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e
dominantes. Parado em pé Músculos dos membros
inferiores e eretores da coluna Bater em cima do tijolo Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo,
dominantes. Movimentos estáticos
Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e ombro
dominante. Parado em pé Músculos dos membros
inferiores e eretores da coluna Bater na extremidade de tijolo Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo,
dominantes. Movimentos estáticos
Mão punho, cotovelo e ombro não dominantes e ombro
Parado em pé Músculos dos membros inferiores e eretores da coluna Retirar excessos de massa Movimentos repetitivos Mão, punho, cotovelo, ombro
dominantes. Parado em pé Músculos dos membros
inferiores e eretores da coluna Conferir visualmente Flexão de cervical Coluna cervical
Parado em pé Músculos dos membros inferiores e eretores da coluna
Verificou-se a presença de uma vasta quantidade de movimentos estáticos, movimentos repetitivos, flexões de cervical, flexões e rotações laterais acentuadas de tronco, sempre com o posicionamento ortostático associado. A postura em pé, conforme Iida (2005, p. 166) é altamente fatigante, pois exige muito trabalho estático. Na atividade avaliada, a musculatura dos membros inferiores e eretores da coluna acabam sendo demasiadamente utilizados devido à atividade estática relacionada ao posicionamento em pé. Ainda conforme Iida (2005, p.166) neste posicionamento o coração encontra maiores resistências para bombear o sangue para os extremos do corpo. Outro dano associado a este posicionamento diz respeito ao aparecimento de estase venosa e dificuldade de retorno venoso do sangue, aumentando o risco do aparecimento de varizes em membros inferiores.
A jornada de trabalho nos canteiros estudados foi de nove horas, iniciando às oito horas, terminando às dezessete horas, com pausa de uma hora para almoço e trinta minutos para lanche. Não existem pausas de descanso regular, além do período de almoço e lanche. Segundo Couto (2006) a anulação dos mecanismos de regulação, pode estar aumentando a incidência de queixas e afastamento de um grande número de trabalhadores.
Após ter-se verificado a atividade do trabalhador da construção civil durante a tarefa do levantamento de paredes observou-se a presença de diversos fatores que segundo estudos de Ghisleni e Merlo (2005) são responsáveis pelo desenvolvimento das DORT.
Baseando-se nos fatores descritos por Ghisleni e Merlo (2005), onde os trabalhadores apontam fatores organizacionais como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento das DORT, podemos observar que 2 destes fatores
organizacionais predisponentes para DORT, estavam presentes nos canteiros estudados. Observou-se uma extensa jornada laboral e a presença de atividades repetitivas durante toda esta jornada laboral. Os trabalhadores estão alocados em postos de trabalho sem dispositivos facilitadores, permanecendo nestes ambientes de trabalho inadequados por toda a jornada laboral. Para a realização da atividade os trabalhadores mantêm as mesmas posições corporais por períodos de tempo demasiadamente longos, sendo este também um fator que segundo Ghisleni e Merlo (2005), é responsável pelo aparecimento das DORT.