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A casa é como um filho: as conexões entre casa e parentesco

A casa é como um filho:

as conexões entre casa e parentesco

Após ser convocada diversas vezes para comparecer à escola por causa de problemas disciplinares e educacionais envolvendo seu filho, Felipe, de 13 anos, Camila passou a cogitar a possibilidade de se mudar do Recanto dos Humildes. Ela reside na casa que foi construída por seus pais, que eram integrantes do movimento de moradia que organizou os mutirões que ergueram as primeiras casas na vizinhança. O diretor da escola sugeriu que Camila transferisse o menino de escola, pois assim ela poderia separá-lo das más companhias e evitar que ele fosse reprovado ou abandonasse a escola. Ela procurou vaga em três escolas localizadas próximas de seu trabalho, na região central de São Paulo. Contudo, as escolas não aceitaram o pedido de transferência, pois ela não poderia apresentar um comprovante de endereço para atestar sua residência nas proximidades das instituições. Com o receio de que o menino entrasse para o mundo do crime e se perdesse, Camila pensa seriamente em vender ou alugar a casa construída por seus pais, mudando-se para Francisco Morato, uma cidade da região metropolitana de São Paulo, próxima de Perus, onde residem alguns parentes que poderiam ajudá-la a criar as crianças e oferecer suporte em momentos de precisão. Porém, essa escolha não é fácil, pois a casa, como veremos ao longo deste capítulo, não é apenas uma materialidade, mas envolve também afetos, uma segurança econômica e a garantia de privacidade para cada membro que lá reside. Vejamos como Camila descreve esse impasse que vivencia:

O diretor até me pediu para colocar ele em outra escola e tudo. Mas tudo isso é difícil também, porque eu já fui em umas três escolas perto do meu serviço. E eu só perguntei, mas eles falam que tem que por o nome na fila e esperar. Então não é uma coisa de imediato. Claro que eu sei que a demanda é muito grande. Com

essa crise, com tudo que está nessa situação, como eu vou sair daqui para morar de aluguel? Eu vou botar uma pessoa aqui dentro, mas eu não sei qual é a índole da pessoa. E isso é tudo o que os meus pais me deixaram. Eu estava conversando com eles hoje. Nós temos que interagir mais, conversar mais dentro de casa, porque esse é o nosso conforto. Se a gente sair daqui, vai para uma casa menor, como é que vai ficar, um dormindo por cima do outro? Eu estou procurando conversar com o Felipe sempre, de como é aí fora. Se eu vier a mudar, provavelmente ele não fica na escola. Foi o que o diretor falou: “tenta mudar ele de escola”. Só que para eu mudar para aqui em Perus não adianta. O Felipe, se ele se candidatasse aqui para político, eu acho que ele ganharia, de tanta gente que ele conhece. Às vezes, quando a gente está andando, eu falo para ele, ‘você tem que andar com o braço levantado, dando joia para todo mundo’. São 13 anos morando aqui, e tem gente que eu não conheço, e ele conhece, porque ele anda por todo canto. Tem algumas pessoas aqui, como a Paula, alguns vizinhos... Quando eu coloquei a placa de vende-se aqui, eles quase tiveram um treco. Eu já coloquei a placa. Mas eles falaram: ‘não faça isso, essa é uma conquista dos seus pais. É uma coisa para vocês, a gente olha o menino.’ Tudo o que acontece com o Felipe eu sei. A Paula principalmente sempre conversa com ele. Eu não tenho o que reclamar. O bairro, infelizmente, está cada vez mais complicado. Essa coisa de som incomoda, no fim de semana, muito baile, muita coisa por aqui. Isso incomoda um pouco.

Esse trecho de uma conversa com Camila contém alguns impasses vivenciados pelos moradores do Recanto que pretendo descrever neste capítulo. A dúvida sobre a mudança reside na ponderação feita pela moradora sobre a viabilidade de se mudar de residência e deixar para trás uma conquista de seus pais, a casa, buscando, dessa forma, resguardar o filho dos riscos que o cercam na vizinhança. Quais os sentidos atribuídos à casa nessa reflexão feita pela moradora? Por que seus vizinhos tentam dissuadi-la de vendê-la? Quais as relações entre a casa e o parentesco expressa nessa preocupação? Em que medida a construção e a posse da casa são fundamentais para a criação e a educação dos filhos? Nesse capítulo, irei explorar algumas respostas para essas questões. Mas antes, convém tecer uma breve discussão sobre como a casa têm sido abordada pela antropologia, apresentando ao leitor quais são as afinidades e os deslocamentos entre a minha análise e esses trabalhos.

Lévi-Strauss (1991) sugeriu que a noção de casa poderia ser um caminho analítico para descrever as sociedades nas quais o parentesco não é regido nem pelos princípios da aliança nem pelos da filiação. Inspirado nos estudos sobre a Europa Medieval e notadamente na descrição da casa dos Kwakiutl realizada por Boas, Lévi-Strauss destacou a centralidade dos nomes, dos títulos e dos direitos que são transmitidos e que fazem com que uma casa perdure no tempo. A casa como uma instituição social combinaria princípios antagônicos e, por vezes, excludentes das teorias do parentesco: matri/patrilinearidade, hipo/hipergamia, aliança/filiação, proximidade/distância matrimonial, etc. Ela seria uma categoria que permite transcender essas oposições.

Nas conversas com os moradores do Recanto e na análise que desenvolverei neste capítulo, a casa não aparece como uma categoria com uma potência para transcender os princípios contraditórios das teorias do parentesco. Essa vontade de transcendência talvez seja apenas do antropólogo. Os moradores do Recanto pensam as relações sociais empregando lado a lado a categoria de casa, as ideias de família, de vizinhança e de amizade. Não há uma categoria que poderia hierarquicamente explicar as demais. Ao aparecer lado a lado, muitas vezes como extensões analógicas, as ideias relacionadas iluminam-se mutuamente e acabam implicadas por essa associação. É o que veremos ao descrever duas analogias promovidas pelos moradores em nossas conversas: a casa é como um filho e o alicerce da casa é como um embrião. Essa associação enfatiza justamente a duração do processo de construção de uma casa, lento e contínuo, cheio de percalços e dificuldades, tal como o crescimento e a criação dos filhos. Carsten e Hugh-Jones (1995: 23) afirmam que em diversas sociedades na Indonésia a casa é vista como um organismo, que deve ser plantada e é feita da mesma essência vital que os seres vivos. As casas, nesse contexto, não são como as pessoas, mas têm as mesmas qualidades e são o produto dos mesmos processos sociais que elas. No Recanto, não há uma cosmologia como essa, que desenvolve até as últimas consequências uma analogia entre as pessoas e suas casas; contudo, ao associar o alicerce com o embrião, os moradores não deixam de enfatizar essa transformação contínua que afeta tanto a casa como seus corpos. As casas não são, portanto, entidades estáticas, mas dinâmicas, cuja construção é sempre vista como instável, incompleta e contínua. Veremos que muitas reformas arquitetônicas das casas no Recanto têm sido feitas para coincidir, de diversas formas, com eventos e processos importantes da vida de seus ocupantes. Seguirei neste capítulo a sugestão de Carsten e Hugh-Jones (1995: 2) de descrever a casa não a partir de uma prioridade do parentesco ou da economia, mas como intimamente ligada à produção de corpos, de pessoas e de relações.

Além disso, nessa associação entre casa e filho, há toda uma reflexão dos moradores sobre o tempo: memórias sobre a luta do movimento social para a conquista dos terrenos, bem como sobre o próprio processo de construção das casas, reflexões sobre o presente e ainda ponderações sobre o futuro da residência, que é sempre orientada para ser um legado aos filhos e uma condição para que eles tenham uma vida melhor que a dos pais, apareceram insistentemente em minhas conversas com os moradores. Uma casa é, como veremos, um disparador para se pensar nessas diversas temporalidades que cercam suas vidas.

A casa não é pensada como necessariamente uma unidade pelos moradores do Recanto. Ao descrever o processo de construção delas poderemos constatar que tão importante quanto a criação de um edifício que agregue os familiares, os parentes mais próximos, é a produção de divisões e de uma boa distância para que um familiar não se intrometa na vida do outro. Se internamente as divisões são extremamente importantes para que ela não se constitua como uma residência onde um dorme por cima do outro, a construção de uma casa também deve evitar que uma “intimidade opressiva” (HERZFELD,

1991: 42) se instaure entre as casas de parentes e de vizinhos. Como veremos, é a casa que permite uma privacidade em relação aos olhares e opiniões dos outros sobre os assuntos familiares, sobretudo em relação à melhor forma de se criar um filho. Realizarei neste capítulo um deslocamento analítico em relação à literatura antropológica que tende a destacar a união e a solidariedade difusa entre diferentes casas (ver, p. ex., MARCELIN, 1996).

Tão importante quanto a troca entre diferentes residências é a distância que existe entre elas. Assim, será possível entender um princípio arquitetônico encontrado na periferia de São Paulo, a saber, o fato de um mesmo edifício e terreno se dividir em diversas casas. Veremos aqui que um bom parente, para os moradores do Recanto, é alguém que não está nem tão próximo nem tão distante: um afastamento, como veremos, é fundamental para que uma afeição e um sentimento de amor possa se efetivar entre eles. Se as casas são utilizadas para pensar sobre o tempo, elas também articulam categorias espaciais: os moradores insistentemente comentavam sobre a necessidade de se conciliar uma boa distância e uma boa proximidade em relação às outras casas e aos parentes.

Neste capítulo ainda descreverei a estrutura física das casas e seu processo de construção; contudo, a materialidade da casa não é pensada por seus moradores como destacável e independente das relações sociais. Há uma interação constante entre a construção da casa, sua arquitetura e a produção da pessoa e das relações familiares. Como destacado por Carsten e Hugh-Jones (1995: 3), “se as pessoas constroem casas e as fazem à sua imagem, então também elas usam essas casas e imagens de casa para se construir como pessoas e como grupos”.

Por fim, no último item do capítulo, Quem é parente?, descreverei como as relações entre os irmãos tornam-se fundamentais para os moradores do Recanto quando pensam sobre as consequências de se dividir uma mesma casa bem como sobre as trocas que existem entre os familiares. Ao abordar o parentesco do ponto de vista da amizade (ver VAN DER GEEST, 2013), pretendo lançar luz neste item para essas relações entre irmãos que geralmente são

ofuscadas pelas teorias da afiliação e da aliança, mas consideradas como essenciais no Recanto.

Construção das casas

Tal como a construção da casa não é uma operação individual, mas um processo que envolve muitas pessoas e negociações coletivas com outros membros da família, a decisão de vendê-la ou alugá-la também é um processo que solicita negociação. Camila menciona que conversou bastante com todo mundo que mora na casa sobre essa possibilidade. Até mesmo os vizinhos entram na conversa para tentar convencê-la a ficar no local, lembrando que a casa não é um bem qualquer, mas uma conquista de seus pais que participaram do mutirão e, após muito sacrifício e diversos percalços, conseguiram terminar a construção. Para compreender melhor o que é uma casa para seus moradores, convém descrever o seu próprio processo de construção que, em muitos casos, ainda não se encerrou e dura mais de vinte anos.

Ao conversarmos sobre suas casas, os moradores não comentavam apenas sobre sua situação atual, mas remetiam cada cômodo ou pequeno detalhe do edifício ao processo de sua construção. A preocupação dos moradores orbitou ao redor da discussão das condições de emergência das casas e das práticas sociais que a construíram e que a própria casa constrói. Por isso, seguindo a sugestão de Marcelin (1996, p. 96), não é possível abordar a casa sem considerar sua arquitetura e também seu processo de construção. Como veremos neste capítulo, a casa, sobretudo em seu processo de construção, tanto presume como produz os vínculos familiares.

Muitas casas no Recanto foram erguidas no processo de autoconstrução, muito comum na expansão periférica da cidade de São Paulo descrita pela literatura (ver BONDUKI,

1997; HOLSTON, 2013; KOWARICK, 2009). Esses moradores que pegaram em blocos de construção, que se esfolaram, também por vezes contratavam mão de obra especializada para partes da construção que eles não sabiam como fazer. Porém, para baratear o custo, muitos moradores se tornaram ajudantes de pedreiro, garantindo assim o acompanhamento da obra. Nesse processo lado a lado com um pedreiro profissional, os moradores vão aprendendo como construir e também vão tendo ideias do que poderiam fazer em seguida. Como me disse Seu Paulo, quando você começa a mexer na casa, a reformar alguma coisa, logo surge a ideia de melhorar outra coisa. Com a mão na massa a gente vai pensando no que fazer.

Contudo, como o dinheiro é curto, esses projetos de melhora são postergados para um momento mais propício e a reforma da casa nunca acaba. Como me contou Dona Celestina, só rico constrói tudo de uma vez, se muda com a casa já pronta. A casa ideal não está e provavelmente nunca estará concluída, pois o ideal reside justamente nesse processo de contínua reforma e invenção. Como demonstra Alfred Gell, há aqui uma disparidade entre a intenção e a atualidade na construção de qualquer artefato. Em suas palavras:

Nós somos inclinados a ver os artefatos, especialmente artefatos esplendidos como esses (Maori meeting houses), como se eles incorporassem as intenções finais de seus construtores. Mas qualquer pessoa que já tenha construído algo (até mesmo uma edícula em uma casa de subúrbio) reconhecerá instantaneamente que as coisas dificilmente se passam assim. O que é construído será sempre o que parece ser o melhor compromisso à luz de todas as dificuldades e limitações da situação. (GELL, 1998: 257, tradução minha)

Na gestação das casas promovida pelas mulheres do Recanto, a construção é gradual, por etapas e, sobretudo, marcada por constantes idas e vindas. Aqui, um contínuo vai e vem marca a temporalidade das casas, ainda que se tenha no final das contas certa intencionalidade de progressão contínua na frase expressa por muitos moradores de que a vida foi melhorando. Como podemos ver, a conquista da casa própria não significa que o projeto de construção terminou. Como me disse Dona Paula, tem que evoluir mais um pouquinho, sonhar mais à frente, não pode parar onde está.

Esse processo é marcado por constantes adaptações aos imprevistos da vida. Dona Celestina lembra-se, por exemplo, de como teve que construir um quarto novo no fundo do quintal quando o filho se separou da mulher e retornou para a casa da mãe com seus próprios filhos em 2005. Seu Francisco recorda o momento quando teve que construir uma entrada independente para o filho e a nora que acabavam de se casar. Algumas casas são abandonadas quando a família precisa se mudar repentinamente do bairro em função do envolvimento dos filhos com as drogas. A construção não é, portanto, completamente linear, há um constante ajeitar-se às circunstâncias inesperadas da vida.

Essa característica processual foi explicitada para mim em uma analogia realizada por Inês entre a casa e os filhos, ou, mais precisamente, entre o alicerce e um embrião:

Eu dei o meu sangue aqui, isso aqui tem o meu sangue. Para pegar os blocos, quantas vezes você não se esfolava, se machucava. Há meu sangue aqui nessa casa. Ela é como se fosse um filho. Só para você ter uma ideia, nós chamávamos os alicerces de embrião. Eu não vendo isso aqui por nada desse mundo.

Há partes das mulheres no próprio alicerce das casas. O sangue é aqui utilizado para reforçar esse vínculo moral e corporal que liga as pessoas e suas residências. O sangue misturado ao concreto nos alicerces é a materialização dos sacrifícios e sofrimentos das mulheres depositados na construção da solidez de uma casa.

A analogia promovida pelos moradores entre o alicerce e o embrião produz diferentes interpretações a respeito da conexão entre casa e família. Pode-se afirmar que tal analogia é uma forma de se pensar as casas em constante desenvolvimento, tal como os filhos, ou melhor, que acompanha o desenvolvimento dos filhos, e que o momento inaugural da localidade, marcado pelo mutirão, período de intenso trabalho e sacrifício das mulheres, que durante anos frequentaram reuniões, participaram do planejamento do local e ergueram suas casas, tem analogia com a gestação materna. Tanto o filho como a casa são vistos como frágeis e inseguros no começo, mas vão adquirindo gradualmente consistência e força.21 Se

nos primeiros anos, sobretudo no período de construção do alicerce e da primeira laje, um esforço coletivo tremendo é necessário, quando a estrutura da casa está erguida as reformas tendem a ser menos exaustivas, solicitando menos recursos materiais e pessoais. Com os filhos, como veremos no capítulo seguinte, tudo se passa de maneira análoga: no começo, a mãe ou uma outra cuidadora precisa estar presente, alimentando e cuidando da criança que é dependente dela; quando chega a adolescência, as mães precisam redobrar sua atenção em relação às amizades dos filhos, bem como conversar muito e lhes mostrar o mundo para que eles não se desencaminhem; depois, já com a cabeça feita, o filho adquire autonomia e passa a circular pelo mundo sem a necessidade de uma vigilância tão rigorosa por parte de sua mãe.

Ao promover essa associação entre a casa e o embrião, as moradoras do Recanto promovem ainda uma inversão da perspectiva que usualmente associa a casa como o continente e seus habitantes como o conteúdo. Nesse caso, é a mulher, a mãe, quem engloba a casa, tal como também ela engloba o filho durante a gestação.

O paralelo entre o crescimento das casas e o desenvolvimento dos filhos também fica evidente na associação entre o longo tempo de espera e paciência para a conquista da casa própria, cheio de obstáculos, e a idade dos filhos que muitas moradoras realizaram nas narrativas (ver AQUINO, 2015: 88). Inês, por exemplo, lembra-se que quando frequentava as

reuniões do movimento de moradia, ainda em Pirituba, sua filha tinha 3 anos. Quando conseguiu o lote de sua casa e começou a construção, ela me disse que a filha já estava com

21 Veremos no próximo capítulo uma descrição mais detalhada do que constitui a criação dos filhos no Recanto; por ora, basta assinalar essa conexão entre a casa e os filhos que foi promovida pelas moradoras.

7 anos e o caçula já havia nascido, então com 2 anos. Quando eles finalmente se mudaram para a casa, então com apenas 4 cômodos, a mais velha tinha 9 anos e o caçula 4 anos. Foram, portanto, 6 anos entre a entrada no movimento social e o dia em que ela entrou em sua casa própria. Essa associação entre a idade dos filhos e todo o tempo de espera e de luta que envolveu a construção de sua residência reforça, portanto, a analogia nativa de que a casa é como se fosse um filho. O desenvolvimento de ambos é paralelo e a conexão aqui é extremamente forte. A analogia, portanto, é a maneira pela qual os moradores do Recanto efetuam uma fusão instantânea de dois processos da vida (a construção da casa e a criação dos filhos) que possuem implicações mútuas. A capacidade de obter o apoio de parentes e amigos, os sacrifícios realizados por uma mãe, a superação das crises familiares e das doenças, a capacidade de fazer bons vizinhos e amigos, todas essas qualidades das pessoas e das relações foram acionadas pelos moradores como essenciais tanto na criação de um filho como na construção de uma casa. Sem elas, uma casa não pode se desenvolver e se tornar um bom lar para se morar, tampouco um filho pode ser encaminhado na vida.

O termo casa-embrião não foi inventado pelos moradores do Recanto. Lúcio Kowarick, ao apresentar uma pesquisa realizada no final da década de 1970 sobre o processo de autoconstrução de casas na periferia de São Paulo, utiliza-se do termo “embrião” para se referir à construção inicial da casa que serve para abrigar os moradores, enquanto a obra ainda está no começo: “a família para mudar-se constrói um embrião que, na maioria das

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