• Nenhum resultado encontrado

A Perspectiva Normativa de Sen

1. A Pobreza Moral da Economia do Bem-Estar Tradicional

1.1 A Base Informacional da Economia do Bem-Estar

1.1 A Base Informacional da Economia do Bem-Estar

Amartya Kumar Sen nasceu em Santinetan, Índia, em 1933, e estudou na escola Visva-Bharati, fundada por Rabindranath Tagore. Lecionou na Delhi School of Economics e na London School of Economics, de 1971 a 1982. Foi professor de filosofia e economia em Harvard por mais de uma década. Recebeu seu ph.D. em 1959 no Trinity College (Cambridge University) com a tese sobre as escolhas de técnicas nas economias em desenvolvimento.

Pode ser considerado a principal autoridade mundial em teoria da escolha social e Economia do Bem-Estar. No ano de 1998 foi condecorado com o prêmio Nobel de Economia devido fundamentalmente à sua mensagem de alerta quanto à importância das considerações morais necessárias à Economia do Bem-Estar.

Para Sen, a maior parte dos problemas na economia, e em especial na teoria de bem-estar, decorre da ausência de estudos dos valores morais. Sua teoria tem influenciado análises e programas de instituições como a ONU e o Banco Mundial. Desde os anos 90, Sen participa na elaboração do Relatório de Desenvolvimento Humano e do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Sen tenta recuperar a moralidade para o discurso na economia, pois a origem ética havia desaparecido da economia com a redução do bem-estar em simples utilidades.

Para tanto, desloca a base informacional disponível de restrita à renda ou às utilidades para a análise das capacitações e dos funcionamentos individuais. Os funcionamentos podem ser entendidos como as coisas que a pessoa tem razão de ser ou fazer. As capacitações referem-se ao conjunto desses funcionamentos, dentre os quais a pessoa pode escolher. Ou seja, seria

como uma espécie de conjunto orçamentário na teoria do consumidor, mas representando diferentes tipos de vida que a pessoa pode levar.

A importância de Sen é indiscutível dentre os economistas pela aliança firme que estabelece entre o rigor e a relevância e, principalmente, pela tentativa de unir a análise econômica com a filosofia moral. Cabe destacar que a interpretação apresentada nesta tese segue as coletâneas de artigos de Sen e, por isso, algumas idéias apresentadas são bem anteriores aos anos citados como referência.

Sen (1987a; 1999b, pp. 58-60) está interessado na ampliação das considerações éticas envolvidas nos julgamentos morais e de valor que fazemos na economia, rejeitando um espaço informacional baseado exclusivamente no utilitarismo. O espaço informacional utilitário, que é usado pela Economia do Bem-Estar tradicional para fazer os vários julgamentos (morais e de valor), impõe não apenas restrições informacionais, mas também mostra as pessoas como se fossem apenas um locus onde são desejados ou experimentados prazer ou dor (Sen, 1984). Ou seja, “persons do not count as individuals in this any more than individual petrol tanks do in the analysis of the national consumption of petroleum” (Sen &

Williams, 1983, p.4).

Para Sen, os exercícios avaliativos (evaluative exercises) ou julgamentos de valor são muito importantes. Por isso, ele enfatiza que o conjunto de informações necessárias para tais julgamentos (espaço avaliativo), que depende da abordagem moral escolhida, pode incluir ou excluir informações. Ao avaliar as diferentes situações dos indivíduos, o utilitarismo ignora o fato de que as ações (e motivações) dos indivíduos têm importância intrínseca, assim como também despreza o papel deles como agentes, quando os enxerga apenas em termos da condição de bem-estar e não considera as informações que não digam respeito à utilidade (Sen, 1985, p. 186; 1987a, p. 47). Essa discussão sobre a condição de bem-estar retornará na seção 3.

O bem-estar é caracterizado, então, em termos de três diferentes interpretações da utilidade: felicidade, desejo e escolha (Sen, 1985, pp. 188 ff.). A interpretação como escolha é a mais conhecida dentre os economistas. A utilidade é entendida como uma representação numérica do comportamento de escolha da pessoa, isto é, o que a pessoa escolhe de cada subconjunto de um conjunto de alternativas. Essa visão de utilidade fornece avaliações ordinais que não são comparáveis interpessoalmente. Porém, o problema básico dessa interpretação de utilidade é que a escolha da pessoa pode ser guiada por diferentes motivações e não apenas pela busca do bem-estar individual.

Sen argumenta que as outras duas interpretações – felicidade e satisfação de desejo – possuem alguma plausibilidade. Contudo, não deixam de ser problemáticas como métricas para o bem-estar. A felicidade, enquanto um estado mental, tem dois problemas. O primeiro é que ela ignora outros aspectos do bem-estar da pessoa. Por exemplo, uma pessoa que esteja em situação de miséria e se mostra feliz por causa de algum condicionamento mental (ópio ou religião) será vista como estando bem sob a perspectiva da felicidade, mas sua situação real será quase escandalosa. Como um conceito de estado mental, a perspectiva da felicidade pode fornecer uma visão limitada de outras atividades mentais. Além disso, as atividades mentais envolvem uma avaliação de nossa própria vida – um exercício reflexivo –, e o papel da avaliação na identificação do bem-estar da pessoa não pode ser visto em termos apenas da felicidade que tal reflexão por si mesma pode criar.

A interpretação da utilidade como desejo também é problemática porque trata de uma consideração de estado mental que considera também os objetos de desejo. Ou seja, que uma pessoa deseja determinada coisa porque essa coisa é de valor para ela. Isso é o que denota um papel circunstancial para a interpretação de utilidade como desejo no sentido de que meu desejo depende das minhas circunstâncias. Nossa leitura do que é possível ser feito em cada situação pode ser crucial para as intensidades de nossos desejos, e pode até mesmo afetar “o

que” e “como” desejamos. Esse fato complica as comparações interpessoais uma vez que as intensidades dos desejos dependerão das diferentes circunstâncias das pessoas.

Sen (1992, p. 55) ainda nota que uma pessoa em situação de privação arraigada pode parecer não estar tão mal em termos da métrica mental do desejo e de sua satisfação.41 Uma pessoa em situação de total miséria que recebe uma esmola pode se sentir feliz, apesar de não ter melhorado seu bem-estar. A dificuldade em basear a avaliação do bem-estar de uma pessoa no desejo, está na variabilidade da sua satisfação, a qual varia mais com a situação real das diferentes pessoas do que com as percepções delas sobre tal situação.

Então, o problema em avaliar o bem-estar através do desejo e sua satisfação é a possibilidade de sermos enganados por tais avaliações; as pessoas aprendem a moderar seus desejos. Isto é, uma pessoa pobre e desprovida pode ter seus desejos satisfeitos com pequenas caridades, enquanto que o rico demanda coisas mais caras para obter o mesmo nível de satisfação. Tudo isso porque “people learn to adjust to the existing horrors; by the sheer necessity of uneventful survival, the horrors look less terrible in the metrics of utilities” (Sen, 1998a, p. 309). Sen afirma que o utilitarismo padrão e suas métricas mentais da utilidade não capturam o problema da variabilidade na satisfação do desejo. Percepções sobre as nossas próprias situações são relevantes, mas elas podem algumas vezes distorcer o nível real de privação da pessoa. Na escala de utilidades, os problemas de privação podem parecer menos claros do que as condições em termos das quais as pessoas têm oportunidades reais para julgar os tipos de vida que elas gostariam de levar.

O que está em discussão aqui, no exame da situação de qualquer indivíduo, é a importância de levar plenamente em consideração a situação real das pessoas, ou seja, como

41 Sen enfatiza a existência de diferentes formas de entender a privação na vida humana a qual deveria concernir à ação pública. Mas, segundo ele, nós podemos assumir que a privação pode ser vista em termos de falha de certas capacitações humanas que são importantes para o bem-estar da pessoa. “If a person does not have the capability of avoiding preventable mortality, unnecessary morbidity, or escapable undernourishment, then it would almost certainly be agreed that the person is deprived in a significant way” (Sen & Dréze, 2002, pp. 14-5).

escolhemos descrever as diferentes situações e não tão-somente as percepções delas acerca de seus possíveis desejos, das suas noções de felicidade ou das suas escolhas limitadas pela concepção tradicional de racionalidade econômica.42 Sen afirma que para entender a pobreza é preciso olhar para a privação real da pessoa, e não meramente para as reações mentais dela diante de tal privação. “The extent of a person’s deprivation, then, may not at all show up in the metric of desire-fulfillment, even though he or she may be quite unable to be adequately nourished, decently clothed, minimally educated and properly sheltered” (Sen, 1992, p. 55).

Mais importante, então, é a situação objetiva na qual a pessoa se encontra, bem como a necessidade de usar métodos objetivos ao invés de métodos subjetivos de análise descritiva.

Tudo isto implica, por sua vez, a necessidade de substituir a base informacional subjetiva dos valores utilitários por uma base informativa mais objetiva no momento de se fazer os exercícios avaliativos.