2 PERCURSO POÉTICO
2.3 Luz interior
2.3.1 A casa e a rua: relações entre público e privado
É relevante elucidar, além das relações entre espaço e lugar, as diferenças entre os termos público e privado, já que aqui foram apresentados trabalhos produzidos nos espaços da casa e no espaço público da universidade. A filósofa Hannah Arendt identifica dois fenômenos intimamente relacionados, mas não perfeitamente idênticos ao conceito de público. Em primeiro lugar, evidencia a ideia de acessibilidade. Tudo o que vem a público está disponível a todos, pode ser visto e ouvido por todos:
Toda vez que falamos de coisas que só podem ser experimentadas na privatividade ou na intimidade, trazemo-las para uma esfera na qual assumirão uma espécie de realidade que, a despeito de sua intensidade, elas jamais poderiam ter tido antes. A presença de outros que veem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade do mundo e de nós mesmos.98
Assim, quando divulgo pensamentos, relatos ou experiências artísticas individuais, o privado torna-se de acesso público. Mas a garantia deste fenômeno depende de uma condição primordial: os outros têm de partilhar a realidade do mundo e de nós mesmos. No entanto, para a autora, alguns sentimentos não podem ser inteiramente divulgados aos outros no espaço público, como a dor física e o amor.
Em segundo lugar, o termo "público" apresenta a ideia de comum. A realidade do mundo tem um bem comum ou interesse comum nas coisas e nos negócios humanos, na medida em que é partilhado por indivíduos que se relacionam entre si: “A esfera pública, enquanto mundo comum reúne-nos na companhia uns dos outros e, contudo, evita que colidamos uns com os outros”99. A esfera pública é reservada à individualidade, pois é o lugar em que os indivíduos podem mostrar quem realmente são. Em relação à esfera pública, o termo “privado”, é entendido em seu sentido original, de privação:
Para o indivíduo, viver uma vida inteiramente privada significa, acima de tudo, ser destituído de coisas essenciais a vida humana: ser privado da realidade que advém do fato de ser visto e ouvido por outros, privado de uma relação ‘objetiva’ com eles decorrente do fato de ligar-se e separar-se deles mediante um mundo comum de coisas, e privado da possibilidade de realizar algo mais permanente que a própria vida.100
A esfera pública é onde podemos “aparecer”, sermos vistos e ouvidos, a esfera privada, onde podemos nos refugiar, um lugar “nosso”. Uma se relaciona a atividades
98 ARENDT, Hannah. A condição Humana, p.60.
99 Id. Ibid., p.62
100 Id.. Ibid., p.68.
relativas ao mundo comum e a liberdade, enquanto a outra com atividades ligadas a manutenção da vida, da necessidade de sustento vital.101
Os homens nasceram em um mundo que contém muitas coisas, naturais e artificiais, vivas e mortas, transitórias e sempiternas. E o que há em comum entre elas é que aparecem, e, portanto, são próprias de serem vistas, ouvidas, tocadas, provadas e cheiradas. (...) Ser e aparecer coincidem. 102
Aparecer constitui a realidade, e esta realidade depende do contexto partilhado e confirmado por outros. Não que não sejamos na vida privada, mas ao dizer que algo é público, significa que é caracterizado por sua visibilidade, é acessível a todos, que a ninguém escapa sua existência. Tanto a esfera privada quanto a esfera pública são importantes para o indivíduo, se mostram tensionadas, mas interdependentes.
Talvez o que o artista crie, entre o espaço público e o espaço privado, seja um
“espaço-entre”. O trabalho de arte como uma região que na mesma medida que aparece, também capta a aparência daqueles que compartilham o espaço, ao mesmo tempo em que separa também relaciona. Segundo Ricardo Basbaum, aquele que entra em contato com a obra de arte se identifica como espectador, que olha, aprecia, estabelece uma relação de aparência, e também como expectador, que permanece em expectativa, cultiva um desejo de ação interno, privado, que pode se tornar público, aparente, e assim, modificar a si mesmo e o trabalho de arte.103 De todo modo, há sempre uma questão de movimento envolvida – dentro e fora, íntimo e público. A ligação instituidora destes polos parece ser o afeto: “O espaço que percorre o caminhante é atravessado por afetos”. 104
A definição de afeto segundo o filósofo Baruch de Spinoza é: “Por afeto compreendo as afecções do corpo pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções”.105 Afecção seria uma alteração do corpo, e simultaneamente da mente, capaz de produzir uma variação em nossa capacidade de afetar e ser afetado pelas coisas. Quando ocorre essa variação, aí ocorre o afeto. Por exemplo,
101 Id. Ibid, p.47
102 Id, A vida do Espírito, p.17.
103 “O que se ambiciona com a experiência de encontro com a obra de arte – experiência que envolve camadas afetivas de contato, ativando o par sensação-conceito – é a possibilidade transformativa, se tornar outro após tal encontro, modificador do sujeito e da obra. Está em jogo a mobilização potente de ferramentas para a produção de si e é preciso saber reconhecer o visitante em seus desejos de es/xpectador – para esse ponto convergem as forças articuladoras do evento artístico (megaexposição); mas para essa mesma região também se dirige o artista:
que se reconheçam essas e outras forças em disputa junto ao agregado de interesses que é a obra de arte(...)”.
BASBAUM, Ricardo. Bioconceitualismo: exercícios, aproximações e zonas de contato, p.3.
104 TIBERGUIEN, Gilles. op.cit. p.170.
105 SPINOZA, Baruch. Ética, p.98.
quando vejo uma imagem, essa imagem produz uma mudança em mim, então é uma afecção para mim. E se essa imagem me recorda uma boa lembrança e me alegro, quer dizer que a imagem (afecção) fez variar a minha potência, e nessa variação ocorre o afeto. Como o afeto nos modifica, ele nos faz agir de modo diferente do habitual. O afeto é um evento concomitante do corpo e da mente, é variação de potência; potência é ação e também desejo106. O afeto muda como você deseja, e, portanto, como você age.
Independente de ser artista ou não, o ser humano é afetado a todo instante. Uma memória é capaz de modificar minha percepção e fazer com que eu produza uma ação, que desestabiliza o cotidiano. Talvez daí venha a palavra emoção: da raiz latina movēre, significa
“mover para fora”. Seria então um impulso que nos faz sair de onde estávamos a princípio, um repentino deslocamento, que se dá de modo físico, pelo movimento no espaço, e afetivo, pelas nossas atitudes. Neste trânsito de afetos e passos, entre as fronteiras do caminho e do caminhar, encontro um deus que parece guiar o destino e sentidos dos homens.
106 Id. Ibid, p.140.
Figura 25 –W. B. Richmond, Hermes, 1886.
Fonte: <https://www.pinterest.co.uk/pin/689050811711093587/>. Acesso em: 22 jun. 2018.