1 INTRODUÇÃO
2.1 CONTEXTO E PERFIS DOS JOVENS PESQUISADOS
2.1.1 A Casa de Semiliberdade de Curitiba e os jovens em conflito com a lei
A Casa de Semiliberdade de Curitiba é uma das oito casas de semiliberdade do Paraná, onde a Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SEJU) é responsável pelo Sistema de Atendimento Socioeducativo do Estado, por intermédio do Departamento de Atendimento Socioeducativo (Dease).
Segundo dados do Relatório de Ações do Dease 2015, da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Paraná, o estado conta com 18 centros de socioeducação (Cense) e oito casas de semiliberdade, totalizando 1.032 vagas, entre regimes de internação, internação provisória e semiliberdade. Em Curitiba, funcionam dois centros de socioeducação e duas casas de semiliberdade, uma feminina e outra masculina, objeto desta pesquisa de dissertação.
Ainda de acordo com o relatório, foram realizados 5.436 atendimentos em 2015, entre abrigamento provisório (704), internação (1.766), internação provisória (2.114), internação sanção (regressão – 86) e semiliberdade (766). O relatório ainda traça o perfil dos adolescentes (ou jovens) em cumprimento de medida socioeducativa de privação e restrição de liberdade: 93,9% são homens e 6,09% são mulheres, e têm de 14 a 20 anos. A maioria se declara parda (46,9%), seguida de branca (37,8%) e negra (12%).
Os atos infracionais com maior incidência são roubo14 (23%), tráfico de drogas (16%) e roubo agravado (14,6%). A maioria tem renda familiar de um a dois salários mínimos (52,8%) e de dois a três salários mínimos (19,5%) – 8% têm renda familiar com menos de um salário mínimo; 6,3% de três a quatro salários mínimos;
5,4% não têm renda; 1,6% têm renda familiar de quatro a cinco salários mínimos; e 1,1% mais de cinco salários mínimos. 4,4% dos adolescentes ou jovens em conflito com a lei têm filhos15.
Desse universo, 18 meninos convivem simultaneamente na Casa de Semiliberdade de Curitiba – capacidade máxima da instituição –, que funciona há 12 anos. Os jovens vivem no espaço que é dividido para moradia em duas casas, nove em cada uma, de segunda a sexta-feira – aos fins de semana, eles podem sair da instituição e ir para suas residências. A permanência média dos jovens na instituição é de seis meses a um ano.
A assistente social e diretora da Casa de Semiliberdade de Curitiba, Glaucia Rennó Cordeiro, explica que “o objetivo da semiliberdade é eles [os meninos]
estarem aqui [na instituição] para fazer as atividades, frequentar a escola, ter uma orientação e retomar o convívio familiar” (CORDEIRO, 2016, informação verbal)16. As atividades variam para cada jovem ou adolescente e também acontecem fora da instituição. Há um cronograma com horários específicos – os meninos acordam por volta de 7h e vão dormir às 23h.
Entre as atividades estão treinamento funcional, futebol de salão, natação, informática, reforço escolar, oficina de violão, cursos profissionalizantes, cursos de qualificação (a casa já recebeu cursos de panificação e manutenção de computadores), karatê, contação de histórias, visitas de grupos religiosos para conversas com aqueles que têm interesse, entre outras. Alguns meninos ainda frequentam o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS):
14 A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2009, do IBGE, mostra que 6,4% das pessoas foram vítimas de tentativa de roubo ou furto no Paraná, e 7,4% foram vítimas de roubo ou furto no estado.
15 Entre os participantes desta pesquisa de dissertação, um jovem, de 17 anos, é pai de uma menina de quatro meses; outro, de 19 anos, tem uma enteada, de oito anos, e a esposa está grávida de dois meses; e outro, de 17 anos, tem esposa grávida de três meses.
16 CORDEIRO, Glaucia Rennó. Entrevista concedida pela diretora da Casa de Semiliberdade de Curitiba. Curitiba, 31 mai. 2016.
porque a drogadição é uma coisa muito eminente aqui dentro. Todos eles têm essa vivência lá fora e eles lutam contra isso dentro do dia a dia. É óbvio que aqui não pode nada, é coibido tudo, é feito revista. Mas a gente não sabe o que acontece fim de semana, no horário que estão na escola...
[...] Então a gente busca esses tratamentos de apoio para essas questões.
(CORDEIRO, 2016, informação verbal)17.
Maconha (29%), tabaco (18%), álcool (17%) e cocaína (13%) são as drogas mais utilizadas pelos adolescentes e jovens em conflito com a lei no Paraná, de acordo com o Relatório de Ações do Dease 2015. Assim como mostra o perfil dos adolescentes e jovens em conflito com a lei do Paraná, a maior incidência de atos infracionais dos meninos que ficam na Casa de Semiliberdade de Curitiba também é de roubo e tráfico de drogas.
A estrutura de profissionais que atua na instituição é composta por um psicólogo, um assistente social, um pedagogo, 20 educadores sociais18 e dois cargos administrativos. Além disso, há uma nutricionista no Dease e a Divisão de Saúde – outra nutricionista atua pela empresa terceirizada contratada pelo Estado, responsável pela alimentação na casa. Uma parceria com a Universidade Positivo ainda traz psicólogos que fazem trabalhos em grupos na Casa de Semiliberdade, além de encaminhamento para atendimento psicoterápico individual.
No período em que estão na casa, os jovens têm algumas restrições quanto ao consumo midiático. Eles têm acesso à televisão aberta e ao rádio, mas não podem usar aparelhos celulares durante a permanência no local. A internet também só pode ser acessada quando é feita alguma atividade supervisionada – há estrutura de um laboratório de informática.
Os jovens em conflito com a lei que participaram desta pesquisa de dissertação têm de 15 a 19 anos e são de classes sociais variadas.
Hoje a gente tem meninos que não têm família, que não têm ninguém; a gente tem meninos que têm um acompanhamento familiar, que têm uma condição econômica precária – mas a gente tem de tudo aqui –; e tem
17 CORDEIRO, Glaucia Rennó. Entrevista concedida pela diretora da Casa de Semiliberdade de Curitiba. Curitiba, 31 mai. 2016.
18 A Resolução 10889 prevê como função dos educadores sociais “promover a proteção e defesa dos direitos e deveres dos adolescentes a que se atribua a autoria de ato infracional, identificando e atendendo suas necessidades e demandas, mediante intervenção direta, garantindo e executando a segurança preventiva e interventiva”. Disponível em: <https://goo.gl/vcWUX8>. Acesso em: 17 mai. 2017.
aqueles que têm uma família com uma condição melhor. (CORDEIRO, 2016, informação verbal)19.
Além disso, a maioria dos pesquisados é estudante do ensino fundamental – um estuda no ensino médio e apenas dois concluíram o ensino médio. Quanto à naturalidade, a maioria é de Curitiba, um é de Cascavel (PR) e outro de Presidente Epitácio (SP).