PARTE II – PESQUISA E MÉTODOS ESCOLHIDOS
Capítulo 1 – Procedimentos metodológicos: o caminho percorrido
2.2 A “cara” da moeda – o paradigma democrático
Neste item voltamo-nos para as questões teóricas e práticas propostas pelo paradigma democrático da inovação social com o objetivo de perceber, encontrar e relacionar o que descrevemos na teoria com o trabalho desenvolvido por estas associações e coletivos.
Nos depoimentos relacionados à participação comunitária, a Habita e a Stop Despejos destacam as assembleias de resistência e as ações de mobilização. O objetivo das assembleias de resistência é a própria participação comunitária na resolução de seus próprios problemas relacionados à habitação. É um espaço de escuta, voz, apoio e planeamento de ações. A perspectiva ainda não é a de desenvolvimento comunitário num sentido restritivo de local, pois os participantes podem pertencer a diferentes bairros, porém é uma perspectiva de combate e superação de forças hegemónicas, de direcionar a luta e o problema individual para uma luta e problema coletivo, transformar as pessoas em sujeitos políticos, esclarecer os seus direitos e dos meios públicos que existem para a resolução de seus problemas, por exemplo, a participação em reuniões ou assembleias da CML. Almejando, assim, uma construção e representação coletiva de base para o problema da habitação e da gentrificação turística (Taylor, 1970; Moulaert et al., 2005; Moulaert, MacCallum e Hillier, 2013b; Montgomery, 2016).
Contudo, a participação comunitária não é contínua, pois a maioria das pessoas participantes apresentam condições de vida extremamente precárias, de difícil mobilidade entre à cidade e com familiares doentes. Sendo a grande maioria mães monoparentais, que muitas vezes, não têm com quem deixarem seus filhos para poderem participar das assembleias, salienta a Stop Despejos e a Habita. Estas questões são extremamente importantes, Moulaert et al. (2005) pontuam que o trabalho com grupos mais carenciados
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pode ser mais desafiante e ter uma diminuição no nível de participação cívica, pelas dificuldades próprias do contexto, e que estas questões têm um impacto no nível de dimensão do processo de inovações sociais, que buscam pela transformação das relações sociais e relações de governança para a satisfação de necessidades básicas que não supridas ou reconhecidas pelo Estado.
O Morar em Lisboa pontua que a participação comunitária, muitas vezes está vinculada a uma associação, coletivo ou movimento social que participa do Morar em Lisboa. E que também promovem debates sobre temas pertinentes à habitação ou temas associados que considerem importantes para reflexão da sociedade civil. A APPA esclarece que há participação dos residentes do bairro da Alfama em ações que a associação propõe, e que quando há necessidade eles mobilizam os moradores ou quando os moradores precisam de algo, vão até eles.
Já a AIL descreve que a “voz do utente é uma voz anónima”, ou seja, o trabalho desenvolvido pela AIL é uma prestação de serviços e não há espaço ou mecanismos para a participação de quem é associado à cooperativa. No depoimento da AIL, também há referência a Habita:
“então, muitos casos assim, que nós vemos que são casos que não tem solução ou que são muito difíceis, o que nós acabamos por fazer, acabamos por enviá-los para a Habita, e a Habita tenta dar força as pessoas, consolo através das assembleias. Aí verdadeiramente é aquela inovação emancipatória, empreendedora, crítica, transformadora até” (AIL, comunicação pessoal, 16 de março de 2021).
Também percebemos que as ações de mobilização estão ligadas a participação comunitária, à contestação de poderes e de estruturas económicas. Todas as associações e coletivos entrevistados foram criados a partir da insatisfação e da contestação de leis e da realidade social vivenciada. Direcionando as ações de mobilização social e contestação de poderes por meio de: pressão política; pressão midiática; ações de rua; impedimento de despejos;
impedimentos de demolições; ocupações de imóveis vagos; manifestações públicas, como a Manifestação pela Habitação ou o Festival HabitaAcção; ocupações de espaço público; ações de desobediência civil, como ocupações de estruturas públicas; ofícios; petições públicas; e processos de medidas provisórias e cautelares.
A Habita menciona a criação do conflito como uma das estratégias de contestação. Ao trabalharem com o conflito ou ao criarem o conflito frente a um problema de habitação, chama-se à atenção de quem é responsável por fazer leis e cumprir leis, da comunicação social e do público em geral, pois a intenção é fazer com que a sociedade perceba este problema, assim como, o poder público assuma esta responsabilidade de propor soluções.
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Outra estratégia mencionada tanto pela Habita como pela Stop Despejos é a criação das contra narrativas que possuem o propósito de contestar as narrativas da cidade neoliberal sobre a propriedade privada, turismo e habitação. As contra narrativas são feitas por meio de campanhas de comunicação e campanhas políticas, com informações sobre a realidade vivenciada por muitos indivíduos, famílias, comércios locais e pela própria cidade em si que não são divulgadas pelos medias tradicionais, tomando partido em defesa de uma cidade para toda população.
Na categoria de desenvolvimento de pesquisas, não há nenhuma organização ou coletivo que faça pesquisas sobre inovação social (Moulaert et al., 2005; Moulaert e Dyck, 2013a;
Moulaert et al., 2017). De forma geral, o trabalho é direcionado para a prática (Murray, Caulier-Grice e Mulgan 2010), contudo, a questão de pesquisa aparece nas propostas de debates sobre temas específicos, ao convidarem pesquisadores ou pessoas representantes de outras organizações e coletivos para falarem de determinado tema, como é o caso do Morar em Lisboa e da Habita com os debates presenciais e online. Um outro fator interessante é o envolvimento de professores ou estudantes nestas associações e coletivos, que ao fazerem parte de grupos de pesquisas e escreverem artigos académicos, acabam por envolverem a dimensão teórica e prática nas questões da gentrificação turística em Lisboa e da crise na habitação.
A Stop Despejos coloca que para as campanhas de comunicação e para as campanhas políticas há uma componente de pesquisa, e que a pesquisa vai ser sempre no sentido da proposta da campanha, e que também podem estar conectadas à compreensão de novos programas propostos pela CML para à habitação, e compreensão de leis, e de direitos que possuímos como cidadãos.
Neste sentido, o significado de pesquisa adotado por estes coletivos e organizações vai mais ao encontro de informar e formar uma consciência crítica sobre o contexto da gentrificação turística e da crise na habitação para à defesa e garantia de direitos, num sentido de mudança sociopolítica, numa construção conjunta com as bases. O que difere da proposta de pesquisa ontológica interdisciplinar e transdisciplinar na área das ciências sociais e humanas para o campo da inovação social proposto por Moulaert e Van Dyck (2013a), aproximando-se mais da pesquisa como um jogo criativo proposto por Taylor (1970).
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