A questão da utilização de OGMs não deve ser mais colocada em termos de aceitação, mas em termos de co-construção*
Pierre-Benoit Joly
Biotecnologia é um termo bastante amplo, aplicado a todo tipo de uso de organismos vivos, cobrindo uma gama de aplicações que podem ser divididas em duas categorias de atividade: uma se refere a atividades consideradas mais tradicionais e familiares, e a outra a atividades que são relativamente novas. Ambas as categorias abrangem tecnologias classificadas como genéticas (que envolvem a modificação de traços passados de uma geração para a próxima) e tecnologias que não são genéticas. (Union of Concerned Scientists).
Como exemplo de uma biotecnologia tradicional não genética, pode-se citar a fermentação de microorganismos para a produção de vinho, cerveja e queijo. Um exemplo de uma biotecnologia tradicional genética é a seleção de plantas e animais com traços desejados. Essas tecnologias têm sido utilizadas com sucesso há bastante tempo e são responsáveis pela alta produtividade da agricultura contemporânea. (Union of Concerned Scientists).
Dentre as novas biotecnologias não genéticas, encontram-se técnicas que podem ser consideradas controversas ou não-controversas. Um exemplo de técnica não-controversa é a utilização de anticorpos monoclonais com aplicação diagnóstica (em testes de gravidez, por exemplo). A clonagem também é uma nova biotecnologia não genética. Essa técnica não modifica traços específicos, uma vez que ela transfere o núcleo inteiro que contém o conjunto total de informação genética de um indivíduo. Entretanto, a clonagem de mamíferos, por exemplo, é considerada altamente controversa. (Union of Concerned Scientists).
Em 1973, os cientistas Stanley Cohen e Herbet Boyer moveram um gene de um organismo para outro, criando o primeiro organismo geneticamente modificado (OGM), surgindo assim a “biotecnologia moderna”, também chamada de engenharia genética.
A engenharia genética é o exemplo de nova biotecnologia genética. Ela é baseada na manipulação e transferência artificial de material genético, podendo mover genes e traços ultrapassando os limites naturais, ou seja, de uma espécie para outra. (Union of Concerned Scientists).
VI.1. Colapso de categorias
Eu queria cumprimentar os gays, as lésbicas e os transgênicos.
Gastão Wagner, secretário executivo do Ministério da Saúde. Folha de SP, 26/05/2004.
Como foi discutido no capítulo 4, Moscovici (1981) argumenta que a ciência, em seus laboratórios, torna o familiar em não-familiar. Assim, ele postula como função primordial das representações sociais transformar o não-familiar em algo familiar. Para tanto, Moscovici diz ser preciso procurar o elemento de não-familiaridade que motivou a gênese de tal representação e que foi absorvido. Essa transformação do não-familiar em algo familiar se dá através de uma série de ajustes, colocando o que não é reconhecido em uma categoria conhecida.
A biotecnologia moderna – engenharia genética – é tomada por muitos autores como uma das inovações tecnológicas que mais contribuem para desfamiliarizar o nosso mundo. Giddens (2002) argumenta que a engenharia genética representa uma dissolução adicional da reprodução como processo natural. Mas essa tecnologia interfere em muitas outras áreas de nossas vidas:
Como a biotecnologia moderna intervém em assuntos existenciais tais como reprodução, comida, vida, morte e destino, ela não só desafia nosso dia a dia, mas também toca e interfere em nossas idéias culturais profundamente sedimentadas sobre como o mundo é organizado e por que isso deve ser assim. Tanto na forma de inovação tecnológica, quanto na forma de cenários mais ou menos fantásticos, a biotecnologia coloca em questão as categorias culturais de ontem e desafia nossa habilidade de imaginar uma ordem no mundo de amanhã. Para a sociedade contemporânea, a biotecnologia provê novas respostas para perguntas antigas tais como o que é o ser humano, o que é natureza e o que é cultura. Em particular, a biotecnologia moderna desafia nossas idéias sobre o que é de ordem natural e o que é de ordem não-natural* (Wagner, Kronberger, Berg & Torgersen, 2006, p. 150).
Ao inserir um gene de uma espécie em outra, mais do que provocar uma sensação de não- familiaridade, a engenharia genética contribui para uma “crise de categorias”, uma vez que viola o que é considerado como a própria essência do ser vivo (Wagner, Kronberger, Nagata & Sen, 2006).
Beck (1999) também comenta que a biotecnologia moderna é responsável por abolir os limites de outras categorias: entre o laboratório e a sociedade. Isso se dá tanto no sentido de que a sociedade vira um laboratório, quanto no sentido da ampla divulgação científica sobre esse assunto. Desse modo:
O “experimento da vida real” da engenharia genética e a popularização do conhecimento relativo a ela nos permitem então investigar coisas que teriam sido impossíveis de se investigar algumas décadas atrás. Ela revela o entendimento das pessoas tanto sobre o que os seres vivos são e como eles devem ser, tocando no tópico de seres naturais, categorias de coisas vivas, e como as pessoas
lidam cognitivamente e afetivamente com as violações dos limites do ser vivo e da essência do ser* (Wagner, Kronberger, Nagata & Sen, 2006, p. 04).
Segundo Wagner, Kronberger, Berg e Torgersen (2006), a biotecnologia moderna propõe novas maneiras de categorizar o mundo. Baseados em análises documentais da mídia e em experimentos de percepção com populações de diferentes culturas, esses autores argumentam que, na tentativa de se pensar sobre a violação dos limites entre as espécies naturais ou sobre os produtos não-familiares da engenharia genética, surge uma representação social de monstros ou de monstruosidade. Conforme esses autores, desde tempos antigos, “monstros e monstruosidade podem ser encontrados sempre que categorias e limites dos seres naturais são desafiados”* (p. 152), e isso também ocorre com a biotecnologia moderna.
Segundo esses autores, ambas as representações sociais de monstruosidade são produtos culturais, desafiam nossa maneira tradicional de ver o mundo e são tomadas como presságios de um mau futuro. Entretanto, a representação social de monstruosidade tradicional e a resultante dessa biotecnologia também diferem em outros sentidos. A monstruosidade tradicional é visível, enquanto que a monstruosidade genética é invisível22. Além disso, “monstros tradicionais eram
raramente encontrados no dia a dia, enquanto que a ‘monstruosidade’ biotecnológica pode eventualmente estar onipresente no mundo pós-biotecnologia”* (p. 162).
VI.2. Uma ciência reflexiva?
Quando as ciências (...) examinam suas fundações, conseqüências e erros em relações recíprocas, o mesmo ocorre com a racionalidade especialista com o que aconteceu com a racionalidade leiga no triunfo da ciência: seus defeitos se tornam reconhecíveis, questionáveis e capazes de arranjos e re-arranjos*
Ulrich Beck
Em 1973 foi criado o primeiro OGM. Ainda nesse ano, Boyer descreveu a sua técnica de manipulação genética em uma conferência anual nos Estados Unidos, provocando preocupação sobre as implicações dessa técnica. Alguns cientistas sugeriram o envio de uma carta à Academia Nacional de Ciência Americana para que esta nomeasse um comitê para avaliar os riscos da manipulação genética (Matte, 1999).
22
Segundo Beck (1999), um número significativo de riscos tecnológicos, como os associados aos OGMs, são caracterizados por uma inacessibilidade à percepção humana. Para ele, tanto os danos potenciais, quanto a ‘expropriação dos sentidos’ pelos riscos globais tornam a vida insegura.
Em 1974, as revistas Science (EUA) e Nature (Inglaterra) publicaram uma carta de um grupo de cientistas propondo uma moratória das pesquisas que envolvessem manipulação genética. Pouco depois da publicação desta carta foi criado um comitê assessor para DNA recombinante (RAC). A moratória foi implantada em abril do mesmo ano em uma reunião científica no Massachusetts Institute of Technology (MIT) (Goldim, 1997).
Em fevereiro de 1975 ocorreu a Conferência de Asilomar que reuniu 140 cientistas americanos e estrangeiros para regulamentar, do ponto vista de segurança, os experimentos com DNA recombinante. Nesta ocasião ficou decidido que o RAC ficaria responsável pela elaboração das diretrizes da Conferência de Asilomar. Este documento ficou pronto em 23 de junho de 1976. As exigências propostas pelo documento eram muito rígidas e foram sendo modificadas com o decorrer do tempo. (Goldim, 1997; Matte, 1999).
Para Goldim (1997), a Conferência de Asilomar representa “um marco na história da ética aplicada à pesquisa” (s/p.). Porém, segundo esse autor, foram discutidos na conferência “os aspectos de proteção aos pesquisadores e demais profissionais envolvidos nas áreas onde se realiza o projeto de pesquisa” (s/p.). O documento final elaborado pelo RAC em 1976, “prevê níveis de segurança física e biológica para todos os tipos de experimentos” (Matte, 1999, s/p.). De fato, o debate inicial sobre essa nova tecnologia centrou-se na questão da segurança principalmente dos trabalhadores e, em segundo plano, da sociedade (Einsiedel e Kamara, 2006).
Entretanto, Beck (1999) chama a atenção para o fato de que os experimentos genéticos alteram a lógica tradicional de pesquisa: “primeiro laboratório e depois aplicação. Em vez disso, testes vêm depois da aplicação e a produção precede a pesquisa”* (p. 60). Os produtos precisam ser produzidos ou liberados no meio ambiente para que, posteriormente, sejam estudadas suas propriedades e riscos. “A questão da segurança, então, deve ser respondida afirmativamente antes mesmo que ela possa ser levantada”* (idem). E assim:
Pela antecipação da aplicação antes que se tenha explorado completamente, a ciência aboliu a fronteira entre laboratório e sociedade. (...) Isso torna a tecnologia capaz de conduzir uma política de fait accompli, que coloca políticos e o público não só sob uma pressão constante para reagir, mas também os coloca a mercê do julgamento dos engenheiros para a avaliação e evitação de desastre. Esse poder cresce com a velocidade das inovações, a falta de claridade concernentes a suas conseqüências e riscos, e ele cresce mesmo embora a credibilidade das promessas tecnológicasde segurançasejam por isso desacreditadas* [grifo nosso] (p. 61).
Como se pode ver, pela abolição dos limites entre laboratório e sociedade, a segurança em relação à engenharia genética, mesmo em fase de teste, diz respeito também à sociedade e não
apenas àqueles que trabalham nos laboratórios. Desse modo, seria possível pensar que a engenharia genética teria despertado um movimento reflexivo da ciência no sentido proposto por Beck?
Nos anos seguintes à descoberta da engenharia genética, surgiram vários conselhos, bem como manifestações do sistema especialista considerando o impacto dessa nova tecnologia para o meio ambiente, a saúde humana e também incluindo questões éticas, como o patenteamento de seqüências de DNA ou de organismos vivos. Em 1992, por exemplo, o comitê nacional de bioética da Itália publicou um documento sobre o patenteamento dos organismos vivos, ressaltando o risco do empobrecimento da biodiversidade. Também nesse ano, na 44ª Assembléia da Associação Médica Mundial, especialistas redigem a Declaração de Marbella sobre o Projeto Genoma Humano, contra o patenteamento do genoma humano e estabelecendo diretrizes básicas para prevenir a estigmatização de populações em risco de doenças genéticas (Matte, 1999).
Porém, as questões relativas à regulamentação do uso, pesquisa, produção, transporte, comércio de OGMs foram elaboradas por outros sistemas, com grande destaque para a influência do sistema econômico. Em 1992, a Comunidade Econômica Européia (CEE) aconselhou os estados membros a regulamentarem a Engenharia Genética e, em 1983, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) formou um grupo com o objetivo de normatizar seus estados membros em relação a essa nova tecnologia (Matte, 1999).
Em 1992, durante a Convenção da Biodiversidade (ECO 92), no Rio de Janeiro, foram realizados os primeiros movimentos na direção de um protocolo internacional que se referisse à segurança para o meio ambiente dos produtos da biotecnologia moderna. Nessa conferência, foi proposto formalmente o princípio da precaução, o qual postula que quando houver ausência de certeza científica sobre ameaças ou danos irreversíveis, deve haver cautela na utilização de uma nova tecnologia (Lewanika, 2003).
Entretanto, nessa época ainda, não se tinha ainda no mercado qualquer produto agrícola derivado da biotecnologia moderna, os quais foram introduzidos a partir de 1995. A introdução de produtos agrícolas geneticamente modificados no mercado – e seu grande potencial econômico – tornou necessária a criação de um protocolo internacional que buscasse assegurar o nível adequado de proteção do meio ambiente e da saúde humana quando do movimento entre fronteiras de organismos vivos modificados obtidos pela biotecnologia moderna (Oda, 2001).
Em 1999, diversos países se reuniram em Cartagena para estabelecer um Protocolo de Biossegurança que regulasse as questões supracitadas. Porém, um grupo de seis países produtores de transgênicos, liderado pelos Estados Unidos e apelidado de “grupo de Miami” (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina, Chile e Uruguai), impediu um acordo reivindicando subordinar o protocolo a normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) que determinam que nenhum produto pode ter a importação banida sem evidência científica em apoio.
Em 2000, mais de 100 países assinaram em Montreal o Protocolo de Biossegurança, segundo o qual a documentação da carga internacional deve ser marcada com a expressão "pode conter" alimento transgênico. Assim, a segregação que permitiria afirmar com certeza se um lote contém ou não OGMs não foi incluída no protocolo. No entanto, com base no princípio de precaução, ficou estabelecido que países que impeçam a importação de OGMs não podem ser punidos.
Para Oda (2001), trata-se de uma discussão comercial e não de segurança. Segundo essa autora, a introdução de produtos modificados geneticamente na área agrícola se encaixa dentro do sistema de commodities, que tem como objetivo diminuir os custos de produção, produzindo em larga escala e envolvendo procedimentos normatizados na esfera do comércio internacional. Dentro do sistema de commodities, é impossível de se obter produtos com especificações diferenciadas daquelas estabelecidas para o sistema, uma vez que isso exige um sistema produtivo diferenciado, com procedimentos de segregação e rastreabilidade, que asseguram tais características diferenciadas, mas que aumentam consideravelmente o custo de produção. Um exemplo de sistema de produção diferenciada são os produtos orgânicos, que têm um preço muito superior ao dos produtos agrícolas equivalentes produzidos pelo sistema de commodities, sendo estabelecido pelo produtor e não mais universalizado.
A introdução de variedades geneticamente modificadas como: soja, milho, algodão e a canola pelos países produtores das principais commodities agrícolas (Estados Unidos, Argentina, Canadá e China) se encaixava na lógica de competição no mercado internacional com um menor custo de produção (Oda, 2001). A lógica do sistema de commodities não permitiria então agregar qualquer custo adicional. Nesse sentido, o Protocolo de Biossegurança foi uma vitória para o grupo de Miami (Leite, 2000). A expressão “pode conter” implica que, quando um país aplica esta tecnologia para uma cultura dentro do sistema de commodities, “sua produção ‘poderia
conter’ o organismo geneticamente modificado, mesmo que estivesse sendo produzido em apenas algumas fazendas” (Oda, 2001, s/p).
O artigo 23 do Protocolo de Biossegurança requer a promoção de uma sensibilização e participação do público dos países signatários quando estes implementarem suas leis nacionais de biossegurança (Einsiedel & Kamara, 2006). Entretanto, a sensibilização e a participação se deram de formas bem variadas nesses diferentes países, como será discutido adiante.
VI.3. Início da subpolítica?
Mas de repente, a subpolitização começou. Em fevereiro de 1999, o consumidor britânico, ainda terrificado pela crise EEB, ficou chocado com as manchetes proclamando ‘Comida Frankenstein’ *
Ulrich Beck
Conforme Guivant (2005), o debate em torno dos transgênicos tem contribuído para “um questionamento público do sistema alimentar” (p. 48). Porém, esse debate extrapola as fronteiras desse sistema, gerando “conflitos sociais, políticos, econômicos e científicos, descrédito de cientistas, ameaça de relações de comércio internacional”, bem como uma “demanda por mais debates sobre que tipo de risco as sociedades querem correr e sobre como e quem deve decidir sobre isto” (idem).
De fato, o debate sobre os OGMs levou à reivindicação de uma maior abertura na regulamentação das inovações científicas. Assim, o que está em jogo na controvérsia sobre os OGMs é “a definição do quadro da política pública para a regulamentação dessa inovação”* (Joly, 2000, p. iii).
Segundo Fischler (2000), com as crises alimentares, a questão da segurança alimentar se tornou um assunto político. A “politização” desse debate permitiu, de fato, explorar um dos temas que Beck (1999) propõe em sua teoria do risco:
Muitos teóricos não reconhecem as oportunidades da sociedade de risco, as oportunidades dos ‘bads’. Eu argumento pelo exame minucioso democrático das áreas de decisão previamente despolitizadas e pela necessidade de se reconhecer os modos pelos quais os debates contemporâneos desse tipo estão restritos pelos sistemas epistemológicos e legais em que eles são construídos. Esse, então, é um dos temas que eu gostaria de ver ser mais explorado, preferivelmente em um nível comparativo transnacional, transcultural, potencialmente global* (p. 152).
Segundo Einsiedel e Kamara (2006), as reflexões da sociedade sobre a biotecnologia não acompanharam o crescimento desse conhecimento, ocorrendo muitas vezes apenas quando os
produtos dele decorrentes já se encontravam em comercialização, sendo reativas e não pró-ativas. Essas reflexões ocorreram de formas variadas: desde cartas para os meios de comunicação de massa, demonstrações nas ruas, criação de redes entre grupos, pressão aos políticos e órgãos oficiais. Esses autores propõem que o exame do desenvolvimento e da trajetória da participação pública nas decisões sobre a biotecnologia pode dar uma idéia de se as decisões sobre inovações científicas e tecnológicas estão se abrindo ao público e quais mecanismos estão sendo desenvolvidos para promover o um maior envolvimento deste.
Eles analisaram as diferentes práticas de participação pública na regulamentação da biotecnologia moderna em seis países (Canadá, Dinamarca, França, Portugal, Suíça e Reino Unido), levando em conta as diferentes culturas políticas desses países. Mais que isso, eles se perguntam se houve um processo de institucionalização da participação pública nos diferentes países. Para tanto, eles buscam analisar: sob que formas a participação pública aconteceu e em que arenas, que atores têm influenciado e participado e quais foram excluídos, que mecanismos foram desenvolvidos para interessar o público em participar, que fatores podem ter levado para a institucionalização e a que ponto a participação foi reconhecida no processo de formulação de políticas? Esses autores consideram a participação pública como um escopo de abordagens, formais e informais, nas quais os membros do público fornecem dados que pesariam na formulação de políticas. Por institucionalização, esses autores se referem à rotinização de práticas de participação.
Eles identificam três fases no desenvolvimento da participação pública. A primeira fase, considerada mais informal, caracteriza-se por uma participação pública comandada por organizações ambientais e de consumidores. Essas organizações tiveram sucesso em colocar os assuntos sobre biotecnologia na agenda pública através de demonstrações e ações diretas, campanhas da mídia e campanhas de informação e educação para o público. Embora essas organizações tenham trabalhado sozinhas ou em colaboração com outras organizações também ambientais e de consumidores, em alguns casos, tais organizações tiveram suporte de assessores de assuntos tecnológicos do meio.
A segunda fase se caracteriza por um reconhecimento formal da importância da participação pública através de dois mecanismos: legislações, declarações e políticas para obrigar legalmente a participação; e a experimentação informal de diferentes mecanismos para o engajamento do público. O primeiro mecanismo diz respeito a atos do governo para envolver
diretamente o público ou organizações ambientais, de consumidores, ou quaisquer organizações não-governamentais interessadas. Além das estipulações para obrigar legalmente a participação, surge uma série de declarações políticas reconhecendo os limites do conhecimento científico, assinalando a necessidade de uma política mais inclusiva, aberta e precavida para a biotecnologia. Essas declarações reconheciam também a importância das considerações éticas e valores do público sobre esses assuntos. Isso pode ser visto no estabelecimento de comitês éticos. O segundo mecanismo inclui métodos deliberativos de engajamento do público (tais como referendo, consulta do público, surveys da opinião pública, negociação na deliberação de leis, conferências de consenso, júris populares, comitês de aconselhamento público, grupos focais e outras atividades nas quais os membros do público fornecem dados) e atividades de informação e educação para o público. Esses métodos, em especial as conferências de consenso, foram cada vez mais implantados nesses países, tendo muitas vezes como tópico de discussão os transgênicos na agricultura (Einsiedel & Kamara, 2006).
A terceira fase se caracteriza por: 1) um aumento do número de grupos de interesse que buscam influenciar as decisões políticas (por exemplo, no caso da tecnologia envolvendo pesquisa com células-tronco, observa-se um aumento de organizações de pacientes que são a favor e o surgimento de organizações religiosas que são contra o desenvolvimento de tais estudos), o que leva a um espectro mais complexo de opiniões e pontos de vista; 2) um crescimento de instituições para incentivar a participação pública através de mais informação, transparência e disponibilização dos orçamentos como conseqüência dos atos do governo; 3) a participação formal e informal do público em eventos promovidos pelo governo e por organizações ambientais e de consumidores (como os fóruns mundiais sobre globalização que se