5. Análise dos resultados
5.5. A autoridade das fontes baseadas em dados
Uma das principais variações entre o JBD e o jornalismo tradicional está na hierarquização das fontes utilizadas na credibilização dos conteúdos informativos. Enquanto que o Jornalismo de Dados implica, necessariamente, o tratamento de bases de dados, o tradicional possui outros caminhos alternativos. A importância dada à fonte de informação na materialização dos trabalhos jornalísticos pode ser um indicador do tipo de peças que são produzidas.
Há um consenso quanto à autoridade que os dados possuem para serem fonte única no processo, no geral, a qualidade e origem dos dados podem definir a produção de trabalhos só com recurso à base de dados. Apesar do reconhecimento, os jornalistas, na sua maioria, declaram a preferência pelo complemento de outros tipos de fontes.
A título de exemplo, na investigação conduzida por Philip Meyer, a propósito das manifestações de Detroit, enquadrar a metodologia no contexto da história é encarada como um benefício a credibilidade da peça9.
Para Cristian Weiss a origem dos dados pode indicar se ele é ou não “inquestionável” e cita o exemplo do Censo Escolar produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira(INEP): “Esse é um dado censitário, é um dado que de facto abrange quase a totalidade da amostra. Quando a gente trabalha com outras pesquisas que são por amostragem, eu acho que os dados por si só não têm autoridade nenhuma.” Apesar de haver dados como os do Censo, o profissional do Diário Catarinense considera que “precisamos, sim, buscar as histórias na rua para ver se isso se reflete, ou quando isso se reflete e também buscar análise de especialistas” para compreender se o caminho da interpretação está correto. “Eu acho que não se pode abrir mão de fontes externas”, salienta.
9 Um dos tópicos da série de reportagens de Philip Meyer consistiu na apresentação dos “detalhes” da
pesquisa realizada na obtenção dos dados:
50 Na perspetiva de Juan Torres é possível fazer jornalismo só com dados, tendo em conta a origem da informação: “É possível, eu acho que o cuidado que tem que se ter, assim como a gente toma cuidado com a credibilidade da fonte humana, quando você está entrevistando você tem que saber se essa fonte tem credibilidade para falar o que está falando e de que lugar social ela está falando, qual a institucionalidade dela.”
Daniel Bramatti também é afirmativo quanto à autoridade dos dados, para o jornalista a “confiança na qualidade dos dados” pode determinar a escolha dos tipos de fontes a serem utilizados. “Se os dados estiverem bem coletados, bem organizados, é possível você fazer esse papel de entrevistador dos dados, sempre levando em conta que, da mesma forma que uma entrevista tradicional, a qualidade do seu trabalho vai depender da qualidade das perguntas. Da mesma maneira com um dataset, você pode olhar para a informação menos relevante e mergulhar nela, quando o lead pode estar logo ali do lado”, explica.
Katia Brembatti assume a possibilidade de produzir conteúdos jornalísticos sem entrevistar fonte humana e cita um trabalho produzido pelo Valor Económico sobre o Bolsa Família, que foi utilizado em suas aulas como exemplo de trabalho sem “lidar com pessoas”. No entanto, reconhece o acréscimo que o contacto com “personagens” e “especialistas” pode trazer: “Em algumas situações faço através do meu computador, só os dados se bastam, mas eu gosto dessa complementaridade, acho que ela agrega para o público.”
A confiança nos dados também é o ponto decisor para Roberto Maleson que utiliza o trabalho feito no GloboEsporte para se justificar: “Como somos nós mesmos que compilamos os dados, nós confiamos nos dados. A princípio, para nós, não precisamos entrevistar alguém, lógico que é bom sempre ter.” Para o jornalista é importante apresentar “pelo menos a metodologia” da compilação e se posiciona em relação à soberania dos dados: “Para alguns casos, resolve só a base de dados, mas se puder entrevistar a fonte humana, trazer mais história para reportagem dá uma confiabilidade melhor para conteúdo.”
Através do exemplo de um Especial sobre Reformas Ministeriais no Brasil, que colaborou, Raphael Hernandes reconhece a possibilidade de fazer matérias “só entrevistando dados”, mas recorre ao “princípio jornalístico” de ouvir as partes para
51 justificar a necessidade de criar contexto: “De regra, você irá precisar seja de um especialista para comentar, seja uma pessoa para te dar o outro lado daquela história.”
Marlen Couto admite que não faz parte da sua prática, mas que há informações que podem ser apreendidas só com dados: “Depende muito da situação, mas em geral, eu costumo não parar só nos dados, é preciso levar as várias interpretações possíveis daquela informação”. Para o jornalista do O Globo, a preocupação com o leitor pode levar à uma análise mais profunda: “Eu acho também que o nosso leitor, não necessariamente, ele tem essa capacidade analítica que é tão fundamental no perfil do jornalista de dados, então é preciso ter um cuidado com o leitor e propor essas interpretações.”
Ainda que o “quase sempre não” pressuponha a possibilidade, remota, de fazer trabalhos apenas com dados, Thiago Reis argumenta que “nem sempre é possível confiar na base” e que conclusões “tiradas de recortes de bases de dados” podem indicar uma inclinação, um direcionamento. “Como em qualquer peça jornalística, ouvir o maior número de fontes qualificadas é sempre o recomendado”, conclui
Para Raquel Albuquerque, “uma dataset não funciona sozinha” isso significa “visualizar dados” e está no âmbito da Visualização, o uso exclusivo de dados na produção de conteúdos não está no âmbito do Jornalismo de Dados : “Fazer jornalismo com base em dados é, precisamente, procurar notícias naqueles dados, procurar histórias, pessoas que dão sentido, ir à procura de especialistas que expliquem o que está nos dados”.
Rita Costa segue a mesma linha ao negar que os dados, por si só, tenham força suficiente na construção jornalística. A jornalista cita um trabalho, de sua autoria, com foco em dados que mostram a inexistência de casamentos homossexuais em mais de 50% dos concelhos país e argumenta que há detalhes que “os dados não dizem”: “não dizem o porquê e o porquê é essencial responder”.
Rui Barros, da Rádio Renascença, considera que entrevistar só dados representa uma dificuldade na atuação como jornalista, que é visível durante a etapa de escrita da peça: “Eu diria, quase sempre, que tenho necessidade de falar com alguém que é um especialista na matéria, sinto sempre a necessidade de ter outras pessoas a explicarem-me aqueles dados”.
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