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III. A regeneração marítima

3. A morte no mar

3.1. A atracção-repulsa em Nobre

No caso de Nobre, o mar escuro da morte reveste-se de uma dupla intenção representativa. Por um lado, o mar herdeiro de toda a história trágico-marítima é visto como “um local de desastre e de morte, [...] o primitivo inferno nobriano”622, tal como o designa Mário Cláudio; por outro, o mar torna-se um espaço convidativo, no qual a morte vira sinónimo de plenitude. No espaço cénico do Só, a primeira imagem atinge o seu paroxismo neste trecho do poema “Lusitânia no Bairro Latino”, que nos pinta o quadro lúgubre dos afogados do vapor Perseverança:

“Ó Mar jazigo de paquetes, de ossos,

Que o sul, às vezes, arrola à praia:

Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos! Corpo de Virgem, que ainda veste a saia, Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos! Noiva cadáver ainda com véu...

Ossadas ainda com os mesmos fatos! Cabeça roxa ainda de chapéu!

Pés de defunto que ainda traz sapatos! Boquinha linda que já não canta... Bocas abertas que ainda soltam ais...

Noivos em núpcias, ainda, aos beijos, abraçados! Corpo intacto, a boiar (talvez alguma Santa...) Ó defuntos do Mar! ó roxos arrolados!”623

O irmão do poeta, Augusto Nobre, comenta, em nota de rodapé da 4ª edição do Só, que o vapor espanhol Perseverança se perdeu nos rochedos de Leixões por causa do nevoeiro, na noite de 25 de Agosto de 1872, morrendo quase toda a tripulação. À data do acontecido, o poeta tinha apenas cinco anos de idade. Porém, admitimos que o desastre, pelo seu carácter invulgar e trágico, terá sido comentado diversas vezes na presença de António Nobre, tendo-o impressionado.

O mar passa a ser, neste trecho, o palco tétrico onde a morte actua. Abundam imagens macabras, ao gosto decadentista. O mar é comparado a um cemitério imenso que engole, ingurgita e absorve, mas que também rejeita e arrola à praia os cadáveres. Palavras de conotação mórbida – como “jazigo”, “ossos”, “ossadas”, “defunto”, “cadáver”, “roxos” – remetem explicitamente para a decomposição dos mortos nas águas salgadas do mar tenebroso. Para intensificar a morbidez e a violência deste espectáculo, acumulam-se referências a membros soltos (“Braços de mães”, “braços de filhos”, “pés de defunto”) e a partes isoladas do corpo humano petrificadas pela morte (“olhos em pedra”, “cabeça roxa”, “bocas abertas”). A redução do corpo às suas partes proporciona imagens de uma extrema brutalidade, que sugerem despedaçamento e fragmentação, como se ele tivesse sido mutilado. A acumulação dos membros em início de verso “Olhos [...]/ Braços [...]/ Ossadas [...]/ Cabeça [...]/ Pés [...]/ Boquinha [...]/ Bocas [...]”, predominantemente no plural, contribuem para a visualização da cena e para a criação de imagens de intensa e inédita expressividade. Em todos os versos, ou quase, surge de forma insistente o advérbio “ainda”, que sugere, por um lado, o prolongamento lancinante da dor, do sofrimento e da aflição das vítimas durante os últimos momentos de agonia até à morte; e, por outro, remete para a preservação de

alguns acessórios e peças de vestuário (tais como o “véu”, o “chapéu”, os “fatos” e os “sapatos”) que resistiram aos ataques violentos das ondas dilacerantes.

Relativamente às sonoridades dos versos acima citados, as numerosas fricativas [ s ], [ f ], [ f ], [ v ], [ z ] e as líquidas [ l ], [ r ] tendem também a sugerir a agressividade do mar e a violência do seu arrebatamento. A alternância do som [ a ], vogal da água segundo Bachelard, e do [ o ], vogal escura e grave, reforça fonicamente a tetricidade do quadro.

Substância simbólica da morte, a água do mar reveste-se aqui de um colorido escuro, passando do roxo ao negro. Muitas das imagens que surgem relacionadas com a morte gravitam em torno de um mar perigoso e assassino. Nada aqui falta para nos lembrar o mar das trevas a que Gaston Bachelard se refere: “[...] chez plusieurs poètes apparaît une mer imaginaire qui a pris ainsi la Nuit dans son sein. C’est la Mer des Ténèbres – Mare Tenebrum, où les anciens navigateurs ont localisé leur effroi plutôt que leur expérience.”624

Apesar de o Só associar imagens fúnebres e cadavéricas a estas águas turbulentas e devastadoras, o sujeito poético exprime a vontade de se afundar no mar. Esta aparente contradição revela um sentimento de atracção-repulsa frente à morte, a que já nos referimos no final da primeira parte deste trabalho. Vejamos como o desejo de se fundir com o elemento marítimo está explícito no poema “António”:

“Quando eu morrer, hirto de mágoa Deitem-me ao Mar!

[...]

Irei indo de frágua em frágua Até que enfim desfeito em água Hei-de fazer parte do Mar !”625

Estes versos revelam-nos o desejo de dissolução total e o de fusão do sujeito poético com o mar. Morrer nas águas oceânicas pode representar uma incorporação na imensidade das mesmas. Nesta linha, Gaston Bachelard, ao reflectir sobre a ligação entre morte e água, afirma que “l’eau est (ainsi) une invitation à mourir ; elle est une invitation à une mort spéciale qui nous permet de rejoindre un des refuges matériels élémentaires”626. E acrescenta, mais adiante, sobre o tema da

624 BACHELARD, Gaston, L’Eau et le Rêves, Mayenne, José Corti, 1942, p. 138. 625Só, p. 17 (António).

dissolução : “Chacun des éléments a sa propre dissolution, la terre a sa poussière, le feu a sa fumée. L’eau dissout plus complètement. Elle aide à mourir totalement.”627

Para Nobre, como já vimos na primeira parte, a morte, e por extensão a morte no mar, liga-se mais a um desejo de aniquilação da dor e de regresso ao ventre materno do que, propriamente, a uma destruição total do ser. Aliás, nos versos anteriormente citados, a ânsia de integrar o elemento marinho depois da morte liga-se à vontade de se unir à profundidade infinita e de permanecer em movimento depois da morte (“Irei indo de frágua em frágua”), atingindo por fim, através da decomposição e da dissolução, a total plenitude (“Até que enfim desfeito em água/ Hei-de fazer parte do Mar!”).