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5. DEFININDO E DESCREVENDO O SUJEITO IURDIANO

5.2 A Busca Espiritual e a “Experiência com Deus”

Ainda em se tratando sobre a forma como o discurso da Folha Universal forja a identidade do sujeito iurdiano, percebemos também que além das associações de termos que são utilizados freqüentemente para descrever o fiel como sendo um sujeito “próspero”, “abençoado” que tem uma “família feliz”, outras categorias foram identificadas durante a análise e que fazem referências a termos e descrições que evidenciam sentidos ligados à vida espiritual dessas pessoas, assim como nos mostram os extratos de textos abaixo.

FOLHA – “Esse é o problema de quem não é nascido de Deus, que não tem o Espírito Santo, ou seja, ele vive na ilusão daquilo que o mundo apresenta. A escolha é sua: ou você vive de momento ou da realidade. Pelo Espírito Santo você conseguirá vencer o momento, a sua carne, os seus impulsos. Do contrário, eles te vencerão. Deus não o trouxe aqui na Igreja Universal para se tornar um adepto, mas para salvar a sua alma e lhe proporcionar uma vida com qualidade, concluiu, orando em seguida por todos” (FOLHA UNIVERSAL, EDIÇÃO 926. p. 2i. JANEIRO, 2010, grifo do autor).

FOLHA – “[...] O bispo chamou a atenção dos presentes para a mudança que houve na vida de Zaqueu após o encontro com o Senhor Jesus: “A determinação dele era tão grande com respeito a buscar a Deus, a conhecê- lo, que quando recebeu críticas, não se importou. A mudança de Zaqueu, o encontro com o Senhor Jesus, mudou também a casa dele, trouxe a salvação para a sua família. E é para isso que muita gente precisa despertar. Não espere nada de ninguém. A mudança da sua vida não depende de outra pessoa. Quer mudar o seu marido, a sua esposa, o seu filho? Primeiro mude você, os seus atos e atitudes. É você e Deus. A sua vida depende dele. Só ele pode lhe fazer realmente feliz” (FOLHA UNIVERSAL, EDIÇÃO 926. p. 2i. JANEIRO, 2010, grifo do autor).

FOLHA – “Quando se inicia um novo ano, normalmente as pessoas renovam seus planos, pensam em mudar a rotina, arriscar, inventar, experimentar, reinventar, inovar, conquistar, enfim, chegar ao fim dos 365 dias do ano como um vitorioso. No entanto, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem ensinado a seus freqüentadores que para se ter garantia de vida e ser um vencedor é necessária a entrega verdadeira da vida ao Senhor Jesus. Do contrário, não há planejamento que resista, pois sem a seguridade dele e a manifestação da fé, surge a vulnerabilidade e a exposição aos perigos. [...] Quando você busca a presença dele e entrega sua vida com sinceridade há uma garantia, uma salvação. [...] Neste encontro, ele fez várias orações e clamores a Deus. Pediu pelo avivamento espiritual em todos os lugares onde a IURD realiza o trabalho evangelístico e suplicou que houvesse respostas de saúde, prosperidade, libertação, vida e salvação, e que bispos, pastores, obreiros, esposas e familiares fossem fortalecidos” (FOLHA UNIVERSAL, EDIÇÃO 926. p. 2i. JANEIRO, 2010, grifo do autor).

FOLHA - “Dentro das igrejas, todos aqueles que buscam ao Senhor Jesus recebem o apoio espiritual dos homens de Deus, que estão sempre dispostos a dar suas vidas pelos que os procuram. Todos os dias, os pastores estão das 6h às 22h, atendendo e auxiliando as pessoas que chegam em busca de algum tipo de orientação espiritual” (FOLHA UNIVERSAL, EDIÇÃO 925. p. 7i. JANEIRO, 2010, grifo do autor).

Nestes discursos são utilizados alguns termos que evidenciam não somente a preocupação com as conquistas financeiras dos fieis, mas também com a “salvação”, “saúde” e “entrega verdadeira da vida”. Estes termos presentes nos discursos demonstram uma busca pela realização plena da vida do fiel, ou seja, não importa ter as conquistas financeiras apenas se o sujeito não tem uma “experiência com Deus”.

Essas descrições nos mostram na estrutura do discurso novos elementos que contrastam com as conclusões de pesquisas anteriores que estudaram os equipamentos midiáticos da IURD como a de Monêgo (2010), que analisando um dos programas de TV da IURD o “Ponto de Luz” exibido em canal aberto argumenta que um dos principais focos da igreja é o de estimular através do programa analisado à adesão de novos membros a igreja e com isso aumentar a arrecadação de ofertas através do que o autor chama de “compra de milagres” por parte dos fiéis.

Já na pesquisa de França (2009) buscando entender os sentidos do signo dízimo o autor analisa uma coluna do jornal Folha Universal. São apresentados como resultados dados que apontam para o estabelecimento de uma relação puramente econômico-capitalista entre o discurso trazido pelo jornal e os relatos das experiências de vida bem sucedidas dos fieis. Da mesma forma argumenta a pesquisa de Bandeira (2006) que apresenta a relação existente entre a lógica de consumo e a lógica religiosa desenvolvida pelos dispositivos midiáticos veiculados pela IURD.

Estas pesquisas enfatizaram em seus resultados os aspectos puramente mercadológicos e capitalistas da IURD no desenvolvimento de suas ações midiáticas assim como na relação de seus fiéis com estes dispositivos, ou seja, esta relação se daria apenas através da oferta/voto realizada pelos fieis nas correntes, com o objetivo de obter as conquistas prometidas por Deus e onde a intermediação ou o auxílio espiritual ficaria a cargo da igreja.

No entanto nossa análise sobre a construção discursiva da identidade do sujeito iurdiano nos revelou durante o trato com os dados que estas relações vão além de uma simples oferta de soluções mágico-religiosas (JUNGBLUT, 2007), mas tem se apresentado no discurso do jornal uma constante associação da identidade do fiel com termos e definições que buscam o estabelecimento de uma relação com Deus, ou seja, um interesse também em proporcionar a este sujeito uma situação de paz espiritual onde as conquistas apareçam como sendo a confirmação desta “experiência com Deus”.

Este movimento discursivo que acontece dentro do jornal e que podemos verificar comparando nossa análise com trabalhos anteriores que investigaram os equipamentos midiáticos utilizados pela IURD mostram que não somente o discurso que constrói a identidade do fiel como o discurso que fabrica a identidade institucional da IURD tem se reajustado ao atual cenário em que se encontram os interesses da igreja com outros jogos políticos.

Após as crescentes acusações que vem sofrendo de vários grupos por conta da forma com que arrecada suas doações e também pela forma como estas doações são aplicadas em suas muitas atividades, a igreja tem adotado um discurso fluido que hora realoca a ênfase da pregação para outro plano onde aparece a preocupação com esta relação do fiel com Deus e em outro momento aparecem às ações sócias promovidas pela igreja dentro e fora do país.