4. FIOS DA REALIDADE
4.1 CONFLITOS: CONSTRUÇÕES E DESCONSTRUÇÕES
4.1.7 A busca pela droga
Quando se pensa em todo o movimento dos estudantes na escola, uma realidade que está presente é a questão do uso de drogas feito pelos adolescentes. Os diretores das escolas
entrevistadas afirmam que, diante de alguns conflitos como, por exemplo, quando há envolvimento com drogas, eles se sentem impotentes e não sabem como agir. O fato é que sabem que os adolescentes fazem uso de drogas e, com isso, perdem o contato com eles. Sabem que esses estão ligados a outras pessoas com poder na comunidade e isso paralisa a ação da direção em relação aos adolescentes. Perguntam-se o que fazer. Ficar assistindo o que ocorre com esses adolescentes? Segundo a fala dos diretores que vivenciam a situação do uso da droga na sua escola, a opção tem sido a de não agir.
Temos muitos casos de usos de substâncias de cigarro, as câmeras ajudam muito, então não tem mais isso, tem quando vê esconde, é lógico, escola não é cadeia, mas na prisão os caras conseguem celular, cigarro, maconha tudo, é lógico e tem policial, segurança de todo jeito, então mostra também que o caminho pra escola não é por ai não, tem que botar policial e tudo, então podia botar logo um delegado de Polícia como diretor da escola, mas a escola não é pra isso, então tem casos tem né, a gente tem identificando pegando esses casos a gente dá um encaminhamento para o Conselho, para o atendimento psicológico, para os pais e tal (D1)
Quando os diretores encontram estudantes fazendo uso de drogas, as famílias deles são chamadas. Isso faz com que a rede se apoio se estabeleça e, por outro lado, sejam divididas as responsabilidades diante da situação que está fora do andamento normal da escola. Eles relatam os fatos que ocorrem em conseqüência do uso da droga, mas não sabem como estruturar um projeto de ação. Há como que um pacto de silêncio. Não há cobrança da parte da escola para esses adolescentes, por não saberem como agir. Esse conflito está, segundo os diretores, além de suas possibilidades. A escola opta pelo silêncio. O mundo da droga é um mundo paralelo ao da escola.
Quando os responsáveis pela escola encontram um estudante vendendo drogas, é possível fazer o encaminhamento deste para atendimento ou para uma escola que tenha estrutura para cuidar de usuários de drogas. Porém, conforme o relato do diretor, isso, às vezes, implica na organização familiar que depende da renda que o adolescente produz com a venda de drogas. Transfere o estudante para outro lugar.
A gente flagrou um aluno aqui vendendo droga, tirou o aluno da escola e conseguiu uma escola de turno integral pra ele, uma escola muito boa né, de turno integral, a mãe assinou a transferência e tal, 15 dias depois a mãe vai ao Conselho Tutelar, vai ao juiz, vai na Regional, vai em todo lugar pra que o aluno volte “ah, obrigaram o meu filho a sair daquela escola” a gente vai investigar aquilo que tinha ocorrido, na verdade faltou comida dentro de casa porque ele não vendia mais droga (D1).
É possível perceber que os encaminhamentos concretos são feitos em casos individualizados. É o adolescente que é transferido de escola, a sua família é chamada a comparecer na escola. A fala por ações conjuntas e contextualizadas não aparecem. O .Ministério Público oferece palestras, mas as escolas não fazem uso desse recurso, por entender que o problema é maior e que somente palestra não resolveria a situação. Dessa forma, as relações e integração com outras instituições não são fortalecidas e as possibilidades de outros espaços para trocas e convivência ficam cada vez mais restritos. A fala de que os adolescentes fazem uso de drogas no banheiro e, por isso, é difícil de saber, acaba expondo todo o grupo. Como fazer o cuidado de todos os espaços, inclusive no banheiro?
Já peguei traficando uma vez, aquele caso no ano passado, a gente já pegou aqui um aluno com seringa, uma aluna este ano e peguei um tubo de éter ou álcool parecido no banheiro, a gente não conseguiu identificar a pessoa para dar encaminhamento quer seja pra atendimento do psicólogo e assim por diante, não conseguiu identificar né, porque é difícil né faz no banheiro (D1).
Uma das diretoras relata que estão tomando cuidado com todos os espaços, sobretudo no horário do intervalo, e que isso tem produzido resultados positivos.
Eu acho assim a nossa maior conquista foi o envolvimento dos meninos no projeto da escola, buscando para perto da gente pra ajudar olhar o banheiro na hora do intervalo, pra ver se tem menino fumando na hora do intervalo, um grupo de monitores que ficam né, que ficam ajudando a gente na rotina da escola (D4).
A escola coloca policial para que os adolescentes que fazem uso de drogas se sintam inibidos por eles. E quando são identificados usando drogas, os encaminha para o conselho de atendimento psicológico.
Todos os momentos vividos na escola seriam espaços de aprendizagens. No caso do uso de drogas, de fazer trabalho preventivo. No entanto, o apelo que a escola faz é para ter mais policiais na escola. A relação educativa, nesse caso, é quase inexistente, pois o educador ou o diretor não se sentem em condições de lidar com o assunto. O conflito, para que possa trazer resultados de aprendizagem, precisar ser assumido como tal. Trabalhar as possibilidades pela fala, pela problematização e por encaminhamentos de ações, para que possa haver entendimento da situação.
Existem práticas, ainda que isoladas de algumas escolas, quando trazem o Museu Ambulante da Polícia Civil para explicar sobre as drogas para os adolescentes, de forma concreta e se utilizando de outros recursos, além do discurso dos professores. O papel da
escola como coordenadora do processo é fazer a conexão com outras instâncias da sociedade para desenvolver o seu projeto pedagógico.
Em alguns casos, na Rede do Distrito Federal, as escolas precisam acolher adolescentes que cometeram algum delito e estão em fase de recuperação. Esses adolescentes recebem como castigo ir para uma escola e, além de estudar, desenvolver algum tipo de atividade de beneficio para a escola. Essa realidade tem gerado problemas para a gestão da escola. Primeiro, por não saber como lidar com esse adolescente e, segundo, porque ele acaba tendo influencia sobre os demais e isso traz conflitos para a escola. A opção mais recorrente tem sido a de tentar transferir o adolescente para outro espaço, mas isso nem sempre é possível. O conflito de estar com o adolescente que necessita de mais atenção não é tratado como tal e a escola fica no desgaste da relação com os demais. “O mesmo problema eu tive aqui, porque quem paga pena é o vizinho, ele paga pena perto da sua casa, se é perto da sua casa ele conhece a comunidade, aí ele namorava as alunas, ele envolvia, então assim isso não deveria acontecer” (D5).
Mas uma vez surgem conflitos que a escola não se sente preparada para resolver. O que começa com a busca do adolescente pela droga, acaba vindo para a escola uma parte da solução do problema que a sociedade entende como encaminhamento de solução. Segundo a direção, a escola não participa da construção dessas alternativas. Ela é chamada para acolher o adolescente que naquele momento está cumprindo uma punição vinda da delegacia da infância e da Juventude do Distrito Federal.