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A batalha do intelectual

No documento O intelectual em Schumpeter, Hayek e Aron (páginas 54-57)

A hostilidade sentida pelo intelectual para com o capitalismo e para com o sistema de mercado livre está bastante marcada nas suas atitudes e no seu comportamento. Esta advém de uma indignação e uma frustração sentida pelo intelectual e ao qual tenta racionalizar e justificar atribuído as culpas ao sistema do qual se insere. Como tal a frustração, e consequentemente a hostilidade demostrada pelo intelectual, tende a aumentar com os avanços e com a evolução do sistema capitalista.

“Uma situação de grupo bem definida de matriz proletária; e, uma atitude de grupo formatada por um interesse de grupo, que irá contar, de forma mais realista, pela hostilidade da ordem capitalista do que alguma vez poderia a teoria – em si, uma racionalização em sentido psicológico – de acordo com os factos ultrajantes da indignação justa do intelectual, e não sendo melhor do que uma teoria de amantes, em que os seus sentimentos nada mais representam a não ser por inferência lógica das virtudes do amado. Além do mais, a nossa teoria também tem em conta o facto que a hostilidade aumenta, em vez de diminuir, com cada sucesso da evolução capitalista.”119

O intelectual opera através da manipulação da atmosfera de hostilidade geral que envolve o capitalismo. Mais do que a simples criação de material a ser usado para destabilizar, o intelectual estimula, fomenta, verbaliza e organiza as provocações e ofensas, que são aspectos essenciais do seu trabalho. Os intelectuais, muito também devido à essência das suas funções, tentavam-se inserir nas mais diversas áreas e debater ou falar de todo o tipo de tópicos e assuntos. Schumpeter identifica que, em especial, estes tinham uma participação bastante activa nas questões relacionadas com políticas de trabalho.

119 Schumpeter, Joseph, 2010. Capitalism, Socialism and Democracy, 1ª ed., Routledge Classics, Reino Unido, p.136-137 - “A well defined group situation of proletarian hue; and a group interest shaping a group attitude

that will much more realistically account for hostility to the capitalist order than could the theory - itself a rationalization in the psychological sense - according to which the intellectual’s righteous indignation outrageous facts and which is no better than the theory of lovers that their feelings represent nothing but the logical inference from the virtues of the beloved. Moreover our theory also accounts for the fact that this hostility increases, instead of demising, with every achievement of capitalist evolution.”

“Intelectuais raramente entram na vida profissional política e ainda menos concorrem a postos de responsabilidade. Mas fazem parte da equipa política de departamentos, escrevem panfletos de partidos e discursos, agem como secretários e conselheiros, fazem a reputação de jornal do político individual que, apesar de não ser tudo, poucos homens podem se dar ao luxo de negligenciar. Ao realizar estas acções, até certa parte, cunham a sua mentalidade em quase tudo o que está a ser feito.”120

Uma área da qual os intelectuais gozaram de uma participação bastante activa foi nas políticas do trabalho. A sua função consistiu sobretudo na verbalização do movimento, no fornecimento de teorias e slogans e em criaram uma consciência própria para este, o que consequentemente acabou por transformar o seu significado e essência. “Apesar de os intelectuais não terem criado o movimento trabalhador, trabalharam

porém em algo que difere substancialmente do que seria sem eles.”121 Todo este processo resulta numa natural radicalização, que se traduz num enviesamento revolucionário para as práticas burguesas de uniões sindicais, um enviesamento que foi ressentido, inicialmente, por muitos líderes não intelectuais.

O intelectual não possui qualquer autoridade ou poder verdadeiramente genuíno e a sua posição é bastante débil e dependente dos actores externos e em particular do seu público. Devido a esta dependência, os intelectuais “...[t]êm de bajular, prometer e incitar, cuidar da ala esquerda e amarrar as minorias, patrocinar

casos duvidosos ou submarginais, apelar ao confins das margens, professar-se pronto a obedecer – em suma, comportar-se perante as massas como os seus precedentes se comportavam, primeiro, perante os seus superior eclesiásticos, e seguir perante príncipes e outros patronos individuais, e por fim perante o mestre colectivo do complexo burguês.”122 De forma a obter o maior número possível de seguidores, é assim necessário ao

intelectual prometer-lhes obediência e adulação. A sua sobrevivência depende exactamente disso. Os seus

120 Schumpeter, Joseph, 2010. Capitalism, Socialism and Democracy, 1ª ed., Routledge Classics, Reino Unido, p.138 - “Intellectuals rarely enter professional politics and still more rarely conquer responsible office. But

they staff political bureaus, write party pamphlets and speeches, act as secretaries and advisers, make the individual politician’s newspaper reputation which, though it is not everything, few men can afford to neglect. In doing these things they to some extent impress their mentality on almost everything that is being done.” 121 Schumpeter, Joseph, 2010. Capitalism, Socialism and Democracy, 1ª ed., Routledge Classics, Reino Unido, p.137 - “Though intellectuals have not created the labor movement, they have yet worked it up into something

that differs substantially from what it would be without them.”

122 Schumpeter, Joseph, 2010. Capitalism, Socialism and Democracy, 1ª ed., Routledge Classics, Reino Unido, p. 137 - “...[m]ust flatter, promise and incite, nurse left wings and scowling minorities, sponsor doubtful or

submarginal cases, appeal to fringe ends, profess himself ready to obey—in short, behave toward the masses as his predecessors behaved first toward their ecclesiastical superiors, later toward princes and other individual patrons, still later toward the collective master of bourgeois complexion.”

semelhantes de outros tempos apesar de apresentarem o mesmo tipo de subordinação distinguiam-se quanto ao tipo de patrono. Como podemos ver aqui e também em Julien Benda123, os intelectuais contemporâneos, contrariamente aos seus antepassados, encontram-se sob a alçada de um maior e um mais vasto e diversificado senhor.

No documento O intelectual em Schumpeter, Hayek e Aron (páginas 54-57)