CAPÍTULO 3 MERCADO RELEVANTE
3.4. A Tríade das Bases Analíticas
3.4.3. A Base Temporal Mercado Relevante Temporal
A utilização da conceituação distinta de mercado relevante temporal não é ponto aceito e utilizado por todos ou de forma indistinta. Observa Milena Costa Santana que “o aspecto temporal do mercado relevante dificilmente é estudado pela doutrina de forma dissociada dos elementos geográfico e material do mercado. A verdade é que tanto o mercado relevante geográfico como o mercado relevante material precisam do aspecto temporal para que sejam devidamente dimensionados.”376. Inclusive Santana cita entendimento similar de José Del
Chiaro Ferriera da Rosa e Luiz Fernando Schuartz377, mas aponta entendimento contrário de
Paula Forgioni378, para quem a base temporal não representa um ponto autônomo e
375 SALGADO, Lúcia Helena. op. cit., pag. 59
376 SANTANA, Milena Costa. A Definição do “Mercado Relevante” como instrumento de flexibilização na
aplicação das normas concorrenciais. Dissertação de Mestrado – Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2005, pág. 94
377 ROSA, José Del Chiaro Ferriera da; e SCHUARTZ, Luiz Fernando. op. cit., pag. 68
378 FORGIONI, Paula Andrea. Os Fundamentos do Antitruste. 3ª edição. São Paulo : Editora Revista dos
independente. Apontamos, por outro lado, a aceitação da existência da dimensão temporal por parte da doutrina, sendo que destacamos lições de Calixto Salomão Filho379.
A analise da base temporal, ainda que não muito utilizada, pode agregar interessantes conceitos na definição do mercado relevante. Neste sentido, Bagnoli aponta que a experiência australiana, por meio da Comissão Australiana de Concorrência e Consumidor – ACCC, que em seu guia de concentrações assinala que “a dimensão temporal do mercado se refere ao período no qual as possibilidades de substituição devem ser consideradas. A ACCC considera as possibilidades de substituição no período mais longo, mas ainda num futuro previsível, que efetivamente delimitará o exercício significante de poder de mercado da empresa que está se concentrando.”380. Trata-se, em nosso entendimento, de um elemento informativo no cômputo da investigação, que agrega importante critério, ainda que variável, para o trabalho de definição do mercado relevante aplicável a um dado caso concreto.
Para Santiago, “o mercado relevante, na sua dimensão temporal, pode ser compreendido como “o espaço de tempo necessário à entrada, no mercado relevante geográfico, do produto que ali não se encontre efetivamente.”381. Com este conceito, Santiago coloca que é possível apontar e verifica a possibilidade de ingresso de novos concorrentes, a médio-longo prazo, dentro de um espectro de futuro previsível, afirmando que “quanto maior o período de reação dos concorrentes, tanto maior será a amplitude do mercado relevante.”382.
Ainda sobre o tema, aponta Milena, que “a dimensão temporal do mercado se refere ao período no qual as possibilidades de substituição devem ser consideradas. Quanto menor for o espaço de tempo considerado para a análise do comportamento da oferta e da demanda, menor será o mercado relevante encontrado; a recíproca aqui será verdadeira.”383. Ora, se
este fator, efetivamente, pode impactar na definição de mercado relevante, seja aumentando ou diminuindo a mensuração do mesmo, parece-nos razoável cogitar que integre, juntamente com os outros dois, a base da definição e conceituação de mercado relevante.
379 SALOMÃO FILHO, Calixto. Regulação e Concorrência (Estudos e Pareceres). São Paulo : Malheiros,
2002, pág. 18 - e também em SALOMÃO FILHO, Calixto. Direito Concorrencial – as estruturas. 3ª ed. São Paulo : Malheiros, 2007, pág. 108
380 BAGNOLI, Vicente. Introdução ao Direito da Concorrência : Brasil, Globalização, União Européia ,
Mercosul, Alca. São Paulo : Editora Singular, 2005, pág. 139
381 SANTIAGO, Luciano Sotero. op. cit., pág. 118
382 SANTIAGO, Luciano Sotero. ibidem
383
Segundo Gama e Ruiz, a dimensão temporal da substituição recai sobre as a base de produtos e a base geográfica, influenciando diretamente as mesmas. Afirmam, neste sentido, que:
“quanto maior for o lapso de tempo considerado para avaliar a reação da
oferta e da procura, maior será a amplitude do mercado delimitado, e vice- versa. Cabe notar, no entanto, que, se por um lado, uma redução exagerada da dimensão temporal impede que se incorporem ofertantes potenciais, por outro, a sua ampliação desmesurada limita a capacidade de intervenção da agência reguladora. Convencionalmente, o período de tempo é próximo a um ano, podendo ser ampliado ou reduzido de acordo com as especificações do mercado.”384.
O mercado relevante temporal afigura-se como uma variável importante, especialmente se considerarmos um mercado ampliado, ou seja, transpostas fronteiras nacionais. Para Tércio Sampaio Ferraz, a questão temporal é importante e decisiva, implicando na análise dinâmica do mercado e dos eventuais efeitos anti-competitivos das ações de determinados agentes econômicos que nele atuam. Segundo Ferraz, “o fator tempo é decisivo. Este fator confere ao conceito sua dinamicidade, devendo o intérprete tê-lo em conta ao observar as expectativas de produtores e consumidores.”385.
Neste ponto, muitos elementos podem influenciar a definição do mercado relevante, dada a existência de hábitos específicos de determinados consumidores, ou ainda, a continuidade de manutenção de monopólios naturais por meio de marcas e patentes, ou em função de constantes evoluções tecnológicas, dentre outros. A análise deve considerar estes elementos, como dito, de forma dinâmica, pois eles são alterados na construção temporal das atividades empresariais e no quotidiano do mercado consumidor. Assim, “a análise do produto relevante não se limita à observação da competitividade entre as empresas concorrentes, mas do seu reflexo para a estrutura do mercado em geral em termos de eventuais alterações futuras.”386.
384 GAMA, Marina Moreira da; e RUIZ, Ricardo Machado. A práxis antitruste no Brasil: uma análise do CADE
no período 1994-2004. In Economia e Sociedade - Campinas, v. 16, n. 2 (30), ago. 2007, pág. 238. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ecos/v16n2/a05v16n2.pdf. Acesso em 15/10/2009
385 FERRAZ, Tércio Sampaio. op. cit. 386