DESCRIÇÃO DOS CAPÍTULOS
Na cova eu não tinha acesso à memória Perdera a
6) de Bolívar, elaboradas por Pietro Tenerani A própria Caracas do Centenário contava com
3.2. DA GUERRA FEDERAL AO CENTENÁRIO DE BOLÍVAR: AS TRAMAS DO PROJETO NACIONAL GUZMANCISTA
3.2.2. A Caracas moderna e o profeta do progresso
Na esteira da superação das crises decorrentes da Guerra Federal, a capital ainda apresentava poucas mudanças físicas e populacionais em relação aos tempos da independência. Ao mesmo tempo, experimentava alguns aspectos da modernidade e o interesse em vincular-se ao mercado capitalista. Naquela conjuntura, o alcance do mando caraquenho não extrapolava, de forma consistente, suas vizinhanças. Essa circunscrição esteve relacionada à progressiva reorganização institucional do pós-guerra civil. Movimento esse justificado, segundo Carrera Damas, por meio do discurso federativo de uma nova elite governante assentada no tradicional eixo econômico Caracas-Valência (CARRERA DAMAS, 1983, p.36). O que significava a manutenção de um espaço de poder de menos de 168 km de diâmetro, à cabeceira de um país cuja extensão ultrapassava 900 mil quilômetros quadrados.
A concentração demográfica também parecia asfixiar Caracas diante do restante do território. Segundo documentos catalogados por Antonio de Lisio, no censo de 1807 — último antes das independências — a cidade possuía 47.228 habitantes, enquanto a Venezuela contava com 975.972. Em seu turno, o censo de 1881 apresentou a cidade na marca dos 55.638 habitantes, enquanto o país possuía 2.222.578 (DE LISIO, 2001, p. 218). Ou seja, no intervalo em que a população nacional mais que duplicou, a cidade cresceu pouco mais de 10%.
Os rasgos arquitetônicos tampouco sofreram grandes modificações desde a época das independências. Em 1881, a cidade contava apenas com 20 ruas no sentido Norte-Sul e 18 no sentido Leste-Oeste; 42 prédios públicos; 07 cemitérios, 15 praças e 14 pontes (RAMON CASTELLANOS, 1983, t. I, p. 35-37). Permanências de relações sociais também marcaram a vida urbana, a exemplo do acordo de grupos governantes em torno de políticas personalistas e o caráter determinante sobre costumes do país, que denotavam o porquê de esse núcleo urbano ser cobiçado por todo aquele que propusesse um assalto ao poder.
As dinâmicas dos governos Guzmán Blanco enfrentaram o encargo de atrelar o desenho de novo Estado nacional à tradição centralista de uma urbe marcada pelo tradicionalismo. Isto é, diante das forças centrífugas que ameaçavam implodir o país, transformar Caracas em teatro de novos tempos mostrou-se uma imperativa expressão de fôlego do novo regime. Para além da supracitada identificação com a memória bolivariana, a modernização urbana foi um expediente fundamental dessa distinção. Referendando esse propósito, os organizadores do Centenário ressaltaram a eficácia e o sucesso do regime liberal na administração pública por meio da prosperidade material.
149
Mesmo antes de 1883, Guzmán Blanco e seu séquito já empreendiam uma política de memória centrada na relação entre Caracas, o culto heroico e o progresso. Pedro Cazaldilla (1999, p. 129) demostra que as festas bolivarianas do primeiro governo Guzmán Blanco (1870- 1877) possuíam atributos de instrumento pedagógico. Em meio à ritualização, os grupos articuladores evidenciavam, para a população em geral, os avanços que a sociedade sofrera sob a política de ordem moral e civilização (1999, p. 118). Guzmán Blanco tentara imprimir sobre Caracas uma imagem de metrópole moderna68, porém, em nenhum outro evento foi tão eficaz quanto nas celebrações do Centenário.
As transformações apresentadas nas festividades cumpriram o objetivo de prover lógica ao progresso experimentado e esperado. Todos os episódios comungaram da celebração à memória bolivariana. Profeta ou iniciador de um projeto que só pudera ser finalizado nas circunstâncias do Guzmanato, essa imagem foi referendada por Hurtado Sánchez, quando indicou que Guzmán Blanco fora capaz de realizar o progresso que Bolívar desejou para sua pátria:
Pasemos ahora á describir las Grandes Fiestas que nos hemos propuesto, cuyas glorias de haberlas efectuado estaban reservadas á Guzmán Blanco, á ese Hombre Ilustre con cuyo gobierno laza á la Patria por los vastos horizontes del progreso; de aquel progreso que anheló para ella su mismo Libertador y que hoy empieza por fin a la Patria á disfrutar. [...] El ha sabido medir la magnitud del Héroe que las ha motivado y su alta transcendencia, y por eso no ha omitido sacrificio alguno para que la Patria en su actual gobierno se mostrase digna de su Libertador y del Pueblo que libertó. (1883, p. 15).
Impressiona a capacidade de retroprojetar as demandas do presente sobre o mito de origem nacional. Essa retificação da história enfatizou as dificuldades da questão modernizadora, uma vez que desqualificava as respostas de todos os sucessores de Bolívar, exceto Guzmán Blanco. Com intenção de perpetuar a imagem das festas em dimensões de tempo e espaço, as crônicas transpuseram a relação entre a Caracas e o progresso para o resto do país e estabeleceram no Guzmanato um marco histórico do desenvolvimento venezuelano.
Basta um breve olhar sobre o calendário oficial para compreender que muitos dos acontecimentos dizem mais sobre a revitalização da capital que sobre o Libertador, ainda que sempre o reivindiquem seu legado (Quadro 3). Dos dez dias de festa do Centenário, ao menos seis deram espaço à exaltação de novidades no cenário urbano e da vida intelectual. Para fins de análise, pode-se articular as celebrações do progresso e da civilização em três grandes
68 Argumento respaldado nas acepções de Ramon Castellanos (1983, p.48), Rojas (2011, p. 168) e o próprio
150
tópicos: os incrementos tecnológicos urbanos; o progresso científico; e a reforma arquitetônica. A partir do exame dessas categorias é possível refletir sobre a postura que na festa buscou-se promover quanto à modificação da paisagem urbana.
No que tange à aquisição de tecnologias urbanas, destacavam-se os episódios da instalação da iluminação elétrica pública e da abertura da primeira central telefônica do país. Entretanto, o acontecimento proeminente do conjunto se deu na inauguração do Ferrocarril
Caracas-La Guaira. Não só pela construção ter prestado um testemunho concreto do progresso
técnico — executada por uma companhia inglesa, a ferrovia literalmente atravessava os Andes ligando Caracas ao litoral — mas também em razão de que essa via de escape portuária possibilitou a integração definitiva da terra natal do Libertador à economia mundial, conforme o ritmo do capital. Segundo a descrição de Hurtado Sánchez:
Una numerosa concurrencia acudo pues, ansiosa y desde la una del día fijado para la llegada de los trenos, y toma posesión de la Estación, sus anchas avenidas y de todas las alturas y colinas inmediatas á ella. Aquello presentaba un espectáculo grandioso y se hubiera creído que aun estábamos en vida del Libertador y que aquel era, aquel mismo pueblo que presuroso volaba á su encuentro para traerlo en triunfo hasta su casa; en efecto, allí no venía él en persona, pero se había llevado á cabo una de las más grandes ideas del progreso que tanto deseaba para su amada Patria, y nos traía con olla el recuerdo de su memoria siempre querida para sus hijos. Miles de espectadores se hallaban ya congregados en todos aquellos lugares, y las miradas y los pensamientos de todos ellos so fijan con interés en las últimas vueltas de la línea que mueren en la Estación; cada cual es un espía que atisba silencioso la columna de humo que, debe anunciarlo, ó presta atento oído al ruido sordo y continuado que produce el tren al rodar sobre los rails. Por fin un movimiento simultáneo efectuado en todas aquellas masas, y un sonido agudo y estridente producido por el silvato de la locomotora, fueron el indicio seguro que vino anunciarnos que ya Caracas y La Guaira eran una, misma Ciudad y quedaban convertidos en un mismo pueblo! quedaban enlazados por una cinta de acero! Un viva Guzmán! viva el Progreso! se escapó do los labios de algunas personas, pero el más solemne grito vibró en el corazón ahogándose con los arrebatos de la admiración que se tornan en el silencio de la elocuencia. (HURTADO SANCHEZ, 1883, p. 21)
A predição ou ressureição de Bolívar foram reiterações constantes no texto de Hurtado Sánchez, tratando de presentificar a figura heroica nos espaços que, caso ausentes de sua narrativa, provavelmente estariam menos associados ao passado. Os relatos, portanto, complementavam o ritual, trazendo elementos que solidificassem seus argumentos na perspectiva daqueles que organizavam a celebração. Vale ressaltar que as crônicas integraram o debate intelectual do Guzmanato, uma vez que suas posturas fossem referendadas pela subvenção e pela publicação por ordem do governo de Guzmán Blanco. A inauguração do
Ferrocarril em si celebrou o progresso material, mas, segundo as crônicas, evocou a memória
151
Por sua vez, o avanço científico figurou em eventos como a Instalação da
correspondiente de la Real Academia Española de Lenguas, o incremento editorial com a
publicação de mais de 180 livros e a homenagem a José Maria Vargas (1786-1854), ícone do fomento ao ensino superior venezuelano. Nesse conjunto, faz-se necessário ressaltar o viés modernizador da exposição do Centenário. Adolf Ernst demostrou os significados que atribuía à feira, ao afirmar que
Las Exposiciones, sean nacionales ó internacionales, industriales, artísticas ó científicas, son manifestaciones significativas del progreso moderno, y como tales, pertenecen casi todas á la segunda mitad de nuestro siglo.
[…]
Era pues natural que también en este sentido el país diera una prueba del sorprendente progreso que caracteriza las épocas presidenciales del General Guzmán Blanco, y que después de haber aparecido como partícipe en varios de los grandes certámenes industriales en ambos continentes, viese realizado en su capital un torneo del progreso semejante á aquellos, aunque circunscrito á las producciones del propio suelo y á las obras de sus propios hijos. (ERNST, 1884, t. I, p. 8)
No argumento do catedrático, a participação da Venezuela em certames internacionais asseverou o ensaio do país para ingressar no hall das nações modernas, conforme demonstrou com seu empenho em evidenciar todos os 183 prémios conquistados pelo país em feiras universais (ERNST, 1884, t. II, p. 59-60). Doutro modo, ao produzir uma exposição, ainda que limitada ao âmbito nacional, consolidava seu status de espaço civilizado. Consequentemente, Ernst atrelou o evento ao evidenciar do progresso pátrio no único palco adequado a sua recepção: a capital federal.
Quanto à renovação arquitetônica, observou-se um conjunto de inaugurações de edifícios que transformou o semblante urbano caraquenho: o Palácio da exposição e o reformado teatro Guzmán Blanco, com seus estilos neoclássico, além da Santa Capilla de estilo neogótico, legaram ares cosmopolitas ao centro cívico, em oposição à imagem barroca que caracterizara a cidade até então. Em detalhe, a capela surpreendeu pela velocidade da construção, finalizada em 90 dias, e pela significação que operou na conversão da paisagem citadina. Sobre a edificação, o relato da comissão diplomática boliviana asseverou que:
Caracas, como todas las ciudades de origen español, posee muchos templos antiguos de pésimo gusto arquitectónico, y de muros en decadencia que revelan poca pasión de sus moradores para conservar obras que no darían crédito á nuestros antepasados […]. A uno de aquellos pertenecía sin duda el antiguo templo de San Mauricio, situado en el centro de la ciudad, y cuya permanencia si no era, dicen, una vergüenza del arte, era un estorbo á obras modernas o de mejor gusto.
Comprendiendo esto, resolvió el actual Gobierno de la República que se demoliese el edificio antiguo y se sustituyese por otro, que fuera una digna ofrenda á la divinidad y á la vez una muestra del buen gusto moderno, como imitación de los antiguos clásicos en su género. (COMISIÓN DE BOLÍVIA, 1883, p. 85)
152
A inauguração do templo serviu de marco temporal, reafirmando a existência de duas cidades. A Caracas da igreja de San Mauricio era memória do período colonial, lembrança de um domínio que enriquecia a Espanha e destinava migalhas à Venezuela. Por outro lado, a
Santa Capilla instaurava o novo, em consonância com o tempo que as elites governantes
almejavam para o país. A Junta Directiva impôs um exercício similar à memória nacional, ao renarrar a história a partir de Bolívar, demolindo tudo que, em sua perspectiva, poderia ser considerado retrógrado.
Segundo Mona Ozouf (1976), estudiosa das relações entre ritual e sociedade, a festa nacional é um fenômeno que tende a imaginar/inventar uma narrativa única entre o passado celebrado e o presente celebrante, instrumentalizando o primeiro em função do segundo. Se pudermos encarar o Centenário de Bolívar segundo essa disposição, é possível compreender por que suas crônicas se empenharam em articular a imagem do Libertador com o presente vivenciado. Mais que meras inovações, as transformações urbanas fornecem sentido e finalidade à história teleológica que une Bolívar e seu futuro.
A Guerra Federal e os conflitos dela derivados deixaram um campo em aberto sobre o alcance da instância caraquenha de poder. A superação desse quadro demandou um reordenamento capaz de reestabelecer na capital uma referência nacional, distinguindo-a do ambiente regional em seu entorno. Agenciando uma convergência simbólica, a organização do Centenário — nas figuras, principalmente, daqueles que compunham a Junta Directiva e do presidente Guzmán Blanco — escolheu afirmar a cidade sob o epíteto de cuna del Libertador, ou de sua metonímia ritual, cuna de la libertad, matizando diferenças com a manutenção dos contornos da Caracas colonial, atribuída aos antecessores governos do Partido Conservador.
Para reunir o país em torno da urbe, que abrigava o poder de Guzmán Blanco, foi imperativo dar-lhe feições que permitissem identificar o afastamento da herança pré- independência e do conservadorismo. Ao mobilizar energias políticas desde a ascensão do
Guzmanato (1870), os posicionamentos de atores políticos sobre modernização urbana
dirigiram uma faceta dessa distinção, indicando caminhos para a cidade transformar-se em metrópole e projetando seu futuro no horizonte do progresso material. Não foi à toa, portanto, que no Centenário a veracidade desse percurso foi corroborada por meio de vaticínios e desejos atribuídos ao Libertador. Por meio das crônicas, o passado bolivariano, incontínuo no interregno de 1830 a 1870, foi atrelado às práticas de renovação citadina, numa simbiose ritual entre encanto da memória heroica e o desejo pelo progresso.
153