2. O espaço físico na obra
2.4 A barca de Walter como “espaço assinalado”
Temos destacado a importância do retorno de Walter à casa paterna no ano de 1963, quando ocorreu o contato mais íntimo entre ele e a filha. Em meio à visita, muitos fatos foram desencadeados, especialmente os que dizem respeito às relações íntimas entre os Dias e ao triângulo amoroso formado por Walter-Maria Ema-Custódio.
A relevância do evento é demonstrada, inclusive, pelo detalhamento das marcações temporais e espaciais que surgem entre os capítulos 44 e 50, especificando lugares de passeios, com os nomes reais de cidades e praias, meses e a estação do ano, descrevendo fenômenos naturais como chuva e frio, e a aparência física da propriedade afetada por eles. Também há uma distinção clara nesses capítulos das ações que ocorrem dentro da casa e fora dela, um tempo em que a família está toda reunida e sempre junta (fisicamente). Estão presentes nessa época o pai/tio Walter; Custódio, seu tio/pai; Maria Ema, a mãe; seus três irmãos e o avô, Francisco Dias.
Em fevereiro de 1963, após três semanas da chegada de Walter e em meio a vários dias de chuva intensa, que encerram a todos no interior da casa – momento em que também se dá a visita ao quarto da filha e o reencontro entre os antigos amantes – o caçula da família aparece com um automóvel,
um grande Chevrolet preto, imaculado (...) de fios prateados, de estofos cinzentos, de tablier luzidio, de retrovisor pulido, um recinto habitável, uma casa móvel para dominar aquele dia (...) e o percurso entre o Ocidente e o Oriente ocorrendo apenas durante o espaço dum dia. (Ibidem, p. 117-118)
atravessávamos os campos encharcados, os favais nascentes, os trigos alagados (...) Saíamos na direção de Faro para fazer compras (...) A proximidade empurrava-nos, éramos uma massa de gente à deriva, alegre cantando. (...) Walter virava a barca na direção de Quarteira. (Ibidem, p. 121)
O carro é da cor preta, porém imaculado, condutor de uma família em que paira a mancha de um pecado original; sua existência é a prova de que a vida de Walter não havia sido um fracasso, o que promoverá a alteração de sua imagem frente aos moradores da casa. Até então, “pela cabeça de Francisco Dias, (...) um trotamundos sempre seria um trotamundos, não mudava” (Ibidem, p. 117). Quando o filho mais novo chega com o carro, esse “espaço assinalado” que promovia a contigüidade de todos, o patriarca muda de opinião e
anestesiado, como se tivesse bebido uma poção de esquecimento face aos outros filhos ausentes (...) Calçou umas botas de calfe onde não havia uma única carda e desceu à cozinha, local onde nunca entrava, (...) entrou de rompante, ficou entre a mesa carregada de trastes e restos e a fornalha que ainda ardia. Eram um bom local para se dirigir a Alexandrina e dizer-lhe que o seu filho mais novo tinha regressado do Canadá, mais propriamente duma cidade que ficava à beira dum lago chamado Ontário. (...) O patrão disse-lhe, ameaçadoramente – “Acabou-se! Aqui em casa, nem você, nem ninguém dirá que o meu filho mais novo foi soldado. Ninguém mais vai tratá-lo por essa alcunha. Ele tem um nome como deve ser. Chama-se Walter Dias, como eu, o seu pai...” – acrescentou, honrado com o que dizia. (Ibidem, p. 118; 122)
O excerto traz detalhes interessantes a serem discutidos. Primeiro a importância material do carro, que funciona como atestado de sucesso financeiro e, conseqüentemente, de reconhecimento por parte do pai do “nome” dos Dias que o filho carrega. Como Walter é o representante da mobilidade da família, é imprescindível constatarmos como sua presença, munido de um veículo, será elemento de força para influenciar o deslocamento físico e a alteração no pensamento das personagens, neste caso, do próprio pai, que se contrapõe a ele sendo a figura mais estática do romance. Ao saber do regresso do filho de outro continente com um carro, ele se movimenta calçando botas sem cardas, numa linha
descendente, até a cozinha, lugar de acomodação dos empregados, para afirmar que o filho ainda fazia parte de sua descendência, que ainda havia esperança para os Dias. O trecho antecipa o caminho descendente que Francisco Dias irá percorrer, de modo “anestesiado”, durante o enredo, despojando-se, aos poucos, de seu lugar como “imperador” na casa de Valmares.
Recuperando o conceito de cronotopo, de Bakhtin, podemos perceber que os meses em que Walter permanece na propriedade são como um dia, no qual ocorre o trajeto entre o “Ocidente e Oriente”, de acordo com o trecho destacado. Nessa fusão em que todos estavam “cegos e surdos”, conforme declara a narradora, há um momento de alegria geral em que o carro se estabelece como um espaço de aproximação entre os familiares. A casa é deixada de lado por instantes para dar lugar ao novo espaço, o “navio” no qual a noção de tempo biográfico é completamente subvertida “no meio do único dia, o esplendoroso dia que constituiu a visita de Walter, tecido, como se sabe, por noites e dias” (Ibidem, p. 127). Novamente temos a comprovação de que a casa de Valmares, liderada por seu “imperador”, jamais poderia tornar-se espaço de aproximação afetiva entre seus membros. Para que a proximidade entre eles acontecesse, foi necessário que Walter estabelecesse um novo espaço-casa, com diferentes perspectivas e com liberdade para que cada um pudesse apenas “ser”. No entanto, este é apenas um instante na história, já que Walter, indo embora novamente sem assumir a responsabilidade por modificar o espaço da casa, transforma o veículo de “recinto habitável” em “carro funerário”, acabando de vez com a esperança dos habitantes restantes de modificarem o espaço por meio da locomoção.
2.5 Trajetória das personagens nos espaços da casa