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4. Histórias de vida conectadas

2.1. A materialidade das obras

2.1.1. A Bibliothèque rose

Os primeiros três livros da Condessa de Ségur, Les petites Filles modéles,

Les malheurs de Sophie e Les vacances, publicados entre 1858 e 1859 tornaram a

autora célebre. Eles foram publicados na sexta coleção da Bibliothèque des chemins

de fer47.

Cada coleção era facilmente identificada pela cor da capa, para fácil visualização ao serem vendidas em quiosques nas estações de trem francesas, sendo a capa vermelha para os guias de viagem, a verde para as narrativas de viagens, a cor creme para a literatura francesa, amarelo para a literatura estrangeira, azul para os tratados de agricultura e indústria e a cor de rosa para a literatura infantojuvenil. A Bibliothèque des chemins de fer ainda tinha uma imagem de trem em sua capa caracterizando a coleção.

As coleções também possuíam dois tipos de encadernação: a mais barata de papel rosado, vendida, à época, por dois francos, e a mais cara, de capa dura revestida de percalina e título impresso em cor dourada. A versão de capa dura e letras douradas foi comercializada até 1958. Essa versão mais luxuosa assegurava sua maior durabilidade e provavelmente a edição de luxo que foi exportada para outros países, como o Brasil, por exemplo. A capa de percalina vermelha também foi utilizada pela editora Aillaud, que publicou as primeiras edições portuguesas dos livros da coleção.

A Bibliothèque Rose era bastante diversificada, com obras selecionadas da literatura universal, tais como Homero, Plutarco, Virgilio, Molière e Miguel de Cervantes, e autores que se tornaram “clássicos” da literatura infantojuvenil, como François Fénelon, Hans Christian Andersen, Charles Perrault, os irmãos Grimm, Daniel Defoe, e Jonathan Swift. A coleção apresentava um caráter internacional ao incluir escritores de diversos países, prestigiando não apenas autores consagrados da literatura universal, mas também abrindo espaços para escritores nacionais e internacionais da contemporaneidade.

Histórias de aventuras e de acontecimentos em continentes distantes mostravam-se atrativas para o público de crianças e jovens. Thomas Mayne-Reid, o capitão que lutou por Nova Iorque e relatava suas aventuras chegou a ter 12 títulos publicados na Bibliothèque Rose. Os depoimentos de David Livingstone, o pastor missionário que trabalhou na África, foram adaptados para os leitores da coleção.

Muitas escritoras vieram a contribuir para a ampliação do catálogo da

Bibliothéque Rose. Zulma Carraud, Julie Gouraud e Zénaïde Fleuriot tiveram seus

livros publicados na coleção, com romances de “boas moças”, destinados ao público feminino. Até mesmo Louisa May Alcott teve seu livro Sous les lilas48 publicado nesta coleção.

Os livros possuem o formato in-18 Jésus49, com 11,5x18,3 cm de largura, um

tamanho considerado adequado para ser transportado dentro do bolso ou nas bolsas de viagem. Assim, os livros podiam ter grande quantidade de páginas com um bom aproveitamento da folha de papel, entre as bordas e as linhas. Les

malheurs de Sophie, tinha 251 páginas, Les petites filles modèles tinha 272 páginas

e Les vacances, 345 páginas.

48 O título original é Under the lilacs, que pode ser traduzido como Sob os lilases.

49 O formato in-18 Jésus foi criado pelo editor Gervaise-Hélène Charpentier, que precisava ampliar a

venda de livros mais baratos. Este tamanho se deve ao formato de uma folha Jésus, de 56 x 76 cm dobrada cinco vezes com 32 folhas e 64 páginas, possibilitando publicar livros com até 500 páginas em um só volume. (FARIA; PERICÃO, 2008, p. 345).

Figura 1 - Edição de luxo de Les malheurs de Sophie, Editora Hachette, 1880.

As páginas trazem, no topo, seu número e o título do livro. Cada capítulo é iniciado em uma nova página, com o número e título do capítulo. Os livros possuem muitos diálogos, tornando as narrativas dinâmicas, uma vez que se assemelham a textos de teatro, com o nome da personagem centralizado na linha e sua fala escrita logo abaixo. Ao adquirir maior confiança em com seus romances, a Condessa de Ségur aumentou o número de páginas contando histórias mais longas e complexas.

Os livros da Bibliothèque Rose diferenciavam-se das demais coleções da Editora devido às ilustrações que traziam. Gustave Doré, Bertall, Émile Bayard, Horace Castelli50, Forest foram alguns dos ilustradores da coleção. A quantidade de imagens era destacada na folha de rosto dos livros e no catálogo da editora,

50 Horace Castelli se inspirou em ilustradores como Achille Devéria e Gustave Doré, colaborando com

ilustrações para publicações como La semaine des familles (A semana das famílias), e da editora Lahure, além da editora Hachette, na qual colaborou com ilustrações dos livros da Condessa de Ségur. Texto disponível na Internet via: http://www.ricochet-jeunes.org/auteurs/recherche/576-horace- castelli.

podendo variar de 5, 12 a 140 gravuras, dependendo do volume de cada obra. Les

malheurs de Sophie, tinha 48 ilustrações de Horace Castelli, Les petites filles modèles tinha 20 ilustrações de Bertall51 e Les vacances tinha 40 ilustrações, também de Bertall.

Os livros apresentam um formato relativamente pequeno eram adequados para mãos de crianças, porém que não se mostram muito versáteis, uma vez que se apresentam em grandes volumes de pequenos formatos. Naquele período, imagina- se que as crianças tivessem bastante familiaridade com a leitura, estando aptas a ler longos romances. Por outro lado, crianças que não tivessem muita desenvoltura com a leitura poderiam contar com a disponibilidade de adultos (os pais e outros parentes) para realizarem a leitura para elas.

Cada um dos livros ainda apresenta uma dedicatória da Condessa de Ségur a cada um de seus netos. Em Les malheurs de Sophie dedica o novo livro publicado à neta Élisabeth Fresneau:

Querida criança, você me costuma dizer: "Oh! Avó, que eu te amo! Você é tão boa!" A avó nem sempre foi tão boa, e há crianças que são ruins como ela e que foram corrigidos como ela. Aqui as histórias verdadeiras de uma pequena menina que a avó conheceu bem em sua infância; ela sentia raiva, ele se tornou doce; ela era glutona, ela se tornou moderada; ela era mentirosa, ela se tornou franca; ela era ladra, se tornou honesta; enfim, ela era maldosa e se tornou boa. Façam como ela, minhas queridas pequenas crianças; será muito fácil para vocês, a vocês que não possuem todos os defeitos de Sophie.

COMTESSE DE SÉGUR nascida Rostopchine (SÉGUR, 1880, p. 01) Nessa dedicatória a Condessa de Ségur orienta as crianças a não serem como Sophie, que possuía muitos defeitos que a própria avó conheceria bem. Sophie foi corrigida, supostamente por adultos, para ter uma conduta melhor. A questão da conduta será analisada detidamente mais adiante e está presente em todos os livros da escritora. Deve-se registrar que a Condessa faz questão de assinar seu sobrenome russo, trazendo um aspecto de sua genealogia.

51 Bertall é o pseudônimo de Albert Amoux, que se formou em desenho trabalhando no atelier de

Drolling. Trabalhou para o editor Barba, ilustrando os livros de Paul de Kock e Cooper, além de La

Comédie humaine ("A comédia humana"), de Balzac. Realizou ilustrações para os livros da editora

A Condessa de Ségur inicia Les petites filles modelès com a seguinte dedicatória:

Minhas Pequenas meninas exemplares não são uma criação; elas existem de verdade: são retratos; a prova de que são feitas segundo a natureza está em suas próprias imperfeições. Elas possuem defeitos, tons claros que trazem o charme do retrato que atesta da existência do modelo. Camille e Madeleine são uma realidade que pode assegurar toda pessoa que conhece a autora.

COMTESSE DE SÉGUR nascida Rostopchine (SÉGUR, 1858, p. V, destaque da autora) O livro afirma que as meninas exemplares do título existiram de verdade e que os conhecidos da autora poderiam atestar sua veracidade. Apesar de criar um cenário e uma configuração familiar, a Condessa de Ségur assegura que essas meninas, com seus exemplos e defeitos existem. Afirmação semelhante foi realizada no prefácio de Les malheurs de Sophie, sobre uma menina que fazia coisas erradas, que a autora conhecia bem.

Trata-se de uma estratégia para atrair o leitor, por se tratar de crianças "reais", com suas virtudes e defeitos. Esses são conhecidos não só pela autora, mas também pelo leitor. Assim, a narrativa inicia criando um vínculo de cumplicidade com o leitor, convidando-o para uma história com diferentes acontecimentos. Tal recurso foi bem engendrado entre a escritora e o editor, que precisavam chamar a atenção do público para uma nova autora da Bibliothèque rose. Pelo sucesso alcançado na coleção, esse recurso passou a ser utilizado em todos os livros da Condessa de Ségur, dedicando seus livros aos netos e apresentando alguns personagens do próprio livro.

A dedicatória de Les vacances foi endereçada a Jacques de Pitray:

Querida criança, você ainda é muito pequeno para ser o JACQUES de [Les] VACANCES, mas você será, estou certa, igualmente bom, igualmente amável, igualmente generoso e igualmente corajoso como ele. Mais tarde, você será excelente como PAUL, e, mais adiante, como M. de Rosbourg. Este é o voto da avó que te ama e abençoa.

Condessa de SÉGUR, nascida ROSTOPCHINE. (SÉGUR, 1861, p. 1)

Nessa dedicatória a escritora se refere a personagens fictícios, presentes na narrativa do livro. Não há a intenção de mencionar figuras reais, como realizado anteriormente. Ao apresentar as personagens femininas, que supostamente existiam e eram conhecidas pela escritora, existia a necessidade de comprovar sua veracidade. Ao tratar de personagens homens, a Condessa de Ségur só os indica personagens, provavelmente na expectativa de que seu neto e demais crianças se aproximassem deles em termos de bondade e bravura, ao invés de chegarem perto de outras figuras masculinas que poderiam existir na realidade.

As dedicatórias foram mantidas nos livros até as versões atuais. A Editora Hachette continua publicando essa coleção, voltada aos públicos infantil e juvenil e traz um acervo renovado, buscando atender aos interesses de seus leitores, com personagens variados de diferentes partes do mundo. A própria coleção ganhou categorias novas, com Ma première Bibliothèque Rose52, Bibliothèque Rose,

Bibliothèque Rose Plus53 e Les Classiques de la Rose54, subdividindo os livros por temas com fadas e princesas, histórias de aventuras, mistério e amizade, histórias de astros musicais e os livros que marcaram os primórdios da Bibliothèque Rose, como os livros da Condessa de Ségur. Em Les Classiques de la Rose todos os livros da Condessa de Ségur continuam sendo publicados, porém em uma nova versão.

As publicações mantêm a capa dura, com a lombada impressa na cor rosa e o nome da coleção específica. Os diálogos dessa edição mantêm também o formato com os nomes das personagens em destaque. Os livros atuais apresentam novas ilustrações na capa - traços mais delicados e suavizados - na folha de rosto e pequenas ilustrações ao lado do número da página. A publicação não possui outras imagens que, nos primórdios da coleção, eram uma das características que chamariam maior atenção do público infantil. Com isso, o número de páginas também é reduzido. Seu formato é de 12x17cm, não se diferenciando muito das primeiras edições.

A editora Hachette procurou manter-se fiel às obras orginalmente publicadas, trazendo alterações no visual. Com essas alterações na materialidade do livro, busca atrair novos leitores para livros que se tornaram "clássicos" para a editora. Entretanto, nota-se que as ilustrações, que no século XIX eram divulgadas como um

52 Minha primeira Biblioteca Rosa 53 Mais Biblioteca Rosa

diferencial, já não são mais um aspecto importante para chamar a atenção dos leitores.

Figura 2 - Versão atualizada de Les petites filles modèles, Editora Hachette, 2007.

Uma vez caídas no domínio público, as obras passaram a ser publicadas por outras editoras em todo o mundo. Há diversas versões em língua francesa, inclusive com adaptações no texto. Para esta tese foram consultadas as versões digitalizadas de Les malheurs de Sophie de 1880, Les petites filles modèles, de 1858 e Les

vacances, de 186155. Outras versões francesas verificadas foram editadas pela

55 A Biblioteca Nacional Francesa oferece livros digitalizados caídos em domínio público que não

Librio56, de 2008, Casterman57, de 2003, e Hachette, em uma versão de 2010. Todas elas trazem o "texto integral", isto é, o texto originalmente publicado no século XIX. De fato, nem mesmo as dedicatórias para os netos são deixadas de lado, estando presentes em todas as edições.

Contudo, nas edições de Les malheurs de Sophie, da Librio e Les petites filles

modèles, da Casterman, a apresentação do texto é diferente, especialmente no que

se refere aos diálogos, que foram a marca da escritora em seus textos, tornando-os mais ágeis. Nessas edições mais recentes, os nomes são escritos em caixa alta, porém na mesma linha da fala, o que reduz o espaço ocupado pelo texto na folha. Percebe-se um diálogo, porém não com um caráter teatral. Os textos destas editoras também ocupam boa parte da página, com margens pequenas e pouco espaçamento entre as linhas. Assim as edições também possuem menos páginas. O livro da editora Librio tem 127 páginas e da Casterman 190 páginas, uma quantidade menor do que as mais de 200 páginas das primeiras edições da Hachette. Percebe-se que não há uma preocupação com o conforto do leitor para realizar a leitura, e sim em oferecer um livro supostamente mais acessível, como no caso da Librio.

O tamanho dos livros também não é muito diferente daqueles da editora Hachette. O livro da editora Casterman tem 11,5x17 cm e o da editora Librio tem 13x21cm. Ainda são livros menores para caberem em mãos pequenas e que podem ser manuseados com facilidade, uma vez que não são grossos e de capas pesadas. Apenas o livro da editora Casterman possui ilustrações de autoria de Jobbé- Duval58, enquanto a capa foi composta por Marcel Marlier59. Os demais livros possuem apenas a ilustração da capa. No caso da versão da editora Folio, a imagem é de autoria de Jen-Loup Charmet60 e a da Hachette é de Iris de Moüy61. As imagens dessas novas edições se distanciam das imagens mais caricaturais das

56 A editora Librio é uma editora francesa do grupo Flammarion que possui um catálogo variado de

livros caídos em domínio público vendidos com preços únicos de 2€ ou 3€, dependendo do tipo de livro.

57 A Casterman é uma editora franco-belga especializada em histórias em quadrinhos.

58 Félix Paul Joseph Jobbe-Duval é filho de uma família de ilustradores e pintores franceses. Realizou

trabalhos publicitários e também para periódicos. Colaborou, na editora Casterman, na ilustração dos livros da Condessa de Ségur.

59 Marcel Marlier foi um artista e ilustrador belga que ilustrou livros escolares e se dedicou à ilustração

de livros infantis.

60 Sobre Jean-Loup Charmet não foram encontradas muitas informações, mas há indício de que

tenha sido fotógrafo, além de ilustrador.

61 Iris de Moüy é uma escritora e ilustradora parisiense voltada para a literatura infantojuvenil.

primeiras versões. Os traços são suavizados e arredondados, possivelmente buscando ser mais atraentes para novas gerações. As crianças são apresentadas com vestidos de saias rodadas, o que não corresponde às narrativas, e com poucos traços, diferentemente das primeiras versões, que possuem grande riqueza de detalhes nas fisionomias e na vestimenta das personagens.

Nota-se que em alguns dos livros consultados ocorreram mudanças na formatação do texto e na supressão de ilustrações. São livros considerados "clássicos" da literatura infantojuvenil e por esse motivo não precisam de muitos atrativos para seu público. Uma capa com ilustrações convidativas e coloridas escondem um texto compactado em poucas páginas. Talvez exista a intenção das editoras em continuar vendendo esses livros, pelos discursos que veiculam, mas não existe uma preocupação em atrair os novos leitores. Provavelmente são os adultos, que leram os livros na infância, que compram os livros para as crianças.

Após estas considerações iniciais sobre a materialidade dos livros, será possível atentar para os discursos dos livros acerca da infância, família, religiosidade e educação. Sua representação está na relação tecida entre a infância e as demais instâncias, por meio de símbolos e significações que buscam convencer o leitor.