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2. CRIANÇAS E FAMÍLIAS ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

2.4. A avaliação da parentalidade desprotetora

A relação entre família e Estado é corporizada em políticas sociais, educativas e assistenciais, com eco no campo jurídico. O Estado toma para si o papel de definidor da criança como cidadão a proteger e quando os pais não são capazes de assegurar essa filosofia de cuidado e comportar-se de acordo com a norma, o Estado intervém, em menor ou maior grau, regulando o privado através de diversos processos: juridicamente (legislando sobre assuntos como a interrupção voluntária da gra videz, o divórcio, etc.), economicamente (providenciando reformas, apoios monetários etc.) e institucionalmente (por exemplo, oferecendo respostas à procura social de uma escolarização precoce e subsequente emancipação das mães). Não é uma regulação necessariamente negativa, já que o Estado De acordo com muitos dos entrevistados, esta é uma prestação à qual se tem recorrido com frequência

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emerge também como um meio de equalizar os relacionamentos e diminuir a dependência do outro – das mulheres em relação aos maridos, das famílias em relação à vizinhança ou à parentela, a criança em relação aos seus pais – corrigindo potenciais desfavorecimentos (Singly, 1993).

A unidade familiar obriga a um questionamento permanente do Estado em relação aos seus objetivos normalizadores da sociedade, utilizando formas mais ou me nos explícitas de controlo e de proteção daqueles que considera mais frágeis através das regras pediátricas e de normas aceites num certo momento acerca dos cuidados às crianças (Vilarinho, 2000). São estas regras que informam o conceito de competências parentais. O cuidado pode ser lido em si como uma ideologia, é hegemónico, oferece um contexto moral e filosófico para a regulação das relações sociais de uma população; a filosofia do cuidado pode transformar-se subtilmente num exercício de controlo moral, em nome do superior interesse (Ambert, 1994, apud Jenks, 1996). Numa sociedade hierarquizada, a difusão das novas regras de puericultura dependem do ethos de classe e de distância social entre emissor e recetor (Boltansky apud Vilarinho, 2000). A capacidade limitada das classes populares em entender os novos discursos conduziu a uma vigilância direta (Donzelot apud Vilarinho, 2000); o monopólio da produção dos novos saberes levou à regulação da vida privada e à legitimação do modelo familiar de educação burguesa.

Em última análise verifica-se que estes conceitos não surgem de forma inequívoca na literatura, sobretudo naquela relacionada com a psicologia20 apesar de se constatar que nas recomendações práticas e nos manuais de processos se sente alguma atenção à explicitação de que atos e omissões correspondem a proteção ou a desproteção e em que graus (Instituto da Segurança Social, 2003; Instituto da Segurança Social, 2007a; Instituto da Segurança Social, 2012; MSS, 2011).

A avaliação da parentalidade adequada é, por isso, a tarefa central na proteção da infância (White, 2005; Pereira e Alarcão, 2010), mais especificamente avalia-se as competências parentais (“parenting capacity”) e as capacidades parentais (“parenting ability”), termos análogos mas distintos: as competências parentais são de longo prazo e contextualizadas num espaço e no tempo (White, 2005; Choate, 2009) e as capacidades parentais são de curto prazo, localizadas a situações ou momentos, podendo ou não corresponder a competências prolongadas (White, 2005). As capacidades parentais, por

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corresponderem ao período da intervenção, são mais facilmente observáveis e parcialmente preditores das competências mais generalizadas (Pereira e Alarcão, 2010).

Existe ainda assim pouca clareza na definição de capacidades parentais (e de parentalidade) dificultando a avaliação dos limites do comportamento positivo e negativo e que quantidades desses comportamentos devem ser exercidas. Também não existe um modelo geralmente aceite para avaliar a capacidade parental, utilizando-se métodos como as checklists, a observação, as entrevistas e os testes psicológicos; o historial dos pais e o seu comportamento no presente têm sido também previsores de comportamentos futuros.

São, na realidade, inúmeras as referências que se podem apontar relativas a modelos e a propostas de avaliação da parentalidade. Não sendo objetivo deste trabalho a compreensão de complexos modelos de avaliação parental fica aqui apenas a menção a alguns textos que foram consultados, informando o conhecimento geral sobre o tema. Desde logo, a compilação realizada por Pereira e Alarcão (2010) revestiu-se de grande utilidade para este trabalho uma vez que concentram as diversas propostas de referência potencialmente extrapoláveis ao referencial português. As autoras notam aquilo que também esta investigação foi compreendendo: a literatura acerca da avaliação da parentalidade divide-se em múltiplas interrogações, por exemplo, acerca do objeto da avaliação (competências ou capacidades parentais?) ou acerca do referente (parentalidade adequada ou parentalidade mínima?), e será muito difícil atingir um consenso relativamente à adoção de um modelo único.

Como exemplo pode citar-se Harnett (2007) que propõe que, para além da avaliação localizada no tempo (curto) e no espaço domiciliário que, por vezes, pode estar permeado por conflitos ou distrações diversas, se deverá ter em consideração um modelo que contemple o potencial de mudança propondo, para isso, guias para cada objetivo que a família deverá cumprir, mitigando simultaneamente fatores de subjetividade individual d os/as técnicos/as. Já Budd (2001) é proponente de um modelo de avaliação da parentalidade no contexto de suspeitas de maus tratos ou de práticas de risco parental baseado em três pontos: avaliação dos pais enquanto cuidadores e na relação pais- filhos; compreensão capacidades e deficiências funcionais no exercício diário da parentalidade; e medição da adequação da parentalidade à luz daquilo que seria o mínimo necessário para proteger a criança. Este modelo implica uma atenuação dos fatores subjetivos presentes na avaliação técnica através da triangulação das necessidades da criança, da capacidade dos pais para cuidarem de si mesmos e da capacidade para cuidarem dos filhos. Daqui deverá emanar um relatório claro,

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metodologicamente variado e apropriado e cuja análise possa ser realizada de uma forma cuidadosa e ponderada; também se destaca a recomendação da autora para que os/as técnicos/as sejam “conservadores e humildes” (Budd, 2001:15) na sua contribuição com opiniões de índole jurídica, que ultrapassa o seu campo de perícia. Num trabalho posterior, Budd (2005) refina a proposta acrescentando ainda fatores como a impossibilidade de comparar os indivíduos em avaliação utilizando padrões parentais universais, a necessidade de integrar na avaliação efeitos da influência situacional (stress, questões culturais, etc.) ou evitar fazer previsões para o futuro.

Estas propostas, selecionadas entre uma multiplicidade de textos sugeridos por Pereira e Alarcão (2010) não são aqui integradas de forma aleatória. Surge nestes exemplos a temática que permeia esta investigação, a subjetividade individual dos/as técnicos/as e sua mitigação. É sistematicamente recomendado que o/a técnico/a deverá manter um distanciamento emocional que lhe permita identificar as ressonâncias e seus potenciais efeitos no processo de avaliação e a tónica deverá ser essencialmente técnica, clínica ou forense.

Esta intervenção junto das famílias implica colocar em causa a função parental, independentemente do que conduza ao risco ou ao perigo, implicando ou não a ocorrência de maus tratos, legitimando a ação dos serviços de proteção da infância (Pereira, 2013). Remetendo a discussão para os terrenos da psicologia, inexorável no que toca a esta temática, o modelo ecossistémico parece apresentar-se na literatura acerca do referencial português como um dos mais consistentemente utilizados para compreender o comportamento dos pais. Este modelo ajuda os profissionais a pensar as famílias num contexto alargado (Carreira, 2012; Pereira, 2013). Em linhas muito breves, o modelo ecossistémico proposto por Bronfenbrenner em 1979 e posteriormente revisto por Belsky em 1980 conceptualiza o perigo para as crianças enquanto fenómeno que contempla diversos fatores, nomeadamente, o microssistema (as características dos sistemas familiares, a presença de fatores de stress, relação violenta entre os pais, etc.) o exossiste ma (ou seja, a influência positiva ou negativa do mercado de trabalho e da comunidade ou vizinhança) e o macrossistema (aspetos do contexto cultural e social, valores e crenças das famílias que podem potenciar o perigo)21. Belsky (1980) acrescenta um nível ao modelo pré-existente propondo que a história de vida dos progenitores pode determinar alguns fatores de risco, como a repetição geracional de

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violência ou de negligência ou mesmo uma fraca gestão da frustração quando os filhos não correspondem a um ideal fantasiado.

Regressando à sociologia, o trabalho de Carreira (2012) acrescenta que para uma proteção eficaz é necessário avaliar tipos de desproteção e adequar a intervenção àquele ou àqueles que os pais apresentam. A autora propõe, assim, cinco tipos de desproteção: ocasional, estrutural, cultural-adaptativa, social e dependente. A parentalidade desprotetora ocasional está relacionada com momentos do ciclo de vida familiar que desencadeiam a desproteção. Eventos de transição como um divórcio, morte ou a chegada da adolescência dos filhos exigem uma adaptação para a qual os pais podem não estar preparados e por isso, devido a este caráter transitório, este tipo proposto não implica ausência de competências parentais. A parentalidade desprotetora estrutural foca as condições de vida da família, com especial incidência nas situações de reprodução intergeracional da pobreza, alertando naturalmente para o facto de que a pobreza não é motivo de mau trato. A parentalidade desprotetora dependente relaciona-se com os consumos de álcool e drogas, subsequente redução do estado de alerta dos pais e um recentramento das prioridades nas necessidades imediatas de consumo. A desproteção social implica ausência de suporte familiar e social. E, finalmente, a parentalidade desprotetora cultural-adaptativa, sobretudo relacionada com diferenças culturais, em particular aquelas da aceitação da punição física violenta ou da reunião de adolescentes com os pais imigrantes e subsequente adaptação a uma família – mesmo que seja a sua família biológica – e a um meio que não conhecem.

É fácil concluir que, devido à complexidade de definição das fronteiras da parentalidade, não existe – nem será possível existir – uma fórmula para todos os casos, reforçando aquilo que se verificará mais adiante, que perante situações variadas e complexas, o diagnóstico é difícil e pode ser fator de morosidade. A visão atual da avaliação da capacidade parental inclui assim uma combinação de recolha de dados (White, 2005), tendo em atenção elementos como especificidades culturais ou diferentes configurações parentais (Pereira e Alarcão, 2010). Estes métodos são também formas de uniformizar os procedimentos, atenuando efeitos de subjetividade do/a decisor/a que, como também será verificável nos capítulos interpretativos, foi identificado como uma dificuldade sentida pelos/as entrevistados/as.

As variáveis a que cada processo está sujeito implicam necessariame nte esta interferência humana e por isso é considerado importante que se trabalhem os aspetos emocionais dos/as técnicos/as ou a qualidade da relação estabelecida com os pais (Pereira e

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Alarcão, 2010). Fica igualmente claro que as avaliações das famílias devem referir exatamente aquilo que significa “parentalidade minimamente adequada”, especialmente nos casos em que se considera que esta não é garantida; mas é importante que esta avaliação da parentalidade ocorra contextualizada no âmbito de uma intervenção e que o seu objetivo seja a fundamentação do processo de intervenção e não a prova de funcionalidade ou disfuncionalidade dos pais (Pereira e Alarcão, 2010).

Este capítulo pretendeu lançar luz sobre discussões amplas relacionadas com o lugar das crianças nas famílias, com um breve subponto relativo à parentalidade sócio-afetiva. De seguida tratou-se o Estado-Providência, compreendendo como surgiu, razões para o seu aparecimento tardio e como isso influenciou as políticas até aos dias de hoje, com repercussões nas questões da pobreza e da exclusão, também aqui esmiuçadas. Finalmente, ainda de forma ampla, abordaram-se os temas das famílias desprotetora e do momento da legitimação da intervenção do Estado no domínio do privado. Segue-se agora um capítulo vocacionado para a compreensão de como estes mecanismos se traduzem na prática da proteção da infância, com especial destaque para o sistema português.

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