PARTE I A história dos habitantes contra a história dos governantes: contradições entre a Cidade do desejo e a cidade do despejo.
1.8. A batalha judicial: relativizando fatos e leis.
Após o golpe da divisão da comunidade e, sobretudo, o alto número de adesão à transferência, inicia-se uma nova maratona de dificuldades, e a principal delas foi o embate jurídico, uma vez que a ação é concernente ao interesse público, ou seja, a prefeitura, que já manipulava a opinião da sociedade via imprensa, tentavaafirmar que a comunidade era contra o interesse público. A ação revelou também a diferença qualitativa do adversário, uma vez que o Prefeito Cícero Almeida tratava a comunidade grosseiramente, ameaçando “baixar o cacete” ao passo que na gestão Rui Palmeira, não menos agressiva no cotidiano de ameaças citadas pelos moradores, as investidas se demonstraram mais inteligentes, a começar pela natureza da ação judicial, que inverte os papéis dos atores sociais do conflito. De adversária da comunidade, num conflito que durava décadas, conforme demonstrado ao logo deste trabalho, a prefeitura se apresenta na Justiça como salvaguarda do interesse público, interesse este ameaçado por supostos “insurgentes”.
Ao tratar uma comunidade tradicional como insurgentes, invasores, só porque não se renderam às suas pressões, à imposição de seu projeto e seu modelo de cidade (pautado pelo uso mercadológico do lugar, como em todos os outros processos de reestruturação de centros históricos, no Brasil e no mundo), a prefeitura cria um novo personagem, o “invasor”, novo adjetivo dos moradores que comprovadamente ocupam o lugar muito antes do cadastro da prefeitura, que são registrados como pescadores e marisqueiras na colônia e na Federação de pescadores, que possuem uma vasta documentação comprovando a veracidade de sua origem, mas que são expulsos como invasores, levados para abrigo na condição de flagelados, porque apesar de serem moradores tradicionais, a prefeitura, que se torna definidora do critério de quem é quem não é, não os reconhece, acreditando que o critério que define a identidade das pessoas é o seu cadastro – indo de encontro ao princípio da autoidentificação prevista em lei, no caso de comunidades tradicionais.
Nessa concepção, não existem invasores, na medida em que os poucos moradores que haviam chegado após o cadastro de 2007 não estavam reivindicando o território, se contentavam com a possibilidade de uma moradia em outro local. Aqueles que ocupavam recentemente a vila nunca fizeram muita questão. Estes “invasores” também não eram os
moradores resistentes, porque os filhos dos moradores não deixarão de serem filhos, nem deixarão de serem nascidos e terem vivido naquele lugar, apenas pelo fato de não constar no cadastro da prefeitura. Não se pode presumir que um cadastramento feito à sombra de uma árvore, em uma comunidade complexa, seja a essência da realidade social desta comunidade. A única verdade é que não existe um estudo real da demografia e morfologia da comunidade, caso contrário não existiria o conflito.
A ação judicial, neste sentido, já começa incongruente, porque começa numa inversão. O magistrado julgará por sobre uma abstração criada pela prefeitura, um falso réu, uma vez que todo discurso jurídico produzido na Ação Civil Pública é essencialmente discrepante, incondizente com a realidade da população ocupante da Vila. A criação dos invasores imaginários já começa pela própria inversão imagética do espaço geográfico, em que os documentos e as falas da municipalidade passam a referir-se ao condomínio construído na praia do Sobral como a real “Vila dos Pescadores”, enquanto nacomunidade resistente persiste o estigma de “favela de Jaraguá”.
Como se não fosse suficiente toda a violência praticada contra a comunidade, a ação ainda se apresentava como o objetivo de incriminar os moradores pela prática de esbulho. Aquela centena de moradores tradicionais, que se autoafirmam coletivamente como tais, não são esbulhadores de nenhum patrimônio. Se o fossem, a União não teria cedido a área para a Prefeitura construir 273 moradias no projeto original (negar isto seria o mesmo que afirmar que a União cedeu a área para que a prefeitura assentasse esbulhadores). Eles não poderiam deixar de ser os pescadores “de interesse paisagístico”, de “importância para o desenvolvimento do turismo” de interesse na “preservação ambiental, patrimônio histórico de Jaraguá”, para de repente serem transformados em inimigos da sociedade, aqueles que estariam “destruindo um bem público”, porque sua identidade não pode ser definida nas entrelinhas das mudanças políticas da prefeitura (já que um prefeito diz uma coisa e outro diz outra, tendo que contradizer seu próprio discurso com sua própria história, como demonstram alguns documentos aqui apresentados).
Se eles não são invasores, quem são de fato, os réus? A prefeitura enquadrou a comunidade, e sua Associação representativa, em um lugar de réus que não lhe cabia. Se o objetivo era tirar os invasores, a solução lógica seria retirar os moradores recentes (que eram poucos, e todos sabiam quem eram, tanto a Prefeitura quanto a comunidade sabia quem realmente é tradicional, quem não é). Daí a impossibilidade de colocar todos em uma mesma perspectiva. Tanto o é que, no andamento do processo, o MPF entende que a “coletividade
invasora” não está representada. Quando a Prefeitura se refere ao todo da comunidade comocoletividade invasora (ou seja, não distinguindo os que se enquadraria nestes termos dos que são ocupantes tradicionais) – excetuando apenas os vinte e cinco que ela reconhece oficialmente, na verdade ela está criando uma identidade, e colocando a Associação de Moradores e seus adeptos dentro. Ou seja, o próprio réu da ação é fictício. Tanto que é solicitada a designação de um novo defensor, para o novo réu descoberto pelo MPF/AL, próximo ao final do processo. Se este “novo réu” (mais uma invenção de identidade) estivesse caracterizado desde o início do processo, provavelmente provocasse a necessidade de uma real e atual caracterização da comunidade, porque é fato que de 2007 até 2015 já havia se passado oito anos, quase uma década, e se os dados da prefeitura não batiam com os dados da comunidade, nada mais justo que envolver outras instituições neutras, as quais se propunham a fazer um estudo da comunidade, em nome da veracidade dos fatos.
Em um conflito de interesses não basta tomar parte de um dos lados e adequar o discurso jurídico a essa opção, é preciso ir atrás das comprovações dos fatos. Veracidade que consiste na dificuldade da defensora reconhecer esta “coletividade”, porque o perfil que ela encontra contrasta com o perfil mostrado pela prefeitura (poucas das pessoas que ela defendia se enquadravam na suposta identidade de “invasor”). Ou seja, o novo réu permanecia indefinido.
Mais curioso ainda é o modo como se constrói a composição dos que deveriam “representar” essa suposta “coletividade invasora” no processo. Primeiro, a dona Cícera, que não morava na comunidade há mais de 20 anos. Emconversa informal, ela nos comunicou que nem sabia como o nome dela foi incluídono imbróglio. Todavia, semanas depois nos confidenciou que teria sido convidada para disputar a Associação, ou criar uma nova Associação, no intuito de “derrubar” Enaura junto à comunidade. Não conseguimos esclarecer o papel da Dona Cícera neste enredo, mas o fato é que o réu, que outrora fora identificado como sem representação, agora estaria representado por uma pessoa que não era sequer da comunidade há pelo menos duas décadas. Dona Nanci, que tem histórico psiquiátrico, afirmava não estar em condições de configurar nesta lista de representantes, porque estava tomando remédio controlado. O outro representante foi o Márcio, que tinha chegado à comunidade há cerca de dois anos, segundo os moradores. Porém, semanas após sua intimação, os moradores relataram que ele foi contemplado com um apartamento (mesmo não constando no cadastro de 2007), e com isso deixou de figurar como representante da coletividade.
Pretendemos aqui demonstrar como este processo é pautado por deturpações da realidade, deturpações essas que não seriam devidamente analisadas, algumas ignoradas ao longo dos autos, gerando ao final um critério de “verdade jurídica” e assegurando a inversão dos atores do conflito. A comunidade, fortemente violentada pelo poder público ao longo de décadas, passa a ser analisada como vilã, como inimiga da cidade.
A ação, logo no seu início, no título I, já apresenta a fragilidade da situação, uma vez que a suposta autorização da SPU nada mais é que uma portaria do superintendente regional (Portaria nº 2, de 02 de fevereiro de 2012). Não se trata, pois, de uma “cessão”, como devidamente solicitada pelo prefeito no ofício nº 356/2009/GP. Essa cessão foi concedida, dentro dos preceitos legais e administrativos, no projeto inicial da Prefeitura, quando se previa a construção das moradias, mas expirou. Sabe-se que tal autorização foi concedida em detrimento do direito líquido e certo da comunidade à CUEM.
Afirma-se, no item 1.4 da ação civil pública, que a obra seria executada com recursos do Ministério das Cidades, por meio do programa FNHIS - Urbanização, Regularização e Integração de Assentamentos Precários. Nas diretrizes gerais deste programa fica clara que a finalidade é “atendimento à população residenteem áreas sujeitas a fatores de risco, insalubridade ou degradação ambiental”, prescrita na alínea b do item III (BRASIL, 2008/2011, grifo nosso). Entretanto, o que se omite na ação civil pública e no próprio Plano de Trabalho que gerou a verba, por meio do Termo de Compromisso nº 0301506-77, DOU 25/01/2010, pg. 62, Seção 3, é que o item 4, alínea b.1, do manual de projetos do Ministério da Cidades, no que se refere às diretrizes específicas, prescreve-se: “a realocação total de famílias deverá ocorrer somente nos casos em que o assentamento precário esteja em área que não seja passível de uso habitacional [...]”.
Ou seja, a verba, que tinha como finalidade urbanizar a área com melhorias e construção de moradias no próprio local, foi indevidamente desvirtuada com argumentos inverídicos, quais sejam, o fato de ser área non aedificandi por conta de um suposto oleoduto da Petrobrás, oleoduto este inexistente, como já dito, por ter sido desviado pela empresa com a própria colaboração da Prefeitura via SMCCU e Secretaria do Meio Ambiente; e o Código de Postura do Município, que lido da primeira até a última palavra não apresenta uma única linha referente a tal impossibilidade habitacional. Esta incoerência não apenas evidencia como reforça a tese dos geógrafos, urbanistas, antropólogos sociais e turismólogos de que a preferência pela política de remoção, em detrimento da urbanização in loco, pautada pela transferência de populações pobres dos tecidos privilegiados da cidade, tem caráter higienista,
sobretudo na situação em tela, em que se tem recursos jurídicos, técnicos e financeiros de garantir a permanência da população.
Outra incongruência da ação civil pública encontra-se no item 1.7, quando se afirma que “houve a participação efetiva dos moradores da favela do Jaraguá, que manifestaram suas necessidades e anseios”. Essa informação contrasta com os dados que estão postos nos registros noticiários locais, que configuram um longo e agressivo conflito entre Prefeitura e comunidade.Alguns desses registros dos principais órgãos da imprensa local são apresentados ao longo deste trabalho. A própria fala da prefeitura configura sua intransigência: “não vamos mais discutir, vão ter que sair de todo jeito”. Nos anexos do processo podem ser vistos alguns documentos em que a prefeitura justifica seu suposto trabalho técnico social e de diálogo com a comunidade, ao que chamou de “Histórico da intervenção urbana”101. A documentação se contradiz logo na primeira informação, por remontar a um “Fórum de discussão sobre a revitalização da vila de pescadores de Jaraguá com gestores Estaduais, Municipais, e Programa Habitar Brasil – BID”.
Enquanto os gestores discutiam neste fórum, a comunidade em peso protestava pelas ruas da cidade e se reunia com o Ministério Público contra a remoção, como demonstra a própria ata da audiência pública já citada. Em 2007,a prefeitura apresentou uma “pesquisa socioeconômica – incluindo coabitações”, ou seja, o tal cadastro de 2007 que os moradores afirmam ter sido feito embaixo de uma árvore, devido ao não reconhecimento do cadastro anterior (2001) acabougerando os principais impasses da remoção e do próprio processo judicial. Na sequência, pode-se ver a apresentação do projeto e de trabalho social, que foi realizado com “moradores e líderes”, ou seja, o grupo de quatro líderes que operacionalizaram a divisão da comunidade à revelia de seu legítimo representante (a Associação de Moradores ou mesmo a colônia de pescadores). E o que dizer das inúmeras reuniões e audiências realizadas pelos Ministérios Públicos Federal e Estadualque geraram compromissos e acordos não cumpridos? E as inúmeras reuniões solicitadas pela Associação, para as quais a prefeitura nunca enviou um representante? Percebem-se algumas fotografias isoladas, com agentes da Prefeitura acompanhados de um ou dois moradores. Em que sentido essas fotografias configuram uma consulta, um debate amplo com a comunidade? Em contraste a isso, asfotografias e registros audiovisuais das assembleias, protestos, reuniões da comunidade no processo de resistência demonstram grande número de pessoas reunidas, democraticamente debatendo e decidindo sobre a situação. As atas de reunião estão disponíveis para análise no
acervo da Associação de Moradores. Onde estariam as atas de reunião da prefeitura com a comunidade, durante esta suposta aceitação do projeto? Onde foram realizadas as consultas, as assembleias, como é previsto pelo Plano Diretor da cidade, lei orgânica do Município?
O que eles chamam de trabalho técnico social foi pautado por um edital de licitação para terceirização da transferência, cujo conteúdo higienista e preconceituoso já foi debatido anteriormente. Outro dado que caracteriza a falta de diálogo do projeto é o fato de o próprio presidente da Associação dos Pescadores desconhecer o projeto, como ficou evidenciada na audiência pública realizada na Câmara de Vereadores, noticiada pelo periódico Melhor Notícia102:
Um fato que chamou a atenção dos jornalistas foi o total desconhecimento do presidente da Associação dos Pescadores de Maceió, Antônio Gomes. Perguntado sobre a posição da Associação diante do impasse, ele não sabia se posicionar por que não conhecia o projeto. Somente depois que foi informado pelo representante da Favela do Jaraguá, Seu Toinho, como é conhecido, disse que estava ali para defender o melhor para os pescadores.
Este desconhecimento também era comum à presidente da Confederação Alagoana de Pesca, Eliana Moraes, que nos revelou que nuca foi chamada para opinar sobre o projeto103. Assim, o que realmente a Prefeitura entendia como “participação” da comunidade, se havia nada menos que as três entidades representativas dos pescadores e moradores afirmando exatamente o contrário? Se a prefeitura não dialogou com as entidades representativas, que são os representantes legítimos perante a sociedade e a lei, onde, quando e com quem aconteceram esses supostos diálogos?
Ou seja, o esforço de reconstituição da história da vila dos pescadores e de sua resistência nos leva a perceber que, de fato, as informações apresentadas aconteceram, houve as referidas reuniões e debates sobre o projeto, mas se omitiu o fato de que aconteceram com moradores condenados a abandonar a área, aqueles já convertidos, não configurando um processo amplo e democrático no qual os mesmos pudessem opinar sobre o tipo de urbanização que queriam, sobre o futuro da comunidade. É importante reconhecer que a quantidade de moradores, que em certo momento acabará se constituindo em maioria, não deixa de dar legitimidade ao processo, embora do ponto de vista sócio-histórico fique o registro de uma clara violação do direito de organização, caracterizado pelo total desprezo
102 Disponível em:http://www.melhornoticia.com.br/index/pg/print.php?head=noticia.mht&node=mn21138. Acesso em 15/12/2009.
pela entidade representativa, por meio da instrumentalização de lideranças que minavam o poder de influência da Associação.
No item 1.12 da Ação Civil Pública, a prefeitura afirma que é de conhecimento público e notório a satisfação das famílias que saíram da favela do Jaraguá, e estão morando na vila dos pescadores, consoante demonstra a matéria veiculada no periódico Gazeta de Alagoas de 03/06/2012. O jornal e a prefeitura se esqueceram de incluir neste argumento as famílias que venderam ou alugaram os apartamentos, além das famílias que voltaram a reconstruir barracos na comunidade e ficaram em dupla residência (deixavam os filhos no apartamento, mas dormiam na comunidade, por causa da necessidade do trabalho noturno).Além disso, reclamavam das perdas econômicas que tiveram pelo fato de não ter transporte público (uma das promessas não cumpridas), sendo forçados a utilizar transporte clandestino de carros e motos (muitos deles dos próprios moradores estranhos que moram nos apartamentos, por meio de compra, aluguel, ou outros meios desconhecidos, e outros dos jovens da comunidade que abandonaram o trabalho da pesca e se transformaram em mototaxistas).104
Agora,atentemos aodiscurso presente no item 1.13 da ação:
A favela do Jaraguá, a bem da verdade, é uma ocupação em bem público da União que vem causando há anos transtorno à coletividade, tendo em vista a insegurança existente no local, além da insalubridade, da falta de estrutura urbanística e ambiental, sendo dever da Edilidade zelar pela boa e
adequada utilização desse bem (Grifo nosso).
Como pode a Prefeitura reconhecer o “dever da edilidade”, se esta mesma edilidade nunca agiu em prol de tal zelo, mesmo quando obrigada por força das legislações ambientais, pelas normas urbanas, pelos convênios assinados com a Petrobrás e SPU, pelas recomendações do Ministério Público Federal, conforme expusemos anteriormente? Em vez de zelar pelo local, esta edilidade comportou-se como corresponsável pela degradação do lugar, pela omissão, como está escrito no parecer do IBAMA, acima citado.
O título II da Ação Civil Pública é totalmente ambíguo uma vez que o interesse público contempla os dois interessados na área. “Conforme referido em linhas atrás, o direito difuso que se busca tutela pública é um direito difuso, pois pertence a toda coletividade [...]”. No entanto, a urbanização da vila com a permanência no próprio local igualmente representa o interesse coletivo e um ganho para toda a cidade. E fica claro que este também parecia ser o entendimento da União, no momento em que selou um convênio de cessão com a Prefeitura
para a construção de moradias (sem impedimento técnico ou legal, conforme os termos do convênio). Vale realçar que as justificativas da prefeitura que engendraram tal convênio consistem exatamente na importância dos moradores do ponto do interesse paisagístico e do desenvolvimento do turismo, conforme está exposto em vasta documentação oficial da municipalidade. Do mesmo modo, a ocupação não se configura como esbulho, mas como problema social. A tônica da prática governamental tem sido a de não regularização fundiária das ocupações de áreas da União por populações precárias em situação de risco. Não são poucos os instrumentos de recuperação e regularização fundiária desse tipo de área, sendo um deles o próprio programa do governo federal utilizado pela prefeitura para seu projeto de intervenção (cuja remoção só seria tolerada em casos excepcionais e, como visto, inaplicáveis ao caso em tela).
No transcorrer do processo, ainda houve por parte da Prefeitura uma tentativa de desmoralização da presidente da Associação de Moradores, acusando-a de enxertar a lista dos resistentes com seu filho e seu sobrinho. Percebe-se no ofício G.S nº 327/2012 endereçado ao MPF/AL que o argumento da Prefeitura é o fato de que ambos eram menores de idade na época do cadastramento. Como pode ser observado nos relatos, essa não seria a única situação de coabitação, uma vez que passados cinco anos, esses jovens constituíram novos núcleos familiares (ainda que coabitando o mesmo barraco), ao passo que consta ainda que situações iguais foram prestigiadas pela prefeitura, tendo como exemplo uma das principais lideranças da prefeitura na comunidade, que ganhou dois apartamentos, um para si e um para a filha menor de idade que era solteira e morava com a mesma no mesmo barraco, segundo relato dos moradores. Percebe-se aqui uma desigualdade de critérios na definição das coabitações.
Em meio a essa disputa, em defesa da comunidade a Defensoria Pública da União designou a defensora Tarsila Maria Lopes. Como veremos aqui, a defesa baseou-se em três pilares: as contradições da Prefeitura quanto à urbanização da vila, a tradicionalidade, o direito de posse assegurado por lei. Antes de apresentar alguns elementos desta defesa, faz-se necessário abrir um parêntese para registrar certa diferença nas relações entre comunidade e DPU, uma vez que este dado tem grande influência no andamento do processo. No início