2. Fundamentos teóricos da pesquisa
2.2. Sobre títulos de imprensa
2.2.2. A autonomia do título como objecto de estudo
de comunicar. A escrita alfabética oferece-se à sociedade actual como um instrumento imprescindível na comunicação de massas. Daí ter sido salientado o facto de ela ter sido, se não inventada, pelo menos aperfeiçoada pelos gregos, que descobriram também a democracia (PAGLIANO, 1983: 210).
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Quando contactámos o jornal "Público" sobre a problemática da redacção dos títulos, obtivemos a seguinte resposta de António Santos, coordenador do projecto "PÚBLICO na escola": "Em resposta à sua carta, na parte respeitante à titulagem das notícias, informo que a prática habitual no PÚBLICO, e, em princípio, também na generalidade dos jornais portugueses, é a de o jornalista autor da notícia incluir uma proposta de título para a mesma, proposta esta que poderá ser alterada pelo editor responsável pela página. Neste jornal é relativamente frequente o editor alterar o título, normalmente por um de dois motivos: porque o título não é suficientemente conseguido, ou porque o espaço que ele ocupa não é o mais adequado à paginação que o editor pretende. Não há, pois, "especialistas" em títulos, ainda que alguns jornalistas possam ter mais jeito do que outros para encontrar títulos jornalisticamente significativos". Kniffka (1980: 42) refere a existência destes especialistas em títulos nos grandes jornais: "Die meisten -alle größeren- Zeitungen haben einen 'Schlagzeilenmann' ("headliner", "headlineman"), der hauptberuflich nur Schlagzeilen (zu allen möglichen Berichten) formuliert. Die Basis seiner verbalen Aktivität ist (zumindest) die lektüre des Lead, bei wichtigen Berichten liest er gelegentlich auch mehr". A propósito da importância destes especialistas, atente-se nestas palavras de A. Saraiva (1992: 9): “Fala-se frequentemente da importância dos títulos dos jornais, que às vezes se vendem de acordo com as manchetes, e que por isso querem ao seu serviço especialistas em títulos, que não só ou não simplesmente jornalistas. E de passagem se diga que há jornalistas que sabem inventar (rapidamente) títulos poéticos, sobretudo quando se trata de temas populares como o futebol e o desporto”. Ver também HOEK, 1981: 152.
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Em Portugal, os jornais de maior tiragem têm, cada um, o seu livro de estilo. Wilton Fonseca (1996) faz uma análise comparativa dos livros de estilo do Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Público, Correio da Manhã e da Agência Lusa e salienta que “os livros de estilo reflectem as preocupações dos jornalistas em relação à língua, o seu instrumento de trabalho mais fundamental” (p. 39).
Da grande quantidade produzida de textos escritos surgiu a necessidade de os individualizar e identificar. Daí a importância fundamental do título, que desempenha, à partida, entre outras funções, a de uma espécie de nome próprio de um texto particular, do seu co-texto, tal como cada pessoa, cidade, etc. é individualizada e identificada com o seu nome próprio. Este, sem se confundir com o identificado, com ele está relacionado, para ele remete e o refere. Embora nem todos os textos escritos tenham um título no sentido restrito do termo (ex. alguns panfletos, prospectos, manifestos, poemas), eles acabam por ser designados por substitutos - como as primeiras palavras do texto, o primeiro verso ou o assunto geral - os quais acabam por desempenhar esta função particular.
O texto jornalístico, e em particular o texto jornalístico noticioso, não é excepção neste ponto. Sem se confundir com o texto que encabeça, o título para ele remete, o designa e anuncia. Daí os títulos das notícias assumirem sempre, de algum modo, um carácter catafórico pois contêm, já em si mesmos, o anúncio das intenções comunicativas globais que o texto, que o segue, desenvolverá. Joaquim Fonseca (1992: 190) esquematiza esta relação da seguinte maneira
Título x Texto
catáfora → resolução da catáfora
e ilustra-o com um estudo sobre um texto de "O Jornal" em que uma longa cadeia coesiva de elos co-referenciais liga cada enunciado do texto ao título que o encabeça.
Este problema da relação título/texto pode, deste modo, ser objecto de uma dupla visão, como a que estabelece Hoek (1981: 152-157 e 298) ao distinguir dois sentidos na relação entre título e co-texto: o encadeamento do título no início do co-texto e a
referência do título ao corpo do co-texto. Esta relação, que, segundo Hoek, não consiste praticamente nunca numa continuação sintáctica imediata do título no co-texto9, é anafórica na medida em que o co-texto retoma, literalmente ou não, o seu título; e é catafórica na medida em que o título reenvia explicitamente ao co-texto que anuncia:
catáfora
→
TÍTULO CO-TEXTO
←
anáfora
O título, por si só ou juntamente com o lead, é muitas vezes suficiente para o leitor, mesmo sem ler o artigo, identificar o seu tema. Uma pesquisa de Jack Haskins (1966: 333-335) demonstrou que a leitura do título e lead bastou para que um grupo de sujeitos identificasse correctamente as notícias de assuntos estrangeiros. A leitura do título, como demonstrou Tannenbaum (1953: 189-197) pode mesmo influenciar a interpretação da notícia e a impressão geral que esta deixa no leitor.
Mas a questão que aqui se coloca é - será o título realmente um texto, e, como tal, susceptível de constituir um objecto de estudo por parte da Linguística Textual?
Segundo Beaugrande e Dressler (1981), um texto é definido como uma ocorrência comunicativa10 que apresenta sete níveis de textualidade (standards of textuality). Quando se considera que um dos níveis não foi satisfeito, então o texto não será
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Hoek refere-se particularmente aos títulos de obras literárias. Embora não muito frequente, a continuação sintáctica do título no co-texto pode ser encontrada em textos de imprensa, fazendo parte do estilo do periódico. Veja-se, por exemplo, o Nº 438 do Jornal de Letra s, em que quase todos os títulos são precedidos de um pequeno texto de entrada cuja continuação sintáctica é o próprio título. Exemplo da pág. 11: Texto introdutório em caracteres pequenos: O autor dos célebres e ultrapolémicos/ «Versículos Satânicos»/ acaba de publicar, em Inglaterra, / Haroun and the Sea of Stories. É o novo livro de/ . A este texto introdutório, segue-se o título em caracteres grandes e negros: Rushdie: as Mil e Uma Noites/ de um condenado à morte.
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Esta ocorrência comunicativa tem tamb ém sido chamada macro-signo: “Tout ce qui vient d’être dit présuppose la saisie du texte comme signe global, c’est-à-dire, comme le propose avec pertinence Lita Lundquist comme un macro-signe (...). La longueur d’un texte est donc variable: une histoire sans paroles, un silence, une simple interjection peuvent être considérés comme des textes. A l’opposé, un livre entier, voire l’ensemble des œuvres d’un auteur aussi productif que Balzac est également un texte. D’où la définition de Weinrich: ‘Un texte est une succession signifiante de signes linguistiques entre deux ruptures manifestes de communication’.” (CORTÉS, 1985: 30).
comunicativo, e será tratado como um não-texto. De um modo sucinto, os sete níveis definem-se nos seguintes termos (1981: 3-10):
Coesão - diz respeito aos modos através dos quais os componentes da superfície textual, i.e., as palavras que vemos ou ouvimos, estão mutuamente ligadas numa sequência.
Coerência - diz respeito aos modos através dos quais os componentes do mundo textual, i.e., a configuração de conceitos e relações que estão por detrás da superfície textual, são mutuamente acessíveis e pertinentes.
Intencionalidade - diz respeito à atitude do produtor do texto em fazer com que o conjunto de ocorrências constitua um instrumento textual coeso e coerente para a realização das suas intenções, p. ex., para veicular conhecimentos ou para atingir um objectivo (goal) especificado num plano.
Aceitabilidade - diz respeito à atitude do receptor do texto em fazer com que o conjunto de ocorrências constitua um texto coeso e coerente tendo alguma utilidade ou pertinência para si, p. ex., para adquirir conhecimentos ou cooperar num plano.
Informatividade - diz respeito à medida em que as ocorrências do texto são esperadas vs. inesperadas ou conhecidas vs. desconhecidas.
Situacionalidade - diz respeito aos factores que fazem um texto pertinente a uma dada situação de ocorrência.
Intertextualidade - diz respeito aos factores que fazem a utilização de um texto depender do conhecimento de um ou mais textos previamente recebidos.
Qualquer título de imprensa pode, pois, ser definido como um texto nos seus sete níveis:
Coesão - Nos títulos de imprensa, os componentes de superfície dependem uns dos outros de acordo com formas e convenções gramaticais. O título
(949) Natal ensombrado em Belém
não poderia, por exemplo, ser reformulado como
sem que sérias perturbações comunicativas se gerassem.
Coerência - Os conceitos activados nos títulos de imprensa encontram-se ligados por relações no mundo textual. Por exemplo, no título:
(782) "Tigres" engolem "jesuítas"...
"tigres" é o agente (agent), "engolem" é a acção (action) e "jesuítas" a entidade afectada (affected entity), de tal modo que se poderia construir a seguinte rede transicional (transition network):
tigres a → engolir ea → jesuítas
(a = agente de ; ea = entidade afectada)
Diagrama 3 − Exemplo de rede transicional
Intencionalidade e Aceitabilidade - A configuração linguística do título de imprensa foi construída com a intenção de constituir um texto e como tal é aceite11 num processo comunicativo12. Mesmo quando a coerência e coesão parecem perturbadas, como é o caso da utilização da linguagem metafórica que estudamos neste trabalho, as descontinuidades textuais são toleradas e restauradas através de estratégias de resolução
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O papel da intencionalidade e aceitabilidade no que diz respeito a produções incluindo linguagem figurada tem sido objecto de interessantes pesquisas. Gibbs et al (1991), por exemplo, confrontaram um grupo de sujeitos com frases onde se faziam comparações. Eles tinham de as classificar como literais (ex.: "An art gallery is like a museum"), metafóricas (ex.: "A cigarette is like a time bomb") ou anómalas quando as não conseguiam interpretar (ex.: "A library is like a suburb"). Chegaram à conclusão de que, quando diziam aos sujeitos que as frases tinham sido geradas aleatoriamente por computador, o número de frases rejeitadas como anómalas era manifestamente superior ao número de frases rejeitadas como anómalas quando lhes era dito que elas tinham sido escritas por poetas do séc XX. Neste último caso, os sujeitos, ainda assim, tentavam encontrar um sentido nestas frases, demorando mais tempo na sua rejeição.
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Este processo comunicativo, no entanto, não é de tipo dialógico imediato, como acontece com as interacções verbais. Isto confere ao texto um carácter unidireccional. Lena Jayyusi (1991) aponta para esta característica do texto mediático nos seguintes termos: “The text -as-given can be treated as self- contained, as all that its producer has to say on this subject here. Given the ‘public’ character of texts, this can turn out to be very consequential”.
de problemas.
Informatividade - Os títulos de imprensa apresentam graus diversos de informatividade; podem ser mais ou menos inesperados; a sua linguagem pode ser mais ou menos fácil de descodificar.
Situacionalidade - Estes títulos são textos construídos de acordo com a sua situação de ocorrência. A sua brevidade e densidade, por exemplo, são apropriadas a uma situação em que o receptor dedica à leitura uma quantidade de tempo e atenção limitadas.
Intertextualidade - Dizem-lhe respeito questões ligadas à tipologia textual, às alusões a outros textos. Os títulos
(188) Não há estrelas no céu... (1475) Há "Estrelas" no céu...
por exemplo, apesar de encabeçarem notícias sobre acontecimentos desportivos diferentes e com mais de um mês de distância (o primeiro refere-se à derrota do Estrelas da Avenida face ao Benfica em basquete; o segundo à vitória do Estrela da Amadora sobre o Campomaiorense em futebol) têm em comum (além do jogo de palavras com os nomes dos clubes) uma alusão ao poema de uma conhecida canção de Rui Veloso.
Assim, podemos dizer que o título de uma notícia constitui um texto no verdadeiro sentido do termo, em relação a todos os níveis de textualidade. Podemos falar da sua autonomia textual, que o torna um possível objecto de estudo linguístico. Mas temos
também de ter em mente a sua não independência em relação ao texto que encabeça, o qual não pode ser ignorado neste estudo. Autonomia e dependência são, assim, duas características que tornam este tipo textual um desafio ao estudioso da linguagem em geral e do texto titular em particular.