I. 4 “TUDO TEM ESPÍRITO”
II.2 A CASA DOS SANTOS
A Casa dos Santos é o espaço onde ocorrem todas as sessões da religião dos encantados, quaisquer orações ou consultas feitas por Seu Lírio, para orientar ou curar as pessoas. Por vezes, certas reuniões discretas entre membros da comunidade são realizadas neste sítio também. Esta estrutura retangular e comprida era feita de madeira curtida e telhado de Eternit87.
A fogueira na frente deste espaço religioso, quando acesa, chama a atenção dos índios para certas ocorrências, que podem ser algum outro rito, mas também, a preparação para a chegada da Polícia Federal, ou uma retomada. Por exemplo, o cacique foi preso no dia 10 de março de 2010, menos de um mês depois da retomada da Serra das Palmeiras. Em seguida, mais dois índios foram arbitrariamente aprisionados. Durante a prisão dos líderes, o “fogo da aldeia” ficou aceso por um período de seis meses, sem deixá-lo apagar88
. O fogo proporciona algum tipo de proteção para os índios. Eles me disseram que, além de fazer orações à beira da fogueira, o fogo chama os encantados para que os índios tenham “força” nas suas atuações. Quando os “anjos de comunicação” estão presentes por meio da incorporação, eles comumente aproximam-se da fogueira, para fazer certas rezas e abençoarem a aldeia. O Toré, quando é efetuado no centro da comunidade, é sempre feito em torno deste elemento da natureza.
No interior da Casa dos Santos, encontra-se um grande altar cheio de pequenas estátuas de santos, muitos católicos, como Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio, Cosme e Damião, a Virgem Maria e o Rei São Sebastião, para mencionar alguns. Outros são “caboclos”, tais como Sultão das Matas, Caboclo Tupinambá, Cabocla Velha e Boiadeiro. Além desses, existem duas bonecas, nos dois lados opostos do altar, vestidas de imitações do uniforme usado pelas mulheres iniciadas durante as sessões de “encante”. Uma das bonecas usa o vestido cumprido, de cor azul, com mangas longas e cruzes brancas na altura do peito e na borda da saia. A outra tem o vestuário com as cores invertidas– um vestido branco com
87 Quando cheguei em campo para a festa de São Sebastião, em 2012, a antiga Casa dos Santos havia sido
derrubada, e uma nova Casa dos Santos, maior e feita de materiais mais resistentes, estava construída em seu lugar. No entanto, descrevo o antigo espaço, pois foi aqui que assisti a maioria dos rituais e variáveis atividades, no decorrer do trabalho em campo entre 2010 e 2011. Fiquei, apenas, dois dias na “Serra”, em 2012, especificamente, com o objetivo de assistir a festa de São Sebastião pela última vez. Porém, a configuração do novo espaço é parecida com a velha casa, mas agora é mais amplo e não existe mais uma divisão sólida dentro do salão, como será descrito aqui.
cruzes azuis. O altar também contém fotos de Sr. Lírio e seu pai, o velho João de Nô, além de fotos de outras pessoas que passaram na casa ou fizeram algum trabalho espiritual no local. Os objetos mais importantes, no altar, são um copo d’água, envolto por algumas conchas do mar, e um pequeno rosário branco, feito de contas, usado para contar as orações. São instrumentos mágicos utilizados para adivinhação pelo pajé. Há tantas pequenas figuras e oferendas, trazidas pelos visitantes, que existe mais um pequeno quarto extra com dois altares a serem preenchidos – um, para Martim e a Mãe das Águas, o outro, para Cosme e Damião. Na sala principal da Casa dos Santos, também há um pequeno altar no chão, repleto de brinquedos para crianças – uma bola, um pandeiro, uma cesta com flores, carrinhos, etc. Estão postos para o divertimento dos encantados crianças. Na parede, encontram-se pendurados alguns retratos de santos e entidades: Mãe das Águas, Martim, Santo Antônio e outros. O Pajé e Dona Maria da Glória disseram que antigamente o altar obtinha apenas as pequenas peças de adivinhação, mas, com o passar do tempo, receberam tantos presentes que os altares cresceram e se tornaram estas ricas representações de religiosidade que podemos ver hoje. Todas as peças do altar são limpas por Dona Maria da Glória e outros devotos do culto, todas as quartas e sextas-feiras, sempre colocando-se flores e copos com água, especificamente, para os encantados, e ascendem velas em sua homenagem. Os altares são um foco de devoção religiosa. A concentração diferenciada nos momentos em que as mulheres limpam a Casa dos Santos, decoram-na com plantas da mata, ou as pessoas articulam preces e cultuam os encantados neste espaço, contribui para criar um ambiente de encontro religioso-espiritual entre os seres humanos e os encantados.
Entrando na porta principal da velha Casa dos Santos, em frente da fogueira, encontrava-se um salão retangular, chão de cimento, e bancos compridos, de madeira, encostados às paredes, para que as pessoas se sentassem. O salão era dividido por uma cerca baixa, feita de pedaços de madeira, com uma abertura centralizada, permitindo o trânsito entre as divisões do espaço. Durante as sessões do culto, os expectadores, geralmente, permaneciam no lado direito da divisão, logo na entrada, mas não existia uma verdadeira regra de limite de passagem no recinto. Se não estivesse muito cheio, as pessoas podiam ficar onde elas se sintissem mais confortáveis. No lado esquerdo, mais distante da entrada, após a borda, encontravam-se alguns dos bancos longos, alinhados à parede em frente ao altar principal, com um pequeno banco separado, quadrado, baixo, especificamente para o pajé sentar-se e permanecer perto do altar, ou, para outras pessoas sentarem-se, aquelas que ele estivesse curando. No lado direito do altar, havia uma porta que dava acesso à pequena sala escondida,
com os altares extras. No lado oposto do altar maior – lado direito da sala –, encontravam-se outros bancos, juntos à outra parede, e o altar no chão, para as entidades infantis, num ângulo entre os bancos e a borda de madeira. No mesmo tapume atrás do grande altar, no lado oposto ao quarto oculto, permanecia outra alcova para os devotos vestirem-se e descansarem-se durantes os rituais que duram por longo tempo. Existiam também bancos, junto à divisória de madeira, por dentro desta parte principal da sala, para rituais no galpão.
A Casa dos Santos, sem dúvida, é o foco do território indígena que abarca esta comunidade. Desde as experiências de João de Nô, as pessoas vêm construindo e desfrutando de repetidas experiências espirituais e rituais neste espaço. É o símbolo da instalação de uma reorganização político-religiosa.