3. AS CIRCUNSTÂNCIAS
3.2. O contexto paulista (1922 – 1948)
3.2.2. A Atuação Profissional do Engenheiro-Arquiteto
A primeira atividade desempenhada, na cidade de São Paulo, por engenheiros-arquitetos, em setores considerados exclusivos aos engenheiros civis, foram os planos urbanos de Prestes Maia e Luiz de Anhaia Mello severamente criticados. Essas reações se justificaram pela organização estabelecida entre as profissões: os engenheiros-civis lidavam com questões técnicas e os engenheiros-arquitetos com o embelezamento das construções. Ao terem feito projetos urbanos, os engenheiros-arquitetos Prestes Maia e Luiz de Anhaia Mello acabaram por se infiltrar em uma atividade que, acreditavam os engenheiros, não eram capacitados para exercer (SAIA, 1959 in XAVIER, 2003).
A tentativa de provar o contrário, de que os arquitetos poderiam exercer funções como a do planejamento urbano, até o final da década de 1920, não atribuídas a essas profissões, não era passível de alteração com o pequeno número de arquitetos na cidade, empregados nas firmas
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construtoras16. Ainda que participassem, através dessas, da maioria das obras de grande impacto da cidade, os engenheiros-arquitetos estavam em segundo plano. Além disso, a associação entre as construtoras e o Estado era sólida e todos seus projetos eram entregues a essas empresas (SAIA, 1959 in XAVIER, 2003).
Segundo Saia (1959), nas décadas de 1930 e 1940, paralelamente às atividades nas construtoras que possuíam mais obras pelo contato direto com o governo municipal, começaram a surgir firmas mais modestas:
“... principalmente interessadas no mercado da construção residencial e muitas delas integradas exclusivamente por arquitetos, outras armadas com a participação conjunta de arquitetos e engenheiros ou arquitetos e capitalistas ou ainda arquitetos e construtores” (SAIA, 1959 in XAVIER, 2003, p.109).
Essas associações17 passaram a ser uma ponte entre o período no qual predominavam as grandes construtoras e a nova fase em que o arquiteto passou a atuar independentemente dos engenheiros. Estavam no escopo de serviços das empresas citadas por Saia (1959) o projeto e a construção. Nesse período, segundo Ficher (1989), existiam dois padrões de construtoras: as que possuíam operários, equipamentos e máquinas e o segundo grupo que apenas administrava as obras. O primeiro necessitava de uma reserva financeira para os investimentos iniciais e manutenção da estrutura, enquanto o segundo, inicialmente, de clientes. As empresas, firmas ou escritórios técnicos cuidavam de todas etapas: desde o projeto até a execução. O que diferia eram os padrões das obras – de edificações a obras de infraestrutura como pontes e estradas. Um importante fato a ser notado é que não havia construtora, firma ou escritório que se dedicasse exclusivamente ao projeto:
“Não existiam firmas que se dedicavam apenas à feitura de projetos, uma vez que seus custos estavam incluídos no preço total da obra. Mas haviam projetistas free-lance no mercado, provavelmente contratados por firmas maiores para fazer desenhos ou projetos; mesmo assim, o projeto não se caracterizava como mercadoria para o proprietário de um empreendimento imobiliário, para quem ficava, aparentemente, de graça” (FICHER, 1989, p. 408).
16 Um exemplo de construtora nesses moldes era a Severo Villares que empregou arquitetos como Vitor Dubugras, Adolfo Borioni, Felizberto Ranzini, Domiciano Rossi, José Maria das Neves e Flávio de Carvalho. Depois surgiram as Companhias Construtoras e de Imóveis dos Irmãos Vidigal, a Construtora de Santos, a Construtora Nacional, a Construtora Brasileira e outras (SAIA, 1959 in XAVIER, 2003).
17 Segundo Saia (1959) a grande maioria trabalhava em duplas: Pujol e Toledo, Bratke e Botti, Kosuta e Santos, Neves e Duarte. Além destes, arquitetos como Alfredo Becker, Oswaldo Bratke (após a morte de seus sócio), Dácio de Moraes, Rino Levi, Eduardo Kneese de Mello e Gregori Warchavchik projetaram e construíram diversas residências nos bairros burgueses planejados pela Companhia City.
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No entanto, havia uma sintonia entre a regulamentação profissional dos engenheiros-arquitetos e sua atuação profissional até esse momento que passou a sofrer interferências, a partir de diferentes práticas profissionais adotadas na cidade de São Paulo por dois arquitetos formados no exterior – Christiano Stockler das Neves e Rino Levi.
Antes mesmo da aprovação do Decreto nº 23.569/33, Christiano Stockler das Neves já preconizava a dedicação ao projeto como função exclusiva do arquiteto:
“Muito provavelmente por ter estudado nos Estados Unidos, onde então já existiam claramente separados o projetista e o construtor, por defender uma concepção artística da atividade do arquiteto e por ser filho de um empresário da construção, em cuja firma trabalhava apenas como projetista Stockler das Neves insurgia-se contra a identidade de competências entre engenheiros civis e arquitetos e mesmo contra o emprego do título de „engenheiro-arquiteto‟ corrente naquele tempo” (FICHER, 1989, p. 412).
Para Stockler das Neves, o arquiteto diplomado deveria projetar e o engenheiro diplomado, por sua vez, construir. A seu ver, esses profissionais não deveriam compartilhar atribuições. Aos construtores práticos, sempre alvo de sua crítica, sem graduação formal, restariam quatro funções: „o emprego público‟ onde cumpririam ordens e papéis burocráticos, tendo como remuneração um salário menor que os engenheiros e arquitetos; „o emprego particular‟ onde não teriam a estabilidade do emprego público e dependeriam das encomendas; o cargo de „empreiteiro‟ no qual seriam dependentes dos seus funcionários e dos seus contratantes e, em último caso, o cargo de „administrador‟, quando deveriam ter seus serviços remunerados como o médico e o advogado, um profissional liberal (FICHER, 1989).
Defensor da arquitetura como uma atividade artística acima de todas as demais, Stockler das Neves afirmou que qualquer equívoco nas criações artísticas, seria levado à execução. Por essa razão, a função do arquiteto estava acima da do engenheiro. Segundo Ficher (1989), ele antecipou-se à visão dos arquitetos na década de 1950:
“Antecipando-se a ideologia da profissão de arquiteto que dominaria da década de 1950 em diante, acreditava na „importância da função do arquiteto na construção dos edifícios, sendo a ele subordinada a dos engenheiros, dos proprietários, dos construtores e até dos próprios poderes públicos‟” (FICHER, 1989, p. 413).
Desde o início de suas atividades profissionais no Brasil, Stockler das Neves imprimiu esforços para a regulamentação e defesa da profissão:
“A luta pela instituição de concursos de arquitetura para obras públicas, a defesa da autoria de projetos, a regulamentação da profissão, a anulação de decretos e atos que julgava serem prejudiciais aos arquitetos foram tarefas em que se empenhou durante a sua vida. O Instituto
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Paulista de Arquitetos, IPA, órgão de classe dos arquitetos, criado em 1930, foi outra de suas realizações” (SAMPAIO, 1995, p.189).
Pode-se dizer que mesmo com seus padrões fixados nos ideais da Belas-Artes, ele foi um dos primeiros profissionais arquitetos a afirmar o valor do projeto de arquitetura. Sampaio (1995) apontou que ele entrou diversas vezes na justiça contra modificações não autorizadas em seus projetos. Certamente, nos quarenta anos de ensino de arquitetura no Mackenzie, esses ideais profissionais influenciaram seus estudantes. Chegou a afirmar que era motivo de revolta ter uma profissão cujo prefixo era o título de engenheiro. E ainda que o possuísse, o engenheiro-arquiteto seguia reconhecido como um desenhista de plantas e fachadas.
Outro pioneiro da atividade exclusiva de projeto foi Rino Levi, proprietário de uma firma de construções que, em 1930, passou a se dedicar a projetos completos: de sua execução à fiscalização das obras. Foi admirado pelos seus colegas visto que todos se estendiam até a construção dos edifícios e ele atinha-se apenas à execução e fiscalização de seus projetos. Em correspondência a Álvaro Vital Brazil, descreveu seu processo de trabalho:
“Em primeiro lugar, a organização do trabalho no escritório é baseada no critério de contratar com os clientes serviços completos, incluindo levantamento e sondagens do terreno, cálculos estáticos, projetos e especificações das instalações hidráulicas, elétricas, de ar condicionado, orçamento e assim por diante” (FICHER, 1989, p. 416-417).
Rino Levi compatibilizava todos esses detalhes em seu escritório e então produzia o projeto executivo. Essa opção, feita por ele, tornou-se um modelo a ser seguido pelos demais, especialmente admirado pelos universitários. No entanto, para os outros profissionais, já em atividade no mercado, a redução das tarefas do arquiteto na execução de projetos, poderia ser extremamente prejudicial, visto que muitos dependiam das obras como fonte de renda familiar. Foram observados dois aspectos quanto à dedicação exclusiva aos projetos de arquitetura: a possibilidade dos projetos serem valorizados e bem remunerados pelos clientes, dispensando a construção das obras; e a desvantagem pelo distanciamento do canteiro, sendo vítima de acusações de projetos infundados pelo não conhecimento dos meandros da construção (FICHER, 1989).
Relacionou o papel de coadjuvante desempenhado pelo arquiteto – já que seus projetos estavam sempre incluídos nos custos de obra - com essa relação trabalhista, dependente da engenharia e do ensino, também dependente e deficitário. Além do que, a seu ver, a liberdade do arquiteto em relação ao engenheiro, possibilitaria a livre adoção da estética moderna.
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Em 1958, lembrou, em seu discurso de paraninfo para os formandos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Rio Grande do Sul, sua chegada ao Brasil e as dificuldades, pois a “incompreensão em relação à arquitetura era praticamente total”. Sobre a autoria de projetos, comentou:
“Com relação ao projeto o que mais interessava era a escolha do estilo. O projeto era elaborado por desenhistas do empreiteiro, hábeis no preparo de perspectivas aquareladas. Os detalhes de execução e os materiais e acabamentos eram apenas descritos em texto. Tudo se processava rapidamente. O cliente fazia sua escolha entre várias propostas que lhe eram apresentadas e em seguida se iniciava a construção sem maiores estudos. Os problemas que iam surgindo na obra, durante sua execução, eram resolvidos “in loco”” (CUNHA, 1959, pp.26-27).
Lira (2011) mencionou que aos arquitetos que adotavam a atividade de projeto, cabia escolher fazer parte de um de dois grupos: os arquitetos do mercado que faziam tudo segundo o desejo do cliente; e os arquitetos convictos que impunham seus limites à estética que seria adotada. Somadas a isso, estavam as condições de trabalho da época e as limitações produtivas. O arquiteto convicto de vanguarda acabava por atuar como “dublê de engenheiro, desenhista industrial e mestre de oficina”. Além disso, concorria com os arquitetos de estilo, já reconhecidos no mercado e com os engenheiros e construtores. A exemplo de Rino Levi18 e aos demais arquitetos que vieram a se associar ao IAB/SP estavam, então, diretamente relacionados:
“Imbricadas, portanto, uma estratégia de prestígio profissional, uma mudança de orientação estética (naquela conjuntura em direção ao modernismo) e uma reforma do ensino institucional que permitisse caracterizar um novo profissional arquiteto” (FICHER, 1989, p. 422).
Assim como Ficher estabeleceu uma relação entre a luta por uma reforma no ensino, a necessidade de afirmação do prestígio profissional e a nova orientação estética da arquitetura, Durand (1972) também a fez entre o “processo de ordenamento legal da profissão” e a “adoção e difusão da arquitetura moderna”:
“A concomitância de ambos processos – de diferenciação e ordenamento legal, ao nível institucional – e de renovação de princípios teóricos e do estilo, ao nível sociocultural – fez com que o sistema de crenças do arquiteto brasileiro se formasse paulatinamente dentro do novo marco: o modernismo...” (DURAND, 1972, pp. 25-26).
18 Esta mesma relação não se aplicava a Christiano Stockler das Neves, para quem a atuação profissional era a única que necessitava de adequações. Para ele, o ensino deveria ser feito através da prática de desenhos e a estética estava pré- definida: “Suas aulas iniciais eram sobre arquitetura clássica, duravam duas horas, e depois desenhava-se. Ele exigia que fossem desenhos em estilo grego, romano, vindo até o estilo das Beaux-Arts; a última coisa que se podia fazer cronologicamente era Luiz XVI, mas isso só no quarto ou quinto ano da Faculdade. No primeiro ano era só clássico, e era necessário decorar Vignola. O modernismo que ele permitia era art-deco” (SAMPAIO, 1995, p.190).
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Portanto, ao alterar a sua atuação profissional para o projeto como centralidade, o engenheiro- arquiteto passou a ter a liberdade de adoção da estética moderna, ainda que precisasse ter envolvimento com a obra para acompanhar sua construção. No entanto, essa atitude, de forma individual, teve pouca repercussão. Assim, bastou aos arquitetos organizarem-se como categoria profissional de modo a buscarem uma unidade entre os profissionais. Isso se deu na cidade de São Paulo, através do IAB/SP.