II – A Crónica de Portugal de 1419: Fontes e Estratégias
1. A C1419 e a tradição historiográfica: processos globais de construção textual
1.2. A Crónica de Portugal de 1419 e a tradição afonsina: continuidades e rupturas.
1.2.1. A C1419: processos globais de construção textual
Acabámos de ver o percurso que, partindo da Estoria de España e passando pela C1344, conduziu à C1419:
i) Estoria de España → C1344: retoma de textos da escola afonsina;
assimilação dos seus métodos; prolongamento da matéria narrada até épocas mais recentes, com aumento do espaço consagrado aos reis de Portugal;
ii) C1344 → C1419: retoma do texto dedicado por aquela crónica aos reis de Portugal, sua autonomização do contexto hispânico e reunião de informações provindas de outras fontes com vista à elaboração de uma obra de maior fôlego.
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Em consequência dele, a C1419 acabaria por incorporar e prolongar grande parte dos métodos da escola afonsina. É o que em seguida veremos, ao identificarmos os seus processos globais de construção textual.
A C1419: processos globais de construção textual i) Retoma de textos anteriores
São muito frequentes as ocasiões em que o redactor da C1419 afirma estar a seguir textos escritos. Por vezes, de forma vaga:
«Acha-se nas esprituras amtiguas247», «segundo achamos esprito248», «E, posto que [...] sejam posto em esprito em muytos livros per desvairadas guisas249»
outras, parecendo recorrer a conceitos genológicos, por mais imprecisos que os possamos considerar:
«Comta a estoria que250», «mes a crónica não fala de seus nomes senom tão solamente de quatro251», «que a pusese no livro das estorias252»
e, com menor frequência, deitando mão de designações um pouco mais concretas, através de qualificativos que identificam o conteúdo, as personagens principais ou a origem dos textos em causa:
«A coroniqua d. Espanha conta253»; «Segundo conta a crónica del.rei dom Affonsso254»; «Comta a estoria do marter Sam Viçente255»; «Contão as estorias dos araviguos256»; «acorda a crónica de Santo Ysidro257»; «conta a lemda de Sam Bernardo258»; «segundo conta a cronica dos feitos del.rey dom Afonso, que foy achada em Coinbra259» 247 CALADO, ed. (1998), p. 73. 248 CALADO, ed. (1998), p. 80. 249 CALADO, ed. (1998), p. 83. 250 CALADO, ed. (1998), p. 134. 251 CALADO, ed. (1998), p. 47. 252 CALADO, ed. (1998), p. 32. 253 CALADO, ed. (1998), p. 1. 254 CALADO, ed. (1998), p. 2. 255 CALADO, ed. (1998), p. 25. 256 CALADO, ed. (1998), p. 26. 257 CALADO, ed. (1998), p. 26. 258 CALADO, ed. (1998), p. 38. 259 CALADO, ed. (1998), p. 81.
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Expressões deste tipo são comuns na historiografia medieval e registam-se mesmo noutro tipo de obras, inclusivamente as novelescas, que tantos mecanismos de pseudo-historicidade adoptaram. A sua função parece ter sido, inicialmente, a de credibilizar o relato apelando para a auctoritas de um texto anterior, de existência concreta ou ficcional, mas digno de ser mencionado pela antiguidade ou posição social (real ou suposta) do seu autor260. Foi talvez devido ao facto de sucessivos textos o terem empregado que ele acabaria por perder, em alguns contextos, parte dessa função referencial, adquirindo uma função de conexão narrativa que se destinava a introduzir ou a ligar episódios. É o que sucede com os textos da escola afonsina, onde, se é verdade que a função referencial deste tipo de expressões não deixa de estar bem presente, se verifica também, sobretudo em início de capítulos, o seu uso com o significado apenas sintáctico a que me referia. E é o que parece suceder também com a C1419, que, sem dúvida, herdou este recurso da escola afonsina. Particularmente no caso das expressões «Conta a estoria que» localizadas em início de capítulo, a hesitação sobre a função referencial ou narrativa que assumem é legítima.
Todavia, dúvida alguma pode subsistir de que o cronista português seguiu a tradição historiográfica que comecei por sinteticamente definir e construiu o seu texto com base na retoma de textos anteriores. Confirma-o não apenas o recurso a expressões suficientemente individualizadoras como «Crónica d’el rei dom Affonso» e afins, mas também o facto de boa parte das suas fontes subsistir ainda, circunstância que nos permite, aliás, acercar da sua banca de trabalho e ir seguindo as diversas fases de elaboração do seu texto. Teremos, ao mesmo tempo, de lhe dar todo o crédito nos momentos em que ele afirma não apenas que segue textos escritos, mas que só segue
textos escritos. Como em seu dia notou Lindley Cintra:
«repetidas declarações do autor de 1419261 [...] revelam que entre os princípios que orientavam a sua maneira de historiar, estava o de não incluir que não tivesse encontrado em escrito, princípio, aliás, já de aplicação corrente na própria historiografia da escola afonsina262»
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«Si en diferentes sociedades el libro escrito es sinónimo de verdad, los testimonios medievales son muy numerosos de un procedimiento similar»: BLECUA, ed. (2004), p. 95. Dir-se-ia que o testemunho escrito é, para quem trata de épocas remotas, o equivalente funcional do testemunho oral para quem trata de épocas próximas.
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Por exemplo, «mas como este apartamento foi e per que guisa e o que fez desta rainha D. Orraca não o achamos em escrito e por isso não o posemos aqui»; «nunqua o podemos achar assi em escrito saluo que», etc., citadas por CINTRA (1999a), pp. 195-196.
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CINTRA (1999a), p. 179. Não obstante, certa inclinação para desvalorizar aprioristicamente este tipo de afirmações deixadas pelos cronistas medievais, juntamente com o desejo de lhes atribuir as mais elaboradas intenções conduz, por vezes, a que se perpetuem informações simplesmente falsas. É o caso,
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(ii) Adopção do texto da C1344 como texto base e inserção de porções textuais vindas de outras fontes de acordo com dois critérios: o cronológico e o temático
Guiado por este princípio geral, o redactor deitou mãos aos materiais por ele reunidos e começou a elaborar o seu texto. Para base escolheu a C1344 e foi inserindo no relato oriundo dessa obra diversas passagens provenientes das restantes fontes263. Foram dois os critérios principais que o nortearam nessa tarefa.
O primeiro, e mais importante, foi o cronológico. Os indicadores temporais presentes nas suas fontes (por exemplo, o ano no caso de textos analísticos e de chancelaria, ou expressões lexicais do tipo “depois disto” ou “antes disto”), a sucessão de eventos ou a lógica dedutiva permitiram-lhe dotar os episódios de uma ordenação cronológica que caminhava do mais antigo para o mais recente.
Em nome da clareza e/ou da pertinência, certos episódios que mantinham estreitas afinidades temáticas e diegéticas foram, porém, agrupados numa unidade narrativa e independentemente do lapso temporal em que ocorreram. Simultaneamente, quando um texto fornecia detalhes que permitiam acrescentar ou precisar informações constantes da fonte principal, o redactor da C1419 incluía-os no momento pertinente.
Recorrendo a análises esquemáticas da composição de cada reinado (que poderão funcionar também como resumo do seu conteúdo), pode ver-se como estes processos se mantêm constantes ao longo de todo o texto da C1419:
- D. Afonso Henriques: A C1344 forneceu o essencial das informações situadas entre o cap. 1264 (ascendência de D. Afonso Henriques e acção de D. Henrique) e 11 (reconquista de Leiria e vésperas da batalha de Ourique), mas outros textos, alguns dos quais desconhecidos, possibilitavam o acréscimo de informações ou a inserção de episódios novos. O primeiro caso é o mais numeroso e verifica-se, por exemplo, na
para dar um exemplo significativo, da ascendência húngara do Conde D. Henrique, em que a C1419 menciona como fonte uma «Crónica d’el Rei D. Affonso». Conhece-se um documento originário da Sé de Braga e datado de 1391 que já menciona essa ascendência (GOMES, 2005), o que garante não ter sido ela uma criação da C1419; apesar disso, ainda se atribui ao seu autor tal invenção, pelos vistos como parte de uma refinada estratégia historiográfica. É claro que essa ascendência é um dado historicamente falso e, como tal, inventado por alguém que teria, decerto, interessantes motivos para o fazer. Mas a circunstância de determinado facto aparecer pela primeira vez em determinada crónica não deverá nunca interpretar-se automaticamente como tendo ele sido uma invenção desse cronista. Só o estudo das técnicas historiográficas de cada cronista e a comparação do seu texto com textos anteriores permite admitir como
mais provável ou como menos provável que tal ou tal facto tenha sido inventado por tal ou tal crónica. 263
A respeito daquelas originalmente redigidas em Latim é possível que o redactor as tenha submetido a um processo prévio de tradução para português. Nada permite, porém, confirmar este cenário.
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ascendência paterna do primeiro rei português: a C1344 nada dizia sobre isso, mas certa «Cronica d’el Rei D. Affonso265» informava que seu pai era filho de um rei da Hungria; o redactor da C1419 juntou, por isso, esse facto ao texto herdado da sua fonte principal266. É possível que essa mesma «Crónica d’el Rei D. Affonso» incluísse uma narrativa sobre a cura miraculosa do pequeno Afonso Henriques em correlação directa com a sua predestinação divina para destruir os inimigos da fé e com a fundação do mosteiro de Cárquere por Egas Moniz; o redactor da C1419, que, como iremos vendo, tinha manifesta predilecção por episódios de guerra santa e de mentalidade cruzadística, decidiu incluir essa narrativa e fê-lo no momento cronologicamente pertinente, ou seja, após a vinda de D. Henrique para a Península Ibérica (capítulos 1 e 2) e antes da passagem em que, acompanhando o pai nas manobras militares de Astorga, D. Afonso denotava a maturidade suficiente para entender o longo discurso que lhe foi dirigido (capítulo 4).
Sobre a batalha de Ourique (capítulos 12-14), não era muito o que a C1344 contava; por isso, a C1419, mantendo, embora, o essencial do texto da sua fonte principal, baseou o seu relato em outras obras. Uma deles (possivelmente a Vida de
Teotónio) mencionava a captura de moçárabes na sequência da vitória do exército
cristão numa batalha não identificada e a repreensão que, devido a isso, Fr. Teotónio, prior de Santa Cruz de Coimbra, dirigiu a D. Afonso Henriques. O redactor da C1419 (ou já o de uma sua fonte) aproveitou para identificar esse momento com a batalha de Ourique e localizar nesse contexto a notícia, fornecida por dois moçárabes, da localização do corpo de S. Vicente (capítulo 14); isso motivou, de acordo com a lógica temática acima exposta, uma analepse que, abrangendo todo o capítulo 15, narra o martírio de S. Vicente, ocorrido no século IV da era Cristã. O capítulo seguinte diz como o corpo do mártir veio parar ao Algarve e, após isso, reata a sequência cronológica que deixara suspensa no fim do capítulo 14, dando conta da primeira tentativa, mal sucedida, de D. Afonso recuperar as relíquias do Santo. Só depois disto volta a Crónica a retomar o texto da C1344, copiando dela os episódios dos confrontos do rei com Roma, incluindo a eleição canonicamente irregular de um Bispo Negro (capítulos 17-18), que na C1344 se seguiam a Ourique. O redactor de 1419 inseriu, porém, o pitoresco diálogo entre o Cardeal Romano e o Papa, em que aquele procura
265
Sobre esta obra, de cuja existência e proveniência crúzia não me restam grandes dúvidas, parecem-me especialmente produtivas as reflexões de Mönica Blocker-Walter retomadas por MAURÍCIO (1989), bem como as de DIAS (2008).
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justificar as suas acções, e fê-lo no momento cronologicamente pertinente, ou seja, após a saída do Cardeal de Portugal e antes que chegasse a resposta do Papa.
A C1344 prosseguia, após a história das desavenças de D. Afonso I com o Papado, narrando as conquistas na Estremadura. A C1419 acompanhou-a; mas, possuindo o seu redactor ampla informação sobre as tomadas de Leira e, sobretudo, de Santarém (através do texto usualmente apelidado de De Expugnatione Scalabis e outras fontes), acrescentou muita matéria nova, ocupando com isso os capítulo 19 – 25. Entretanto, uma outra fonte possibilitava-lhe notícias acerca do casamento do monarca; sabendo a data desse casamento - «mil clta xxxiiiiº anos267, avendo ja sete anos que fora alçado por rey268», o redactor inseriu-as no local cronologicamente correspondente: depois da reconquista de Leiria («era de mil clxxxiii anos269») e antes da de Santarém («era de mil clxxxb anos»270).
Na sequência daquelas conquistas, a C1344 mencionava a tomada de Lisboa com ajuda de guerreiros do Centro da Europa; a C1419 seguiu-a, mas intercalou muitas informações e episódios novos (provindos de textos como o Relato da Fundação do
Mosteiro de S. Vicente), construindo, assim, uma narrativa completa e cronologicamente
coerente, desde a chegada dos cruzados até à capitulação da praça, escolha do seu primeiro Bispo, fundação das igrejas de S. Vicente e dos Mártires, e milagres a elas associados. Nos capítulos 32 e 33, a C1419 perde de vista a C1344, que nada, ou quase nada, dizia dos assuntos ali tratados (novas conquistas na Estremadura e celebração do casamento da Infanta D. Mafalda); mas logo a retoma nos capítulos 34 e 35, dedicados ao confronto de Badajoz, introduzindo, porém, elementos oriundos de fontes várias ali onde eles se revelassem pertinentes (insere, por exemplo, e de acordo com a cronologia expressamente consignada, a referência à menagem prestada pelos concelhos ao Infante D. Sancho271). A matéria dos capítulos seguintes, 36 a 44 (maioritariamente ocupados com o resgate definitivo do corpo de S. Vicente, incursão militar a Sevilha chefiada pelo Infante Sancho e defesa de algumas cidades portuguesas ameaçadas por uma forte investida muçulmana) é totalmente estranha à C1344, que passava directamente do confronto de Badajoz à morte do rei. Só quanto a este último ponto poderia o seu texto
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Recorde-se que toda a Crónica adopta a Era de César. 268 CALADO, ed. (1998), p. 34. 269 CALADO, ed. (1998), p. 33. 270 CALADO, ed. (1998), p. 34. 271 CALADO, ed. (1998), p. 62.
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ser aproveitado pela C1419, embora o laconismo das informações explique que a obra quatrocentista tenha acrescentado vários outros elementos.
- D. Sancho I: O espaço concedido pela C1344 a este reinado era muito exíguo, pelo que o redactor de 1419 tinha de se socorrer de várias outras fontes. O seu procedimento continua, no entanto, a basear-se nos dois grandes princípios, o cronológico e o temático, que habitualmente o norteiam. Assim, manteve no início as informações da C1344 respeitantes ao casamento e descendência do monarca272 e, no fim, aquelas que diziam respeito à sua morte273, juntando-lhes elementos novos e intercalando entre umas e outras o texto procedente de diversas fontes. Inseriu, em primeiro lugar, uma carta do Papa datada da era de «mil iic xxbi annos274», informando sobre a queda de Jerusalém e incitando o monarca português a participar numa grande Cruzada que estaria sendo preparada. Prosseguiu com a reacção do rei, que apesar de não estar em condições de aceder à solicitação pontifícia logo começou a guerrear os mouros do Alentejo, e com a providencial chegada de cruzados estrangeiros ao porto de Lisboa, acontecimento ocorrido na era de «mil iic xxbii anos», tudo de acordo com a cronologia dos eventos. Narrou, a partir de então, com base numa fonte desconhecida e ao longo de praticamente seis capítulos (do 47 à quase totalidade do 52), a tomada de Silves, feita em colaboração dos exércitos portugueses com os cruzados estrangeiros. Uma outra fonte desconhecida fornecia-lhe, entretanto, informações acerca da entrada de Pedro Fernandez de Castro, na ocasião aliado dos mouros, em Portugal, e seu desbarato por acção de Martim Lopes, acontecimento ocorrido no mesmo ano da tomada de Silves. O redactor inseriu-a no local cronologicamente pertinente: logo após a notícia da conquista dessa cidade (final do capítulo 52275). Depois disso, e sempre de acordo com a cronologia dos eventos, dedicou um novo capítulo, o 53, à incursão de reis mouros por Portugal e devastação por eles causada; nesse mesmo ano de «mil iic xxbiiiº anos276» morria o rei de Leão (Fernando II), e o redactor aproveitou, por isso, para incluir essa notícia no final do capítulo em causa.
Ainda neste ano, ocorrera outro importante acontecimento: a separação, ordenada pelo Papa, do rei Afonso IX de Leão e sua primeira mulher, a rainha Teresa (filha de D. Sancho, rei de Portugal). Guiado pela cronologia, o redactor deu conta dele 272 CALADO, ed. (1998), pp. 84-85. 273 CALADO, ed. (1998), p. 104. 274 CALADO, ed. (1998), p. 85. 275
«E em este ano mesmo que a cidade de Çilves foi tomada, dom Pedro Ffernandez de Castro [...] jumtou.se com hos mouros e veyo corer com eles [...]»: CALADO, ed. (1998), p. 98.
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no capítulo 54, mas a lógica narrativa fez com que contasse em bloco a razão pela qual esse casamento se fez (aliança de Sancho I de Portugal e Afonso IX de Leão contra Afonso VIII de Castela, que os armara cavaleiros), as consequências nefastas que daí advieram (catástrofes climatéricas várias, fomes, doenças e guerras) e o desenlace de tudo isso através da anulação do matrimónio ordenada por Celestino III. Conseguiu, assim, ordenar essas acções mediante um conjunto de relações de causa-efeito. A aproximação temática desta série de episódios com a separação de outra filha de D. Sancho, a Infanta Mafalda, do seu marido, o rei Henrique I de Castela, levou o redactor a desrespeitar uma vez mais a cronologia, explicando, em seguida, os antecedentes e causas de mais esta separação277. Após isso, volta a cronologia a estruturar o seu discurso: o último capítulo deste reinado, o 55, dá conta de alguns acontecimentos ocorridos após aquelas duas separações e antes da morte de D. Sancho, acontecimento que naturalmente finda o seu reinado.
- D. Afonso II: O procedimento da C1419 em relação a este reinado é muito idêntico ao que adoptara para o de seu pai: manteve no início as informações da C1344 respeitantes ao casamento e descendência do monarca278 e, no fim, aquelas que diziam respeito à sua morte279, juntando-lhes elementos novos e intercalando entre umas e outras o texto procedente de diversas fontes. Dois acontecimentos esgotam praticamente o relato: a conquista de Alcácer do Sal e as andanças de cinco frades franciscanos em Marrocos, seu martírio e envio de suas relíquias para Santa Cruz de Coimbra, por iniciativa do Infante D. Pedro, irmão de D. Afonso II. Como o primeiro destes acontecimentos precedia cronologicamente o segundo, ele é contado em primeiro lugar (capítulos 58 – 62, praticamente todos baseados no Poema Latino da Conquista de Alcácer do Sal ou Carmen Gosuini), seguindo-se-lhe a história dos cinco mártires de Marrocos (capítulos 63 – 65280, este último terminando com a notícia da morte e sepultura do rei), de acordo com um texto aparentado com as duas Lendas destes mártires ainda hoje subsistentes. Após o capítulo inicial, e antes da narração da tomada
277
Baseando-se na C1344, que tratava do casamento de D. Mafalda com D. Henrique I na narração do seu breve reinado: CINTRA, ed. (2009), IV, pp. 346-347.
278
CALADO, ed. (1998), pp. 104-105. 279
CALADO, ed. (1998), p. 119. 280
Estes capítulos constam apenas de C, devido a lacuna de P, que, após a tomada de Alcácer do Sal, e dissimulando de forma imperfeita a incompletude do seu texto, copiou, não se percebe porquê, o letreiro antigo da sepultura de D. Sancho I: CALADO, ed. (1998), pp. 113 e 276-277. Curiosamente, após ter transcrito a C1419, o copista de P transcreveu vários outros textos, entre eles uma versão do martírio destes cinco franciscanos, retocada com elementos posteriores à C1419. Veja-se a descrição de P na primeira secção deste trabalho e BASTO (1960), pp. 31-48.
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de Alcácer do Sal, surge, porém, um capítulo (o 57281) dedicado ao Infante D. Afonso, Conde de Bolonha e futuro rei de Portugal. Conta a ida deste Infante para fora do reino em companhia de sua irmã Leonor, a sua valentia junto das tropas francesas que combatiam uma invasão inglesa (incluindo o curioso episódio do resgate de D. João de Aboim, a quem o Infante «amava muy de vontade282») e subsequente casamento com a Condessa de Bolonha, tudo com base em fontes desconhecidas283. Nenhuma indicação cronológica possuía o cronista acerca destes acontecimentos; optou, por isso, por contá- los logo após o capítulo inicial, aproveitando a alusão que aí fizera ao facto de o Infante D. Afonso ter sido Conde de Bolonha. A função desses acontecimentos é, portanto, a de explicar esta alusão.
- D. Sancho II: O espaço dedicado a este rei pela C1344 era já um pouco maior. O redactor da C1419 manteve o início, acrescentando porém várias informações novas e, no momento em que a sua fonte principal mencionava as queixas dos portugueses ao Papa (violências de vários senhores que o rei não refreava como lhe competia), introduziu uma longa carta de Honório III admoestando o monarca284 e as promessas de regeneração deste, ocupando com tudo isto o capítulo 66. Prosseguiu dando conta das malfeitorias que continuavam a ser praticadas no reino, e repetiu, em seguida, as queixas dos portugueses ao Papa (desta vez, precisa o redactor, Inocêncio IV), retomando o texto da C1344, que, neste ponto, contava como os portugueses pediram um governador, escolhendo para essa função o Infante D. Afonso, Conde de Bolonha285 (cap. 67). O capítulo seguinte foi integralmente ocupado com o juramento do Infante, em Paris, documento de data obviamente posterior à da decisão do Papa de substituir D. Sancho no governo de Portugal. Os capítulos 69 e 70 são também integralmente ocupados com documentos oficiais, designadamente duas cartas do Papa, uma dirigida às Ordens do Hospital, de Santiago e Calatrava, outra dirigida aos Franciscanos. A
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Tal como com os cinco mártires de Marrocos sucede, também este capítulo, e ainda o capítulo inicial do reinado de D. Afonso II, estão presentes apenas em C, devido a lacuna de P certamente herdada do seu modelo.
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CALADO, ed. (1998), p. 105. 283
A existência de mais que uma fonte é assegurada pelas palavras do cronista: «e dizem alguns que [...]