3.2 A Primeira Assembléia Geral Constituinte e Legislativa e a Nação Brasileira
4.1.3 A Biblioteca Imperial e Nacional, e a Biblioteca Pública
Fig. 3 - Biblioteca Imperial e Nacional; Fonte: Biblioteca Nacional
Da Idade Média até o século XIX era comum a existência de bibliotecas reais, ou livrarias reais como eram denominadas. A biblioteca real portuguesa à época de D. João VI constituía-se da que foi organizada por D. José I (OLIVEIRA. 2005, p. 254). "A biblioteca representava idéias e projetos de uma monarquia culta e marcada por acervo que revelava o universo intelectual da corte portuguesa" (SCHWARCZ, 2003, p. 37-38). Ela era motivo de orgulho da corte portuguesa, e um de seus mais caros bens.
Com a vinda da família real para o Brasil, D. João VI mandou vir a biblioteca real. A
vinda da real biblioteca ocorreu por partes133. Em finais de 1807, acondicionada
precariamente, chegou a biblioteca do Conde da Barca, Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), que incluía uma tipografia completa, uma coleção mineralógica organizada pelo geólogo alemão Abraham Gottlob Werner, e um conjunto de instrumentos científicos com os
quais montou em sua própria residência um laboratório de Química134. Em 1810, os acervos
da livraria do rei e o da Casa do Infantado foram enviados em três remessas, e parte do que restou em Portugal chegou ao Brasil em 1811, com o bibliotecário Luiz Joaquim dos Santos Marrocos (SCHWARCZ, 2003, p.39). O acervo, no total de sessenta mil peças, constituía-se de livros, mapas, manuscritos, quadros, moedas e medalhas (SPINELLI, 2007; OLIVEIRA, 2005).
Através de Alvará Régio de 27 de junho de 1810, D. João VI requereu o andar superior do Hospital da Ordem Terceira de N. Srª. do Monte do Carmo para a instalação da Real Biblioteca e de um Gabinete de Instrumentos de Física e Matemática. A escolha do local
133 Schwarcz, ibid., p. 38. 134 http://pt.wikipedia.org
da biblioteca levou em consideração a capacidade de abrigar o acervo e a possibilidade de comunicação direta com o Paço por meio de um passadiço (OLIVEIRA, 2005, p. 254). O Decreto de 29 de outubro de 1810 revogou o anterior e determinou que o acervo fosse transferido para o lugar que havia servido de catacumba aos religiosos do Carmo por ser mais adequado ao abrigo de uma biblioteca (OLIVEIRA, 2005, p. 255). Segundo Carvalho (1994, p. 38), a data de 29 de outubro de 1810, do segundo Decreto, foi oficializada como a da fundação da biblioteca. Em 1814, a biblioteca foi aberta ao público em geral, sem a necessidade de autorização prévia. Até então, a consulta ao acervo era restrita a estudiosos, mediante consentimento régio (SPINELLI, 2007, p. 10; CARVALHO, 1994, p. 38; OLIVEIRA, 2005, p. 256).
Quanto à estrutura administrativa, pelos Estatutos de primeiro de janeiro de 1821, S. M. ordena que, para o funcionamento e preservação do acervo, a biblioteca tenha um Prefeito,
um Ajudante do Prefeito, dois Escreventes, Serventes, e um Livreiro encadernador135. Em
1822, pelo Decreto s/nº, de 3 de agosto136, criou-se mais um cargo, de Ajudante da Biblioteca.
O Decreto de 23 de outubro de 1822137 criou o cargo de Bibliotecário. E através da Decisão nº
191, de 13 de setembro de 1824138, houve a primeira reforma administrativa da biblioteca,
com a substituição da função de Prefeito pela de Bibliotecário, Ajudante Bibliotecário, três Oficiais Ajudantes, dois Amanuenses, quatro Serventes, um Livreiro Encadernador, e dois Escravos, além da aprovação do primeiro Regimento Interno. Em 13 de novembro de 1823 a Biblioteca Imperial e Pública ficou subordinada à Secretaria de Estado dos Negócios do Império. De acordo com Oliveira (2005), Carvalho (1994) e Spinelli (2007), os primeiros a serem nomeados como Prefeitos da Real Biblioteca foram frei Gregório José Viegas, de 1810 a 1821, da Ordem Terceira Franciscana, frei Joaquim Damaso, de 1810 a 1822, da Congregação do Oratório, e frei Antonio de Arrabida, de 1822 a 1831, franciscano, que
também era conselheiro e mestre da família real139. Frei Gregório voltou para Portugal com D.
João VI, em 1821, levando cerca de seis mil códices que lhe estavam confiados à época (SPINELLI, 2007, p. 19). No ano seguinte, Frei Damaso recusou-se a aderir a Independência do Brasil e retornou à Portugal levando mais cinco mil códices, boa parte dos manuscritos da biblioteca (CARVALHO, 1994; SCHWARCZ, 2003, SPINELLI, 2007).
135 Brasil. Estatutos da Real Biblioteca mandados ordenar por S. M..Rio de Janeiro:Tipografia Régia,1821. 136 Brasil. Coleção das Leis do Império do Brasil, Rio de Janeiro, Parte 2, p. 115, 1887.
137
Brasil. Coleção das Leis do Império do Brasil, Rio de Janeiro, Parte 2, p. 116, 1887.
138 Brasil. Coleção das Decisões do Governo do Império do Brasil, Rio de Janeiro, p. 135, 1886. 139 http://www.franciscanos.org.br/noticias; Ver também Oliveira (2005) e Spinelli (2007).
Carvalho (1994, p. 43) afirma que não se conhece "qualquer documento que narre a possível luta que deve ter havido sobre o destino do acervo da biblioteca" na época do retorno da família real a Portugal. Schwarcz (2003, p. 41) afirma que houve uma "disputa bibliográfica, luta travada de um lado, para que a biblioteca voltasse ao seu destino original; de outro, para mantê-la como parte de uma política de fortalecimento científico e cultural da nova nação". Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha (apud SPINELLI, 2007, p. 21) afirma que o retorno da corte portuguesa, em 1821, e a separação de Brasil e Portugal, em 1822, foram as razões para os entendimentos diplomáticos que culminaram com o Tratado de Paz e
Aliança, de 29 de agosto de 1825140, e com a Convenção Pecuniária ou Adicional, anexada ao
Tratado e assinada na mesma data. Neste acordo diplomático entre as duas nações, D. Pedro I concordou em indenizar a coroa portuguesa por seus bens e propriedades deixados no país, e nesse rol incluía-se a real biblioteca, que foi "avaliada em oitocentos contos de réis, para obter o reconhecimento da Independência" (SCHWARCZ, 2003, p. 42). O ressarcimento dos prejuízos da corte portuguesa foi compensado com o pagamento de dois milhões de libras esterlinas, feito pelo governo do Brasil (SPINELLI, 2007, p. 21).
Dessa maneira ,se o país começou sua vida autônoma pagando um preço elevado à ex-metrôpole –2 milhões de libras esterlinas, tomadas de empréstimo por Portugal à Coroa britânica, com juros de 5% ao ano-, a biblioteca não ficou por menos : foi avaliada em 800 contos de réis, um preço alto, muito alto para um país recém-independente O fato é que a biblioteca passou a fazer parte da nação emancipada, que aos poucos lhe adicionou novas aquisições, conferindo-lhe uma
função particular (SCHWARCZ,2002,p.35-36, apud BETTIOL, 2008)141.
Uma biblioteca nacional abriga a memória de uma nação; acumula conhecimento; é patrimônio nacional; abriga também as disputas políticas, portanto, o poder. Uma biblioteca oferece-nos um confronto crítico de documentos, de opiniões, de teorias. D. Pedro I estava ciente disso.
Em 1822, o governo brasileiro determinou que fosse entregue à Biblioteca cada exemplar de cada obra, periódico, volantes impressos na Tipografia Nacional (SPINELLI, 2007, p. 10). Em 1824, foram comprados mais de 1590 volumes do espólio do Dr. Francisco de Melo Franco (1757-1823), médico mineiro, que estudou latim e retórica no Colégio dos Nobres, em Lisboa, e graduou-se em Medicina na Universidade de Coimbra. Seu espólio era constituído por obras sobre teologia, ciências, artes, belas-artes, direito, história e clássicos (SPINELLI, 2007, p. 18; CARVALHO, 1994, p. 46). E a Biblioteca Imperial e Nacional não parou mais de crescer.
140 http://pt.wikipedia.org
A Decisão N. 191, de 13 de setembro de 1824, acima citada, aprovou o Regimento Interno para a Biblioteca Imperial e Pública da Corte. O Regimento é composto de duas partes, a primeira parte estipula as normas para o serviço público e a segunda parte trata do serviço particular. Quanto ao serviço ao público, o Regimento estabelece que: a biblioteca estará aberta de 9 horas da manhã até a 1 hora da tarde; serão admitidas todas as pessoas decentemente vestidas e sem capote; serão emprestados os livros que pedirem somente para consulta na própria sala de leitura, sendo vedado o empréstimo para fora da biblioteca sem a expressa autorização do Imperador; serão fornecidos papel, penas e tinta para os leitores tomarem apontamentos; somente os empregados poderão tirar e guardar livros nas estantes, sendo obrigação dos leitores entregarem-lhes os livros ao final da consulta; é rigorosamente proibido passear, falar em voz alta, e travar disputas ainda mesmo científicas; longas conversações são igualmente proibidas; somente com autorização e acompanhamento de um empregado será permitida a visitação às dependências da biblioteca. Quanto ao serviço interno à biblioteca, o Regimento determina que haja um Bibliotecário, um Ajudante de Bibliotecário, três Oficiais Ajudantes, dois Amanuenses, quatro Serventes, um Livreiro Encadernador, e dois Escravos. Quanto às obrigações de cada categoria, o Regimento estipula que o Bibliotecário "tem a seu cargo o total governo do estabelecimento em todas, e em cada uma das suas relações e partes"; ele regula, compra, vende, fiscaliza, responde e dá contas a S.M. o Imperador através do Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império; e todos os demais empregados lhe serão subordinados. O Ajudante Bibliotecário é o substituto eventual do bibliotecário, e a ele também cabe a guarda da casa, a vigiar e dirigir os trabalhos e os empregados. Ao Oficial Ajudante caberá a formação dos catálogos e o arranjo dos livros segundo o sistema que se lhe der, e que deverá conservar; dar e receber os livros das pessoas que os pedirem, e de os colocar de volta no lugar; vigiar quem entra, o que faz, e como está; responde ao Ajudante Bibliotecário e a tudo o que se refere a polícia, arranjo, conservação, e guarda da biblioteca. Os Amanuenses devem se ocupar da escrituração de tudo o que lhes for ordenado, em especial da administração e relações exteriores do estabelecimento mas não havendo o que fazer, substituem os Oficiais Ajudantes e são subordinados ao Ajudante Bibliotecário. Os Serventes respondem pela limpeza do estabelecimento, das salas, dos livros, das estantes e bancas, e são subordinados ao Ajudante Bibliotecário. O Livreiro Encadernador executa tudo o que refere-se ao seu ofício, respondendo também ao Ajudante Bibliotecário. Os Escravos são para todo o serviço pesado, que inclui limpeza, transporte de peso dentro e fora da biblioteca; somente o Ajudante Bibliotecário poderá admiti-los ou despedi-los. Como disposições gerais para todos os empregados, o Regimento estabelece que o horário de
trabalho inicia às 8 horas da manhã até a 1 hora da tarde e de 3 às 6 da tarde, com intervalo de 1 às 3 da tarde, exceto quando o Imperador determinar ou tiver necessidade de alterar esta rotina. Ninguém pode faltar e nem sequer sair enquanto a biblioteca estiver aberta ao público, a menos que tenha autorização e com o conhecimento do Ajudante de Bibliotecário. Todos os empregados são obrigados a manter uma escala por turno aos domingos, Dias Santos, e por ocasião de festividades de grande gala na Corte. Nenhum dos empregados poderá sair com quaisquer livros e documentos da biblioteca, por tempo algum, e nem sob nenhum pretexto; e ninguém poderá receber visitas no local de trabalho nem manter conversações. Aqueles que não cumprirem com suas obrigações serão repreendidos em particular pelo Ajudante Bibliotecário; em público somente com ordem do Bibliotecário, que poderá suspender os reincidentes ou incorrigíveis e dar parte deles a S. M. o Imperador.
Para uma difusão da cultura científica deveria haver uma estrutura que respaldasse a nova forma dessa difusão: o uso de livros; e para isso a presença de uma biblioteca era necessária.
Outras bibliotecas foram criadas no governo de D. Pedro I. A Decisão N. 202, de 20 de setembro de 1824, aprova o plano de criação de uma Biblioteca na Vila de São João d’El-Rei, na Província de Minas Gerais, a pedido de Baptista Caetano de Almeida, que se propôs a doar 800 de seus livros para começar, contando também com a oferta de outras pessoas "amantes da literatura". E através da Decisão N. 237, de 11 de novembro de 1824, o Ministério da Fazenda manda arrematar a livraria do falecido Bispo de São Paulo para a fundação de uma Biblioteca Pública nesta província.
Através do Decreto de 15 de novembro de 1827, A Assembléia Geral Constituinte, com a concordância de Sua Magestade Imperial, isentou de portes e direitos os periódicos e os
livros que eram destinados às bibliotecas públicas142, facilitando assim, a importação e a
atualização do acervo. E com o Decreto de 7 de dezembro de 1830, o governo mandou estabelecer uma Biblioteca Pública na cidade de Olinda, Província de Pernambuco. O Artigo 2º deste Decreto determina a instalação da Biblioteca Pública em parte da casa dos Beneditinos, ou então no prédio abandonado e desocupado do antigo Palacete do Governo, local que também abrigaria as aulas do Curso de Ciências Jurídicas criado pela Lei de 11 de
agosto de 1827143. A associação da Biblioteca ao Curso Jurídico é expressa nos Artigos 6º e
7º. O Artigo 6º determina que a "Congregação dos Lentes do Curso Jurídico remeterá ao Presidente da Província uma relação das melhores obras, e edições, indicando por sua ordem
142 Col. das Leis do Império do Brasil. In: http://www.camara.gov.br 143 Col. Das Leis do Império do Brasil.
as que devem ser sucessivamente compradas". E o Artigo 7º designa a Congregação de Lentes do Curso Jurídico para a elaboração do Estatuto da Biblioteca Pública.
Ao contrário da Biblioteca Nacional e Imperial, que se preocupa em conter um número grande de obras significativas e representativas da nossa cultura e que busca servir aos interesses do público em geral, a Biblioteca Pública associada ao Curso de Ciências Jurídicas de Olinda tem um caráter de biblioteca setorial, específica para atender às necessidades de estudos e pesquisas deste curso. Aí está o germe da associação entre pesquisa e ensino em um curso superior no Brasil.