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3. Bolsonaro enquanto Vereador

3.1 A Caserna e Brasília

Um dos aspectos mais interessantes na história de Bolsonaro é a sua relação com o Exército Brasileiro (EB). Apesar de defender pautas caras aos militares, como o aumento salarial e uma maior representação política (levando-o à Câmara dos Deputados), nem sempre o Exército o reconheceu como um representante político legítimo, devido principalmente ao seu desrespeito à hierarquia.

Ao longo de seu mandato como vereador, várias articulações e conflitos com os militares surgiram. Começando pelos conflitos, em 5 de janeiro de 1989, o JB noticiou que Bolsonaro foi despejado, pelo coronel Adilson Garcia do Amaral e mais 12 soldados, de sua residência na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) em Niterói, após ter excedido o prazo de 5 dias para realizar sua mudança. Em 17 de agosto, a coluna “Swann” do jornal O Globo reportou que o Comando Militar do Leste impediu Bolsonaro de entrar em qualquer unidade militar da região. Em 27 de setembro, Bolsonaro enviou um ofício ao Comando Militar do Leste para confirmar a decisão de seu impedimento. E finalmente, em 8 de abril de 1990, a guarda do Forte do Imbuí, ordenada pelo Comando Militar do Leste, impediu a entrada de Bolsonaro na praia de Niterói. Segundo o JB, ele se sentiu humilhado com a decisão do 1º Grupo de Artilharia de Costa de barrar seu acesso.

A respeito das articulações em que Bolsonaro esteve presente, segundo o jornal O Globo, em 15 de abril de 1989, Bolsonaro afirmou que os militares que o apoiaram em sua eleição estavam se organizando em seu gabinete para ter uma maior representação política, ao lançarem candidaturas de militares (incluindo da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros) para as Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas, já na eleição de 1990, nos estados do Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Ceará e Distrito Federal.

Já em 16 de setembro, o mesmo jornal noticiou que os membros da Associação dos Militares da Reserva de Brasília (Asmir) iriam se reunir em Brasília, juntamente com Bolsonaro, para entregar um documento para os candidatos à presidência contendo reivindicações dos militares e, posteriormente, possibilitando a criação de uma entidade nacional das associações militares. Em 21 de janeiro de 1990, houve uma articulação entre Bolsonaro e os militares de diversos estados, para concorrerem à eleição de outubro de 1990. Em 17 de abril, o Ministério do Exército, juntamente

com lideranças militares e Bolsonaro, iniciaram um diálogo em Brasília para atender às reivindicações de setores de sua classe.

No dia 5 de julho, o JB relatou a preocupação dos militares em relação ao mandado de injunção impetrado por Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF), para que ocorresse a votação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que igualaria os salários dos ministros (e ministros militares) ao dos senadores, o que representaria um aumento salarial para os militares. Na matéria publicada pelo jornal O Globo em 9 de outubro, foi informado que a autoria do projeto era do senador Jarbas Passarinho, do PDS.

Essa matéria foi dedicada exclusivamente a Bolsonaro, que na época já estava concorrendo ao cargo de deputado federal pelo PDC, sendo o sétimo mais votado do estado do Rio de Janeiro até aquele momento, segundo a primeira parcial divulgada no dia 6 de outubro. Entre seus projetos para a Câmara dos Deputados, estavam a esterilização gratuita, a pena de morte para casos de sequestro ou estupro seguidos de assassinato, além do aumento da remuneração dos militares.

A matéria publicada pelo JB, em 11 de outubro, também focada em Bolsonaro, salientava as suas principais características, como o fato de ter sido o oitavo deputado federal mais votado no estado do Rio de Janeiro da época, com 17.674 votos até aquela data; seu controverso histórico militar e sua luta pelo aumento salarial; sua falta de ausências na Câmara Municipal (apenas quatro em dois anos de mandato);

etc.

Ademais, ele afirmou não ser nem de esquerda nem de direita, mas do Direito;

demonstrou simpatia por Paulo Maluf; se arrependeu de ter votado em Fernando Collor; e ao chegar à Câmara dos Deputados, pretendia ser o representante dos interesses militares e também apresentar um projeto de lei defendendo o oferecimento da vasectomia e laqueadura voluntária em hospitais públicos para cidadãos acima de 21 anos, como forma de controle de natalidade.

Outro ponto interessante levantado pela matéria dizia respeito à suposta aproximação de Bolsonaro com a bancada da esquerda contra os “trens da alegria”.

Essa aproximação também pôde ser vista na edição do dia 19 de janeiro de 1991 do jornal O Globo, que noticiou a aprovação do novo plano de carreira dos servidores municipais, tendo votos contrários da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) e de 4 vereadores, incluindo Bolsonaro.

Eleito em 19 de outubro de 1990, com 67.056 votos, o vereador suplente João Dourado substitui Bolsonaro, na Câmara Municipal, em 2 de fevereiro de 1991. Vale destacar que Bolsonaro foi apontado pelo JB, em 31 de janeiro, como o pior vereador de 1990, por não ter apresentado nenhum projeto de lei naquele ano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das informações obtidas nas edições dos jornais O Globo e JB, de 1988 a 1991, foi possível traçar uma linha cronológica das atividades exercidas por Jair Bolsonaro, desde sua saída do Exército; passando por sua campanha eleitoral como vereador da cidade do Rio de Janeiro; seu resultado nas eleições de 1988; e finalmente, chegando a sua breve atuação na Câmara Municipal.

Com base na apuração diária (de 20 a 28 de novembro) dos votos nas eleições municipais de 1988, realizadas pelo TRE - RJ e divulgadas pelos jornais supracitados, foi possível descobrir quais foram as bases eleitorais responsáveis pela eleição de Bolsonaro. De acordo com os registros da época, seus principais eleitores vieram da 13ª e 15ª Zonas Eleitorais, que compunham os bairros suburbanos da Zona Oeste e bairros próximo à Vila Militar, como Deodoro, Realengo, Magalhães Bastos, Marechal Hermes, Jacarepaguá, Cidade de Deus, Barra, Campinho e Recreio dos Bandeirantes.

Portanto, é possível concluir, com base nesses dados, que os principais eleitores de Bolsonaro foram militares de baixa patente e cidadão de baixa renda, que viram nele uma oportunidade de obter um aumento salarial e melhorias na qualidade de vida, devido à sua principal reivindicação, exposta pela pelas polêmicas declarações de Bolsonaro nas edições de 1987 da revista Veja, que geraram grande visibilidade e notoriedade de sua figura, assim, colaborando para a sua campanha eleitoral no ano seguinte.

Além disso, também foi possível descobrir que a relação entre Bolsonaro e seus superiores militares sempre foi conflituosa, desde os primeiros episódios de insubordinação, em seus anos iniciais no Exército; passando pelas ocorrências de sua excessiva ambição financeira, quando tentou ser agricultor e garimpeiro ilegal; até chegar em seu julgamento no Conselho de Justificação e no STM. Ademais, Bolsonaro, já eleito vereador, também apresentou rusgas com o Exército, ao ser despejado de sua residência na EsAO e ao ser barrado pelo Comando Militar do Leste, em algumas ocasiões.

Como vereador, Bolsonaro não teve tanta relevância na Câmara Municipal, ao não apresentar muitos projetos de lei; demonstrar contradições em suas votações no plenário e se apoiar em vereadores mais relevantes, como Wilson Leite Passos; além de apresentar atitudes indevidas, ao invadir o Departamento de Pessoal e se apropriar do documento do presidente da Mesa Diretora, Roberto Cid. Seu maior destaque como vereador foi na composição da ala opositora (Grupo dos 18) às emendas consideradas imorais, na votação da Lei Orgânica do Município, em 1990.

Apesar de Bolsonaro ter votado em projetos que defendiam a suposta moralidade pública da Câmara Municipal, que englobam desde a redução de gastos públicos até o combate à corrupção, isso não atenuou o legado inócuo de seu mandato, marcado pela tentativa falha de defender o corporativismo militar, que serviu apenas como um trampolim para sua eleição como deputado federal, cargo este que ocupou por sete mandatos, de 1991 a 2018, até então se tornar Presidente da República, em 2019. Diante disso, esses são os principais elementos que constituíram as origens da vida política de Bolsonaro antes do bolsonarismo.

REFERÊNCIAS

LIVROS

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PDT faz 12 cadeiras e PMDB é quase o “lanterninha”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro. 27 nov. 1988. Brasil, 2ª edição, 1º Caderno, p. 4. Disponível em: <

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