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A Candidatura Cipriota Grega e o Avis da Comissão

A 4 de Julho de 1990, os líderes da comunidade cipriota grega, nomeadamente o Presidente Vassiliou, expressaram o pedido formal de adesão da RdC, em nome de toda a ilha, à então CE. Em Bruxelas este pedido foi recebido pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Gianni de Michelis, Presidente do Conselho em exercício.

No caso de Chipre, tal como já referimos, por diversas vezes anteriormente, o pedido de adesão tinha uma relação directa com a resolução do conflito, na medida em que todas as partes envolvidas acreditavam de que a CE poderia dar um contributo nesse sentido.

De facto, tal como George Christou escreveu: “... politicamente, no momento do pedido de adesão, o Governo da República de Chipre acreditava que a adesão seria uma progressão natural e que o envolvimento da CE na questão cipriota apontasse outro caminho e uma outra forma de pressão na procura de uma solução” (Christou, 2002:7) (tradução nossa).

Contudo, nos inícios dos anos 90 a CE/UE estava afastada de quaisquer esforços no sentido de encontrar, directamente, uma solução para o problema cipriota, estando essa questão a cargo das Nações Unidas. Não obstante, a CE tinha consciência de que teria que

tomar decisões, a primeira das quais, e talvez a mais importante nesta altura, estaria relacionada com a aceitação, ou não, do pedido de adesão da RdC em nome de toda a ilha.

De acordo com o disposto no Artº 237 do Tratado de Roma, a Comissão emitiu o seu parecer (

Avis

), em Junho de 1993, dando início a um intrincado procedimento burocrático pelo qual Chipre teria que passar até se tornar membro da UE. Tal como sucedeu no caso de Chipre, tratou-se de um processo complexo e moroso78. No seu Avis, a Comissão afirmou que: “A

Comunidade (...), coerente com a tomada de posição das Nações Unidas sobre a legitimidade do Governo da República de Chipre e do não reconhecimento da RTNC, considerou este pedido como admissível”. Nestes termos, a Comissão admitiu que a adesão de Chipre não traria quaisquer problemas nos domínios sociais e económicos, reconhecendo a sua identidade europeia, tal como confirmou no seu parecer ao afirmar que:

“A posição geográfica de Chipre, os profundos laços que durante dois mil anos colocaram a ilha na origem da cultura e da civilização europeias, a intensidade da influência europeia – visível nos valores partilhados pelo povo de Chipre e na conduta da vida cultural, política, económica e social dos seus cidadãos – e a riqueza dos seus contactos de diversas naturezas com a UE, todos estes factores conferem a Chipre, sem sombra de dúvida, a sua identidade e o seu carácter europeus e a sua vocação para pertencer à comunidade. ”(Avis da Comissão,

1993: parágrafo. 44) (tradução e ênfase nossos).

Ainda assim, a Comissão salvaguardou que a integração de Chipre na Comunidade implicou que primeiro existisse um acordo pacífico e duradouro para a questão cipriota. (

Avis

da Comissão:1993). No seu parecer, a Comissão advogou a fórmula ‘primeiro uma solução, depois a adesão’.

Em Outubro de 1993, o Conselho Europeu subscreveu o parecer da Comissão, instruindo-a a começar o seu trabalho com o Governo de Chipre, no sentido de o auxiliar a preparar-se para as negociações de adesão que se seguiriam, bem como para as transições económicas, sociais e políticas que a futura adesão acarretava. Simultaneamente, o Conselho confirmou que iria continuar a apoiar o trabalho do Secretário Geral das Nações Unidas (SGNU), tendo em vista o estabelecimento de um acordo político para a questão cipriota. O Conselho concordou em reavaliar a candidatura de Chipre à luz das conversações intercomunitárias, que estavam a decorrer sob os auspícios das NU (desde 1974). Por seu turno, o Parlamento chegou

78 Só após a conclusão do parecer por parte da Comissão é que o Parlamento e depois o Conselho darão o seu parecer sobre determinada candidatura.

à conclusão de que a UE deveria estar presente nestas conversações ainda que na qualidade de observador.

A 7 de Fevereiro de 1994, o funcionário da Comissão, Serge Abou, foi nomeado como observador da UE nas conversações intercomunitárias que começaram, nesse mesmo dia, sob a égide das Nações Unidas. Pouco depois, Abou afirmou que as conversações fracassaram por culpa do líder cipriota turco, Rauf Denktash. A mesma opinião foi expressa pelo SGNU no relatório que apresentou ao Conselho de Segurança, a 30 de Março de 1994, e no qual afirmou que: “O Conselho de Segurança encontra-se confrontado com um cenário algo familiar: a ausência de qualquer acordo deve-se essencialmente à falta de vontade do lado cipriota turco.” (Relatório do Conselho de Segurança das Nações Unidas, 1994:53).

Após a publicação do

Avis

da Comissão, iniciou-se um intenso período de discussão, que durou quase dois anos. Durante este período, o Governo de Chipre criou 29 grupos de trabalho, sendo que, cada um deles, individualmente, deveria familiarizar-se com um diferente capítulo do

acquis communautaire

com o qual Chipre necessitaria de harmonizar a sua legislação.

Nesta primeira fase das negociações, a UE não se envolveu directamente no conflito e manteve uma posição neutral, limitando-se a apoiar as decisões das Nações Unidas. Naturalmente, a eventual a resolução do conflito era considerada altamente positiva para o projecto de alargamento da UE aos Países da Europa Central e Oriental (PECO).

O Conselho Europeu de Corfu, em Junho de 1994 e o de Essen, em Dezembro do mesmo ano confirmaram que a nova ronda de alargamento da UE envolveria Chipre e Malta.79

Nessa mesma reunião separou-se, pela primeira vez, a necessidade de se encontrar uma solução para o problema cipriota do processo de adesão de Chipre.80 Ora, para Friis (apud Diez,

2002:25), o que aconteceu em Corfu permanece um mistério, na medida em que não se entende essa mudança radical de estratégia da UE, a não ser à luz das pressões gregas, que assumiram duas formas. Por um lado, a Grécia estabeleceu uma conexão entre a abertura das negociações com Chipre e a implementação de um Acordo Alfandegário com a Turquia. Por outro lado, a Grécia ameaçou não ratificar a adesão da Áustria, da Suécia e da Finlândia se a UE não incluísse Chipre no grupo PECO, i.e., no próximo alargamento.

79 Estas duas pequenas ilhas mediterrânicas não apresentavam quaisquer problemas de integração económica, embora ambas tivessem significativos problemas políticos, porém de natureza diferente. Malta estava dividida em relação à candidatura à CE/UE. O Partido Nacionalista Maltês solicitou a adesão à CE, em Julho de 90. Seis anos mais tarde, quando se encontrava no poder o Partido Trabalhista Maltês, este resolveu suspender a candidatura. Esta acabaria por ser reactivada quando os Nacionalistas voltaram ao poder em 1998.

Na mesma linha de Friis, Hubert Faustmann (entrevista, 2010), sustentou essa mudança da UE através da chantagem política dos gregos em torno do Acordo Alfandegário, embora a Turquia tivesse a sua quota-parte de culpa pela intransigência demonstrada.

Na opinião de outros estudiosos, que se verificou foi a falta de consistência das políticas europeias relativamente ao relacionamento entre o processo de alargamento e a resolução do conflito cipriota. Por conseguinte, a União falhou no seu papel de promover uma solução para o problema de Chipre (Tocci:2004). Tal como Faustmann observa: “A UE falhou ao permitir a adesão sem a solução – pelas razões certas e pelas razões erradas. A Turquia mudou demasiado tarde. A RTNC apoiou Denktash tempo demais e livrou-se dele tarde demais” (Ibidem).

Segundo o entendimento, um pouco diferente, de Nearchos Palas (entrevista, 2010), a UE, ao aperceber-se da posição intransigente de Ancara, decidiu não penalizar mais os cipriotas gregos, que se mantinham reféns da vontade turca de encontrar uma solução. Em contraste com a UE, a Grécia, adoptou uma posição mais consistente. Esse país, tinha todo o interesse em aumentar a sua segurança ao europeizar o problema cipriota e ao conseguir trazer Chipre para a UE (Tocci:2004).

Em Junho de 1995, o Conselho de Associação UE-Chipre adoptou uma resolução no sentido de iniciar um diálogo entre as partes e estabelecer uma estratégia para a adesão, sublinhando o facto de que a adesão da RdC à UE deveria contribuir para a paz e a estabilidade e, simultaneamente trazer benefícios para ambas as comunidades da ilha.

Alguns Estados-membros esperavam que a abertura das negociações com Chipre pudesse funcionar como um incentivo (

carrot

) que impeliria a RTNC para a mesa das negociações. Se esta última e a Turquia fossem convencidas de que não poderiam exercer qualquer tipo de veto à adesão de Chipre, restar-lhes-ia concordar com a integração de Chipre na UE e retirar dela todos os benefícios possíveis. (Ibidem).