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A caminho da formação de uma comunidade microempreendedora na

5. Histórias de Vida de Doze Microempreendedores na sua Relação com a Rede

5.3 A caminho da formação de uma comunidade microempreendedora na

A abordagem aos dados disponibilizados pela ANDC, sobre os casos acompanhados ao nível da região, durante o período que é alvo deste estudo (2006 - 2016), corroborada pela abordagem mais limitada aos dados possíveis, disponibilizados por outras entidades locais e mais reportados aos últimos anos, parece indiciar apenas dois focos mais pronunciados de formação de comunidades empreendedoras, com caraterísticas diferenciadas.

Um identifica-se em Viana do Castelo, para o qual muito contribui a importância estratégica que a autarquia local (CMVC) e a Comunidade Inter Municipal (CIM) têm dado à aposta em programas de apoio ao microempreendedorismo de base local. Um outro começa a despontar no concelho de Arcos de Valdevez, para o qual muito contribui a dinâmica existente entre a autarquia local e a incubadora de vocação regional, muito atentas às questões do (micro)empreendedorismo em territórios de baixa densidade. Atente-se nos discursos do Vereador Luís Nobre e do Coordenador de Projetos da Incubo Jorge Miranda:

“Quando uma pessoa está a iniciar um projeto, se tem um ambiente de orientação e de segurança no futuro próximo, tudo isto acaba por influenciar. A existência de uma estratégia clara, de tentar atingir um objetivo coletivo, para o qual cada um possa contribuir à sua dimensão… Este ambiente, este acreditar, esta dinâmica positiva, que resulta de tudo isto, acaba por criar as condições ideais para as pessoas se sentirem motivadas a empreender e a apoiar quem empreende.”

“A título de exemplo, se há vários produtores na área agrícola que estão muito concentrados na fase de produção. Porque não ser a retaguarda institucional a proporcionar ambiente para que estes possam articular com outros empreendedores especializados na distribuição e comercialização?”

Eng.º Jorge Miranda (Incubo)

Esta postura institucional parece ir ao encontro das posições manifestadas por diversos entrevistados, das quais só se reproduzem aqui as consideradas mais representativas do que ainda há a desenvolver e em que os empreendedores, de modo mais ou menos organizado, terão um papel a desempenhar.

Quando questionado sobre os moldes em que deve ser desenvolvido um esforço conjunto de entidades e microempreendedores da região, com vista à criação de uma plataforma ou ambiente de incentivo à micro-iniciativa, o casal refere: “a criação desse «painel de serviços de apoio», mesmo que se limitasse à identificação e contactos, só isso dava a muitos dos negócios que estão a começar uma ideia do que é necessário para avançar com um negócio em condições… Não pode prescindir da contabilidade, não pode prescindir da higiene e segurança, a maior parte não pode prescindir de licenciamentos e certificações! Serviria de mapa para o arranque destes pequeninos negócios…”. (Ana &Pedro)

Com uma renovada capacidade de produção, embalagem, armazenamento e distribuição, numa rede de pontos de venda, cada vez mais alargada na região, lançam uma proposta ousada à ANDC e seus parceiros locais: ter pivôs de parceria noutros países europeus que ajudassem a dinamizar o mercado da exportação, em geral, e o mercado da saudade, em particular. Como? Ajudando os empreendedores a trabalhar em rede de dentro para fora até a rede se consolidar por si mesma! (Diana & Dinis)

Este sentido de participação numa comunidade empreendedora está ainda a dar os primeiros passos, mas o esforço de desenvolvimento deste tipo de dinâmicas mostra que podem surgir mais-valias para microempreendedores que partem da condição de exclusão. Esta tendência de colaboração emergente transforma-se, assim, numa economia orientada para a comunidade, em que as instituições se procuram organizar em função de comunidades produtivas. (Bauwens,2012)

O aprofundamento de redes colaborativas de desenvolvimento de micronegócios parece fazer-se a dois ritmos, na região foco desta investigação. De um lado, os territórios de baixa densidade, com iniciativas mais atomizadas em que as entidades locais ainda procuram incentivar o sentido de comunidade e de colaboração, dando realce às vantagens económicas de união de esforços num território marcado pela tradição; Do outro, os territórios mais permeáveis a iniciativas de economia colaborativa e de aposta em projetos mais arrojados, em que processos de destruição criativa, na aceção de Shumpeter, parecem estar mais desenvolvidos. Não se pode aí subestimar o valor de intituições com trabalho de proximidade, com empreendedores que apostam em setores menos tradicionais.

O empreendedor fala no desafio diário de ter uma empresa para gerir mas também no que significa trabalhar com dinheiro alheio e o peso da responsabilidade de fazer bom uso das oportunidades que um conjunto de entidades parceiras lhe deram… Para além de fazer negócio, desafiou outros empreendedores locais, alguns deles apoiados pelo microcrédito, a darem o seu melhor em iniciativas inovadoras e/ou com públicos novos, como clientes de Lisboa para os quais esta “micro-rede” já prestou serviços em bloco. (Alexandre)

É essa vontade de inovar que os leva a buscar o apoio de outros empreendedores mais experientes e em áreas complementares… João afirma, com toda a convicção: “Ao fim e ao cabo, funcionamos como uma rede e muitos de nós recorreram ao mesmo apoio de base e às mesmas instituições. Se no início encontrámos a mesma solução, porque não buscar novas soluções? Cada um teve as suas dificuldades específicas, porque não aprendermos uns com os outros?”. (João & Maria)

Pelo seu potencial, mais do que pelos seus resultados, podemos assumir as iniciativas que a seguir se descrevem como sementes de inovação social, pelas boas práticas que inauguram no apoio ao microempreendedorismo de base local.

“Aqui no Alto Minho, o EMER – vai avançar (…) O Projeto visa o apoio à promoção do empreendedorismo e divulgação dos produtos endógenos e inclui uma bolsa de facilitadores e de mentores.” Dr. José Correia da Silva (CCAM)

Entre os objetivos desta iniciativa está a promoção de dinâmicas colaborativas entre os microempreendedores apoiados, num esforço de constituição de uma rede de mentores articulados com outros agentes locais e supralocais de inclusão.

Se nas áreas de baixa densidade ainda se lançam projetos de consolidação de laços entre microempreendedores cientes das suas lacunas no presente, parece que no coração da região do Alto Minho, um outro projeto dinamizador de lógicas colaborativas entre empreendedores já existe há alguns anos:

“Nós representamos no concelho um espaço-tipo de cluster de empreendedores. (…) Mas em 2010, começou a falar-se muito em espaços colaborativos, espaços de coworking (…) nós vimo-nos como potenciais clientes de um espaço que, como aqui em Viana não existia, nós criámos” Arq.ª Joana Machado30

A mais-valia de um espaço de economia colaborativa como este parece não estar tanto na possibilidade de incubação por tempo prolongado - até porque o espaço atual não permite a fixação de muitas microempresas em permanência – mas sobretudo num espaço de gestão de uma comunidade empreendedora que pode ultrapassar as paredes do espaço físico que é a sede da iniciativa, contribuindo para a interação produtiva de microempreendedores, dentro e fora da região:

“Nós temos uma comunidade representada na nossa página web. Todas as pessoas que já participaram em alguma das nossas iniciativas estão lá… Destacando-se aquilo que fizeram e o papel relevante que tiveram! Nós estamos em contacto com pessoas de todo o mundo e articulamos com outro tipo de espaços destes no país.”

Arq.ª Joana Machado

A dinamização de todo um conjunto de eventos de informação e de aprofundamento de laços entre microempreendedores raramente se revela uma atividade rentável e é aqui desenvolvida numa lógica de responsabilidade social

- na sua qualidade de gestora de comunidade - função que levou algum tempo a assumir como diferenciada da sua função de profissional do ramo da arquitetura.

Volta aqui a sublinhar-se a ligação entre o capital social o capital económico:

“Depende das pessoas, desde logo a vontade de se formarem as parcerias, tendo consciência que o fazem em benefício público e não necessariamente de si mesmos. Nas parcerias há uma externalidade positiva e quem ganha é a sociedade!”

Dr. José Correia da Silva (CCAM)

A finalizar a análise, aqui fica uma lista de sugestões, da autoria dos próprios microempresários, com desafios lançados às múltiplas instituições, locais e supralocais, a atuar no território, que se pensa ser um contributo valioso para o desenvolvimento do trabalho em parceria no sentido da promoção do microempreendedorismo de base local e para a afirmação do Alto Minho como meio de inovação (milieu de innovation na aceção do GREMI):

 Finanças desafiadas a fazer a atualização da Classificação Portuguesa das Atividades Económicas (CAE) e a estudar regime de exceção fiscal para nanoempresas;

 ANDC desafiada a fazer uma aproximação às suas congéneres europeias para estimular a ligação entre microempreendedores apoiados em vários países e para elevar limites dos montantes protocolados para os 25.000,00€;

 Associações Empresariais, de vários concelhos, desafiadas a terem um papel mais ativo junto de microempreendedores que partem da condição de excluídos;  Incubadoras desafiadas a estruturar melhor um painel de serviços básicos -

assegurados ou não pelas próprias incubadoras - que sirva de GPS de criação de negócios para aqueles que são mais excluídos à partida;

 Contabilístas e TOC desafiados a exercer consultoria financeira “à medida de nanoempresas” que, mesmo com contabilidade simplificada, precisam mais do que exercícios contabilísticos periódicos, em sentido estrito;

 Parceiros Institucionais Locais e Empesas desafiados a criar Plataforma Virtual de Apoios e de Networking tendo a promoção dos micronegócios da região como suporte;