O modelo de reforma agrária que enunciei nos capítulos anteriores presume uma espécie de quadro atemporal. De facto, segundo este mo- delo, cada parcela de terra é atribuída a uma família que a deverá devolver ao INCRA no caso de querer abandonar o assentamento ou após a morte dos seus titulares. A sucessão não está, portanto, prevista neste processo. Apesar de a reprodução familiar ser uma das preocupações mais características das comunidades camponesas, ela não tem sido tratada analiticamente em relação aos programas de reorganização do mundo rural, espelhados nos movimentos de reforma agrária na América Latina, em geral, e no Brasil, em particular.
O contexto de trabalho de campo e o assentamento específico onde concentrei a pesquisa foram escolhidos tendo em conta algumas destas problemáticas. Procurei um assentamento que existisse há tempo suficiente para que a questão da habitação de gerações descendentes dos primeiros assentados já se colocasse de forma clara e também onde o uso da terra em economias familiares fosse significativo. A dinâmica temporal impli- cada na sucessão geracional foi um dos temas que o conhecimento exten- sivo inicial dos assentamentos da região me foi mostrando ser significativo, tornando, portanto, ainda mais relevante encontrar um assentamento onde a questão estivesse bem espelhada, de forma a poder aprofundá-la com uma abordagem sensível às dinâmicas da vida quotidiana, ali perma- necendo para desenvolver observação participante.
De facto, a escolha do assentamento Arupema para esta investigação teve em conta, entre outros aspectos, o facto de se tratar de um dos as- sentamentos mais consolidados da região da Zona da Mata, fundado em finais da década de 1990. À data do trabalho de campo, entre 2010 e 2011, algumas destas famílias que chegaram com a criação do assenta- mento já haviam saído da sua parcela, tendo esta sido repassada para ou-
tros titulares. O repasse, ou seja, a transferência de uma parcela de terra dentro do assentamento para outros titulares, acontece sobretudo com pessoas da região que manifestem vontade de produzir naquela terra ou, em alguns casos que conheci, parentes dos assentados que se deslo- caram propositadamente para Arupema aquando dessa possibilidade (cf. anexo 5).
Neste capítulo irei descrever a forma como ocorreu o debate entre dois modelos diferentes de organização espacial do assentamento que apon- tam para a necessidade de uma problematização da territorialidade, aten- dendo especificamente à forma como as famílias concebem a sua relação com a terra. O momento da criação do assentamento que descrevi no capítulo anterior despoletou atitudes diferenciadas destes dois grupos da população assentada face à continuidade do local de habitação e à su- cessão geracional. Tendo características diferentes, são mesmo assim ambos valorizadores da permanência da família e dos seus sucessores no mesmo espaço de morada. A questão geracional, por um lado, e o enfo- que na temática das casas e da residência, por outro, serão temas centrais a desenvolver neste capítulo.
Tendo o assentamento Arupema mais de dez anos quando, em 2010, iniciei o meu trabalho de campo, a grande maioria da geração das pessoas a quem foi atribuída uma parcela de terra já tinha filhos adultos. Mos- trarei de seguida que uma das formas de compreendermos como os filhos dos assentados lidam com essa situação pode ser explicitada pela análise etnográfica das dinâmicas de construção das casas das famílias assentadas, da gestão das parcelas de terra, das hortas, roças e demais usos da terra, assim como da participação nas feiras, onde se comercializam produtos produzidos localmente. A proposta de análise etnográfica que aqui apre- sento parte de um facto que se foi evidenciando a partir das minhas notas de campo. Refiro-me à diversidade de categorias e materiais das casas e ao seu significado, ligado à historicidade das dinâmicas familiares e aos sentidos de posse da terra.
Tal como tem sido largamente proposto na antropologia, tomamos aqui a casa como uma característica central da organização social e ponto de partida, veículo de análise para o estudo do parentesco, na medida em que é central para a compreensão da experiência familiar.1Esta cen-
tralidade da casa no estudo do parentesco não se refere apenas ao edifício onde um grupo de pessoas aparentadas vive. Ela tem ainda em conta que
1Cf. Pina-Cabral (1991), Carsten e Hugh-Jones (1995), Marcelin (1999), Carsten (2004)
dentro do espaço doméstico se sobrepõem diferentes dimensões expe- rienciais de viver junto, tais como a partilha íntima do espaço (co-resi- dência), da comida (comensalidade ou co-substancialização) e do cui- dado (nurturance) (Carsten 2004, 35).
Depois da crítica ao estudo comparativo do parentesco dos anos 1970 e 1980, levada a cabo, nomeadamente, por Rodney Needham e David Schneider, evidenciando o viés teórico em que se sustentavam as análises do parentesco, várias mudanças importantes ocorreram na forma como a disciplina olhou também para a casa. A literatura antropológica tem ainda sublinhado que mesmo a preferência dada ao conceito de household (que pode ser traduzido para português por casa ou grupo doméstico) le- vanta problemas teóricos, na medida em que se trata de uma categoria residencial que não favorece a observação de laços interpessoais, como pode ainda induzir uma deturpação do próprio material etnográfico (Pina-Cabral 1991, 11). Por esta razão, João de Pina-Cabral propõe a uti- lização de uma categoria puramente descritiva, a unidade social primária, que em diferentes sociedades pode ser encontrada em níveis distintos de identidade social (como a casa, a família, o aldeamento, etc.), possibili- tando assim um alargamento e melhor enquadramento do trabalho com- parativo (cf. Pina-Cabral 1991).
Por sua vez, questionando a rígida separação entre as esferas do privado e do público, inscritos, por exemplo, no domínio da família e do Estado, a crítica feminista contribuiu para um redireccionamento analítico das vidas das mulheres e dos processos domésticos, dedicando mais às vi- vências quotidianas ao redor das casas. Isso permitiu que se colocasse uma maior ênfase na forma como o parentesco é vivido, salientando a importância da casa como locus dos entendimentos e práticas quotidianas do parentesco (Pina-Cabral 1989; Carsten 2004). Por outro lado, as ca- racterísticas arquitectónicas das casas têm interessado ainda pela forma como nelas estão inscritos (e naturalizados) os princípios que dizem res- peito à conjugalidade, ao género, hierarquia e distinção sociais (Carsten e Hugh-Jones 1995, 21).
Assim, irei aqui identificar três tipos de casas actualmente construídas no assentamento Arupema: (a) as antigas casas de morada, construídas de um tipo de tijolo maciço ou de pedra; (b) as casas de tijolo comum, construídas no início do assentamento; (c) as mais recentes casas de taipa, que se vão erguendo ao redor, nos terreiros das parcelas das famílias. Ar- gumento que a construção de novas casas nas parcelas tem materializado um sentido de apropriação futura da terra pelas novas gerações de filhos de assentados, recorrendo ao código partilhado da posse da terra através
da presença continuada, onde morar e trabalhar são, finalmente, o que torna possível a construção do lugar da família.