3. TRAMAS E EXOTOPIAS
3.1. AS TRAMAS
3.1.1. A bagaceira
O romance A bagaceira é considerado o marco inicial da literatura regionalista nordestina e inaugura o “ciclo do romance nordestino” dos anos 30.
Foi escrito por José Américo de Almeida em 1928.
O romance inicia-se com a grande seca ocorrida em 1898, quando milhares de retirantes migraram do sertão para a zona da mata, onde as condições climáticas eram mais suportáveis nas épocas de estiagem. Lúcio, um dos prota-gonistas, reside na cidade, mas vem passar as férias na fazenda de seu pai Dagoberto, proprietário do engenho Marzagão e que representa a velha oligarquia local. Lúcio, estudante de direito, exprime o “novo” com idéias modernas sobre o uso racional da terra, e se pôs, assim, em contraste direto ao seu pai. Enquanto o pai, acostumado aos desastres temporários do Nordeste, é insensível diante dos sofrimentos da população local do interior, Lúcio deixa-se impressionar emocionalmente pela alteridade dos miseráveis que, na época da seca migram em estado de miséria, do sertão para a região dos engenhos. Na fazenda de Dagoberto, eles pedem água e alimento, como também buscam emprego:
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas...
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma, eram retirantes.
Nada mais...
Mais mortos do que vivos. Vivíssimos só no olhar. Pupilas do sol da seca.
Uns olhos espamódicos de pânico, assombrados a si próprios. Agônica concentração de vitalidade faiscante. (BG:05)7
O senhor de engenho Dagoberto, geralmente ignorava os pedidos de ajuda.
Porém, no início do romance age de maneira diferente, acolhendo um grupo de retirantes em sua fazenda. Trata-se do vaqueiro Valentin, sua filha Soledade, o afilhado Pirunga, um cavalo e um cachorro. Valentim e Pirunga começam a trabalhar na lida da cana-de-açúcar, ao lado dos outros empregados do engenho.
A exposição do romance mostra como as relações sociais são inseridas nas paisagens contrastantes do Nordeste. Neste sentido, as estórias são marcadas pela rivalidade entre o brejeiro e o sertanejo, homens que vivem em mundos diferentes e estão impregnados pelas características de seus próprios ambientes:
E os retirantes certificavam-se de que entre brejeiros e sertanejos, nem os cachorros se davam. (BG:17)
Transcorrem os dias e os retirantes que chegaram mirrados começam a reconstituir seus corpos, principalmente a jovem Soledade, despertando amores sertanejos e brejeiros:
Refazia-se. Mais cheia do corpo. Tinha vindo amarela, cor de flor de algodão. Embranquecia e rosava-se levemente. (BG:18)
Entre esses amores está o jovem Lúcio, cada vez mais próximo da moça, passando dias inteiros ao seu lado em passeios pela fazenda:
O amor é a gradação dos sentidos: começa pela necessidade de se ver.
Não se passava um dia que Lúcio não encontrasse Soledade; mas, pensando nela, forcejava, debalde, reconstituir-lhe o tipo ou, pelo menos, as feições mais bizarras.
Acontece isso. A saudade é um pouco dessa incerteza da separação.
(BG:47)
7 ALMEIDA, José Américo. A bagaceira.. (A partir desse momento, este título será apresentado pela sigla BG).
Porém, a bela jovem também desperta o interesse de outros homens como Dagoberto e Pirunga. Lúcio se esforça em conquistar a moça, entretanto não consegue concretizar o seu amor e retorna a cidade para concluir o curso de direito. Porém, não consegue esquecer aquela paixão sertaneja. Assim, cria-se uma ligação fictícia (amorosa) entre diferentes grupos sociais, que normalmente vivem fechados em seus mundos vividos, cada um com seu ethos específico.
Soledade desperta o interesse até de pessoas anônimas, como mostra o envio de presentes a ela. Esta situação preocupa – num sistema paternalista – o pai. Para um homem do sertão, a honra é tudo e quando Valentim descobre que alguém está enviando presentes para sua filha, sem o seu conhecimento, pressiona Soledade em busca da resposta. Esta confessa que os presentes são do feitor da fazenda chamado Manuel Broca. Valentim então mata a tiros o feitor da fazenda e vai preso. Somente algum tempo depois, já na cadeia, é informado por Pirunga que quem realmente enviara os presentes a sua filha era o senhor de engenho. O vaqueiro faz a jura de que quando sair da cadeia matará Dagoberto.
Lúcio retorna da cidade com o intuito de se casar com Soledade, mas quando conversa com seu pai, descobre que a menina, além de ser sua prima, já havia sido seduzida por seu pai. Assim, o mundo da honra (representado pelo sertanejo) encontra-se em pleno colapso, os espaços sociais mostram-se promíscuos e não é mais possível uma nítida separação social entre eles.
Sem outra solução e frustrado, Lúcio renuncia seu amor pela jovem e volta à cidade. Também Dagoberto deixa o engenho Marzagão com Soledade, migrando para o sertão, à fazenda Bondó, a antiga propriedade do pai da jovem.
Lá, eles vivem a maneira do sertanejo, pastoreando gado, tentando superar o antagonismo entre brejo e sertão. Um dia, em uma cavalgada, um cavalo dispara com Dagoberto e ele acaba morrendo em companhia de Pirunga.
Lúcio retorna ao engenho do pai para receber sua herança e casa-se com a filha de um usineiro. Ele implanta o projeto de modernização no engenho, aumentando a produtividade e melhorando as condições de vida dos seus empregados. O romance termina com a chegada de uma nova leva de retirantes decorrentes da seca de 1915, onde quem pede refúgio é Soledade –
irreconhecível pelo flagelo da seca – carregando consigo o filho que teve com Dagoberto.
Mostra-se nesta trama, que as figuras são representantes individuais de grupos sociais, caracterizando diferentes formações do Nordeste e apontando estruturas sociais e geográficas específicas. Os encontros entre as pessoas – cada uma com seu horizonte individual – muitas vezes termina em tragédia ou frustração sinalizando que o sistema social do Nordeste perdeu a sua dinâmica, fazendo prevalecer o destino (natural, trágico) como um elemento essencial da trama.