Educação escolar brasileira: uma história
2. A avaliação como uma necessidade da proposta
• Padrões de aprendizagens cognitivas desenvolvidas pela escola podem ocorrer com maior ou menor grau de intensidade em função das características e estimulação desenvolvidas dentro dos ambientes sociais de onde seus alunos provêm; (Silva, 2001)38
• Nos anos iniciais de escolaridade, o desempenho cognitivo e acadêmico de crianças e jovens de diferentes classes sociais atinge patamares médios bastante semelhantes, se forem respeitados as dificuldades e obstáculos iniciais dos alunos e garantida a aprendizagem continuada com reforço, orientação e processos paralelos de acompanhamento para aqueles que ao longo do ciclo apresentem maiores dificuldades na relação ensino-aprendizagem. (Silva, 2001)39
2. A avaliação como uma necessidade da proposta
É, portanto, na Lei de Diretrizes e Bases de 1996, que já estão inscritas e garantidas as diferentes formas de organização do ensino e que ampliam as possibilidades de avanço e respeito à aprendizagem dos alunos. É nela que está
36 Silva, Tereza Roserley Neubauer da: Quem tem medo da progressão continuada? Ou melhor, a quem interessa o sistema de reprovação e exclusão social?, 2000, p. 11 – 18.
37 idem
38 idem
39 Silva, Tereza Roserley Neubauer da: Quem tem medo da progressão continuada? Ou melhor, a quem interessa o sistema de reprovação e exclusão social?, 2000, p. 11 – 18.
claramente proposta a aprendizagem em progressão continuada na forma de ciclos como consta na LDB, Capítulo I e II, Artigo 21 e 23 e Seção III:
CAPÍTULO I
Da Composição dos Níveis Escolares
Art. 21. A educação escolar compõe-se de:
I - educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio;
II - educação superior.
CAPÍTULO II Da Educação Básica
Seção I
Das Disposições Gerais
Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.
Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar.
Seção III
Do Ensino Fundamental
Art. 32. O ensino fundamental, com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito na escola pública, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante:
I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores;
IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.
§ 1º. É facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos.
§ 2º. Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada, sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino.
§ 3º. O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. (LDB, 1996)40
Na LDB também estão apontadas formas de fazê-la com sucesso: ampliação da jornada escolar, a recuperação paralela e contínua dos alunos com dificuldades de aprendizagem; as horas de trabalho coletivo remunerado do professor para avaliação e capacitação; a proposta de esquemas de aceleração de aprendizagem para alunos multi-repetentes com grande defasagem idade-série; direito à reclassificação de estudos para todos aqueles que conseguiram aprender, independentemente da freqüência às escolas41; além do direito e respeito à língua materna das comunidades indígenas.
É uma lei inovadora e renovadora, que busca provocar mudanças no sistema educacional brasileiro, na medida em que pretende criar condições de acesso ao conhecimento para toda a população, o que até então a escola brasileira não tinha sido capaz de fazer e oferecer.
No dia 30 de julho de 1997, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo instituiu o regime de progressão continuada42 para o sistema de ensino paulista, organizado em um ou mais ciclos. O princípio básico que norteou a decisão dos membros do Conselho é o de que a escola deve ser capaz de ensinar cada vez melhor, fazendo com que todos os alunos aprendam. A Secretaria de Estado da Educação, em consonância com a nova organização do ensino, optou por dois ciclos: Ciclo I, da 1ª à 4ª, e Ciclo II, da 5ª à 8ª série43.
A implantação de dois ciclos de aprendizagem ininterrupta nas escolas que oferecem ensino fundamental favorecerá a progressão dos alunos. Esse regime de progressão continuada prevê estudos de recuperação e reforço para os alunos que dela necessitarem, buscando assim mais qualidade para o ensino paulista. Isto significa que,
40 LDB, 1996, p. 7 – 9.
41 LDB, 1996, art. 24, p. 7 – 8.
42 CEE Indicação nº. 8/97
43 idem
a partir de 1998, a criança paulista matriculada na 1ª série, na Rede Estadual de Ensino, continuará progredindo durante os quatro anos do Ciclo I. Da mesma forma, o caminho da 5ª até a 8ª série também será percorrido na forma de ciclo44. A avaliação contínua e cumulativa da aprendizagem do aluno procura identificar a necessidade de atividades de reforço e recuperação para resolver as dificuldades assim que elas aparecerem.
Avaliando constantemente o aluno, o professor o ajudará a superar cada problema que ele tiver, oferecendo todas as possibilidades de formação, reforço e recuperação. Se ainda assim, no término de cada ciclo, excepcionalmente, alguns alunos não tiverem se apropriado dos conhecimentos mínimos propostos, deverão participar de uma programação específica de estudos que não deverá ultrapassar um ano. (Viegas, 2001)45
O regime de ciclos com progressão continuada não abre a possibilidade de promoção automática46, nem muito menos desconsidera etapas de escolaridade a serem vencidas: ele traz consigo a oportunidade e a perspectiva de se dar um outro sentido à avaliação na escola.
A avaliação passa a ser o instrumento guia na progressão do aluno, no seu percurso escolar, apontando as diferenças na aquisição de habilidades e conhecimentos entre os alunos e orientando o trabalho do professor na condução desse processo. Deixa de ser “repressora, castradora e comparativa para ser formadora, mediadora, norteadora e estimuladora do processo ensino-aprendizagem”. (Viegas, 2001)47
Na prática, a implantação do Sistema de Ciclos foi feita de maneira política e não havendo capacitação dos professores para as mudanças que foram impostas. Sendo assim, o que poderia efetivamente ser considerado o grande salto na educação brasileira, tornou-se mais um problema. Contudo Freire nos aponta as limitações de qualquer sistema:
Creio que a melhor afirmação para definir o alcance da prática educativa em face dos limites a que se submete é a seguinte: não podendo tudo, a prática educativa
44 idem
45 Viegas, L.S., Progressão continuada e suas repercussões na escola pública estadual paulista:
concepções de educadores, IP-USP, 2001, Dissertação de Mestrado.
46 Entende-se promoção automática como sendo o fato do aluno ser promovido mesmo que não haja aprendizagem.
47 Viegas, L.S., Progressão continuada e suas repercussões na escola pública estadual paulista:
concepções de educadores, IP-USP, 2001, Dissertação de Mestrado.
pode alguma coisa. Esta afirmação recusa, de um lado, o otimismo ingênuo que tem na educação a chave das transformações sociais, a solução para todos os problemas;
de outro, o pessimismo igualmente acrítico e mecanicista de acordo com o qual a educação, enquanto supra-estrutura, só pode algo depois das transformações infra-estruturais. (Freire, 1993)48