A utilização de armadilhas para a captura de javalis, embora prática, possuía pouco uso, pelo menos no que tange oo estado de São Paulo. Tal como as armas, a burocracia exigida para empregá-las era maior. Isto devido às armadilhas não possuírem padrões, fazendo com que fosse analisado uma a uma, e também porque havia o receio (e ainda há) da captura de outros animais além dos javalis.
Assim, antes da IN n.º 12 que padronizou e institucionalizou seu uso, era preciso entrar no site do IBAMA e preencher adequadamente o formulário de Solicitação de Autorização de Manejo de Espécies Exóticas Invasoras – Javali (Sus scrofa). Nele deveria conter o período de manejo e as dimensões da armadilha com seus respectivos métodos: curral, gaiolas ou outras formas. Isto feito, o interessado deveria imprimir duas vias e entregar uma delas junto à lista de documentos obrigatórios em uma unidade do IBAMA, necessitando aguardar o procedimento legal deste, que era de 30 dias. Após esse período, o órgão deveria informar por ofício quanto à aprovação, ou não, da solicitação. Caso aprovada, seria entregue a pessoa interessada à Autorização de Manejo de Espécies Exóticas Invasoras – Javali (Sus scrofa).
Antes do pedido, porém, existia a obrigação da pessoa interessada ser cadastrada no CTF e de estar com o CR atualizado, sendo a portabilidade deste último, junto com uma via da autorização de manejo com armadilhas, obrigatórios, para fins de fiscalização
ambiental. Era preciso também possuir a autorização prévia do proprietário ou responsável pela área onde seria instalada a armadilha.
A prestação de conta para os órgãos regulatórios era outra exigência. Esta deveria ocorrer a cada 3 meses, através de um relatório entregue em uma das unidades do IBAMA. Em caso de desinteresse pela continuação de realizar o manejo, havia também a necessidade de notificar o IBAMA.
Dentro da pesquisa etnográfica que fizemos, observamos que a armadilha como ferramenta de manejo não era utilizada, e a explicação para tanto provinha dos fatores que elencamos acima, ou seja, da exigência burocrática necessária para sua liberação.
O primeiro deles era que a burocracia para liberar as armadilhas tinha uma demora maior, com o IBAMA exigindo 30 dias para analisar o procedimento, e, muitas vezes, negando-o. Segundo um funcionário da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo responsável pela liberação dos pedidos, sob a condição de anonimato numa entrevista informal, nos revelou que ele geralmente negava os pedidos, porque essas armadilhas não atingiam somente os javalis, mas outros animais da fauna brasileira. Além disso, muitas delas não possuíam medidas adequadas e/ou apresentavam procedimentos incorretos, como o uso de cordas por exemplo.
O segundo motivo, ainda existente, gira em torno da preferência dos grupos de caça, que são outros tipos de capturas, como as com cães e através de veículos automotores. Como pudemos perceber, existe toda uma adrenalina envolvida no processo de apanha, bem como também um espírito competitivo entre os diversos grupos de caça, já que muitos fazem competições entre eles, e as armadilhas, de certo modo, impedem isso.
Assim, isto tudo tende a diminuir o uso de armadilhas como opção de captura dos javalis e javaporcos, embora, quando bem empregadas, elas possam ter bastante êxito. O que nos faz pensar que, muitas vezes, não é a quantidade de porcos capturados e mortos que importa aos caçadores, mas sim o modo como eles foram apanhados e abatidos.
Todavia, retornando as regras para a captura com armadilhas, atualmente elas mudaram, e isto pode vir a aumentar o seu emprego. Na IN n.º 3, não havia menção às armadilhas, e, através disso, suas utilizações dependiam do entendimento e da boa vontade das autoridades designadas para liberá-las.
Com a publicação da IN n.º 12, houve uma regulamentação da utilização de armadilhas, instituindo o emprego do tipo jaula ou curral, e proibindo aquelas capazes de matar ou ferir. Nesta foi também estabelecida à obrigatoriedade de visitas diárias as
armadilhas pelos manejadores, para abater os javalis capturados e/ou libertar outros animais apreendidos que não são alvo do manejo (IBAMA, 2019).
No Anexo I desta instrução normativa foi posto um modelo de armadilha, do qual se vislumbra um padrão apropriado, que visa garantir o bem-estar animal, segurança e eficiência – condições exigidas pela IN n.º 12. Neste anexo, é apresentada a jaula curral modelo pampa, sendo estabelecida toda a instrução para sua construção, bem como o seu provimento. Sendo assim, foram estipulados os materiais necessários (tipos e espessuras), as medidas da jaula e da porta gatilho, as ferramentas para construção, a escolha do local adequado, os modos de cevar/alimentar e de como montar o bebedouro de água para a atração dos javalis. Isto é, revela o passo-a-passo para construção da jaula curral modelo pampa, que a IN n.º 12 determina como ideal. Obviamente, outros modelos poderão ser adotados, desde que garantam o bem-estar animal, segurança e eficiência que esta possui.
Um dado interessante é que este modelo de jaula foi requerido do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pois, conforme podemos observar, esta forma de armadilha foi:
Desenvolvida em 2017 pela equipe do ICMBio na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, o novo modelo de jaula, testado e aprovado pelo Grupo Javali no Pampa, é um equipamento adequado para o controle populacional de javalis. O projeto combina facilidade de construção e baixo custo com os princípios para evitar maus tratos aos animais e reduzir do risco de captura de espécies não-alvo. (2018, s/p, COELHO et al).
Desta maneira, foi por meio deste molde que a IN n.º 12 baseou sua armadilha, determinando a mesma prescrição quanto ao material, forma de construção e ferramental utilizado. E criou, assim, um ―tipo ideal‖ sob um modelo de armadilha que já foi testado e que apresentou baixo custo operacional, o que pode vir a aumentar a sua empregabilidade dentro do estado de São Paulo, já que as armadilhas neste tiveram pouca utilização.
Dito isto, os métodos mais comuns que podem ser empregados através do ferramental da armadilha é o curral ou a gaiola. Ambas têm a mesma estrutura de cercamento, o que as difere é o tamanho: a gaiola possui uma metragem menor em comparação ao curral. Geralmente, as duas possuem uma porta guilhotinada que visa contribuir para um melhor aprisionamento das presas que ali adentram.
De modo geral, estas são as armadilhas mais comuns autorizadas para o manejo de javali, porém, a pessoa e/ou grupo interessado pode solicitar um novo tipo de armadilha, ou seja, eles podem criar um novo método de armadilha e pedir a solicitação para o manejo.
Para tanto, os interessados podem criar armadilhas com redes, fazer buraco no chão com camuflagem de folhas, entre outras, as possibilidades são inúmeras.
No entanto, conforme já revelamos, o uso de armadilhas no estado de São Paulo ainda é um desafio. Por ser a ferramenta de captura menos explorada, observamos, em campo, que é pouco debatida. Por conseguinte, pouco se sabe a respeito da sua eficiência no combate à proliferação dos javalis, pois não existem amostras comparativas, por partes dos órgãos estatais, em relação a outras ferramentas de captura. E o desafio da sua utilização vai além, porque, pedagogicamente houve pouco incentivo de sua empregabilidade no estado, ou seja, os organismos estatais não estimularam a empregabilidade das armadilhas, e também vemos que há pouca disposição dos manejadores em fazer uso delas.