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6 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, LEI MARIA DA PENHA E AS MUDANÇAS NO

7.1 A atuação na área de violência contra a mulher

Nos capítulos anteriores, tratamos de expor o trabalho realizado pelas ONGs feministas no âmbito da Lei Maria da Penha. Como vimos, o início da década de 1970 é considerado um momento ímpar, uma vez que nesse período foram registradas as primeiras mobilizações de rua para o debate da violência contra a mulher, bem como o surgimento de organizações feministas com a finalidade de cuidar de mulheres vítimas de violência e receber denúncias. Um exemplo claro disso ocorreu com a criação do SOS Mulher, por iniciativa de um grupo de 30 feministas, em São Paulo. Três grandes manifestações de rua chamaram a atenção da sociedade nesse período. Em São Paulo, com o protesto contra Doca Street, absolvido mesmo sendo assassino confesso de Ângela Diniz; no Rio de Janeiro, com o assassinato de Christel Arvid, na época feminista e ativista de uma comissão que debatia as questões da violência contra a mulher; e em Minas Gerais, com o assassinato de Maria Regina Rocha e Eloísa Balestero (BRAZÃO; OLIVEIRA, 2010).

Nesse mesmo período, o SOS Mulher lançou a campanha “O silêncio é cúmplice da violência”, uma campanha contra o silêncio das vítimas da violência doméstica. Depois de a campanha ter alcançado amplitude nacional, o Estado implementou algumas políticas públicas voltadas especificamente para mulheres. Outra iniciativa de amplitude nacional veio com o trabalho de mulheres mineiras, que fizeram campanha na mídia nacional com a frase “Quem ama não mata”, com repercussão em outros países (BRAZÃO; OLIVEIRA, 2010).

Leila Mattos8, do Coletivo Feminista, destaca a atuação das ONGs para o combate à

violência contra a mulher:

“Desde os anos 1970, o movimento de mulheres, por meio de suas organizações, transformaram-se no lugar mais ativo da sociedade para denunciar a violência contra as mulheres. Muitas campanhas ocorreram no Brasil, graças ao trabalho destas entidades. Neste sentido, acreditamos que as redes são o resultado da interação entre o esforço das organizações não governamentais e as instituições de estado, atuando em permanente tensão e colaboração. Assim tem sido ao longo destas décadas e, sem as ONGs, possivelmente as políticas públicas não teriam avançado no Brasil. As ONGs têm tido papel fundamental para a efetivação da Lei Maria da Penha, tanto no sentido de divulgá-la quanto para exigir que as políticas sejam concretizadas”.

Em 2002, a Articulación Feminista MarcoSur organizou a campanha “Contra os fundamentalismos, o fundamental é a gente”, que denunciava os variados fundamentalismos, com foco especial nos fundamentalismos contra as mulheres. Logo no começo do milênio, mulheres de todo o mundo se organizaram pela Marcha Mundial das Mulheres em torno da campanha “2.000 razões para marchar contra a pobreza e a violência sexista”. Uma campanha de enfrentamento à violência contra as mulheres, chamada “As Vitoriosas”, foi conduzida em 2005 pelo CFEMEA, em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com intuito de discutir o PL 4.559/04, e fins de combate à violência doméstica (BRAZÃO; OLIVEIRA, 2010).

No ano 2006, o Fórum de Mulheres de Pernambuco promoveu uma vigília com larga repercussão na cidade de Recife e no Brasil, devido ao alto número de assassinatos de mulheres na região. A partir dessa ação, a Articulação de Mulheres Brasileiras realizou uma ação em todo o país denominada “As Vigílias pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. Foram programadas manifestações para ocorrerem simultaneamente em diversos estados brasileiros no dia 7 de março de 2006, o que colaborou para pressionar o Legislativo, o Judiciário e o Executivo a aprovarem a Lei Maria da Penha (BRAZÃO; OLIVEIRA, 2010).

Em 1998, o CFEMEA, a Themis e a CEPIA, juntamente com o Cladem, e ainda em parceria com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, construíram um documento intitulado “Propostas para o Estado brasileiro – níveis federal, estadual e municipal – medidas concretas para o enfrentamento da violência contra a mulher no âmbito doméstico/familiar”.

O objetivo do documento foi o de construir uma proposta para prevenir e combater a violência doméstica/familiar, sensibilizando os principais atores envolvidos no tema. Depois da criação de uma matriz inicial para discussões, o documento foi enviado para mais de 80 grupos e especialistas no assunto, para a obtenção de opiniões e contribuições. O documento também foi submetido a discussões no seminário “Os Direitos Humanos das Mulheres e a Violência Intrafamiliar – Medidas Concretas de Prevenção e Combate à Violência Doméstica/Familiar”, organizado pelas três ONGs e pela Câmara dos Deputados. Depois disso, o documento foi entregue ao Pacto Nacional Contra a Violência Intrafamiliar, e, por fim, assinado e divulgado pelo Sistema das Nações Unidas, Governo Brasileiro (por meio da então Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, à época vinculada ao Ministério da Justiça) e organizações da sociedade civil. Em quadros separados para os Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e instituições essenciais à justiça, o documento traz diversas propostas para o Estado brasileiro nos Níveis Federal, Estadual e Municipal.

Entre as sugestões do documento, há propostas que englobam a elaboração de políticas públicas que sejam articuladas por meio de planos e ações concretas para a prevenção e a erradicação da violência doméstica e familiar; a implementação de programas para a prevenção e combate à violência contra a mulher; a realização de campanhas e programas educativos; a capacitação de funcionários públicos e todo o quadro de policiais para atendimento às mulheres vítimas de violência; e até mesmo a inserção do tema Direitos Humanos no currículo escolar.

Uma organização de bastante destaque no âmbito brasileiro é o CFEMEA, fundado em julho de 1989, por um grupo de mulheres feministas de Brasília. Com a sua criação, o CFEMEA assumiu como grande desafio a luta pela regulamentação de novos direitos conquistados na Constituição Federal de 1988. Entre os objetivos do CFEMEA estão o de defender e promover a igualdade de direitos e a equidade de gênero na legislação, bem como o planejamento e implementação de políticas públicas, considerando as desigualdades geradas pela intersecção das discriminações sexistas e racistas, além de incidir sobre o processo orçamentário com vistas à sua democratização e transparência (NOVELLINO, 2006).

Em 20 anos de trabalho, o CFEMEA9 consolidou-se como uma referência nacional e

regional frente aos direitos sociais, especialmente os das mulheres. Durante todos esses anos, o CFEMEA colaborou para que fossem conquistadas mais de 80 leis para as mulheres brasileiras, além do fortalecimento e crescimento da representação política feminina no parlamento, bem como o fortalecimento dos movimentos feministas enquanto sujeitos centrais na luta pela igualdade.

O CFEMEA tem três compromissos principais: defesa e ampliação da democracia; superação das desigualdades e das discriminações de gênero e raça/etnia; e afirmação da liberdade, autonomia, solidariedade e diversidade. Além dos objetivos citados anteriormente, a atuação do CFEMEA contribui ainda para a promoção da presença da mulher e das pautas femininas nos espaços de participação e nos processos de representação política. A atuação do CFEMEA tem uma trajetória marcada no Legislativo Federal brasileiro:

Embora a sua intervenção estivesse no âmbito do Legislativo, o CFEMEA não olhava só para o ‘Planalto’, mas também para a planície onde estava junto com os seus pares, ou seja, com os movimentos de mulheres e feminista; organizações não- governamentais de mulheres; com seus diversos focos e especificidades, formando um enorme espectro, onde também se distinguem as redes, os fóruns e as articulações que dão voz ativa às demandas desses movimentos (CENTRO FEMINISTA DE ESTUDOS E ASSESSORIA, p. 10, 2006).

9 As informações sobre o CFEMEA foram obtidas na página eletrônica da instituição

Anualmente, o CFEMEA analisa o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), por meio da seleção do conjunto de programas do Orçamento Mulher. O CFEMEA atua sob cinco eixos, que são “articulação política”, advocacy (promoção e defesa de direitos)”, “educação e formação política”, “comunicação política” e “produção de conhecimento” (CENTRO FEMINISTA DE ESTUDOS E ASSESSORIA, p. 27, 2010b).

No âmbito do Poder Legislativo, em relação ao processo de votação e discussão do PLOA, o trabalho do CFEMEA consiste em:

(...) municiar a Bancada Feminina com análises do projeto de lei direcionadas para a perspectiva de gênero e raça, para atuarem na audiência pública de discussão do projeto no âmbito da Comissão Mista de Orçamento com representante do Poder Executivo e eventualmente nas comissões temáticas; e a sensibilização dos/das parlamentares para apresentação e aprovação de emendas coletivas (apresentadas pelas comissões temáticas) e individuais visando o acréscimo às despesas ou a inclusão de novas ações que promovam a igualdade de gênero e raça (CENTRO FEMINISTA DE ESTUDOS E ASSESSORIA, p. 22, 2006).

A proposta enviada pelo Executivo do Projeto de Lei Orçamentária para 2006 (PLOA/2006) trazia a dotação orçamentária do programa 0156 – Prevenção e Combate à Violência Contra as Mulheres – reduzido quase pela metade, passando de R$10,1 milhões em 2005 para R$5,7 milhões, atitude que ia de encontro à discussão do Projeto de Lei relacionado à não violência contra a Mulher no Congresso – posteriormente Lei Maria da Penha. Por meio da ação coordenada do movimento de mulheres e feminista, também com a atuação do CFEMEA, a dotação para o programa de combate à violência contra as mulheres tem anualmente ampliado10. Em 2006, por exemplo, conseguiu-se um acréscimo no Relatório Geral no valor de R$2,820 milhões.