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A ausência de planejamento governamental e os elementos internos da formação

A presença forte do Estado sempre foi muito marcante na organização econômica, social e política da sociedade brasileira. O caráter altamente centralizador e autoritário impresso desde o início da colonização deixou marcas profundas no modelo administrativo e no sistema jurídico nacional. Soma-se a esse modelo forte comprometimento dos governantes aos interesses das elites de cada época, adequando os aparatos do Estado à realização desses interesses. Em relação à massa da população, as práticas populistas se fizeram sentir por meio de políticas assistencialistas de alcance delimitado ao interstício dos mandatos dos governantes nas esferas municipal, estadual e federal.

Os primeiros governos republicanos do Estado de São Paulo não foram diferentes. A mesma sistemática adotada no final do século XIX e início do século XX, período que engendra a origem da colonização do Oeste paulista, estimulando a imigração para suprir o déficit de trabalhadores nas lavouras de café, o levantamento da potencialidade natural para a extensão dessa cultura aos confins ocidentais do território, a legalização de grandes áreas de terra aos fazendeiros próximos do poder central, a extensão da ferrovia sob jurisdição estatal ou a concessão ao capital privado, a desmobilização política dos ex-colonos transformados em lavradores, a sua pobreza e analfabetismo, a grande disponibilidade de terras, tudo isso contribuiu para a formação de uma estrutura sócio-cultural muito ligada ao Estado.

Na micro-escala do lugar, essa dependência se fez sentir em relação às prefeituras, criando um círculo vicioso: a alienação da maior parte da população contribuía para eleger prefeitos e vereadores com pouco preparo técnico, pouca sensibilidade político-administrativa e muita ambição pessoal.

Assim, nos primeiros anos da colonização, os interesses alvissareiros dos loteadores sintonizavam-se com os interesses dos compradores de terra e dos governantes e parlamentares. Os primeiros almejavam auferir lucros rápidos com a venda dos lotes, os lavradores ansiavam realizar um negócio de ocasião, empatando as suas parcas economias num pequeno sítio, de modo a sobrar-lhe alguma quantia para as primeiras despesas com a abertura e para se manter, até que os primeiros mantimentos lhes garantissem o auto-consumo e a entrada de algum dinheiro extra, antes das primeiras colheitas de café. Muitos governantes, desejosos de fazer os seus sucessores e, mesmo, de se manter na roda-viva do

poder, tinham nesses compradores de grandes glebas, os seus imprescindíveis aliados para a conversão da euforia dos pioneiros em votos que lhes garantissem a permanência do status

quo. Dessa forma, não exitavam em assinar os decretos que instituíam os novos municípios e,

conforme os recursos orçamentários, iam instalando a infra-estrutura e as instituições, que garantiam os serviços públicos essenciais.

A construção de uma escola ou de um hospital, a instalação de uma comarca, a pavimentação de um trecho da estrada, ou o calçamento de alguns quarteirões, eram altamente alardeados pelos grupos políticos da situação, que capitalizavam para si os méritos da conquista, como trunfo político nas próximas eleições, pois demonstravam prestígio dos mesmos junto aos governantes superiores.

Configurou-se, como conseqüência, uma cultura individualista e de isolamento, em que cada município se sentia satisfeito nos seus próprios domínios geográficos. Cabe lembrar que o surgimento das cidades não seguiu nenhum planejamento ou estudo prévio de qualquer tipo de impacto. Qualquer pessoa que desejasse abrir um patrimônio35 poderia fazê-lo. Aliás, essa era a intenção de muitos loteadores, como forma de valorizar os lotes mais próximos à vila.

Rubens Galdino da Silva (1989, p. 8) lembra que:

O povoamento dessa região [espigão divisor Peixe-Aguapeí] tem seu início nas primeiras décadas deste século, mediante empreendimentos colonizadores, em sua maior parte, realizados por empresas deste gênero de atividade. Essas empresas, embora visassem apenas ao lucro de suas atividades especulativas, procuravam faze-lo de forma programada, visando-se, de um lado, a tornar o loteamento lucrativo para a empresa, e de outro, proporcionar ao comprador de terras, condições favoráveis e atrativas para o seu investimento financeiro.

Esta prática não se constituía em regra geral. A CAIC36, empresa loteadora do município de Adamantina, e a CICMA, responsável pelo loteamento da área urbana, eram empresas bem estruturadas. Muitas delas, no entanto, não passavam de empreendimentos informais e amadores, montados aleatoriamente por uma pessoa, com relativas posses, que

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Segundo França (1960), a concepção de “patrimônio” relaciona-se ao mecanismo arranjado pelos fazendeiros para atrair trabalhadores para suas plantações e assegurar a valorização de suas terras para futuros loteamentos. Eles separavam parte de suas propriedades para a instalação de um núcleo urbano. Nessas áreas, inicialmente, construíam uma capela e doavam-nas à Igreja Católica, na expectativa de que a mesma desse continuidade aos loteamentos visando a sua urbanização.

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Algumas empresas constituíam-se no motor da ocupação dessas terras, sendo elas as principais representantes do capital hegemônico, responsável pela formação regional. Este capital era composto pelas elites cafeeiras brasileiras, que atuavam no setor produtivo das principais regiões cafeicultoras, mas que também tinham seus representantes diretos no núcleo do governo estadual. Além desses membros da oligarquia rural paulista, desse capital faziam parte empresas estrangeiras, instaladas principalmente no transporte e nas exportações de café. São elas: a CAIC (Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização), a CPEF (Companhia Paulista de Estrada de Ferro), a CPT (Companhia Paulista de Transporte), a CICMA (Companhia de Indústria, Comércio, Mineração e Agricultura). Além dessas, atuou também, como colonizadora, a companhia canadense Boston Cattle Company. (SILVA, 1989, p. 8)

adquiria uma gleba de terra com a finalidade única de lucrar com a venda dos lotes, angariando recursos para custear a abertura de suas próprias terras.

A conjuntura em que atuava a maior parte da população – lavradores residentes nas suas propriedades - contribuía para um certo isolamento. As famílias eram geralmente numerosas e trabalhavam de sol a sol. As diversões e os serviços religiosos aconteciam no próprio bairro, os meios de transporte e comunicação eram precários, fazendo com que as informações fossem mais boca a boca do que pelo rádio ou pelos jornais. O contato com a cidade acontecia de modo pré-determinado: os agricultores iam até as máquinas de benefício, geralmente instaladas nas bordas do perímetro urbano, onde a extensão da rua dava início às principais estradas rurais, e ali vendiam os mantimentos colhidos. Com o dinheiro, iam até os armazéns de secos e molhados e a outros estabelecimentos comerciais para comprar os suprimentos necessários. Geralmente apenas os homens iam à cidade, levando uma lista de compras elaborada pelas mulheres, presas às lidas da casa.

Essas “excursões” costumavam acontecer aos sábados, logo após o almoço, para “não se perder um dia de serviço”. O tempo livre, que sobrava depois das exaustivas obrigações, geralmente, era aproveitado numa cancha de bocha, onde jogavam algumas partidas, bebiam cerveja, vinho ou cachaça e inteiravam-se das novidades conversando com outras pessoas. Poucos se interessavam pela vida política do município, pois se envolver “nessas coisas” tomava muito tempo, o que não estavam dispostos a fazer.

A movimentação política mais intensa ocorria na cidade, entre aqueles que estavam mais próximos ou diretamente ligados aos grupos de poder. Em época de campanha eleitoral, os ânimos costumavam exaltar-se. Os candidatos com mais chances eram aqueles ligados ao partido ou da base de apoio do governo estadual. Era comum os candidatos procurarem pessoas que exerciam alguma liderança nos bairros: articulação esportiva, participação religiosa intensa, ou articulação para reivindicação de melhorias, como construção e manutenção de estradas e pontes, construção de uma escola etc.

Por parte dos prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias, não se percebia uma preocupação em integrar-se com os municípios vizinhos, como para a complementação da oferta de serviços, ou de integração para viabilização de infra-estrutura, por exemplo. Ao contrário, havia grande rivalidade, inicialmente entre os povoados, pois uma estruturação dos mesmos, em tempo recorde, significava valorização das terras para venda. Quando esses povoados e distritos se transformavam em municípios, a disputa continuava para conquista do status de comarca e para a instalação de instituições que garantissem os serviços públicos essenciais, que se constituíam nas principais reivindicações dos moradores.

Uma ilustração desse tipo de prática foi colhida nos depoimentos de pioneiros37 de Dracena. Esta cidade e Tupi Paulista (mais antiga e estruturada) disputavam a instalação de um fórum, elevando-se à condição de comarca. Astuto, o senhor Írio Spinardi, fundador da primeira, sabia do significado desta conquista para o seu desenvolvimento. Ao receber o desembargador, que faria a avaliação entre as duas cidades, ele preparou sutilezas para impressionar a autoridade. Para destacar a economia local, com a cafeicultura não tão estruturada como a concorrente, ele deu ênfase à produção de mamão, também ainda pouco significativa. Como os frutos que conseguiu não eram tão viçosos nem abundantes, ele os serviu cortados e enfeitados em suculento café da manhã. Ao deslocarem-se para a cidade vizinha, escolheu uma estrada secundária, bastante prejudicada pelas enxurradas. Para chegar até a prefeitura, ele escolheu as ruas mais esburacadas, desviando-se da parte onde havia maior aglomeração de casas e estabelecimentos comerciais. Com a melhor impressão que o desembargador teve da cidade de Dracena, o fórum saiu para aquela cidade. Somente anos mais tarde Tupi Paulista conquistou o seu.

Outra demonstração de sua astúcia38, forjando o desenvolvimento de Dracena, deu-se em relação ao traçado da estrada de ferro. Originalmente o projeto previa que os trilhos deviam seguir o espigão divisor, chegando até a barranca do rio Paraná. Nessa perspectiva geográfica, antes deste município, o traçado fazia uma curva à direita, seguindo em direção à cidade de Tupi Paulista, indo até Paulicéia, localizada na margem paulista do rio. O seu fundador, então prefeito de Dracena, seguiu para São Paulo, à sede da CPEF, e convenceu os administradores a seguirem em linha reta até Panorama, abandonando o espigão divisor, e, logicamente, passando pela cidade sob sua gestão. Seus argumentos políticos convenceram os diretores da companhia, que assim o preferiram, abandonando as decisões técnicas para o traçado da ferrovia. Vale lembrar que o relevo entre as duas cidades não se apresenta tão diferente, nem a distância é tão maior, o que não implicaria em maiores custos para a companhia.

Como conseqüência, Dracena definitivamente ultrapassou a concorrente. Depoentes que vivenciaram tal episódio contam que, enquanto o fundador de Dracena estava “matutando” formas de consolidar a “sua” cidade, o prefeito de Tupi Paulista passava as noites e também os dias, mesmo em horário de expediente, deleitando-se na zona de meretrício, que crescia sob sua proteção. Em Paulicéia, hoje, a população mais jovem não

37Zeni Benetti, professora aposentada e ex-secretária municipal de Cultura de Dracena. Entrevista concedida em 10/9/2006.

38José Meyer, funcionário público municipal aposentado, in memorian. Entrevista concedida a professores da rede estadual de ensino, em 1993.

sabe explicar por quê a principal avenida da cidade é conhecida popularmente como “rua da estação”.

O espontaneísmo, o individualismo, e o poder econômico e político de algumas pessoas e grupos demonstravam a inexistência de um modelo sistematizado de planejamento. O sertão era uma espécie de terra sem lei, onde dominava o mais forte ou o mais esperto. As investidas contra a natureza, devorando a floresta e expondo o solo e os leitos d’água às degradações mais elementares, marcaram a construção espacial da época; na escala local reproduzia-se o modelo nacional de desenvolvimento, ou melhor, a inexistência de um modelo central, que direcionasse o planejamento local e regional.

2.14. O extremo Oeste paulista no contexto do Estado de São Paulo e os elementos