TÍTULO II: O REGIME DA MOBILIDADE
CAPÍTULO 2 A ATIVIDADE EXERCIDA DURANTE A MOBILIDADE
público, mas que a decisão de mobilizar também deve incluir as razões que levaram a escolher um trabalhador em vez de outro434. A título de exemplo o acórdão do Tribunal Central Administrativo Norte, de 25.11.2011, no proc. nº 01135/08.7BEBRG refere que a situação de mobilidade [interna] não deixa, pois, de impor que se fundamente porque
se desloca este médico para uma unidade diferente daquela onde sempre trabalhou, tendo sempre em consideração outros elementos como a situação de igualdade entre todos, devendo a mobilidade ser feita de uma forma equitativa entre todos os demais médicos, nomeadamente rotativamente435.
Consequentemente será sempre necessário pelo menos o acordo de uma das entidades envolvidas, seja a de origem ou de destino. Isto é, nunca poderá ocorrer mobilidade do trabalhador por interesse exclusivo do trabalhador. Esta exigência mostra de forma clara como a figura da mobilidade deve ser usada de maneira, entendemos nós, excecional pois altera a relação existente entre empregador e trabalhador, que se pressuponha estável, sendo só alterada por meio de concurso ou por situações que levem ao fim do vínculo. A mobilidade obriga o trabalhador a modificar as suas expectativas profissionais, afetando em ocasiões a sua vida pessoal e familiar, e para o empregador é prova de uma falha na gestão e organização dos recursos humanos ou cálculo das necessidades do serviço. Como vimos, precisamente porque a mobilidade é uma situação que afetará o trabalhador esta só pode ocorrer no interesse superior do bem público, podendo ser em detrimento, como veremos em seguida, dos interesses próprios do trabalhador.
CAPÍTULO 2 - A ATIVIDADE EXERCIDA DURANTE A MOBILIDADE
A mobilidade pode ou não implicar alteração na atividade até então exercida; em todo o caso, o trabalhador deverá sempre possuir as habilitações necessárias para exercer a nova atividade436.
No caso da mobilidade intercategorias o trabalhador mobilizado continuará a exercer uma atividade que faz parte das funções da sua carreira, em quanto que quando
434 Jurisprudência que aplica a LVCR mas que entendemos que ainda é de atualidade no dia de
hoje.
435 Pág. 15 do douto acórdão agora em análise. 436
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for mobilidade intercarreiras o trabalhador passará a exercer atividades e funções próprias de outra carreira que não a sua, isto é, que não são afins nem funcionalmente ligadas à sua categoria e carreira de origem. Pelo que importa saber que tipo de funções pode exercer um trabalhador mobilizado437 e como se regula438.
A regra estabelecida é que se a mobilidade ocorrer dentro da mesma categoria as funções terão que ser as mesmas, podendo ser dentro da mesma atividade ou noutra atividade; mas se a mobilidade ocorrer entre diferentes categorias ou para outra carreira as funções serão necessariamente diferentes, pois não poderão ser as inerentes e previstas para a categoria do trabalhador agora mobilizado.
A jurisprudência tem vindo a ponderar e a esclarecer estas normas. Assim, a título de exemplo, o acórdão do Tribunal Central Administrativo do Norte, de 24.04.2015, proferido no proc. nº 00307/09.1BEALM. Este acórdão tenta responder à questão de como devem entender-se as funções de cada categoria. Um trabalhador estava afeto a um serviço que deixou de ser de competência de uma Câmara Municipal e passou a ser competência de uma Empresa Municipal, querendo o trabalhador continuar a ser trabalhador municipal, a Câmara Municipal, como entidade empregadora, viu-se na necessidade de lhe encontrar novo posto de trabalho, noutro serviço, o que veio a acontecer. O trabalhador não concordando com as tarefas realizadas no seu dia-a-dia (passou a exercer também recorrentemente tarefas de carga e descarga de mercadorias, além de condutor de veículos, que no posto anterior era de veículos pesados e neste passou a ser de ligeiros) alega que está a exercer funções que não são próprias da sua categoria e que além disso o desvalorizam profissionalmente. O que defende o acórdão é que a definição prevista para a categoria em que se insere o trabalhador inclui tanto as tarefas que exercia no posto de origem como no posto de destino. Pelo que atendendo à definição das funções inerentes à sua categoria (assistente operacional) tanto umas tarefas como outras se enquadram nesta categoria. Que estivesse a exercer predominantemente umas tarefas (condutor de veículos pesado) e agora passasse a exercer mais outras tarefas não quer dizer que deixasse de exercer funções inerentes à sua categoria. Podendo dizer-se que as atividades são diferentes mas integradas dentro das funções próprias da sua categoria e assim o entende o acórdão ao afirmar que continuando no entanto com a mesma categoria profissional, em cujo
437 Tema estudado, ainda que para regimes hoje revogados, que ainda hoje é relevante, por ANA
FERNANDA NEVES, A mobilidade ….
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conteúdo funcional não há qualquer referência à condução de veículos pesados e, portanto, continuando a exercer a “actividade contratada”.
O trabalhador sentiu esta alteração de atividades exercidas como uma desvalorização profissional pois se antes, essencialmente, conduzia veículos pesados, agora passou a conduzir veículos ligeiros (não dando uso à sua capacidade de condução de veículos pesados) e procedendo à carga e descarga de mercadorias. O acórdão julga, em relação a este aspeto, que é uma apreciação subjetiva muito discutível da sua
actividade profissional considerando pelo contrário que o novo conteúdo funcional é muito mais complexo.
À luz do atual regime, a LTFP, atendendo ao conteúdo funcional da carreira que deve ser descrito de forma abrangente, dispensando pormenorizações relativas às tarefas nele abrangidas439, o entendimento do tribunal seria o mesmo porquanto, ainda que se encontre a exercer atividades diferentes tem habilitações para as mesmas e estão inseridas dentro do mesmo conteúdo funcional440. Pelo que podemos afirmar que efetivamente não houve mobilidade para categoria inferior ou para grau de complexidade funcional inferior, pelo que o acordo do trabalhador não era necessário441.
A doutrina vai no mesmo sentido do acórdão. Mesmo assim, convém reconhecer, e assim o faz a ANA FERNANDA NEVES, que “[n]o sistema de carreira, no entanto, apesar do descrito, subsistem distorções entre as funções exercidas e a categoria detida, de modo que há indivíduos com posicionamentos orgânicos diferentes a desempenhar as mesmas funções e indivíduos possuidores de categoria inferior de uma carreira a desempenhar funções de categoria superior, e vice-versa e existem lugares que não correspondem a necessidades orgânico-funcionais” 442.
No mesmo sentido o têm entendido Autores estrangeiros, admitindo que agora mais que direito ao cargo o que há é direito a exercer funções inerentes à carreira, cargo e categoria a que pertence, pelo que é de admitir que o empregador público atribua tarefas e funções diferentes das que estava a exercer no seu posto de trabalho, sempre e
439 Art. 80º, nº 2, da LTFP.
440 O Conteúdo funcional de um assistente operacional é: funções de natureza executiva, de
carater manual ou mecânico, enquadradas em diretivas gerais bem definidas e com graus de complexidade variáveis. Execução de tarefas de apoio elementares, indispensáveis ao funcionamento dos órgãos e serviços, podendo comportar esforço físico. Responsabilidade pelos equipamentos sob sua guarda e pela sua correta utilização, procedendo, quando necessário, à manutenção e reparação dos mesmos. – cf. Anexo a que se refere o art. 88º, nº 2, da LTFP.
441 Art. 94º, nº 2, da LTFP 442
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quando estas façam parte e correspondam às próprias da sua categoria e carreira e as necessidades do serviço o justifiquem443.
Gostaríamos, ainda, de apontar, sem querer entrar numa análise pormenorizada por não ser esse o objeto essencial do nosso estudo, que seria questionável que esta mobilidade se enquadrasse no regime atual pois lembremos que a mobilidade (o que já acontecia na LVCR) tem que ser temporária, o que não parece que aqui vá acontecer. Pelo que de uma forma implícita, contempla-se a consolidação desta mobilidade444. Na verdade entendemos que esta situação não poderia ser enquadrada no regime da mobilidade previsto na LTFP, porque em momento algum, de acordo com os factos julgados no douto acórdão, se pensou numa situação transitória, pelo que atualmente esta “transferência” teria que ser feita com fundamento noutras normas.
Esta questão leva-nos a estudar o regime da necessidade ou não de haver consentimento do trabalhador para poder haver mobilidade.