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2 PRODUÇÃO DO TABACO E DIVERSIFICAÇÃO, SOB A PERSPECTIVA DOS

2.2 A cadeia produtiva do tabaco em Monte Castelo

Com a intensificação da produção de tabaco a partir da década de 1980, a agroindústria tabaqueira passou a exercer uma influência determinante no modo de produção da agricultura familiar em Monte Castelo, por meio do sistema de integração com as famílias agricultoras.

Como no processo de integração produtor-agroindústria quem determina o modus

operandi da produção é a agroindústria, ao longo do tempo, foi se criando uma

homogeneidade produtiva. Ou seja, os produtores produziam tabaco da mesma maneira, uma vez que seguiam o que estava determinado pelo pacote tecnológico, que incluía planejamento de produção, definição dos insumos e produtos a serem aplicados na lavoura, incentivos econômicos e instrumentos financeiros e jurídicos de estímulo, controle e punição. Para a implantação do pacote tecnológico, os agricultores familiares recebiam uma assistência técnica individualizada, por meio de seus técnicos, conhecidos como instrutores ou orientadores, que estavam em contato permanente com os agricultores e as instituições locais. Segundo Paulilo (1990), as empresas fumageiras contratavam os filhos dos agricultores para trabalharem como instrutores, como estratégia de convencer a família a se integrar aos instrutores. Pode-se dizer, parafraseando Mesquita e Oliveira (2003, p. 1), que esse sistema de integração agroindustrial representou a instituição de uma “cultura do fumo, cujos reflexos se estendem até os dias atuais, moldando costumes, comportamentos, relações econômicas, sociais e políticas”.

Com base nas entrevistas realizadas com os agentes locais, é possível perceber que essa “cultura do fumo” acabou sendo incorporada na vida dos agricultores de tal forma que se tornou uma característica do modo de vida do agricultor monte-castelense:

Há, nas próprias famílias, uma cultura de produção já muito arraigada. Ela está presente há algumas gerações. Então, eu acho que esse é outro gargalo para o agricultor diversificar o fumo. (Delegado do MDA/SC).

Um pouco assim com a cultura. É o costume de eles terem a fumageira como assim... É fazer tudo na mão deles. Tudo tá aqui, em casa, só falta colocar no armário pra eles. Isso a gente sentiu no início, pelo fato da compra dos insumos, o agricultor não sabia sair de casa comprar insumo pra cultura que ele tava produzindo [...]. Então agora que eles estão começando a se soltar e andar com as próprias pernas. Mas isso era uma coisa que no início pra eles se não entregasse em casa era um absurdo. Se a cooperativa não levasse, ‘olha, tá aqui, você tem que fazer isso, comprar 1,2kg pra você aplicar’, não saía de lá. É o costume. Você acaba se acomodando pela facilidade que as outras empresas deram e toda vida dele. [...] Querem que tire do fumo. O filho nasce no meio do fumo e planta e sabe muito melhor que o instrutor. (Engenheiro agrônomo da Cooperpomares).

No período da expansão fumageira em Monte Castelo, as discussões acerca dos efeitos maléficos do tabaco não estavam presentes no âmbito do município, pois a Convenção- Quadro para o Controle do Tabaco ainda era discutida nas reuniões da Organização Mundial de Saúde. Sem essa problematização, a indústria tabaqueira não encontrou obstáculos para o desenvolvimento de suas atividades no município.

Nessa ocasião, enquanto a agricultura à base de grãos passava por um momento de instabilidade econômica, o fumo ocupava uma importância econômica local, tanto diretamente para as famílias produtoras, quanto indiretamente por meio da geração de empregos e no comércio local. Esse aspecto social foi destacado por Buainain e Souza Filho (2009) ao abordarem o tabaco como o responsável pelo resgate da autoestima do agricultor, modernização das relações de trabalho e, principalmente, na promoção e ascensão de membros das comunidades rurais, que, com o passar do tempo, foram se transformando em lideranças e assumindo posições de comando nas instituições locais. Tais mudanças também podem ser notadas em Monte Castelo, uma vez que os principais agentes sociais são oriundos de famílias produtoras de tabaco, fazendo com que se reproduzisse a chamada “cultura do fumo” para dentro das instituições.

Como a maioria dos agricultores familiares de Monte Castelo é produtora de fumo, as instituições que os representam entendem que, ao atuar no sentido da defesa da cadeia produtiva do tabaco, estão defendendo os interesses de seus representados. A crença dos agricultores nas palavras dos seus dirigentes vem da legitimação que as instituições constroem ao longo do tempo, muitas vezes transformando um discurso individual em um discurso consensual do coletivo representado.

Uma das ações dos representantes3 da classe dos produtores de fumo se dá por meio das reuniões que acontecem anualmente com o Sindicato da Indústria do Tabaco da Região Sul do Brasil, para definir os preços e as regras básicas de regulação do setor. Mesmo que a decisão final ainda esteja, em grande parte, nas mãos da agroindústria, Buainain e Souza Filho (2009) analisam que, dessa forma, essas regras deixam de ser unilaterais e passam a ser intermediadas pela interlocução entre os agentes da cadeia levando-se em conta seus interesses.

No município de Monte Castelo, o estudo mostrou que a agroindústria tabaqueira desenvolve projetos em parceria com instituições locais, a exemplo dos dois sindicatos representativos dos agricultores: o Sindicato dos Produtores Rurais e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.

Segundo o representante do Senar que atua por meio do Sindicato dos Produtores Rurais, existe um programa denominado Empreendedor Rural, que é desenvolvido em Monte Castelo em parceria com a empresa Souza Cruz, cujo objetivo é desenvolver e estimular o poder pessoal dos empreendedores do agronegócio de forma a ampliar sua capacidade influenciadora nas transformações da sociedade e desenvolver competências empreendedoras para atuação em atividades econômicas, políticas e sociais sustentáveis:

A Souza Cruz é parceira nossa do Senar num treinamento que se chama Empreendedor Rural, que nasceu no Senar do Paraná. O programa Empreendedor são 17 módulos, que têm vários temas que são abordados, e ele tem que montar um projeto de execução viável na propriedade dele. [...] Ele faz um inventário, ele levanta os pontos fracos e os pontos fortes da propriedade, a situação financeira, endividamento, aptidão de área, quanto custa a hora/trator. Se ele tem trator, será que aquele trator se paga. E aí, só pra se ter uma ideia, eu tenho oito turmas na minha regional, seis, sete são com fumageiras. A Souza Cruz tá dando um caminho para os seus colaboradores fazerem o curso e correrem o risco dele diminuir a quantidade da produção de fumo pra fazer uma outra atividade que vá conciliar com o que já tem.

Além desse programa, o Sindicato dos Produtores Rurais e o Senar desenvolvem o treinamento de Formação Profissional Rural (FPR), que procura qualificar o produtor na gestão da propriedade e na orientação para a diversificação produtiva dentro de uma visão apregoada pela indústria “de que para a empresa fumageira é interessante que o agricultor

não dependa unicamente da renda do fumo. O que não quer dizer que ele diminua a produção, mas sim aumente uma outra atividade” (Representante do SPR). Dentro dessa

3 Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e as Federações dos Trabalhadores (Fetaesc no caso de trabalhadores rurais de Santa Catarina).

formação, há uma parceria com a indústria tabaqueira no treinamento dos agricultores em relação à Norma Regulamentadora (NR) – 31, do Ministério do Trabalho e Emprego, que trata da segurança e saúde no trabalho na agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aquicultura.

Em relação ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a proximidade com a cadeia produtiva do tabaco vem acontecendo no âmbito da Fetaesc, ou seja, tem sua ação estadualizada. Desde a época das negociações acerca da ratificação da CQCT pelo Brasil, as Federações dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina defenderam uma posição contrária à sua aprovação, justificando que causaria um caos na fumicultura brasileira, em especial às famílias produtoras. Esse discurso estava alinhado ao da Afubra e do SindiTabaco (SCHEIBLER, 2006; BUAINAIN, SOUZA FILHO, 2009). No âmbito do município de Monte Castelo, o representante do STR, que também tem uma história de vida junto à atividade de fumo, defende a posição de que há necessidade de se encontrar novas alternativas produtivas, embora o tabaco ainda seja o cultivo que garante a renda para a manutenção e a reprodução das famílias rurais monte-castelenses: “O fumicultor

está acomodado e dependente da produção do fumo. [...] Os agricultores estão muito dependentes, querem a coisa pronta e isto tem a ver com a cultura da região.”

Em Santa Catarina, a Fetaesc, em parceria com a Souza Cruz e a Epagri, desenvolve o programa Sustentabilidade da Pequena Propriedade – Produtor 10, com o objetivo de melhorar a qualidade da produção de tabaco e demais atividades produtivas, reduzir o custo de produção, melhorar a qualidade de trabalho e aumentar a produtividade, tendo a família como alicerce no plano de desenvolvimento da propriedade. Com esse programa, a Fetaesc busca aumentar a rentabilidade e gerar sustentabilidade econômica, social e ambiental à família. Nessa ótica, propõe a instalação de hortas e pomares caseiros, sucessão de culturas após a safra de fumo, plantio de reflorestamento como reserva energética e medidas de preservação ambiental (FETAESC, 2012). Segundo o representante do STR, atualmente, não há uma propriedade sendo acompanhada por esse programa, mas já houve manifestação junto à Souza Cruz para que seja implantado no município: “Em Monte Castelo, nós não temos

nenhuma propriedade, mas o meu interesse é de nós fazermos alguma coisa por aqui. É um bom programa e o Produtor 10 não é só direcionado para o fumo. Você trabalha a propriedade dele.”

De acordo com o Gerente de Sustentabilidade e Produção Agrícola da Souza Cruz, o Produtor 10 é um programa que, juntamente com outros programas da empresa, está inserido

no Programa Propriedade Sustentável, buscando o desenvolvimento sustentável da propriedade, e que tem a Fetaesc como um dos parceiros para a sua implementação:

A Souza Cruz, por conta de todos os programas institucionais que nós temos voltados pra pequena propriedade, seja ela aspecto de comunicação, seja microrregião após o fumo, seja programa reflorestar, seja programa de microbacias, seja programa de plano de retorno de solos, um conjunto de atividades que depois eu posso entregar o material pra vocês, nós identificamos que o Produtor 10, ele estaria embaixo desse guarda-chuva que é o Programa Propriedade Sustentável.

O STR de Monte Castelo participa de uma pesquisa com produtores de fumo que é desenvolvida pelo movimento sindical dos trabalhadores rurais em nível estadual e federal4. O estudo tem o objetivo de levantar os dados reais da produção de tabaco, que poderão ser úteis nas tomadas de decisões políticas e de negociações de preço com as agroindústrias fumageiras, conforme depoimento:

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Castelo participa também da pesquisa que a Fetaesc faz em todo o estado, que tem o objetivo de se conhecer melhor o produtor de fumo: quanto plantam de fumo, quem trabalha nas propriedades, o tamanho das propriedades que produzem fumo e outras informações sobre esta atividade. (Representante do STR de Monte Castelo).

As demais instituições desenvolvem programas e ações que envolvem agricultores de uma forma geral, ou seja, produtores de tabaco e não produtores de tabaco. O estudo mostrou que nenhuma delas possui parcerias formais com o setor fumageiro para trabalhar ações específicas em Monte Castelo.