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A autorreflexividade apoiada nas vozes da intertextualidade

CAPÍTULO 3 - ENSAIANDO INSURGÊNCIAS NA ESCRITA ACADÊMICA:

3.3 As insurgências na subjetivação da escrita de um ensaio acadêmico

3.3.3 A autorreflexividade apoiada nas vozes da intertextualidade

e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação”.

E assim o texto segue desafiando as imposições do campo acadêmico e dessa comunidade discursiva, que envolve a todos que neles se inserem e cuja essência rege a escrita acadêmica. Imposições pelas quais o “conhecimento” é forjado às custas do pragmatismo e das métricas de produtividade, da velocidade, do status, da neutralidade científica e da objetividade, às custas do silenciamento das memórias e das experiências nas produções acadêmicas.

Por outro lado, o estilo adotado na escrita do ensaio-objeto é um convite à subversão do pensamento e das práticas de pesquisa, por meio da experiência, da humanização, da valorização da memória e da autorreflexão, ao conduzir ao entendimento de que

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço (LARROSA, 2002, p. 24).

Em meio a esse processo de subjetivação da pesquisa e da pesquisadora, trago para essa discussão a autorreflexividade, cuja intenção primeira é instigar, para além da busca de sentidos e significados, a integração da pessoa à situação de pesquisa. Isso é alcançado na medida em que são abolidos os limites que separam as partes envolvidas e é abandonada a ideia da neutralidade e da objetividade clássicas.

finalidade de não fechar as questões e sim abri-las, de se não pautar em respostas previsíveis e limitadas aos porquês encontrados pelo caminho. Vale pensar esse movimento na direção em que

a atividade intelectual é particularmente estimulante a partir do momento em que se converte em descoberta, e oferece muitas vezes maior excitação não em encontrar o totalmente novo, mas sim em perceber a transformação do sentido daquilo que lhe é familiar, a escrita autorreflexiva é uma oportunidade para o encantamento e a transformação da consciência (SILVA, 2020, p. 193).

Também diante dessa busca por transformações e ressignificações, acredito poder inserir o ensaio-objeto no escopo dos estudos decoloniais insurgentes. Destaco o fato de o ensaio expressar a autoimplicação da pesquisadora, inclusive pela utilização de uma forma peculiar de redação. Em vez de trazer uma pesquisa feita aos moldes tradicionais, analisando o objeto à distância, de forma imparcial e uma redação segundo os padrões da escrita acadêmica institucionalizados, retrata momentos nos quais é realizado um intenso processo de imersão no contexto de pesquisa, tendo em vista que a autora se inclui como objeto da reflexão desenvolvida ao longo do texto. O que pode ser visto, por exemplo, em marcas textuais no fragmento:

A pergunta que hoje me faço, após a leitura da Pista 6, é: por que escolhi esse método como caminho para a minha pesquisa? Será que foi porque os professores disseram para seguir esse método? Ou será que ele atua de algum modo em mim a ponto de eu ver sua potência e seu sentido na área de estudo que escolhi? (RETTICH, 2020, p. 5433).

Na medida em que o texto apresenta a pesquisadora de forma tão intimamente inserida no processo de pesquisa e, considerando se tratar de uma análise feita por meio de um gênero acadêmico - o ensaio, a respeito de outro gênero acadêmico - a dissertação, fica exposto concomitantemente nesse processo o percurso de subjetivação, aqui impactado pelo dispositivo da autorreflexividade, algo que é implícito, estruturado, internalizado no texto. E continua,

Para responder à minha pergunta sobre a escolha do método, fiquei pensando se era possível falar de fora de um lugar em que estou implicada e tocada por essas leituras, que passaram a fazer sentido não só para a pesquisa, mas para a maneira como me coloco no mundo. Tentando olhar para a dissertação feita, a questão foi: como eu faria uma análise de discurso com outro método (RETTICH, 2020, p. 5433).

Autorreflexão, enquanto “capacidade de refletir sobre si mesmo, retomar o próprio pensamento, isto é, voltar-se para si colocando em questão o que já se conhece sobre si e sobre seus atos. No contexto acadêmico, a autorreflexão permite um olhar crítico-reflexivo” (VIEIRA; ARAÚJO, 2021, p. 212),imersão, meta visão a respeito da vida e do mundo, isso a pesquisadora faz, porém, o que busco é investigar como essas práticas estão retratadas no texto. Na escrita isso se torna perceptível por algumas marcas como

“para responder”, “fiquei pensando”, “Tentando olhar”, pelas quais a ressignificação da

escrita da dissertação e dos posicionamentos da pesquisadora vão acontecendo. Isso se dá quando

alguns lugares comuns se fazem presentes nos textos, como a própria reflexão sobre o (d)escrever-se, acentuando as dificuldades ou facilidades da escrita autorreflexiva, sobre a tensão entre o passado vivido e a memória reivindicada, e as possibilidades e impossibilidades de compartilhamento da experiência (SILVA, 2020, p. 198).

Ainda mencionando as expressões destacadas, na medida em que o ensaio vai se constituindo, provoca um diálogo íntimo e reflexivo. Dessa forma, conduz com naturalidade a uma visita à dissertação, bem como ao pensar juntos a respeito dos questionamentos que movem a investigação, de como conduzi-la e divulgá-la, e a refletir para além das diversas possibilidades de repostas, de maneira livre e autônoma.

Pensando em estabelecer diálogo com e por meio do texto, vejo como pertinente abordar a questão da intertextualidade, por se tratar da escolha de “vozes” para comporem o enunciado da pesquisa em construção. A ação de escolha em si é de estruturada nas bases subjetivas do pesquisador, em interação e integração com os elementos da pesquisa e, por essa razão, se faz consoante à autorreflexividade.

O ensaio-objeto é composto por vários trechos que comtemplam esse ideal, como o que segue, no qual a pesquisadora reforça, pela voz de Rolnik, seus sentimentos e, como ela mesma relata, seus desejos, em relação a revisita à dissertação: “Em “Cartografia sentimental – Transformações Contemporâneas do Desejo”, Rolnik (2006, p. 23) diz que:

“Sendo tarefa do cartógrafo dar língua para os afetos que pedem passagem” (RETTICH, 2020, p. 5432).

Quanto a mim, para sustentar essas afirmações, recorro à Ramalho e Resende (2011, p. 131 citando Fairclough, 2001) a respeito da intertextualidade, de forma bastante simples e breve: “a presença de uma voz específica, articulada de maneira também específica, em vez de outras, sinaliza o posicionamento do texto em lutas hegemônicas”.

No excerto, se encontram em evidência alguns dos principais posicionamentos e causas desenvolvidos ao longo do ensaio (a mulher, a negritude, a homoafetividade numa realidade racista e capitalista), pelos quais não somente a revisita à dissertação é impactada como também a visão crítica acerca da sociedade que nos envolve a todos no movimento da escrita:

Como diz Angela Davis, quando uma mulher negra na nossa sociedade se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela (ALVES, 2017). E nessa proteção do mercado também podem estar as relações homoafetivas. Os gays e as lésbicas podem ter o “pink money”, mas não filhos, ou seja, o capital humano (RETTICH, 2020, p. 5436).

Trazendo novamente a perspectiva de uma categoria teórico-analítica, se faz importante definir intertextualidade. Para Fairclough (2001, p. 114),

Intertextualidade é basicamente a propriedade que têm os textos de ser cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados explicitamente ou mesclados e que o texto pode assimilar, contradizer, ecoar ironicamente, e assim por diante.

Diante disso, é possível afirmar que a intertextualidade está vinculada a dispositivos internos e externos que são considerados na seleção dos autores e textos

“convidados”. Portanto, materializa um movimento cunhado nas subjetividades, de modo fluido e dinâmico ao passo que, de acordo com Fairclough (2001, p. 28), “textos são construídos por meio da articulação de outros textos de modos particulares”, modos que dependem de circunstâncias sociais e mudam com elas, o que viabiliza novos textos e novos cenários num mesmo texto. Sem a intenção de entrar no mérito da questão, mas também não querendo deixar passar desapercebida, por vezes a intertextualidade reforça os posicionamentos ideológicos do autor, de forma consciente ou inconsciente.

A seguir podem ser notadas as inclinações epistemológicas e as questões sociais que são tratadas no ensaio-objeto, pela referência feita a autoras e autores que exercem liderança em seus territórios de conhecimento e militância. O texto apresenta uma dessas seleções de forma integrada ao corpo do parágrafo e atravessada por fatos cotidianos da vida e da escrita da autora, provocando a impressão de intimidade entre as partes:

Assim, vieram-me os livros de Angela Davis, “Mulheres, Raça e Classe”

(2016), e Judith Buttler, “Problemas de Gênero” (2003), dos quais eu lia um pedaço ali e outro aqui, sem saber muito se usaria ou não. Posteriormente, acabei utilizando trechos de “Mulheres, Raça e Classe”, mais diretamente no capítulo 2, cujo título foi “A instabilidade da ordem vigente e a ‘ideologia de gênero’”. Ganhei do meu companheiro, também na época, o livro da Rebecca Solnit, “Os homens explicam tudo para mim”, e algumas leituras breves, sem conseguir me ater somente ao livro por conta dos prazos de entrega da dissertação; pude também usar alguns trechos que abordavam, como no livro de Angela Davis, o lugar da mulher na nossa sociedade (RETTICH, 2020, p.

5435).

Para analisar a intertextualidade, ou seja, a forma como os textos são entrelaçados à pesquisa em desenvolvimento, segundo Fairclough, um aspecto fundamental é a

observação da abertura ou do fechamento da diferença, isto é, dos variados graus de dialogicidade com as vozes recontextualizadas. A representação em discurso direto, por exemplo, tende à abertura da diferença entre a voz, do/a locutor/a e voz representada, ao passo que a pressuposição costuma anular diferenças entre a voz do/alocutor/a e a voz recontextualizada (FAIRCLOUGH, 2003a, p. 41 apud RAMALHO; RESENDE, 2011, p. 133-134).

No fragmento abaixo é apresentada uma citação em discurso direto, opção que, teoricamente, retrata maior distanciamento, diferenciando nitidamente a fala da autora do ensaio da fala do autor citado. Dessa maneira, o texto parece retratar a necessidade de

respaldo para uma afirmação da qual a autora não se sente segura para fazer e/ou quer dar maior peso à tese por ela levantada e para isso recorre à “autoridade” no assunto, uma exigência da escrita acadêmica tradicional aos moldes da colonialidade do saber:

O autor diz que dispositivos também podem ser aquilo que não tem uma relação tão evidente com o poder, como “[...] a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celulares e – porque não – a linguagem mesma, que é talvez o mais antigo dos dispositivos [...]” (AGAMBEN, 2005, p. 13 apud RETTICH, 2020, p. 5421-5432).

Em alguns trechos, pela forma textual empregada, parafraseando, resumindo, ecoando as vozes de autores de referência, o emprego do discurso indireto possibilitada maior proximidade com a voz da pesquisadora. Tal integração mostra um diálogo mais confiante, no qual a pesquisadora se coloca na “conversa”, se situa entre os dois autores mencionados e se posiciona favoravelmente a um deles, como se estivesse no mesmo patamar de conhecimento legitimado socialmente. Segue um dos excertos nos quais é possível observar os pontos levantados:

Se para Michel Foucault esses dispositivos têm a ver com as prisões, os manicômios, o panóptico, as escolas, as confissões, as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas etc., por exemplo, tenho preferido a ampliação de Giorgio Agamben em relação ao conceito, já que, para ele, o que está a nossa volta e com o que nos relacionamos pode ser visto como dispositivo de produção de subjetividade (RETTICH, 2020, p. 5431).

Já no exemplo que segue, destaco o emprego pressuposição para realizar conexão de textos, porém, diferentemente das concepções anteriores, esta não evidencia explicitamente a distinção entre as vozes, seja de forma direta ou indireta. Por esse recurso, as vozes se misturam de modo a refletirem um elevado grau de implicação do pesquisador, através de “proposições tomadas pelo produtor do texto como já estabelecidas ou ‘dadas’”, é o que afirma Fairclough (2001, p. 155). Pode ainda ser observada uma tendência à concordância, ao consenso, sinalizando um mesmo lugar de autoridade e poder de fala:

Aqui sempre me lembro do que Veyne (2014), também citado em minha dissertação, escreve sobre o trabalho de Michel Foucault, retomando o conceito de prática discursiva. Os objetos não existem antes das práticas, destaca Veyne (2014); são os discursos praticados que constroem os objetos e, dessa forma, o texto escrito é mais uma materialidade de discursos sobre o objeto que se decide estudar e que passa a existir tal como é estudado e narrado, porque é estudado e narrado daquela forma (RETTICH, 2020, p. 5433-5434).

Mantendo o foco na textualidade, porém, retornando ao eixo da autorreflexividade, chamo a atenção para a forma inovadora e despretensiosa como são colocadas as questões de pesquisa no corpo do ensaio. Mesmo assim, são mantidos o rigor conceitual e a precisão teórica, demonstrados pelo conhecimento teórico, conceitual e prático, inerentes ao teor interrogativo do gênero ensaio:

Tentando olhar para a dissertação feita, a questão foi: como eu faria uma análise de discurso com outro método a partir da análise de enunciados cujos sujeitos não são empíricos e são atravessados por processos de subjetividade diversos, a partir dos quais muitas vozes se dão nesses enunciados analisados?

E como eu conseguiria ter um olhar de fora, objetivo, cientificista, para responder a esse questionamento, se sou também uma pessoa em processos de subjetivação, atravessada por diversas forças, inclusive o Projeto de Lei Escola Sem Partido? (RETTICH, 2020, p. 5433).

É marcado o teor autorreflexivo no processo de realização da pesquisa e na grafia do texto, opção que, de acordo com Fantinato (2011, p. 41), “conduz a autora a investigar a formação e o desenvolvimento do próprio pensamento”. Para tanto, a pesquisadora

“analisa seu papel social para firmá-lo, numa escrita de si voltada para fora. O lugar da escrita endoexegética torna-se espaço de interpretação social, o que também pode ser lido como validação social construir” (FANTINATO, 2011, p. 51).

Ao final de um longo parágrafo, do qual os excertos anteriores foram retirados, Rettich (2020, p. 5433) expõe: “Isso tudo para dizer que ainda não tenho resposta que seja suficiente para acolher a reflexão acerca do método escolhido. Como costumo dizer, a cartografia parece cair como uma luva para essa análise do discurso que decidimos praticar”. Assim se revela o caráter da pesquisa, envolto num conflito sedimentado, ou seja, numa constante tensão sem alcançar um desfecho definitivo. O texto reflete, mais uma vez, a tentativa de promover um desprendimento epistemológico, pautado em um novo modo de gerar conhecimento, buscando se constituir nas reflexões e nas dúvidas em vez das verdades objetivas.

Não é esperado encontrar em um texto acadêmico, um posicionamento autoral no qual se admite dizer que não tem resposta suficiente ou ainda que sua pergunta de pesquisa encontra como elemento da resposta a frase “parece cair como uma luva”. Pelo contrário, dos textos acadêmicos são sempre esperadas conclusões comprobatórias e inquestionáveis acerca das hipóteses levantadas. O ensaio-objeto apresenta essa e outras

“contradições”, ao passo que, por meio de falas aparentemente “descomprometidas e deslocadas” do contexto da escrita acadêmica tradicional, mostra o posicionamento da autora que “Dialoga com a língua e consigo mesmo através da língua e da escrita. Nesse sentido, a contradição não é falha, mas sintoma. Sintoma de pensamento em progresso, em devir constante sem intenção de conclusão” (FANTINATO, 2011, p. 59). Portanto, ganha peso o dispositivo autorreflexividade com o qual e pelo qual o texto é alinhavado, evidenciando sua potência transgressora.

Justificando novamente a adoção do gênero ensaio pela autora para esse feito e para minhas reflexões aqui tecidas, “o ensaio se apresenta como o meio ideal para construir suas ideias. Construir e não expressar, pois, assim como a vida não precede a

escrita, mas é criada por ela, é também a escrita, na prática de escrever, que cria os pensamentos” (FANTINATO, 2011, p. 56). Dificilmente poderia ser encontrado tamanho espaço e liberdade na maioria dos demais gêneros acadêmicos, principalmente naqueles mais frequentemente adotados pelas universidades e pelos veículos de divulgação científica, que impõem a neutralidade do pesquisador, além de formatos e parâmetros bastante objetivos para seu aceite e validação como produção científica.

A oposição ao cientificismo arraigado no campo acadêmico, é expressa no texto por meio do relato quanto ao posicionamento crítico assumido pela pesquisadora:

O ponto de vista do observador como objetivo e sem relação alguma com o objeto que observa talvez seja uma das maiores falácias do fazer científico a fim de naturalizar o mundo que o pesquisador mesmo constrói ao narrar seus resultados (RETTICH, 2020, p. 5437).

Tal oposição se manifesta por meio de uma pesquisa produzida em bases inovadoras de textualidade e perpassada por dispositivos de subjetivação acionados ao longo do processo. Neste momento falo especialmente da autorreflexividade, que por sua vez se configura como sendo uma

[...] ferramenta necessária para a investigação sobre nossas relações psicofísicas, experiências pessoais, memórias, a fim de encontrar pontos de interseção, por onde fluam as matérias primas externas que vão se relacionar com nossas matérias pessoais. Pode-se pensar esse exercício como uma tentativa de não recorrer ao lugar-comum da atividade interpretativa, primeira operação realizada basicamente por tratarmos de matérias textuais. É uma busca de como instigar o corpo-mente a “abrir canal”, em uma segunda ordem, não hermenêutica, não que prescinda da primeira operação, mas que ela não venha a funcionar como única instância criativa (CORREIA, 2011, p. 15-16).

Se manifesta ainda no movimento propriamente dito da escrita do ensaio-objeto, que sugere um giro decolonial na medida em que questiona e não se rende e à monológica eurocêntrica de produzir conhecimento, criando seus espaços e avançando pelas brechas deixadas pela colonialidade do saber. Apresenta, através do gênero ensaio, uma forma

“orgânica” e não mecânica de promover um método, baseado na interação dos seus conceitos com o objeto. Um deslocamento que vai além da reflexão, espelha um exercício de autorreflexividade e perpassa os limites da atividade interpretativa, relacionada à hermenêutica, com vistas em expandir e humanizar os saberes gerados na academia.

Incluo no bojo da reflexão, a autoimplicação da pesquisadora, “entendida como um processo intencional que permite uma análise crítica de si, de modo a contribuir com um todo exterior” (VIEIRA; ARAÚJO, 2021, p.212). Dessa maneira é incluída na pesquisa toda uma rede de elementos que envolvem a escrita, como é expresso no excerto:

[...] há uma rede de forças que se comunicam (transversalidade) e que produzem subjetividades no objeto da pesquisa e no pesquisador, estando ambos implicados (implicação), e que culminam nos relatos que ganham nome de dissertação, sem a possibilidade de não estar diluído o meu ponto de vista, porque não só observo, mas sou afetada o tempo todo por aquilo que estudo e

afeto o que estudo o tempo todo também, produzindo realidades com o que escrevo sobre esse objeto estudado (RETTICH, 2020, p. 5433).

Autoimplicação ética, autoimplicação moral diante da pesquisa, é algo importante e a maneira como está sendo narrada, é uma novidade, uma insurgência. Isso se manifesta em vários trechos do texto, como no que segue:

[...] Eu queria, como foi um desejo aqui, ser honesta ao falar sobre as minhas escolhas, mostrando-me como uma pesquisadora implicada no objeto e ele em mim, disposta a encontrar outras respostas diferentes das minhas hipóteses, aberta às possibilidades de ter de reformular a pesquisa, pegar um caminho de volta, se necessário, do Maranhão ao Rio de Janeiro, para traçar novos caminhos rumo ao Pará, por exemplo (RETTICH, 2020, p. 5439).

A pesquisadora dizer que quer ser honesta com os dados, contrapõe algo que é pressuposto e é esperado de todo pesquisador, que ele seja honesto. Mas, vai além, ela diz que quer ser honesta com o próprio desejo, com a própria constituição subjetiva como pesquisadora. E isso merece destaque porque o convencional é a honestidade do pesquisador em relação aos dados, pouco interessando se ele está envolvido, implicado, e menos ainda interessa se o desejo dele está situado na pesquisa.

Segundo os parâmetros instituídos para a validação do saber acadêmico, isso não se aplica. Se o autor é honesto com os dados, se a pesquisa está "bem feita", ou seja, construída de forma adequada em termos metodológicos, pouco interessa o que ele está sentindo, pouco importa como o autor vivencia isso em sua experiência mais subjetiva, no seu mundo emocional mais profundo, nos seus desejos mais particulares. O pesquisador como pessoa não entra no quadro e a pessoa por trás do pesquisador não tem importância, é o que prega a lógica convencional. Em dissonância com esses parâmetros, o texto retrata a exposição de sentimentos e emoções da autora, dentre outros a angústia, a raiva e o afeto, em relação a seu objeto e os coloca no papel como elementos propulsores da pesquisa:

[...] não poder falar sobre isso tudo em sala de aula era – e é – uma angústia que me moveu ao longo do trabalho, junto a uma raiva do corpus que fui construindo. O professor Bruno Deusdará falava isto muitas vezes: alguma relação temos de ter com o nosso corpus, a da Juliana é de ódio. É um afeto e, como tal, desloca (RETTICH, 2020, p. 5435 – grifos da autora).

Os últimos excertos citados anteriormente, expressam o posicionamento insurgente da autora, pois, mostram que ela se antepõe, ela não só se implica como pessoa, ela antepõe a sua condição de pessoa à condição de pesquisadora. Contudo,

[...] o ponto a destacar é a necessidade de tomar uma postura específica como cientista para lidar com a autoimplicação das nossas construções, e assim também, admitir o caráter das mesmas. Nesse sentido, a proposta de Luhmann chama a atenção para a necessidade de problematizar a própria observação (LEONI BIRRIEL, 2020, p. 68).

Percebo que essa problematização permeia a pesquisa ao passo em que a autora demonstra sua consciência crítica num autoexercício da razão, feito por meio de reflexões pautadas nas experiências e conhecimento próprios. Com um texto vocativo, pelo qual, além de se colocar implicada, chama à responsabilidade e ao compromisso social com a pesquisa e mais até com as entregas da pesquisa:

No campo da linguagem, fica a reflexão de que não apenas analisamos enunciados e escrevemos suas regularidades linguísticas, por exemplo. Nós construímos nosso corpus, nós somos afetados por ele e o afetamos, e, por fim, nós produzimos novos enunciados sobre esses enunciados com os quais trabalhamos. Nossas pesquisas passam também a compor a rede discursiva da qual os enunciados pesquisados fazem parte (RETTICH, 2020, p. 5434).

Ao final do texto, no último parágrafo, os dispositivos de subjetivação que escolhi discutir em maior profundidade neste estudo se fazem muito presentes. A memória, a experiência, a autorreflexividade e a intertextualidade, emergem com muita força, na forma de uma convocação para um novo jeito de fazer, legitimar e divulgar os saberes na esfera acadêmica:

[...] Permitir que todas essas implicações estivessem presentes naquela pesquisa de março de 2016 a março de 2018, orientada por Décio Rocha, coorientada por Bruno Deusdará, Poliana Coeli e por todos os meus colegas do grupo de pesquisa, é uma força para mostrar que (p. 5439) ciência se faz na prática cotidiana, nos encontros, nos processos. E é preciso que isso seja dito por nós que estamos na academia. Chego ao dia 26 de março de 2018, doze dias depois de executarem nossa vereadora negra Marielle Franco, para defender um trabalho que é uma resposta àqueles que querem nos silenciar e nos interromper nas salas de aula, lugar de semente. E só querem isso para aquilo que é potência, que é força, como ainda o é Marielle (RETTICH, 2020, p. 5440).

É tocante a inserção da sala de aula como lugar de semente. Remete a uma gama de possibilidades, abertas, imprevisíveis, algo sobre o que não se detém o controle total, como quando uma semente é lançada e pelas quais se renovam e se fortalecem as esperanças, no plural mesmo. Importante também a inclusão de um fato social significativo, ocorrido no momento da escrita e defesa da dissertação – o assassinato da vereadora Marielle. As duas marcas do texto, além de, mais uma vez, espelharem nitidamente as subjetividades da pesquisadora, configuram um chamado a fazer ciência, a reconhecer o conhecimento cientifico como algo orgânico, inerente ao transcorrer da vida e, consequentemente, integrado à realidade que envolve o pesquisador.

O ensaio-objeto, por imprimir certa universalidade ao tratar de ideias e conceitos e não de fatos, o que representa muito legitimamente os meus anseios também, abre fissuras no campo acadêmico pelas quais podem se erguer saberes múltiplos, pensamentos outros, bem como a criação e a ocupação de espaços dedicados às iniciativas para a decolonialidade do saber.

De modo geral, o texto explora a potência do gênero ensaio em suas esferas discursivas de composição, conteúdo e estilo como um possibilidade real de insurgência na escrita acadêmica, uma resposta à minha primeira inquietação. “A folha de papel funciona como um espelho, mas o espelho que só revela o que há de melhor... em função de um determinado projeto” (FANTINATO, 2011, p. 35-36), e aqui reflete muita sensibilidade e a vazão para as interrogações e inquietações da pesquisadora, pelas quais seus posicionamentos parecem representar um ato de libertação diante das amarras da escrita exigidas na dissertação. Liberdade que é compartilhada com o leitor, numa relação direta, em que é estimulado a fazer uma leitura crítica do mundo e ao autoexercício da razão, como a autora, refletindo sobre suas próprias experiências e buscando suas próprias conclusões.